Archive for: setembro 26th, 2015

Uma carta a uma amiga

set 26 2015 Published by under Crônica

escrevendo-com-uma-pena

Uma carta a uma amiga.

Hoje o dia está quente, sol pesado, suor em demasia, mas em mim um gelo de dez graus abaixo de zero. Queria ter forças para sair, tomar um banho no rio, sentar em um barzinho e beber um refresco, não consigo, em mim apenas ventania de pensamentos, trovoadas de emoções torturantes. Parece que estou voando sobre um terreno abalado por um perverso terremoto. Meu corpo treme, sinto-me um frio arranhando minhas entranhas como se estivesse com vontade de me trucidar. O Sol tão Sol é pequeno para sanar meu eu vazio, um eu insuportavelmente insuportável, um eu que não sou eu, um eu que quer algo, não sabe, porém, o que buscar. O céu sem estrelas ofusca minha imaginação, estou preso e de mãos atadas dentro de um maldito labirinto. Quero correr, quero gritar, quero qualquer coisa, não tenho forças para nada. A boca amarga como uma múmia perdida para sempre em um canto qualquer esquecida pelo tempo que não lhe pertence mais. Aqui dentro há frio, aqui dentro há escuro, aqui dentro tudo roda como em uma roleta russa, as facas passam rente ao rosto constantemente. Em meu quarto, deitando em minha cama, embrulhado com cobertor grosso, faço todo esforço para dormir. Preciso sonhar, preciso de um novo rumo para minha débil existência. Peço apenas um caminho, uma direção que me coloque em linha de colisão com a realidade, com a luz que ilumina e nos dá vontade de vencer nossas próprias imperfeições. Se meus olhos fecharem rapidamente, meu tormento desaparecerá, andarei em um mundo invisível onde em uma macieira colherei melancias, onde a água terá gosto de vinho, onde a felicidade reinará eternamente. Deus, escute minhas preces, por favor, restitui-me o sono, careço sonhar, preciso, imploro. A força é tamanha que meus olhos estão desabando ribanceira abaixo. Estou sonhando, faz calor, já não sinto mais frio, o cobertor já deixei para o lado. Voltei a viver, simplesmente porque voltei a sonhar. Tudo isso graças ao Nosso Senhor. Se não fosse Ele, não sei o que seria de mim, talvez estaria em outra dimensão. Foi um dia difícil, todavia venci.

Noite de 21 de fevereiro de 1979.

Comments are off for this post