Archive for: novembro, 2015

Caminhar Vacilante

nov 27 2015 Published by under Poemas

Caminhar Vacilante

***

Anda o senhor a caminhar

Lentamente no prosseguir

Um passo aqui outro acolá

Pisa vacilante um por vez

Medo tem em tropeçar

Falta-lhe forças já perdidas

Anos demais por emperrar

Bengala perna uma a mais

A voz já não sabe mais cantar

Pobre ser que definha e cai

No ritmo daqui para lá

Do peso das primaveras

Rosto todo a murchar

Aos pouco o fruto se esvai

Como o rio querendo cortar

Criança na memória presa

Espírito desejoso em voar

O restante tudo guardou

Mente pesada a falhar

O homem a sina busca

Como o passo que passou

Entrega-se ao calor

Do esquecimento basilar.

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Vídeo da magia da flores

nov 25 2015 Published by under Crônica, Poemas, Vídeos

Cebolinha-de-sapo

Fenômenos naturais estão por todas as partes do mundo estrelar, do simples ovo, aos olhos de quem já se acostumou, ao pinto que apareceu como mágica dentro do estranho objeto. O Sertão aguarda há meses pelas nuvens escuras e pesadas, o sol castiga o solo e as plantas, a naturalidade do ambiente segue seu curso rio sem alarde. Certo entardecer, uma ventania varre a vegetação, o céu limpo se enche de nuvens. O espetáculo vai começar. Todos em seus lugares. O relâmpago clareia o céu, o trovão ronca no alto da serra. O cheiro dos primeiros pingos na terra seca se eleva e corre pelos quatro cantos. Que aroma delicioso, doce, salutar. O barulho da chuva andando, não, correndo a me encontrar faz gelar-me o sensível coração. Os pingos d’águas tocam o chão quente e áspero erguendo poeira, parecem a pegadas de uma tropa de cavalos em disparada. O aguaceiro chega, toma tudo, engole os padecimentos, restitui a vida aos seres. A cartola se abre, dois, três dias e uma ebulição. O mato em galhos descobertos cobre-se de folhas, o capim volta a crescer, os passarinhos cantam felizes, a cigarrinha solta seu agudo hipnotizador. Em alguns lugares, a relva se faz baixa, o lírio do campo em um estalar de dedos forra o ambiente, seu perfume adocicado vaga gostoso pelo ar molhado da evaporação. Quanta beleza nessas florzinhas. O vento de tempo em tempo as agita, bailam em um balé sincronizado. O garoto ao ver tamanha fartura corre e se põe a colher, como vai à escola, na mão leva um lindo buquê branco para a professora. As flores das cebolinhas seguem felizes nas mãos da criança, por onde passa distribui o suave aroma. Como em um sonho de contos de fadas, como as orquídeas, no outro dia já cedo, o campo, outrora esbranquiçado, acorda deprimido, as florzinhas se foram, desapareceram da mesma forma que haviam chegado. O garoto retorna trazendo consigo alguns colegas, triste e sem entender vai à escola sem o ramo de flores. O enredo seguirá até o próximo ano, até a próxima chuva da temporada seguinte. Quem viu as florzinhas da cebolinha-de-sapo viu, quem não as viu ao vivo e a cores somente no próximo ano. Desde criança, todos os anos, após a primeira chuva, corro para o campo para apreciar tais flores e sentir o seu perfume singular, já não as levo mais para presentear minha professora, já não tenho obrigação mais de estar em salda de aula, deixo-as na Natureza, que é a maior e mais sábia de todas as educadoras que já existiu.

Assista ao vídeo dos Lírios do Sertão, ou Cebolinha-de-sapo:

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Meio Ambiente à deriva

nov 25 2015 Published by under Zé do Bode

O homem na sua ganância incomensurável destrói o meio ambiente de forma devassadora. Somos um bando assustador de gafanhotos esfomeados por luxúria e poder. Precisamos dia após dia consolidar nossa fortuna, nosso status, nossa poupança. Somos tão cegos que não conseguimos enxergar os malefícios dos nossos impensados atos. A mídia exalta as empresas que obtém lucros exorbitantes, indivíduos que acumulam em um período curto de tempo magnifica fortuna; para ela são esses os seres merecedores de holofotes, são ídolos, são idolatrados. Descortina os hábitos e veremos os falsos deus virarem demônios. A população cresce vertiginosamente, as garras se estendem por onde ainda havia paz natural; cada um na loucura desmedida de buscar seu espaço em um local delimitado; há muitos esfomeados para pouco pão, a muito pães para poucos afortunados. A luta do homem por um passo acima no estamento social faz da Natureza uma coisa qualquer. A Essência Vital em si resolveu nos alertar, ora um terremoto, ora um tsunami, ora um furação, ora as severas estiagens, ora o desmoronamento de uma barragem. O Curupira, rei das matas brasileiras, resolveu nos pregar uma peça. Coloquemos a culpa no pobre Curupira, as empresas merecem mais um voto de confiança. O danado insatisfeito com a forra do nosso povo resolveu abrir um pequeno orifício na parede de terra, passou um pingo, desceu o mundo velho de lama. Tanta lama que saiu de um Estado, adentrou em outro para desembocar no Oceano Atlântico. A tinta vermelha e nociva por onde migra corrói, a própria água se transformou numa fossa de dejetos. As populações das cidades afetadas, de repente, foram obrigadas a abrirem os olhos, a pensarem, por um momento, na importância do Meio Ambiente para uma vida saudável. Somos vulneráveis, desastres poderão acontecer em qualquer lugar. O estrago foi feito, os danos são vários, muitos são tidos como culpados, poucos ou ninguém será condenado. A culpa é de nós todos, ou mudemos nosso rumo, nossos hábitos, ou no futuro próximo padeceremos ainda mais por nossa impetrante ignorância.

Crônica de Zé do Bode.

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Música de Vaquejada

Quem escreve versos, com certeza, compõe músicas. Desta forma montei um sugestivo poema em homenagem ao esporte raiz do Sertão, a Vaquejada. Como ando no labor dos treinos para tocar violão, fiz do poema uma música. Não sou profissional em nada, apenas gosto dos meus desafios. Este vídeo é fruto da minha evolução como artista, tanto na filmagem, na fotografia, na escrita e agora na música. Quanto mais eu aprendo, mais desejo aprender. Espero que gostem. Se não gostarem, não faz mal, faz parte.

Música de Vaquejada

***

Sou um vaqueiro experiente

Filho de um nordestino

Vaqueiro de muitas glórias

Seguidor de um destino

De ira atrás de Vaquejada

Derrubando boi na faixa

Com alegria de um menino

***

Solte o boi deixe correr

Solte o boi e não bezerro

Sou vaqueiro afamado

Que trabalha o dia inteiro

Pegar boi pelo cabo

Puxar jogar por lado

Fácil como um carneiro.

***

Quando eu vejo o animal

Saindo pelo portão

O corpo treme todo

Acelera o coração

Disparo o meu cavalo

Pego o bicho pelo rabo

E faço rolar pelo chão.

***

Minha vida é Vaquejada

Sou um homem do Sertão

Nasci comendo cobras

Cresci domando alazão

Tenho mulher, tenho filhos

Vivo sempre em perigo

Por honrar a profissão.

Assista ao Vídeo:

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Apostando na loteria

nov 23 2015 Published by under Zé do Bode

Hoje cedo, meu amigo Chico veio a minha humilde residência. Chegou sem fôlego, ofegante, aflito, todo agitado. Levei um susto. Pensei em alguma notícia ruim. O amigo foi logo me indagando se eu já tinha feito uma fezinha. Fezinha? O homem parecia está louco da cuca. Que fezinha? O compadre então me refrescou a memória. Ainda não tinha feito nenhum jogo da loteria. O sorteio está acumulado, disse-me todo feliz, de boca cheia. Acumulado? Já fiz dez apostas, gastei trinta e cinco reais, continuo Chico, se eu ganhar vou viajar pelo Brasil todo, vou comprar um carro de luxo, uma casa de praia, um jatinho. Como é bom sonhar, em Chico. Fez ou não fez uma fezinha, voltou-me a indagar. Não. Mas irá fazer? Não. Chico, há quanto tempo você vem jogando dinheiro neste jogo? Chico, Chico, Chico, quem em nossa região já ganhou alguma vez na loteria? Ganham sempre pessoas de longe. Será se elas realmente existem? O mundo é dos espertos, Chico. Estão metendo a mão no seu bolso com o seu consentimento. Só você que não jogo, acrescentou o amigo; na lotérica a fila já dobra a esquina. Muitos ali perdem o dia de serviço para dá dinheiro ao Governo, e ainda sofrem em grandes filas. Chico, acorda, você está sonhando, você está em um maldito pesadelo, sai dessa. Trinta e cinco reais dava para fazer uma feira. Vou ganhar, depois passarei aqui para caçoar com você, disse ele. Chico, Chico, a loteria é um crime legitimado, uma forma fácil de furtar o cidadão pobre. Não ver que a minhoca está encobrindo o temido anzol. Na pescaria somente o pescador leva vantagem. Você é o peixe, Chico, o Governo é o pescador. Quanto mais o povo padece, maior é o sonho em ganhar dinheiro fácil. Se você ganhasse esta dinheirama toda, Chico, seria uma desgraça para a sua pessoa e para a sua família. Com tanto dinheiro, aparecia tantas mulheres, com tanto dinheiro, haveria muita bebida. Chico, você trocaria de imediato sua esposa por uma loira qualquer; seus filhos se perderiam nos prazeres da carne pela facilidade do dinheiro. Dinheiro para uma pessoa como você, como eu, só traria infortúnios. Há um sábio dito popular: “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”. Você é doido, Chico me disse; fica me agourando, deixe-me ir. Chico se foi embora levando seu sonho no embornal da mente. Pobre Chico, quantos iguais a ele estão no momento metidos neste utópico pesadelo. O Governo pode até legalizar o crime, dizer que é correto porque tem uma lei que diz que sim, contudo meu dinheiro suado Ele não terá de mãos beijadas e de bom grado não. Quer dinheiro, Estado? Vá trabalhar, vagabundo!

Crônica de Zé do Bode.

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A graça do título acabou

nov 22 2015 Published by under Zé do Bode

O mundo dá voltas, voltas sobre voltas, mas não volta. Como era divertido e prazeroso para os torcedores dos times campeões nas décadas passadas. Foguetes, farras, carreatas, carnavais… Com os anos, com o surgimento de novos atrativos modernos, a graça que se tinha pelas conquistas nos campos de futebol, literalmente, acabou. Antes quando o time do coração levantava um troféu, aquele momento ficava para história, jogadores imortalizados, times idolatrados. O presente nos mostra que o Futebol está passando, logo mais será apenas um espetáculo de televisão à parte. O Timão foi campeão brasileiro, três foguetes, quatro carros pelas ruas a buzinarem. A graça, de fato, acabou. Mas por que morre o futebol? Virou interesses particulares, dinheiro, manobras, um mar de lama, pandemônios sobre pandemônios. Os aproveitadores jogam a cada dia uma pá de terra na áurea glória do esporte. O mundo do futebol tornou-se uma ninhada de serpentes, de corvos famintos, de ratazanas insaciáveis, de bandidos, de ladrões. A graça acabou, o circo fechou, morreram os palhaços por falta de público, por falta de aplausos, por falta de calor.

Crônica de Zé do Bode.

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Lembrança de meu Sertão

nov 17 2015 Published by under Poemas

Paramirim

Lembrança de meu Sertão

***

Minha terra tem Juazeiro

Tem Umbuzeiro e Jatobá

Tem tempo de seca brava

Padecimento muito há

Há também dia de chuva

Sol é que nunca faltará

Com o rosto calejado em suor

Ver o roçado a vida torrar

Este é meu Sertão sofrido

Florido a enfeitar

A morte de todo hora

A casa e o altar

Nasci no meio do mato

Feito mico a saltar

Hoje olho desconfiado

Minha casa desmoronar.

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Mais um na multidão

nov 13 2015 Published by under Motivacional

Poderemos imaginar a importância de uma simples abelha operaria para a colmeia em que habita? Imaginar, sim, ter certeza do que promulgamos, talvez não. Um simples inseto predeterminado a cumprir ordens expressas pelo instinto que o governa e que o domina. É possível tirar do homem tal serviço se não o oferecer moeda de troca? O dinheiro, a conquista de um amor, ou mesmo as dores de fortes chibatadas… A razão faz do ser humano um bicho diferenciado na cadeia alimentar natural. Se na sociedade das abelhas a operaria não galga posições piramidais de poder, na conjuntura social dos primatas pensantes este fato não se coloca, sendo que os mecanismos de força e inteligência marcam a posição de cada peça no tabuleiro. Todos podem sonhar em ser reis, mas o trono só comporta um por período. Não há indivíduo que nasça soberano, sempre houve e sempre haverá disputas pela coroa de ouro e diamantes.

Um peão para no turbilhão de um grande centro, observa a abundância passar por suas retinas, pessoas que nunca vira na vida, que talvez nunca as verá novamente. Quantos rostos, quantas fisionomias, quanta gente. Aquilo continua pelas horas do dia todo, não existe repetição. Passam mulheres, idosos, crianças, homens, adolescentes, passa até funeral. O ser observa e pensa: “Quanto uma pessoa dessas vale para a sociedade? Ou melhor, qual é o meu real valor perante este mundo que inventamos?”. Encostado em um poste, um rapaz em mulambos conversa com outros dois amigos em igual situação. Na altura dos olhos, um homem bem vestido passa seguido por dois seguranças. Se há igualdade, por onde tem andado ela? Na colmeia, ou é operaria, ou é zangão, ou é rainha. Na sociedade em que vivemos estas castas se dividem em milhões. Cada um com seu peso e sua medida.

Ser mais um na multidão é algo que nos coloca a par da demência. Não se perca pensando na morte nem na loucura de se encontrar neste espaço sideral. O correto é esquecer-se de tais dilemas e viver da forma que nos foi apresentado o mundo até que chegue o dia da emboscada fatal. Mas quem disse que nos satisfazemos com o estado atual das coisas? Queremos mudanças, queremos impor nossa tatuagem ao espaço em que abraçamos. Todos sonham ser reis, é fato.

Corremos a vida toda em busca de um grão de arroz. Este mecanismo move nossa vontade e nos faz ativo. Para se chegar ao ponto x, o trabalhador se sujeita a percorrer os caminhos de y. A natureza se gaba ao ver que mesmo revestido de razão o homem se comporta como se fosse uma abelha operaria. A vida de uma peça é tão insignificante para o todo que a todo o momento são substituídas. Não subestime o seu valor, pois diminuindo as variáveis necessárias, seu peso vale zero. Busque em sua memória um parente, uma autoridade, um astro que já morreu. Após a partida, o mundo parou de girar? As peças imediatamente foram trocadas, ou esquecidas a um segundo plano.

Se estamos perdidos na multidão dos seres, estaremos perdidos na imensidão do cosmo para sempre. Somos nada e ao mesmo tempo infinitos, pois somos únicos. O mundo em geral não importa, serve como trampolim para se galgar um muro, o mundo que nos importa é o nosso próprio mundo, a nossa consciência. Tudo que for feito pelo mundo concreto ficará para tal lugar, o que for feito por nós para nós mesmos se manterá eterno em nossa energia vital para sempre.

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A Morte chegou

nov 11 2015 Published by under Poemas

A Morte chegou

***

De repente chega ela avassaladora

Sequer tem a coragem de bater à porta

Adentra com porta nos peitos e tudo

O que era e sempre foi já não o é mais

Agora apenas sofrida e lenta tristeza

O dia já não encanta como há pouco

A noite perdeu todas as estrelas a lua

Passarinhos na mensagem carregam dor

A voz de poesia que me enchia emudeceu

O perfume, as cores, a beleza murcharam a flor

Olho sem querer nos fatos acreditar

Arrasto-me como criado ao fundo fosso

Partiu a paz consigo levando o alegre sorriso

Um vazio em mim nunca visto se alargou

Pobre do ser que lhe é tirado à força o amor

Pois a paixão morta a metade se findou

Jogando os seres no calabouço do terror

O que será do vindoura a vida que cresce

Na falta do adubo que lhe enchia as veias

Padecimento, sofrimento, tormento

Se andar o ser precisa se curvar as correntes

Sofrerei eternamente vagando sem razão

Florescendo amarguras onde antes frutificava

Na história da vida minha tumultuada

Gozei até aqui as benesses de um paraíso

Como castigo pela felicidade conquistada

A metade que falta carregarei calejada

Da vida que me apresenta ingrata.

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Um Brasil sem rumo

nov 11 2015 Published by under Zé do Bode

sertanejo

Abro a janela desta humilde casa em minha pequena propriedade no Sertão nordestino. O dia acorda quente, o Sol domina todos os espaços, faltam nuvens no céu, sobra anil. Fico a observar a vegetação ressequida pela longa estiagem. Meu rebanho se resume a cinco cabritos, o gado morreu todo. Tem também alguns frangos, um sevado no chiqueiro. O que sobra nesta desolação toda é a angustia que me devora de dentro para o exterior. Você sabe o que é acordar e não ter o que fazer? Sabe não. Como desejaria um trabalho árduo para meus magros braços. Careço de dinheiro, preciso alimentar minha esposa e meus filhos. Olhando esta natureza tento buscar uma ideia que me traga uma solução para o meu problema. Nem fome eu tenho mais, as tripas se enrolam na barriga pela ânsia que carrego. Não consigo encarar minha mulher, os olhos delas parecem me cobrar sempre algo que não possuo. Às vezes, os dois filhos me puxam pela surrada camisa, pedem algo para comer. É triste um pai ver os padecimentos baterem à porta e não possuir recursos para aliviar a dor. Tristemente tornou minha vida, peno dia e noite. Apenas peço um emprego. Quero trabalhar. Como pode um País tão gigante ignorar seus soldados em pleno campo de batalha? A existência tornou-se uma guerra velada para mim. Viver é penoso e difícil. Qual rumo tomar, alguém poderia me dá uma luz? Vou sair, vou para o mato, vou buscar mandacaru para servir aos bichos; depois vou ao açude apanhar água no balde; também cortarei um pouco de lenha. À tarde irei à cidade, quem sabe não encontro o que labutar, quem sabe não consigo algumas moedas para comprar uma rapadura. Enquanto isso, muitos jogam no lixo o que falta na mesa de uma legião de famintos. Tenho fome, infeliz! Tenho fome! Outros roubam o dinheiro da Nação para sustentar uma vida de luxo e vaidade. Tenho fome, cabra safado! Tenho fome! Vou sair, sair sem rumo, quem sabe não dou sorte e me aprumo. Sei não. Mulher, vou à cidade ver se consigo algo! Reze por mim, peça a Deus que ilumine meus passos. No caminho do calvário meu me detenho a conversar com o amigo João. Ele por muito penar conseguiu o benefício do Governo. O meu até hoje nada. Na cidade, os que detêm de farto recursos, todos eles, recebem. Recebe a esposa do vendeiro, a do açougueiro, a do vereador, a do secretário, recebem todos, menos este pobre que vive a se consumir pela fome. Por onde anda Deus que não ver tamanha desgraça? João me contou que só conseguiu após um acordo com o pessoal, a metade por seis meses ficará com eles. Melhor lamber que cuspir. Sem alternativa, vou aderir a esse comércio negro. A metade já é bem mais do que nada. Neste mundo, manda que pode, obedece quem tem juízo. Sou cabra, preciso comer.

Crônica de Zé do Bode.

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