Archive for: outubro, 2015

A chuva voltou ao Sertão

out 30 2015 Published by under Zé do Bode

Após vários meses de estiagem dura e pesada, enfim a chuva voltou a fertilizar o solo seco do Sertão. Nos últimos dias, os sinais da natureza davam conta que a agonia de um longo período partiria em retirada deixando a esperança para os seres viventes na Caatinga. A jurema-preta floriu por completo, uma verdadeira noiva; as formigas de asa deixaram as tocas e ficaram a vagar de um lado a outro; o calor insuportável adentrava pela noite parecendo a sauna; o mandacaru do terreiro abriu seus primeiros botões. Ver tais sinais é como sentir os pingos refrescantes da chuva por antecipação. Dois dias depois, a manhã amanhecera diferente, algumas nuvens formavam pelos quatro horizonte, o calor do sol asfixiava, o vento sumiu. No final da tarde, as nuvens engrossaram, ao longe cordões finos de chuva molhavam. A noite chegou sorrateira, meus olhos procuravam alguma coisa, para o leste pequenos fleches avisavam que as trovoadas estavam a caminho. Não demorou muito, uma ventania abateu sobre a região, o vento soprava forte. Os relâmpagos aumentavam sua intensidade, já se ouviam tímidos trovões. O cachorro latia no quintal, o gato correu para se esconder. Estava eu na janela a contemplar a beleza da chuva. Como poderia dormir logo quando chega a visita tão aguardada? Peguei uma xícara de café quente e fui tomar na varanda. Os primeiros pingos, pela graça de Deus, tocaram o chão enchendo o ambiente de alegria. O cheirinho característico das primeiras chuvas subiu da folhagem morta. Que cena fantástica. Que sabor delicioso. De repente, o barulho da chuva que vinha chegando, quanto mais perto, mais alto o som. Meu coração batia de contentamento no ritmo contagiante da chuva que se chocava lavando a vegetação adormecida. As telhas encharcadas deixavam escorrer em enxurrada o líquido da vida. Relâmpagos e trovões pintavam o céu com cores e sons. Sorvia o café quente e pensava na fartura do milho e do feijão catador. Sorvia mais uma vez e imaginava o gado gordo pastando o capim verde. Com a chuva a vida ganha novo sentido, com a chuva o Sertanejo é feliz.

Crônica de Zé do Bode.

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Aprender para enfrentar as crises

out 28 2015 Published by under Motivacional

A história humana é marcada por ciclos. A caminhada no tempo nos retrata a evolução da mente frente aos desafios de cada momento. Aprender sempre foi e sempre será um mecanismo essencial para que o homem se coloque em um patamar que torne a vida em sociedade prazerosa e confortável. Ignorar o atributo da busca constante pelo conhecimento, de aperfeiçoar as habilidades já desenvolvidas, de inovar e buscar a descoberta de novos produtos, fará do ser pensante um mero animal que come, dorme e procria.

Findado um ciclo, de imediato se inicia outro. Antes de conhecermos os mecanismos para colocar um objeto qualquer para boiar no ar sem ir de encontro ao chão, a busca pela conhecimento ignorado foi frenética para aqueles que viveram em tal ponto da trajetória. Vencido o desafio por algumas mentes brilhantes, outros já sugiram frutos daquelas descobertas. A crise daquele momento foi vencida pelo estudo e pela busca incessante do conhecimento até então obscuro.

A descoberta do avião abriu portas jamais exploradas. O tempo seguiu, estamos em 2015, haveria necessidade de um grupo de cientistas redescobrir a roda? A inovação abomina a repetição. O difícil e complicado é chegar ao resultado na sua primeira oportunidade. Feito isso, basta reproduzir em série os passos descobertos. O que fez de Santo Dumont famoso, nos atuais dias já não traz fama mais a ninguém.

Se a vida humana no globo necessita sempre desta força propulsora, um país também carecerá, uma cidade, uma família e a menor parte que é cada indivíduo. Neste mundo de constante mudanças, onde a Internet imprimiu uma nova maneira de viver, aquele que senta e espera por chuva, certamente, morrerá de fome e sozinho. A população cresceu assustadoramente, cada ser representa quase nada diante do todo, contudo há seres que são venerados como minideuses. Qual a diferença concreta entre um homem bem-sucedido e outros milhões que circulam diariamente pelas muitas cidades? Aproveitar a oportunidade e remar contra a correnteza, fugir do fluxo que leva a multidão de um lado ao outro ao sabor dos gostos de certas ideologias.

Quando a crise bate na porta de um país, tudo o que foi construído até aquele momento precisará ser reciclado, muitos conceitos eliminados e outros inseridos. A velhice chega a cada corpo cobrando a renovação obrigatória que é natural da natureza. Se a sua vida financeira está sendo corroída pela crise do momento, se sua família está desmoronando, se suas aptidões já não servem mais, de duas uma, ou você espera pelo final do poço, ou você arregaça as mangas e busque novas alternativas para vencer seus tormentos. Depois da tempestade, sempre paira a bonança, provérbio de forte impacto. Se cuide, o mundo nunca foi dos fracos, não é mais dos fortes, já está sendo exclusivamente do conhecimento.

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A Crise bateu em minha porta

out 19 2015 Published by under Zé do Bode

crise-economica

- Ô, de casa! Ô, de casa! – alguém grita na porta de entrada da residência de José.

- Quem será a esta hora? – indaga José. – Não posso nem mais assistir meu jornal tranquilo que vem gente me aperrear. Quem é?

- Sou eu.

- Eu quem, diabo?

- Eu. Deixe de frescura e abra logo esta porta.

- Não vou abrir a porta para estranho não.

- Eu não sairei daqui enquanto o senhor não abrir esta porta. Tenho muito tempo, vou esperar.

- Tá certo, tá certo. Vou abrir.

O dono da residência colocou a chave na fechadura, deu duas rodadas em sentido contrário, abaixou o trinco, a porta foi aberta devagar.

- O que você quer comigo a esta hora? Quem é você mesmo?

- Sou a Crise.

- Crise? Isso é nome de gente?

- A Crise chegou, José. Vamos sentar, pois teremos uma longa conversa.

- Você é louco?

- Deixe de fazer tantas perguntas, homem. O senhor sabe o que significa Crise?

- Mais ou menos.

- Quando a Crise chega a algum lugar, muito se perde. Por exemplo, aquela mesa com café e bolos, a metade agora é minha.

- Sua?

- Da Crise. A Crise cobra o que lhe é devido.

- Se você tem fome, então pode se servir.

- Quanto de dinheiro você tem guardado?

- Sai fora. Negócio de querer saber quanto eu tenho debaixo do colchão.

- De imediato levarei trinta por cento. A conta de água e de luz, neste mês, ficarão sem ser pagas. O carrinho do supermercado somente terão os produtos básicos. Carne apenas aos domingos.

- Que conversa fiada é esta?

- Seu emprego agora me pertence. Pertence a Crise.

- Você é louco varrido, só pode.

- Atenda o telefone.

- Como?

O telefone em seguida badalou.

- Atenda, José. Alguém tem uma notícia muito importante para lhe dá.

- Alô. Patrão. Como? Pedi o emprego. Por quê? Por causa da Crise? O que eu irei fazer agora? Dá meus pulos? Mas eu não sou sapo não. Desligou o telefone. Perdi meu emprego.

- José, acredite, o senhor está diante da Crise. Não tem como fugir de mim. Após tomar um pouco do seu café e levar trinta por cento dos seus bens, vou descansar na sombra daquele frondoso juazeiro. Reze e trabalhe muito para que um dia eu me canse e sigo para outro lugar. Vou lhe dá um conselho de bom amigo: em tempo de Crise, todo cuidado é pouco. Se fizer corpo mole, recusar trabalho, talvez eu até me engrace com a sua esposa. Se a Crise for pesada, levarei seu carro e a sua casa. Em tempo de Crise, a única certeza é a da incerteza constante.

- Maldita hora que eu fui abrir aquela porta.

- Se minha fome for gigante, até sua vida arrancarei de você.

- Até minha vida?

- Terei o maior prazer. Cuide-se bem, pois estou a todo instante lhe olhando. A Crise adentrou por aquela porta, José; tudo agora poderá acontecer.

- Você irá ficar debaixo do juazeiro?

- Sim. Mas se meu sono for pesado, se houver muito desconforto, amanhã quem sabe eu lhe cobro um quarto de sua confortável residência. Com o tempo poderei tomar até a sua cama, e se tiver fazendo muito frio, dormirei com a sua amada esposa.

- Vou pegar minha espingarda para lhe dá um tiro.

- Aquela espingarda já me pertence. Bala está cara, contratar um bom advogado custa bastante dinheiro. Cuidado com a Crise, José.

- Com tudo isso já tenho até dor de cabeça.

- É bom o senhor se acostumar logo com essas dores, enquanto eu não for embora, ela será sua parceira dia e noite. Vou para a sombra do juazeiro, meio-dia o senhor leve o meu almoço. Pouco sal. Suco de limão com uma colherzinha de açúcar.

A Crise se acomodou primeiro no terreiro, breve tomará a casa. José perdeu a paz, perdeu o emprego, com os dias foi comendo o que adquiriu durante muitos anos. A Crise ainda não foi embora, continua rondando a morada. José é forte e usa todas as suas armas para afugentá-la, o duelo é difícil, contudo ele já enfrentou outras Crises piores, é um Sertanejo vencedor. O presente é o presente; ninguém sabe o que virá no futuro; o passado já passou, o bom é que ele deixou as experiências para enfrentar os novos desafios.

- Maldita hora que esta Crise veio bater em minha porta.

- José, por favor, um copo com água gelada – grita a Crise na sombra do juazeiro. – Está um calor que até a Crise se esfria com um copo d’água.

- Já vou, já vou!

Crônica de Zé do Bode.

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A efêmera beleza da beleza

out 10 2015 Published by under Poesia

flor

A efêmera beleza da beleza

***

No ar boia a beleza ilustrada no perfume doce da primavera

Pigmentos de várias tonalidades esculpindo formas perfeitas

A magia de um momento singelo e angelical faz visível

Uma flor com todo o poder natural se sente vaidosa

Narciso que se idólatra constantemente explode no ser

Poderosa atrai uma passível vítima inocente faminta

Feliz pelo sucesso do nascimento não consegue pensar

Vive a glória de um astro de luz ao redor de entulhos

Deseja os olhares de todos por algo que herdou

Logo a corte de um beija-flor se consuma

Feliz se deixa possuir por beijos estranhos

O pássaro saciado sai a voar alegre pelo espaço

Pobre flor, pobre ser que caiu conquistada pelo amor

Sem néctar apodrece no insucesso por ter germinado flor

 Efêmera como um rio não perene cortado pela seca

Deixa-se ver suas pétalas soltarem ao vento

Por onde anda sua beleza, Narciso?

Já não és mais uma flor?

Apenas um talo em fase de decomposição

Um cadáver de um busto que um dia brilhou

Tudo passa tão rapidamente que nem sequer se nota

Hoje tudo e os olhares e as atenções

Amanhã uma interrogação muda e cega de uma triste lembrança

Pelo ar boia as lembranças de um passado risonho

Pelo céu vibra a realidade da beleza contraída a uma bruxa

Pobre flor que tocada pelo amor encontrou a morte

Gozou alguns momentos puros de felicidades

Padeceu humilhada pelo vexame da Lei

Nosso orgulho de um dia de sol transforma-se

No medo medonho de uma noite sem estrelas

A beleza não se sustenta por si só

A matéria corrosiva das substâncias age

A princesa se curva a sapa

O príncipe ganha traços de morcegos

O belo por um instante badala aos quatro cantos

Agudos suaves de uma extraordinária canção

Breve como um precipitar de uma gota no mar azul

Em segundos some para sempre

Por ser extraordinário carece ser breve

Rápido como um toque do vento no rosto.

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Garapa

caldo-de-cana

Certo tempo, lá pelas bandas da capital Salvador, existiu um rapaz, um louco nos moldes da sociedade de então, que não batia muito bem da cabeça. Pelas vindas e idas do caminho, recebeu dos mais chegados um sugestivo apelido. Surgiu do nada, de uma hora para outra, não sabemos dizer quem foi o precursor, o correto é que nasceu a denominação como uma nuvem de repente se forma no céu. Bastava alguém gritar: “Garapa!”, que ele apanhava uma pedra, ou algo qualquer e avançava em revide contra o oponente. É sabido que moleque sempre gosta de criar, possui tempo para escolher as melhores maneiras de fazer mais algazarra com aquele que sofre de raiva por um pretexto qualquer; um grupo deles resolveu diluir a garapa, torná-la em partes.

- Açúcar! – gritava um rapaz.

- Água! – gritava outro sorridente.

- Limão! – Acrescentava um terceiro quase chorando de tanto sorrir.

O ofendido então rosnando dizia:

- Mistura, filê-da-puta, mistura! Mistura para você ver o que é bom pra tosse.

História baseada em fatos reais.

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