Archive for: agosto, 2015

Usando filha bonita para casar as feias

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O matuto do Sertão não é tão matuto assim. Sabe fazer contas, sabe criar casos, sabe escutar bem mais que os cabras da cidade, arquiteta como ninguém, na mente inquieta, maneiras para sobressair frente às peripécias locais. O sertanejo carrega em si o poder avassalador de uma rápida adaptação, é como um camaleão, só que munido de uma aguçada sabedoria. Às vezes, é taxado como doido, é taxado como besta, é taxado como anta; mesmo com o seu jeito despojado, consegue dá nó em vento. O homem do seco é tatu entocado, é suçuarana encurralada, é quem-quem avisado, é aroeira que não quebra tampouco enverga, é chão duro que só produz espinhos… Quando a pessoa chega com o fubá, ele de tempo já comeu o cuscuz. Não se brinca com pessoa possuidoras de tais qualidades, dessa cartola mágica pode sair uma miríade de truques e alternativas.

Aqui nas intermediações, fato que contaremos, ouvimo-lo da boca de gente honesta, há uma família de pessoas simples, modesta nos hábitos, recursos mensais contados. Apanhamos o caso por alto, voando em uma roda de conversa, para darmo-lo vida usaremos a imaginação e comporemos o enredo de uma possível história verídica.

A família de José, muito bem poderia ser a de João, Sebastião, Mário, Pedro, ou até mesmo de outro José qualquer, pois há tantos Josés por este universo que parece que o mundo foi feito deles para eles mesmos. Só não poderia ser a família de Washington, Henrique, Pablo, estes são nomes atuais, de gente de cidade, gente que se coloca acima dos demais, que se gaba do nome que tem. José e Maria, marido e mulher. Casal que nos remete ao passado bíblico, homenagens aos pais do grande mestre Jesus. Também temos muitas pessoas carregando o nome do grande Nazareno por aí, mas nesta família os filhos não puderam ser coroados com o título do Mestre, talvez por terem nascidos dez e no todo nenhum tenha saído varão.

Dez filhos, dez mulheres. José sempre sonhara com um menino, contudo a natureza só lhe entregou flores. Dez flores, flores que deveriam atrair beija-flores, das dez apenas duas eram vermelhas, cheirosas, cheia de néctar nos lábios, as outras oito eram flores que crescem em cacho, iguais, pequenas, esquecidas em meio à multidão que as cercas. As oito padeciam por germinarem em lua cheia. Dizem por aqui que quem nasce em dia de lua cheia tende a parecer com lobisomem; com traços toscos não chegava a tanto, mas espantava a curiosidade e a cobiça dos machos.

As duas flores vermelhas nasceram em lua minguante, longe dos efeitos tenebrosos da lua cheia, duas princesas. Das dez, elas foram as duas últimas a virem ao mundo. Começavam a desabrochar para a vida, estavam em plena adolescência. Maria teve dez filhos, um seguindo o outro, cada ano uma barrigada nova. Paria feito rato, acolhia sob suas asas uma ninhada de dez. As duas princesas atraiam os olhares dos “cabras”, dos matutos rapinas das intermediações e até de outros municípios. Aqueles meigos traços fisgavam os olhos de quem neles repousava por certo instante. As duas jovens adoravam a corte dos insetos que sempre passavam em frente à sua janela, contudo mantinha distância, temia a bravura do pai.

José andava preocupado com as filhas, a mais velha já estava com seus vinte e oito anos, ainda era uma donzela a sonhar com casamento. As outras nove também não tinham desencalhado. A norma das famílias da região sempre foi casar primeiro a mais velhas, sempre a mais velha até chegar à caçula. Com as mais novas, ele não se preocupava tanto, as mais velhas faziam a testa dele latejar. Vendo aquele movimento em sua porta, uma ideia tocou-lhe levemente em seus neurônios. Sorriu feliz. Iria resolver o problema que tanto o incomodava.

- Madalena, tenho uma missão para a senhora.

- Para mim, papai?

- Sim. Eu quero que você chame um desses rapazes que vira e mexe passa frente à porta em namoro.

- Mas eu não quero namorar nenhum deles.

- Você não irá namorar. Quando um deles se interessar por você, apenas converse com o matuto, diga-lhe que seu pai disse que com filha dele não há namoro, sim casamento.

- Eu estou nova para casar, papai.

- Faça o que eu lhe estou mandando, Madalena. Confie em seu pai.

Na mesma noite, um rapaz passou três vezes rente a moça que estava sentada em um banco sobre a calçada. Madalena o observava e sorria, tentava como uma flor atrair o afoito inseto. O matuto cheio de si criou coragem e puxou conversa. Ele sempre sonhara namorar a meiga Madalena.

- Meu pai disse que filha dele não namora, sim casa.

- Como assim? – falou o rapaz todo assustado.

- Se você quer algo comigo, deverá primeiro ir ao altar.

- Mas eu estou novo para casar?

- Sigo a risca as ideias de papai. Eu estou encantada com a sua pessoa, mas só poderemos ser felizes se casarmos primeiro.

- Sempre sonhei com você. Se for para casar, eu caso. Avise ao seu pai. Mande-o marcar a data.

- Para quando será o casamento?

- O mais rápido possível.

- Meu pai ficará feliz em casar a sua primeira filha.

- Mais feliz estarei eu após nosso matrimônio. Posso dar-lhe um beijo?

- Só depois das alianças. Regras de meu papai. Com o velho José não se brinca.

- Mas ele não está vendo.

- Você nunca ouviu falar que parede tem olhos e ouvidos? Só depois do casamento e pronto. Deixa de ser ansioso; um mês a mais, um mês a menos, passa rápido.

Corrido um mês, o rapaz estava no altar a espera da sua princesa. Sorridente, feliz da vida viu o pai da noiva adentrar ao templo guiando a filha. A noiva vinha com um lenço a tapar o rosto. José passou a filha ao noivo e ficou na retaguarda.

- Mas esta não é a Madalena! – protestou o rapaz ao ver os olhos da mulher.

- Esta é a minha primeira filha. Na minha casa, casa-se primeiro a mais velha, depois segue até a mais nova de todas. – O cano de um revolver ia rente à barriga do rapaz. – Ou casa, ou eu lhe matarei aqui mesmo, seu cabra. Será o primeiro homem a morrer em uma igreja vestido de noivo.

- Posso começar? – indagou o vigário.

- Quanto mais rápido melhor, santidade – balbuciou José.

A cerimônia transcorreu dentro da normalidade. A noiva estava radiante, iria se casar.

- Agora o noivo pode beijar a noiva – disse o padre.

- Beija-a agora! – José comprimiu o cano ao estômago do rapaz.

A primeira filha enfim desencalhou, restavam ainda nove. O velho José tinha a solução, a isca voltaria a ser armada; em breve um novo gaiato se perderia no olhar manhoso de sua linda e encantadora Madalena.

A oitava filha na linha hierárquica, diga-se de passagem, a mais feia de todas, foi ao altar graça a beleza da irmã mais nova e da esperteza do pai. O pobre do rapaz chegou a desmaiar no altar ao ver o rosto da noiva. Quis desistir, mas José o ameaçou, sacou a arma dentro da igreja e obrigou o padre a terminar a cerimônia. Após o casamento, o rapaz para enfrentar sua fera embriagava-se constantemente.

- Maria Bethânia, seu marido bebe demais. Você quer que eu faça com que ele entre nos eixos.

- De jeito algum, papai. Dentro de casa só somos felizes quando ele está embriagado.

- Por quê?

- Ele fala que quando está chumbado me ver com outros olhos. Ele disse que quando me viu pela primeira vez pensou está diante a Madalena, como naquela ocasião tinha bebido muito, acredita está na bebida a solução de seu problema. Quando ele está de fogo na bebida, ele coloca fogo no nosso relacionamento. Por isso sempre reservo um litro debaixo da cama. É só beber e o pau quebra. Quando está são fica amuado, triste, nervoso. Como sei a solução, mantenho-me paciente e prevenida.

- Você é quem sabe.

O rapaz sempre avisava nas rodas de boteco que bebia muito até chumbar porque não conseguia olhar para o rosto da esposa em sã consciência, quando ébrio tudo fluía a mil maravilhas.

- Para encarar o diabo só com muita cachaça na mente – afirmava o rapaz.

Das dez filhas, nove estavam casadas, apenas a filha que casou oito das irmãs ainda esperava por um príncipe.

- Madalena, chegou a sua hora de casar-se. Não me venha com homem feio e pobre, pois já tenho oito cabras sugando meu sangue, apenas um levou uma das suas irmãs para longe, justamente a que não precisou da sua ajuda. De dor de cabeça já ando cheio. E de prejuízo também. Deus me deu dez mulheres e nenhum homem.

- Eu só casarei por amor, papai.

- Olhe lá esse seu amor. Não me traga mais um matuto para comer da minha boia. De preferência esse amor tenha recursos, propriedades, posição social.

- Quero alguém com tudo isso e ainda por cima seja bonito. Depois de ter enrolado oito trouxas, conseguir um homem para mim não será muito difícil.

- Esta é a minha filha do coração.

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O folclore de um povo representa a sua singela beleza

ago 22 2015 Published by under Zé do Bode

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Rapaz, neste Sertão nosso o que têm aos montes são casos a pôr valentão para se borrar de medo. Não venha para cá dizer que se trata de mentira, de crendice, de histórias de gente de roça. Aqui já vi muita assombração. Certo dia, acordei antes do galo, ao abrir a porta, gelei-me dos pés à cabeça. Bem em minha frente, passou um senhor de capa preta montado em um cavalo branco, na mão segurava uma taca; na outra, a rédea do animal. Estalou o chicote três vezes na minha direção, empinou o cavalo e saiu loucamente no meio do mato. Retornei para cama de imediato, o serviço que eu iria fazer, acabei deixando para o desenrolar do dia. Meu primo um dia me contou que se encontrava na beira de uma aguada esperando um veado, ele estava armado de cartucheira, bom atirador. Era uma noite de lua cheia, fazia calor. Estava ele tranquilo, quase cochilando, quando, de repente, escutou uma pisada nas folhas secas que repousavam no chão. Arregalaram-se os olhos. Dois segundos depois, um susto, o pequeno Curupira apareceu dançando em sua frente, fazia careta, mostrava a língua, assoviava. O medo o tomou por completo, ergueu a arma, mirou bem na cabeça daquele ser e disparou. O tiro se perdeu pelo mato a dentro. O homem desesperado saiu a correr, o Curupira a gritar o seguia. Minha mãe contava que quando ela era criança o Berrador atacou um amigo dela, por sorte só perdera a mão. Havia uma casa velha e mal-assombrada, quem chegasse ao portão dela e gritasse em noite de lua cheia três vezes o nome Berrador, a assombração aparecia. A criança gritou o nome Berrador três vezes, o bicho apareceu e devorou a mão esquerda do garoto. Muitos dizem por aí que já viram a Mula-sem-cabeça, o Saci-pererê. A Mulher-de-branco seduz os homens pervertidos, quantos não já acordaram pelados no banco da praça para zombaria da cidade toda. Já o Lobisomem persegue as donzelas que se aventuram pela noite escura. Na nossa terra, não há homem que entra sozinho em um cemitério à noite. Neste mundo de Deus, há muitas coisas das quais desconhecemos. Pelas ruas vagueiam muitas visagens. O povo acostumou dizer que é tudo Folclore, imaginação fértil de um povo criativo. Esclareço um ponto, se algum dia estiver no Sertão, sempre carregue no bolso um amuleto: um dente de alho, um pé de coelho, um raminho de arruda, um crucifixo, uma “ferradura”… Quem é amigo verdadeiro não deixa o companheiro passar por apuros. Vou falar a última que anda na boca do povo, falar-lhe-ei ao pé do ouvido, baixinho: “Na noite passada, um Vampiro atacou a mulher do Coronel. Eu não vi não, mas me disseram que há uma mancha vermelha no pescoço dela”. Alguns incrédulos estão dizendo que a gazela pula cerca. Tudo isso aí e mais um pouco faz parte do nosso maravilhoso Folclore. Viva o Dia do Folclore, Viva 22 de Agosto!

Crônica de Zé do Bode.

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A felicidade é dona do meu ser

ago 20 2015 Published by under Contos, Crônica

Hoje eu acordei feliz da vida. Mal abrir-me os olhos e já soltei uma gostosa gargalhada. Não me pergunte por qual motivo, pois nem eu mesmo sei explicar. Um passarinho logo roubou minha atenção, corri à janela, o danadinho cantava em demasia, quanta ternura, quanto amor naquele singelo ato. Fiquei por alguns minutos ali perdido no meu delírio de contentamento. A avezinha se foi, eu deixei a janela e fui cuidar da vida. O sorriso me acompanhava por onde quer que eu fosse. As asperezas do mundo não achavam encosto em mim, estava brindado contra a perversidade humana. De tempo em tempo, soltava uma gostosa gargalhada, muitos me olhavam espantados. Estaria eu doido? Talvez seja fruto da felicidade deixar seus atores meio bobos. Certo momento, deparei-me com um indivíduo que, insatisfeito com meu estado de luz, resolveu lançar um obstáculo ao meu brilhante caminho. Pisou em meu pé com força, desejava um revide, queria acabar com minha felicidade nos bofetões. Olhei-o nos olhos, doía, como doía aquela atitude do camarada que nunca tinha visto na vida. A dor era tanta que para não chorar eu gargalhava. Um minuto cruel que demorou bastante para passar. Ele tirou o pé sobre o meu, e ainda por cima me empurrou, estava zangado e em fúria. Por onde minha felicidade passava incomodava a legião de depravados que pululavam ao meu redor. A luz do meu sol incomodava os asteroides apagados e duros de sentimento que vagavam pela vida feitos fantasmas prontos a colidirem com outros corpos. Estando a multidão atolada na lama, com a corda ao pescoço, queria me arrastar para a sujeira em que se via metida. Aqueles seres ruminavam as fezes que comeram no desenrolar da existência. O mundo humano insensato e perverso trabalhando para o mal-estar social. Sorrindo deixei o ar podre da cidade, das aglomerações, da imundície dos irmãos; sorrindo procurei o passarinho, pela primeira vez no dia meu sorriso alegrou outro ser, ser este que ao notar minha felicidade cantava cada vez mais para não cessar aquele instante mágico. Nossa amizade a partir daquele dia criou raízes profundas, passamos a nos ver todos os dias. Se meu sorriso não faz bem aos irmãos humanos, guardo-o para oferecer ao amigo passarinho. Não adianta compartilhar a luz com os que adoram a escuridão.

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Minha manifestação

ago 18 2015 Published by under Zé do Bode

Compadre João agora há pouco esteve em minha residência, perguntou-me se eu assistir a tal da manifestação pela TV. “Manifestação”, pensei comigo mesmo, do que se trata. Ele me explicou nos mínimos detalhes. Disse-me que o nosso país passava por crise, que havia muitas pessoas perdendo o emprego, que a corrupção estava por todos os lados, que isso, que aquilo outro, que tantos quilos que me cansei deste negócio de manifestação. Compadre João está ficando lelé da cuca. Eu ia lá ter tempo de ficar o dia todo defronte a um televisor. Parece que ele ignora que eu preciso trabalhar. Sou homem da roça, do meio do mato, do Sertão seco da Bahia, estou na lida de domingo a domingo. Quem neste mundo senão Deus olha para um bicho do mato como eu? Já pensou se me atrevo a entrar nesta de manifestação; já pensou eu com uma bandeira na mão, uma corneta a gritar e apitar pelas ruas da nossa pequena e pacata cidade? Pensou que cena cômica não seria? Certamente me levaria em cana, ou me internaria em uma clínica psiquiatra. Enquanto para uns manifestação é normal, para nós é caso de polícia. Sou bicho do mato, manifestação não me pertence. Aqui em minha terra o que nunca faltou foi crise, foi falta de emprego, foi corrupção, foi fome, foi seca. Enquanto todos brigam por luxo, para mim só chega farinha, feijão e arroz. Isso é: quando chega. Será se fizéssemos uma manifestação no Sertão, alguém nos ouviria? Por isso me apego a Deus, Ele há de ter reservado um lugarzinho no paraíso para os sofredores.

Crônica de Zé do Bode.

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Tributo à pátria amada Brasil

ago 15 2015 Published by under Poemas

Tributo à pátria amada Brasil.

 ***

O dia se abre em flor

Exala perfume infantil

O doce suave das estações

Paira por sobre o Brasil

Na inocência das emoções

Do nosso torrão varonil.

  ***

Que sol, que dia, que mar

Que manhã adocicada

Que tenra infância

Que gigante Pátria

Que singela criança

Que Nação amada.

 ***

O sol do meio-dia vai longe

No firmamento a flutuar

Somos meros adolescentes

Buscando algo conquistar

Enfrentando grandes serpentes

Confiante em um só caminhar.

  ***

Somos um povo sem guerra

Guerra não há neste chão

Chão abençoado por Deus

Deus em nossa oração

Oração que floresceu

Floresceu com muita paixão.

  ***

Do índio dono das matas

Ao branco europeu

Dos africanos braços

Um gigante apareceu

Da miscigenação das raças

O mais lindo País cresceu.

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Estou levando cadáveres no bagageiro do meu carro

ago 13 2015 Published by under Contos, Crônica

Amigo, estou transportando três cadáveres no porta mala do meu carro. Foi minha esposa que teve a maldita missão de degola-los vivos. Depois de mortos foram todos esquartejadas, lavados, temperados e assados. Aqui dentro do automóvel está um cheiro forte. Agora acabamos de passar defronte a um posto policial. O aroma era para chamar a atenção. Continuo a dirigir. Minha esposa está sorridente ao meu lado, feliz da vida, só pensa na praia onde estamos indo passear. Cheira bem esses cadáveres. Quando na areia da praia, vamos comer pedaço por pedaço; os ossos daremos ao nosso cão que não para de salivar na gaiola no banco de trás, parece estar com muita fome. Aqueles três frangos caipira que ontem estavam vivos, daqui a pouco cantarão nos nossos estômagos. O povo sempre a pensar besteira. Que eu saiba, matar frangos não é crime. Come-los também não. Deixe-me seguir viagem, hoje é feriado, é dia de praia, dia que se come frango com farofa e se bebe muita cerveja gelada. Observação: Na volta, a minha esposa conduzirá o veículo.

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Todos nós temos problemas

ago 10 2015 Published by under Contos

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Quem neste mundão de Deus não possui algum tipo de problema? As dificuldades fazem parte da vida diária de qualquer ser vivo; lutar pela vida, buscar o alimento, procriar e cuidar da prole são algumas asperezas do andarilho que segue o curso natural.

Vivemos em um mundo onde muitos tentam encontrar soluções para problemas complicados e difíceis de serem compreendidos. Procurar pelo auxílio de pessoas com dons sobrenaturais é algo corriqueiro na vida de algumas pessoas. Benzer, passar o ramo, fazer um despacho, jogar os búzios, ler as mãos, tirar o baralho…

Certo dia, uma amiga convenceu um amigo a ir à residência de um “benzedor”. De tanto insistir, de tanto implorar, o rapaz enfim fez o gosto da moça. Ao adentrar na moradia humilde, paredes sem reboco, uma mesa, quatro cadeiras, raios de sol a entrar por buracos no telhado, um gato dormindo no canto da sala. Três salvas de palmas, o senhor chegava de vagar apoiado por um pau que lhe servia de bengala.

- Boa tarde – disse o ancião.

- Como vai o senhor? – indaga a moça.

- Vou bem, minha filha, vou bem.

- Estamos aqui para receber a sua bênção – disse a moça.

O rapaz, quieto, estava com o rosto contraído, colocava-se na defensiva.

- O visitante não está muito a vontade. Sente-se. A casa é de pobre, mas de boa gente.

- Estou passando por uns dias pesados, sinto-me carregada – a moca explicou.

- Qual é o problema do rapaz mesmo?

- Não tenho nenhum problema – disse secamente o rapaz.

- Todos nós temos problemas – falou mansamente o idoso.

- Pois eu não tenho – redarguiu o rapaz com rispidez.

- Não ter problema nesta vida já é um problema, problema dos grandes. Seu problema é descobrir qual o seu verdadeiro problema. Seu problema, pelo jeito, é de difícil solução.

- Ele não acredita no seu poder de cura – explicou a moça.

- Eu não curo ninguém, minha filha. Quem tem o poder de realizar é o todo poderoso e bom Deus. Sou apenas um velho que dentro das possibilidades tento ajudar as pessoas que me procuram. O rapaz não precisa ficar de cara amarrada, não pretendo lhe convencer a nada. Acreditar ou não, tanto faz, pois a vida passa, passa rápida demais. O senhor diz não possuir problemas, mas sei que seus problemas a você pertencem. Tenho cá os meus, acredito que maiores que os do senhor. Nem por isso fico emburrado. Sua postura não resolve. Ser velho já é um lascado problema, conviver sempre com o medo da hora da morte é cruel. É natural ter medo do desconhecido. É natural. Vou colher alguns ramos para lhe benzer, minha filha.

O idoso foi ao terreiro ao lado, pegou alguns ramos de são-joão, retornou lentamente. O rapaz sempre o olhava de soslaio. A moça se colocou ereta. O benzedor foi passando o ramo pelo corpo dela, ao mesmo tempo balbuciava algumas rezas.

- Sinto-me aliviada – murmurou a moça. – Parece que tirei uma tonelada dos ombros.

- O rapaz deseja que…

- Não, muito obrigado.

- Sendo assim. Tudo bem.

- Nós temos que ir agora – falou a moça. – Outro dia retornarei.

- Fique mais, vamos conversar. Sei que não tenho estudo para uma conversa a altura, mas por ser velho tenho muita experiência de vida.

- Prometo que voltarei para uma conversa mais demorada.

- Não demore muito, pois sou um velho, e velho sempre tem que está preparado para uma abrupta partida.

- O senhor ainda viverá muitos anos.

- Sou um fruto maduro preste a se soltar do galho.

O rapaz se adiantou, venceu a porta; a moça o seguiu em passos lentos; o benzedor ficou a janela a observar a partida dos dois. Aquele pequeno encontro se desfez, os caminhos cruzados se desfizeram, cada um dos personagens procurou seu rumo.

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Homenagem aos Pais

ago 09 2015 Published by under Poemas

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Homenagem aos Pais

***

Feliz daquele que tem um pai

Feliz de um pai que tem um filho

Há muitos filhos sem pais

Há muitos pais sem filhos

Pais que são pais e não são pais

Pais que são e sempre serão pais

Filhos que são filhos e não são filhos

Filhos que são e sempre serão filhos

Existe o dia dos pais

Existe o dia dos filhos

Todos os dias são dos pais

Todos os dias são para os filhos

Homenagem se faz a qualquer momento

Homenagem se recebe agora mesmo

Grite para todos: “Eu tenho um pai!”

Grite para todos: “Eu tenho um filho!”

Pais que amam os filhos alegram a Deus

Pais que são amados pelos filhos agradecem ao Céu

Filhos que amam os pais seguem o caminho de luz

Filhos que são amados pelos pais há muita luz pelo caminho

O dia é para os pais sorrirem

O dia é para os filhos darem sorrisos

Feliz dia dos pais, meu pai!

Feliz eu estou neste dia, meu filho!

A alegria do pai é a felicidade do filho

A alegria do filho é ter um pai amigo

Obrigado, meu pai, por eu ter nascido

Obrigado, meu filho, por você ser meu filho

Viva os pais do mundo todo!

Viva os filhos de todo mundo!

Para os pais um único dia?

Que nada

Para os pais todos as horas, minutos e segundos.

***

Feliz Dia dos Pais para todos os Pais do mundo.

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Ao final da besta guerra apenas vencidos

ago 09 2015 Published by under Zé do Bode

Hoje fiquei sabendo que fez setenta anos nesta semana que Hiroshima e Nagasaki foram alvejadas, cada uma, por uma “bomba atômica”. Assistindo ao noticiário do telejornal, perdi-me um momento em reflexão. Observando aquelas imagens de destruição e terror, fizeram-me doer o coração. Milhares de pessoas mortas em fração de segundos, outras no decorrer dos anos vítimas da radiação. Simplesmente desintegraram no ar, sumiram, no muito sobraram uma sombra onde antes se encontrava uma pessoa. O que uma guerra produz, meu Deus? É a loucura desembestado do homem solta sem rédea tampouco freio. Tanta calamidade por uma ideologia egoísta de certos governantes autoritários e mandões. A luta começa por começar, homens trucidando homens sem saber qual o verdadeiro motivo. Bombas, tiros, facas; mortes, deficientes, cicatrizes. Da guerra não se germina flor, da guerra apenas espinhos pontiagudos. Aquelas duas bombas foram preparadas com cuidado por homens que possuíam filhos e esposas, pais e mães, uma casa e um cachorro; sem atentar para a sua felicidade acabou apagando a de muitos. De um lado do fronte a besta; do outro lado, outra besta. O homem guerreia porque não aprendeu a amar. Se temos nas mãos a oportunidade de vivermos em paz e em uma manjedoura de felicidades, para que trocarmos nosso conforto por brigas que nos fazem parecer a loucos. Aquela bomba voando pelo ar a procura de um alvo predeterminado; na cidade, a rotina do dia a dia seguindo o mesmo curso leve; de repente, um pingo de luz converte a realidade em pó. Os anos passam e a distância nos faz esquecer o horror daquele momento, conquanto as imagens estão vivas para servirem de meditação. A dor que a população daquelas cidades passou não tem tamanho; os sobreviventes, em sua grande maioria, deformados e queimados, muito padecimento, muitos gritos, muitas lágrimas, um verdadeiro terror. Ao final da besta guerra apenas vencidos.

Crônica de Zé do Bode.

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A bagunça dos políticos afunda o Brasil na lama

ago 07 2015 Published by under Zé do Bode

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Estava aqui sentado em meu sofá velho, ou seria melhor dizer no meu velho sofá, estava não, estou sentado a meditar sobre uma notícia que acabara de passar na televisão. Ganho apenas o suficiente pouco para sobreviver, sou pobre, sou sertanejo, moro no meio do mato. Minha vida é penada, acordo com os galos, dou duro sob o sol quente, trabalho feito condenado, padeço sim, talvez por ter como virtude a honestidade. Vendo este rebanho de canalhas batendo boca ao vivo, pessoas que deveriam servir de exemplo, xingam, brigam, mente. Como pode nosso País tão rico estar entregue a tipos repugnantes de pessoas? Se pautássemos nossos atos nos bons valores, como não seria esta Pátria em que tudo se planta dá. Ultimamente, só estamos colhendo misérias, corrupção e desmando. Cadeia para os bandidos! Abaixo os hipócritas! Escolas para nosso filhos! Não basta educação de sala de aula apenas, pois se valesse muito para formação do caráter, o congresso com a grande maioria tendo nível superior seria um espelho do céu. O que se ver é o contrário, a casa dos deputados e dos senadores se assemelha ao inferno. Coisa feia, nojenta, pegajosa! O desmando é tamanho que os malfeitores da Nação sequer dão conta das garras que possuem. Os morcegos que gozam de polpudos salários se dizem injustiçados pela pouca quantidade de dinheiro que entra no bolso mensalmente. Querem mais, mais, e mais! Querem tudo! Usurpam o patrimônio nacional para comprarem carros de luxo, mansões, bebidas caras, viagens, orgias. Estamos perdidos, irmão Honesto! Salte do barco enquanto há tempo. Oh, Deus, não nos abandone em meio a treva! Desça do Céu e nos ajude a estancar esta loucura que os brasileiros carregam no peito! Arranque de dentro de nós este gosto amargo de corromper para levar vantagem. Deus, Deus, Deus! Escute o clamor de seu filho. A cruz da Nação é pesada, temo não suportar. Aos canalhas da Pátria apenas um pedido: “Pensem menos no bolso e olhem com carinho para o povo que os outorgaram como autoridades. Desejem o sucesso do Brasil. Esqueçam sua picuinhas particulares”. Não merecemos tantos desmandos. Possuído pela ódio desliguei a televisão. Meditei um pouco e percebi que telejornal não faz bem para um homem direito, só passa coisa ruim. Ainda bem que tenho meu velho sofá para me restabelecer a paz. Agora calmo, tranquilo, dentro das minhas faculdades, retorno ao tema e faça um novo comentário: “Tenho dó dos deputados e dos senadores, pois como Jesus disse na cruz: ‘Eles não sabem o que fazem’, não sabem mesmo”.

Crônica de Zé do Bode.

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