Archive for: setembro, 2015

A fome

set 28 2015 Published by under Crônica

fome

A linha da mediocridade da soberba humana se esfacela perante o rosto cadavérico da fome. Quando o estômago implora por energia, o corpo aguça os instintos afugentando as ideias. A fome tem o poder de mostrar aos seres que diante dela o restante é pura frivolidade. A vaidade desmedida do ser nenhum controle possui frente à opressão de uma estrutura que implora medonhamente por energia. As regras sociais, as leis, os dogmas, a parafernálias ditas aos setes cantos como salvação, tudo desaparece na iminência da dor que desestrutura a matéria e perturba o espírito. O homem que sente fome é fiel aos preceitos naturais, pois não disfarça o sentimento primordial que o fere. O traje, a maquiagem, as pedras preciosas, o posição alcançada hierarquicamente, de nada terá sentido se a mente se encontrar amarrada em uma tristeza profunda fruto da anemia das células. Frente a frente com a tortura esmagadora da fome, o ser humano é dobrado, faz-se prisioneiro de um calabouço invisível aos olhos daqueles que o observa, e amargo e quente para o que padece.

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Uma carta a uma amiga

set 26 2015 Published by under Crônica

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Uma carta a uma amiga.

Hoje o dia está quente, sol pesado, suor em demasia, mas em mim um gelo de dez graus abaixo de zero. Queria ter forças para sair, tomar um banho no rio, sentar em um barzinho e beber um refresco, não consigo, em mim apenas ventania de pensamentos, trovoadas de emoções torturantes. Parece que estou voando sobre um terreno abalado por um perverso terremoto. Meu corpo treme, sinto-me um frio arranhando minhas entranhas como se estivesse com vontade de me trucidar. O Sol tão Sol é pequeno para sanar meu eu vazio, um eu insuportavelmente insuportável, um eu que não sou eu, um eu que quer algo, não sabe, porém, o que buscar. O céu sem estrelas ofusca minha imaginação, estou preso e de mãos atadas dentro de um maldito labirinto. Quero correr, quero gritar, quero qualquer coisa, não tenho forças para nada. A boca amarga como uma múmia perdida para sempre em um canto qualquer esquecida pelo tempo que não lhe pertence mais. Aqui dentro há frio, aqui dentro há escuro, aqui dentro tudo roda como em uma roleta russa, as facas passam rente ao rosto constantemente. Em meu quarto, deitando em minha cama, embrulhado com cobertor grosso, faço todo esforço para dormir. Preciso sonhar, preciso de um novo rumo para minha débil existência. Peço apenas um caminho, uma direção que me coloque em linha de colisão com a realidade, com a luz que ilumina e nos dá vontade de vencer nossas próprias imperfeições. Se meus olhos fecharem rapidamente, meu tormento desaparecerá, andarei em um mundo invisível onde em uma macieira colherei melancias, onde a água terá gosto de vinho, onde a felicidade reinará eternamente. Deus, escute minhas preces, por favor, restitui-me o sono, careço sonhar, preciso, imploro. A força é tamanha que meus olhos estão desabando ribanceira abaixo. Estou sonhando, faz calor, já não sinto mais frio, o cobertor já deixei para o lado. Voltei a viver, simplesmente porque voltei a sonhar. Tudo isso graças ao Nosso Senhor. Se não fosse Ele, não sei o que seria de mim, talvez estaria em outra dimensão. Foi um dia difícil, todavia venci.

Noite de 21 de fevereiro de 1979.

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A flor do outro não é tão perfumada como pensamos

set 25 2015 Published by under Crônica

Como eu queria ser um pássaro. Como queria voar pelo céu anil a contemplar as montanhas, os vales, os oceanos… Nas asas do passarinho reside a felicidade mais feliz de todas. Um pequeno ser despreocupado das asperezas da vida social em que nos metemos. Como eu queria ter nascido um falcão, uma águia, um cardeal… Teria a liberdade suprema, seria o ser mais satisfeito do mundo. Às vezes, perco minutos olhando para o mar azul sobre minha cabeça boiando com as aves em um sonho fantástico. Deus escolheu os pássaros para depositar boa parte da felicidade do mundo, se para eles deu a metade, para o restante dos seres sobrou a divisão da outra parte, ganhamos um pingo deste lago enorme. Sou infeliz, os pássaros são alegres sempre.

Sou um pássaro, bicho, sou um pássaro que visto de longe enche os olhos do observador de fantasias. Sou um pássaro que acorda com os primeiros raios do sol. Um pássaro que precisa caçar a comida sempre. Se tenho sede, devo ir em busca. Onde estaria tal liberdade cantada pelo homem? Quando tenho filhotes o trabalho é redobrado, no meu instinto preciso alimentar meus filhos atendendo a ordens de um general invisível. Na noite, no meio da escuridão viro presa, sou caçado por vários animais, não tenho paz para dormir tranquilo, quando chove, falta-me um teto. A vida de um pássaro é tão ou mais difícil que a de um humano. De tanto voar, de tanto ver, tudo se torna banal às retinas fatigadas pela mesmice diária. Não queira ser um pássaro, pois sou um e sonho um dia me transformar em um homem.

Cada um deseja ser o outro, o certo é ser o que é, pois neste quesito o sonho será sempre sonho, pois a Natureza obrou de tal forma.

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Há muitos escritores para poucos leitores

set 25 2015 Published by under Zé do Bode

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As pessoas estão escrevendo muito, mas estão lendo pouco. Nesta hera da internet, das redes sociais, escrever voltou a ser algo de suma necessidade. Não importa a forma da escrita, se faltam letras nas palavras, ou palavras nas frases, basta apenas a vontade de dizer. Neste cenário novo, neste mundo que descortina aos humanos, a coragem de se expor é gigantesca. Todos queremos falar, falar sempre, falar a todo momento, queremos ser ouvidos. A vida parece ter sido resumida a uma simples tela de um aparelho qualquer. Passamos a andar de cabeça baixa sempre a olhar para o dispositivo móvel. Se estamos na mesa em pleno almoço, o celular fica onde antes se encontrava os talheres; se vamos ao banheiro, o dito segue sem pudor algum; se vamos dormir, o maldito descansa ao lado pronto para apitar assim que receber alguma mensagem. Desejamos nos expressar, dizer ao mundo quem somos e o que pensamos. Nesta loucura toda, onde todos falam ao mesmo tempo, sobram escritores e faltam leitores. Ninguém tem tempo para ler o que o outro escreve, pois passamos o tempo todo digitando. O ponto de vista daquele que escreve é um, este não mudará jamais. Aceitar a ideia de outro parece coisa fora do normal. A maioria dorme feliz sob suposições falsas, acredita que a Terra ainda é o centro do universo. Para conhecer profundamente um assunto o indivíduo precisa solver de várias fontes. Para qualquer escritor que se proponha a escrever com sabedoria, em primeiro lugar deverá ser sempre um exímio leitor. O conhecimento escrito é a fonte para toda mente evoluir.

Crônica de Zé do Bode.

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Poesia de Cordel a Paramirim

set 19 2015 Published by under Cordel, Poesia

Poesia de Cordel a Paramirim

***

Paramirim é minha terra

E não tem outra igual

Nasci as margens de um rio

Dentro de um arraial

No terreiro dos Ribeiros

Na sombra do juazeiro

Em um abraço fraternal.

***

O rio pequeno desce a serra

Rasga o monte em cachoeiras

Fertiliza com suas águas

A terra endurecida e seca

Do lindo vale do Paramirim

Que é lindo para mim

Como uma ave fagueira.

***

Antônio padroeiro

Protetor inteligente

Paramirim pulsante

Nos seus olhos atraentes

Aurora de um dia

Bate forte e irradia

O amor por esta gente.

***

A luta do seu povo

Fez nascer uma barragem

O sonho da agricultura

Murchou por falta de vontade

Cheio o lago do Zabumbão

Padeceu a roça de feijão

Sobre a anemia da coragem.

***

O folclore colorido

No bumba-meu-boi estampado

Nas procissões dos festejos

Nos sons dos reisados

A cada dia desaparece

A alegria se esquece

Pois não são mais representados.

***

Um município de luz

Uma cidade abençoada

Com a Pedra da Santana

Na Cachoeira do Catuaba

O Balneário a correr

O povo a se satisfazer

Nas várias fontes de água.

***

O que dizer de ti, Paramirim?

Quais palavras devo usar?

Sou grato digo e repito

Com frases vou expressar

 Cheias de aromas e mel

Incrustadas no papel

O amor por ti exaltar.

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Adeus extintor

set 19 2015 Published by under Zé do Bode

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Quanto tempo demorou para os especialistas reconhecerem que o extintor é um objeto inoperante dentro de um automóvel? Será que o interesse era o de obrigar os brasileiros a comprar tais objetos? Quem de fato lucrou com todo esta venda? Seria um parente ou um amigo de algum político famoso? Em outros países o extintor é peça obrigatória nos veículos? Se seu carro pegasse fogo o que você faria? Correria? Usaria o extintor? Você saberia manusear tal objeto? Não? O governo pensa que temos caras de palhaço? O que você acha da atitude dos nossos governantes? Será se eles gostam mesmos de nós? Além do extintor o que mais pagamos que não presta para nada? Não estaria na hora de uma faxina? Para que tantas leis mesmo? Seu dinheiro está curto? Quantos pães não comprariam com a grana desembolsada para o extintor? Uma vergonha? Falta vergonha na cara dos que governam? Será se no planalto há neste exato instante um louco pensando loucuras para impor aos brasileiros? Com certeza? Diga a verdade: o Brasil é lindo? Sim? Mas a safadeza nos envergonha, você não acha? Será que a motivação da não obrigatoriedade do extintor se deu pelas medidas arbitrárias que o governo toma em outras áreas para surrupiar o suor da nação? Um extintor a mais neste momento conturbado não seria a gota d’água que faltava para uma grande explosão? Muitas perguntas, você não acha? E as respostas por onde andam? Se você as tiver, por favor, deixe-as aqui?

Crônica de Zé do Bode.

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O que eu tenho a ver com a sua greve?

set 12 2015 Published by under Zé do Bode

O povo do Brasil é engraçado demais, nosso País deve ser o mais cômico do mundo. Aqui o infeliz do cidadão dá o sangue, dá a vida se for necessário para passar em um concurso público, é o sonho da grande massa. Depois que vence a prova e adentra para a cadeira que lhe foi confiada, o infeliz frustra seus irmãos. Será que o desejo de ser concursado é o de um funcionário relapso? Quer passar para ter as mordomias de um deputado. Quando se ver munido pela lei, sabedor que a regra do jogo atual o protegerá de uma possível demissão, ele se afrouxa, deixa ficar em sua poltrona e se faz de imperador. A desgraça do ser humano é se ver imponente perante a multidão. O concursado não pensa duas vezes em fazer do mês de trabalho um mês de férias. Estou de greve! Estampam um cartaz na porta da repartição. Queremos aumento de salário, queremos mais dias de férias, queremos trabalhar menos horas diária, queremos plano de saúde, queremos moradia, queremos lanche no meio da tarde, queremos cafezinho quente, queremos assessores, queremos tudo e mais um pouco. Ou fazem os gostos dos concursados, ou o Estado para literalmente. Aqueles mesmos que deram o sangue se colocam como coitados aproveitando de leis nefastas para conseguirem seus objetivos. Como o saco da cobiça nunca se enche por completo, basta ter alcançado uma vitória que em poucos dias começa a arquitetar novas manobras. Enquanto isso quem realmente necessita dos serviços públicos sofre em longas filas ou é barrado nas portas da instituições fechadas. Seu direito de greve não pode ferir o meu direito de cidadão. Em um país onde a decência é algo raro, fazer greve para os que aderem a tais práticas é gozar a vida com o dinheiro público sem nada oferecer em troca.

Crônica de Zé do Bode.

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Vá cobrar mais impostos de sua mãe!

set 11 2015 Published by under Zé do Bode

Estou cansado, casado de tanto trabalho, cansado de tantas lorotas, casado e de saco cheio em ouvir políticos dizerem que é preciso aumentar ou criar mais impostos. Vá cobrar mais impostos lá na lua! Ainda têm a cara de pau de dizerem que será bom para o País, que gerará mais empregos, que isso, que aquilo. Chega de tantas mentiras descabidas! Parem de tratar o povo como gado que vai pacientemente para o terror do abate. Para essas pessoas a única solução se encontra em castigar os filhos da Nação com o peso amargo de mais usurpação do suor alheio. Na bonança são todos tidos como intelectuais, nas crises são todos iguais. Um País imenso entregue a deus dará. A política nos moldes de então não consegue obter resultado satisfatório. Enquanto mentes brilhantes são relegadas, a podridão toma conta de todos os espaços. Que nojo! Vou dormir, pelo menos os sonhos são meus, tristeza ou alegria nele sempre haverá a esperança de um maravilhoso amanhecer. Só não quero acordar e saber que o pão, o café, a manteiga e a pasta de dente aumentaram de preço porque aumentaram a carga tributária; se assim for, prefiro ficar dormindo. Já disse lá em cima, porém volto a repetir: “Vá cobrar mais impostos lá na lua!”.

Crônica de Zé do Bode.

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Independência ou morte!

set 08 2015 Published by under Zé do Bode

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Sete de setembro, meu povo! Independência ou morte! Dom Pedro Primeiro, Riacho do Ipiranga, Brasil um país liberto. O tempo passa e as lembranças continuam vivas nas mentes da população. O que um simples grito não consegue fazer. Não foi um grito normal emanado por uma pessoa qualquer, foi um grito de uma autoridade maior, foi o grito do Príncipe Regente do Brasil. Empunhando uma espada, montado em um fogoso cavalo, às margens de um rio, rodeado por um punhado de cidadãos, ele se fez ouvir e cravou para sempre seu nome na história do Brasil. Ou a independência, ou a morte. A valentia, misturada a coragem e a um frondoso sonho conseguiram algo surpreendente. O nossos País passou a gozar de sua própria soberania, passou a avançar rumo ao vindouro com seus próprios pés, passou a vislumbrar um futuro glorioso. O Sete de Setembro representa para os brasileiros bem mais que um simples feriado, representa a chave da libertação, o momento que o pássaro se viu livre para voar fagueiro por este céu anil. Com uma história fervilhante, cheia de homens fortes, repleta de exemplos, vencendo crises, desviando de obstáculos cruéis, a nova Nação andou e segue ladeando uma aspiração salutar, cultiva uma expectativa de paz e prosperidade. O Brasil é forte, o Brasil é grande, o Brasil é o melhor país do mundo, falta ao Brasil que um novo Dom Pedro volte a gritar alto contra a corrupção que nos aprisionam e que nos faz escravos. Mais uma vez precisamos ser libertados. Para o Brasil avançar em prosperidade cada brasileiro precisa deixar extravasar o Dom Pedro que vive adormecido dentro de cada um. Grite bem forte, minha gente: Independência ou morte!

Crônica de Zé do Bode.

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Agora lascou, o gás aumentou

set 02 2015 Published by under Zé do Bode

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Já não aguento mais tantos aumentos. Primeiro foi a gasolina, depois foi a energia, teve também a água, o transporte público, os impostos, as taxas, os pedágios, o pãozinho, o arroz, o feijão, a farinha, a rapadura… Agora eu lhe pergunto: “Alguém ouviu falar da merreca do salário mínimo?”. Será que aumentou o danado? Continua na mesma mixaria de sempre. A inflação chegou, meu povo! O pobre irá sofrer mais do que já anda sofrendo. O Brasil está quebrado. Para completar, que droga, até o gás teve aumento, e que aumento. O que será de nós, meu Deus? Um botijão na casa dos cinquenta contos, com água, energia, aluguel, acabou o salarinho que ganho. Vou comer o que se não tenho como comprar? Não posso nem pensar em perder meu emprego, se perder, não acho outro nem na China, pois até a gigante China também anda manca das pernas. Para onde foi todo o dinheiro do Brasil? Teremos dias difíceis. O horizonte é de tempestade. Para tapar o rombo do governo querem arrombar com a população. Vou ressuscitar meu velho machado, vou cair no mato a procura de lenha, preciso economizar. Também estou pensando em dá luz ao meu velho candeeiro e ao antigo ferro-de-brasa. Onde chegamos? Seremos obrigados a regredir no tempo. Enquanto isso um punhado pequeno colhe os louros desta flâmula.

Crônica de Zé do Bode.

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