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Empréstimo Consignado nem a pau!

jul 16 2015 Published by under Zé do Bode

Hoje fui ao banco para retirar meu beneficio da previdência. Ao chegar lá, o gerente logo veio me atender, fez-me sentar em uma poltrona confortável, mandou trazer café, biscoitos, ofereceu-me até uísque. Pela primeira vez na vida, senti-me como gente. Seria eu um rei? Tudo isso porque sou um aposentado. O homem começou com o seu palavreado enrolado, vai para um lado, volta, começa a repetir o começo, tentava dá um nó em meus neurônios. Quanto mais a conversa prolongava, mais eu gostava. Até ar-condicionado tinha a minha disposição. Ao final, ele me disse que havia um negócio ótimo para mim. Tudo aquilo já era bom demais, agora um negócio bom… Pedi a ele que adiantasse a conversa, disse que estava gostando. O gerente me falou de dinheiro, de um empréstimo, de móveis novos, de uma TV de Led, ar-condicionado no quarto, geladeira, computador. Eu não estava acreditando no que ele me dizia. Parecia ser ele o gênio da lâmpada. Explicou-me que só precisava de meu aval, de uma simples assinatura. Indaguei-o sobre do que se tratava. “Trata-se de Empréstimo Consignado”. Desejava que eu assinasse os papeis na hora, sem sequer ler o que estava escrito. Para surpresa e desgosto dele, falei que em minha casa o galo cantava fino, que quem mandava era a mulher, sem o consentimento dela, nada feito. Deixei as dependências do banco com o meu dinheiro mensal. Dirigi-me para casa, mas antes parei para prosear com o velho amigo João Caboré. Ao adentrar em sua residência, antes humilde, agora toda equipada, levei um baita de um espanto. De onde havia saído tudo aquilo? Ele me respondeu que o gerente do banco lhe emprestou alguns dinheiros, que em pouco tempo estaria tudo pago. Quantos meses: “Vinte e quatro, passa voando”. Em dois anos? Demorará muito não. Estava com sede e pedi-lhe um copo com água, de preferência gelada. Recebi como resposta que só havia água do filtro. Mas e a geladeira nova? “Cortaram a energia da minha casa. Fiquei sem pagar a conta”. Quer dizer que o matuto compra tudo isso e deixa cortar a energia. Coisa de louco. Caboré me explicou que o beneficio dele ficou reduzido, passou a receber uma merreca, mal estava dando para comer. Pobre homem, no terreiro dele o galo canta fino, a mulher o obrigou a pegar o dinheiro oferecido pelo gerente. Indaguei-o quanto tempo iria ficar recebendo a merreca; disse-me que em dois longos anos. A matuto desgraçado! Vinte e quatro meses é pouco, contudo dois anos são longo. Compadre, João Caboré, o gerente me tentou enfiar este tal de empréstimo consignado goela abaixo; sou da roça, porém não sou besta; mentir, disse que lá em casa quem mandava era a mulher, o besta acreditou. Lá em casa, o galo canta grosso e cedo. Galo vacilou, ficou preguiçoso; faca no pescoço e panela! Meu avô já me dizia: “Quando vem em sua porta, corra, pois se fosse bom, não chegava a lhe oferecer”. Devemos sempre obedecer os mais velhos. Agora fica o governo incentivando o povo a tomar o Consignado; os bestas entram de cabeça; no final, os grande se tornam maiores, e os pequenos só diminuímos de tamanho. Mês que vem voltarei ao banco, desta vez vou aceitar o uísque.

Crônica de Zé do Bode.

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