Archive for: dezembro, 2016

Monólogo de um acusado de furto

dez 16 2016 Published by under Crônica

Por um momento, pensei que estava sonhando. Mas, agora, diante deste tribunal, vejo o quanto a realidade me apresenta como um funesto pesadelo. Estou neste lugar, acusado de cometer um furto. Para que tantos profissionais, apenas, para julgar um insignificante sujeito que por força da situação se viu obrigado a buli no que não lhe pertence. Do que me acusam, sei da minha culpabilidade, contudo não sou tudo isso que estão a dizer do meu ser. O promotor disse em suas palavras cruéis que um furto se caracteriza pelo ato simples de furtar, que a pena é a mesma para quem furta um milhão ou apenas um centavo. Pois quem furta uma quantia possui determinação e força para surrupiar a outra quantia maior? Aqui, ninguém pensa em usar uma medida a cada caso. São os senhores severos demais com este pobre cidadão. Aquele que levantou queixa contra mim, um senhor rico, de muitos dotes, poderoso e influente. Logo, vejo sentado em confortáveis poltronas senhores advogados contratados por ele, profissionais que estão a desenvolver seu santo ofício por um bom numerário em dinheiro. Quanto cada advogado desses ganha por dia? O que custa um frango, meus senhores? Um simples frango caipira? Se adentrei na fazenda dele e furtei um frango foi por uma boa causa. Naquele lugar havia milhares de frangos, só precisava de um, só levei um. Todavia fui filmado e neste momento me vejo preste a ser condenado a quatro anos de prisão, ou mais. Minha esposa e meu filho estavam famintos. Os senhores sabem a dor que é passar fome? Não, não, os senhores nem de longe conhecem ou viram a fome nos olhos. Eu a vi e a sentir na alma. É meus senhores, na alma. Pois ela após devorar as forças físicas, passa a consumir o espírito. Quanto a mim, morrer de fome seria até um alento. No entanto, padecer observando, de mãos atadas, minha família em lágrimas se derreter por falta de alimento, pesado demais para um bom pai e para um bom esposo. Furtei o frango e se for necessário novamente, novamente furtarei outro e outro e se possível todos os frangos que existem na face da Terra. Com o meu ato, o único crime que cometi, mas que não é crime nas esferas jurídicas da nossa Constituição, foi ter o desprazer de tirar a vida do frango. Quanto custa um frango, volto a indagar-lhes? Quanto custa um dia de trabalhos dos senhores? São muitos fogos para um zunido de uma mosca. Gostaria de trabalhar. Não sou preguiçoso, tenho ócio o dia todo, isso sei. Não porque desejo, e sim por não conseguir desta sociedade uma chance, uma corda para que eu possa segurar e transpor este rio caudaloso e frio. O Estado me ignora, as pessoas me ignoram, já a Justiça, com seus olhos de águia faminta, me persegue e me caça. Elevem seus olhos as esferas superiores, ou ao seu redor, ou até em vocês mesmos. Quantas autoridades que furtaram milhões sequer são chamadas a depor, vivem uma vida regadas a luxo e a mordomias, que insistem em pôr uma venda nos olhos da Justiça. Escolheram-me como bode expiatório. Alguém precisa pagar algo neste País. Por que não o ladrão de galinhas? Pura disparidade de um Estado falido de princípios e de moral. A ética do bolo é repartir as gostosas fatias entre os privilegiados do sistema. Para um degredado, para mim, melhor o conforto da prisão ao abandono e à indiferença da liberdade. Na cadeia, pelo menos tenho o que comer, ruim ou bom, em certos horários receberei minha ração; no mundo, não sou nada, não presto para nada, ninguém me enxerga. Meu medo é o meu receio. Condenando-me estarão condenando o meu filho e a minha esposa. Se sou ladrão para a justiça, o que será um filho de ladrão sem um pai no amanhã sem luz? A culpa da minha desgraça é a culpa dos senhores. Todos são culpados por meu crime. Se roubei foi pelo determinismo social que me arrastou feito a um rio bravo montanha abaixo. Meu pai não me criou para ser ladrão, fui criado para ser um cidadão de bem. A droga da divisão mal feita dos recursos da sociedade me obrigou ao resultado da ação. Enquanto os senhores têm muito e de sobra; nós outros não temos nada; pior, perdemos nossa honra para salvar o dia negro que nos devora em vida. Não estou a pedir esmolas, quero apenas que nos deem condição para que possamos ser pessoas íntegras. Como sei que em rio calmo não há revolução; ricos se acomodam nas suas banalidades de uma vida prazerosa; sei também que rio em início de jornada é bravo a ponto de abrir seu próprio caminho, rasgando montes, desbravando florestas; é da pobreza que germina a revolução dos tempos. O grito quem dá é o pobre. Rico murmura banalidades ao pé do ouvido. Se lancei mão de advogado, faço pelo simples fato de não carecer esconder meus erros por trás de leis. Quem necessita de advogado é a pessoa que errou e que deseja safar do barco furado. Furtei o frango, furtei, não nego. Os motivos já expressei. Quanto a minha pessoa e as pessoas do meu filho e da minha esposa estamos nas mãos dos senhores. Façam valer a lei e me promulgue já o veredito.

Comments are off for this post

Padre foi obrigado a ir a cavalo – História de Sertanejo

dez 16 2016 Published by under Contos

As histórias vão surgindo dos acontecimentos rotineiros dos dias. Um momento pode-se transformar em um conto digno de ser narrado para que todos venham a conhecer. O que é a vida senão um amontoado de passado contado para alegrar e criar o presente. Nessa passada, tenho o prazer de deixar minha modesta contribuição.

- Chofer, quantas pessoas irão no automóvel até a sede? – indaga Mario.

O rapaz precisou ir à comunidade de Tabua para resolver algumas pendengas, tudo pronto, necessita retornar ao conforto da família e do lar.

- Somente eu e o vigário – respondeu o chofer pacientemente.

O motorista era amigo de infância de Mario, eram como dois bons irmãos.

- Se quiser ir conosco, faço questão de levá-lo – disse o chofer.

- Perguntei ao vigário se ele poderia me levar até a sede; ele me disse que não havia vaga, que o carro estava lotado. Agora o senhor me diz o contrário.

Tratava o chofer com muito respeito, por isso usava o tratamento senhor; naqueles tempos pregressos esta profissão imprimia certo glamour.

- Ele disse isso, foi? – indaga o chofer com certo ar na fala. – Pois é ele que não irá de automóvel. O danado terá que ir a cavalo. Deixe comigo. Ele me paga.

Não demorou muito, o vigário apareceu rodeado por várias pessoas da localidade. Despedia-se deles, enquanto adentrava no veículo.

- Dê partida, chofer – manda o vigário impaciente. – Vamos. Para que tanta demora! Preciso chegar cedo em casa. Tenho compromisso.

O chofer bateu a chave, o motor fez barulho, bateu novamente, o mesmo barulho. Saiu, abriu o capô, mexeu, retornou, bateu a chave, o mesmo ruído voltou a aparecer.

- Padre, o carro está com um pequeno probleminha – disse o chofer. – Vou consertá-lo. Mas vai demorar um pouco. Se o senhor tem pressa, melhor pegar um cavalo emprestado com alguém e ir à frente.

- Este carro foi dá problema justamente agora, logo agora que estava com tanta pressa – irritou-se o vigário.

- Máquina é assim mesmo: quando menos esperamos, ela nos deixa na mão.

Um senhor de imediato providenciou um animal para o padre. O chofer ficou encostado no carro, Mario do lado, a observar a partida do vigário. As pessoas acenavam dando um até logo. O dia já corria para o meio-dia, o calor do sol era avassalador. Pobre padre, iria padecer um bocado, sofreria pelo orgulho, pela avareza. Se tivesse ajudado o companheiro que precisava de carona, estaria viajando no conforto do progresso, mas usou do pecado e agora paga um pouco da divida com sofrimento.

- Viu, Mario, como se faz com pessoas ruins – falou o chofer. – Deixe o padre ir longe para descermos à sede.

- E ele não irá achar ruim e se irritar com o senhor, não? – indaga Mario curioso.

- Ele pensa que manda em mim, não sabendo ele que é ele que está sempre em minhas mãos.

O tempo correu rápido. Vinte minutos após, o chofer batia a chave e o automóvel ganhava vida.

- Vamos – falou o chofer. – Quero encontrar o padre ainda na entrada da sede. Quando ele colocar os olhos em você, cairá de costas. Vai ficar uma arara.

E o carro ganhou a estrada na maciez da modernidade. Sem força, no conforto de um banco acolchoado, ia os dois pela estrada de terra. Encontraram o vigário já na entrada da sede, parou o veículo ao lado do vigário montado no animal.

- Deu tudo certo, vigário – disse o chofer feliz. – O carro agora está pronto para viajar.

- Agora – reclamou o vigário. – Queime-me todo neste sol de rachar. Vou descer e ir com vocês.

- Não, vigário, não pode. E o cavalo? Vai deixar o animal do homem pelo meio da estrada. Está perto. Falta pouco mais de um quilômetro. Vou ficar aguardando o senhor na porta da sua residência.

- Eu vou no carro e o carona leva o animal – disse resoluto o vigário.

- Ele está com um furúnculo na coxa, não pode montar em cavalo tampouco andar a pé, ainda mais sob um sol deste. Continue a sua viagem. Está perto, poucos minutos você estará em casa.

Deu partida no carro e arrancou levantando poeira para irritar ainda mais o religioso. O padre nervoso, esquecendo-se do seu santo ofício, xingou Deus e o mundo.

Uma história baseada em fatos reias.

Comments are off for this post

Minhas dúvidas, suas dúvidas, nossas dúvidas

dez 16 2016 Published by under Crônica

Não quero escrever minhas certezas, marco o papel com minhas dúvidas. Aquilo que é certo é correto em si e não carece de reboco. O chato do correto é querer que tudo seja certo. A linha reta e constante é tédio puro a ferir os sentidos; correto não é, mas bagunce a linha com subidas, decidas, curvas e depressões e veja a beleza surgir. Com a dúvida tudo muda. Preciso aprender para entendê-la. Quanta atração nos rouba a atenção. Que charme de madame poderosa a encantar com seus magníficos dotes sensuais. A dúvida tem perfume, possui uma pele maleável, há sabores venerados e cores em aquarela sutil. Por isso com minhas dúvidas coloco abaixo todas as certezas ditas certas até então. Sou radicalmente radical quanto à forma e à beleza. Quanto mais torto aos olhos, mais mistério a ser apreciado. Uma certeza jamais suportará o peso cruel e demoníaca de uma dúvida. Se duvida do que digo, pronuncie uma certeza que fervilha lentamente no seu coração, por sinal, sentiu ou não sentiu uma duvidazinha na sua consciência ao tentar apontar tal certeza. Enquanto o homem existir, sua existência será a maior das dúvidas já inventada. Duvidar é preciso sempre para nos manter de pé e disposto a cobrir as dúvidas com papel fino e transparente de certezas. Quem se diz correto, duvida da própria palavra.

Comments are off for this post

Um pouquinho de Felicidade

dez 07 2016 Published by under Crônica

Felicidade, todo mundo busca, todo mundo almeja, todo mudo quer, mas ninguém sabe como, ninguém conhece o caminho, ninguém nunca a vivenciou. Felicidade é assim, se alguém souber onde ela está, se alguém conhecer o caminho, conte-nos. Pois feliz é todo aquele que sabe o que é infelicidade e a ignora por completo. Se sorrimos ou se choramos, não dá para saber se somos felizes ou infelizes, pois o choro pode ser de alegria, e o sorriso de dor. Como todos perseguem a felicidade com denodo, sempre e eternamente, sabe-se bem pouco dela, alguns lapsos sentimos, logo nos escapam e a busca recomeça. O interessante não é apossar da felicidade, ter ela em uma gaiola como passarinho a nos alegrar a qualquer momento, o interessante é o engajamento de cada um para conseguir as migalhas alucinantes desta doce e inebriante substância que afugenta o tédio vazio da existência ilógica, colocando-nos num patamar racional de interesse por um mundo invisível. Para os que se dizem felizes e vivem inundados numa vida de infelicidade, o sol não deveria lhe incomodar tampouco a noite, bastaria a tolice de suas palavras para perceber o quanto é triste. A fruta da felicidade ao ser comida perde-se o gosto, comendo-se cinco causa enjoou, mais é de uma tristeza a fazer regressar o que o estômago foi obrigado a abraçar. Não se preocupe em ser feliz, sabemos que a felicidade é incompatível com preocupação. Não se preocupe em ser rico. Não se preocupe em ser feio. Não se preocupe em ser pobre. Não se preocupe com nada nesta vida. Se você conseguir não se preocupar, de fato, tiramos nossos chapéus, você é feliz.

Comments are off for this post

Tudo pelo Capital – Assumindo Riscos

dez 07 2016 Published by under Crônica

O mundo contemporâneo abriu uma nova etapa aos seres humanos, com desafios e oportunidades nunca vistas na história. Estamos em busca de um prumo para que nós possamos nos sustentar com sabedoria e destreza. As transformações já não acontecem à longo prazo, tudo gira tão rápido que nos parece girar à velocidade da luz. A primazia em realizar certo trabalho hoje, poderá não ter valor algum nos próximos dias. A sociedade passou a viver numa fluidez exorbitante. Tentamos apalpar algo e este algo é etéreo como o ar, existe aos olhos, no entanto não é físico. Neste mundo que se vai criando nascem necessidades as mais variadas possíveis. O consumo é o grande baluarte, ter para se sentir realizado. Na brevidade dos recursos terrenos temos a fosca noção de que jamais haverá escassez. A Terra é finita, finita são seus elementos constitutivos, finito também o é a vida que nela goza o prazer de existir. Nesta luta desembestada por angariar coisas, o homem se perde no embaraço das conquistas urgentes, esquecendo-se do próprio futuro, ou do vindouro dos filhos e dos netos. Para poder se impor à realidade da moda atual, ele se deixa acorrentar por práticas estranhas à ética, não medindo as consequências dos seus impensados atos. Não podemos julgar para não sermos julgados. Que cada um julgue seus próprios delitos, para isso recebemos da Criação a consciência. Buscar a eficiência jamais poderá implicar riscos anormais a seres postos a outros indivíduos. Se não podemos julgar a atitude de outrem, que outrem respeitem as normas de segurança para que não afetem a nós. A vida é um fio singular que pode se romper com o mais leve rufar do vento. Respeitando as normas sociais vigentes, sem ferir os códigos para conquistar vantagens indevidas, trata-se de um dos pontos centrais para uma convivência salutar entre os povos. Um erro no comando de uma tripulação poderá ocasionar uma gigantesca tragédia em proporção aos de filmes de ficção. Assumir um erro por mero capricho de provir a situação do bolso, levando um grupo a berlinda da sorte, se não é passível de julgamento, é de uma irresponsabilidade gritante. Que cada ser procure sempre não expor outros na sua fantasia por dinheiro e poder. Como o mundo não é perfeito, como somos propícios aos mais variados tipos de erros, realizar o que manda as regras do formulário é salvar a consciência de ser um perverso e exigente juiz.

Comments are off for this post