Archive for: julho 4th, 2015

As cores da vida são colírios para os olhos

jul 04 2015 Published by under Zé do Bode

Hoje eu acordei e a primeira coisa que vi na televisão foi que alguns palermas insultaram uma apresentadora. Como pode um bando de desocupado sair por aí difamando os outros? A apresentadora é bonita, é inteligente, é rica, é famosa, é mais um monte de coisa mais. Agora vem um bando falar de cor. Sabem de uma coisa: vocês estão mesmo é com dor de cotovelo. Já que vocês pensam que são superdotados só porque são brancos, usem seus superpoderes, seja como o Sol que com o brilho do seu corpo faz nascer a vida. Para esse bando de desocupado tenho em minhas mãos um cinto, caia no meu terreiro que vocês irão ver a força do negão.

Crônica de Zé do Bode.

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Num país lascado como o nosso ganhar oito mil é pouco

jul 04 2015 Published by under Zé do Bode

Fico aqui no meio do mato vendo esta porqueira de televisão, que não passa nada que presta, quando não é político ladrão, é horário político, quando não é isso, é morte, é atropelamento, é tragédia, é novela sem história, é história sem personagem, é programa que não acaba mais, mas nenhum me agrada. Sou da roça, do Sertão, sou pobre, sou de uma nação lascada, por isso sou lascado também. Hoje vi falar que têm pessoas por aí que ganham oito mil reais e que acham pouco, estão fazendo greve, protestando no congresso, querem aumentar seu bolso por mês em mais cinquenta e tantos por cento. Eu só recebo um tal de salário mínimo, sou pobre volto a afirmar, mas nem por isso deixo de ser feliz, passo no fio da navalha todos os meses, às vezes compro a prazo, outras vezes saio a pedir, mas digo de antemão, ladrão eu não sou não, ganho pouco, contudo desejo ir para o céu. Oito mil reais é pouco, pouco que nada, com oito mil reais todos os anos eu viajaria para o exterior, conheceria Miami, Canadá, Roma, Veneza, Barcelona… Oito mil é pouco, logo para mim, conte outra, vá morar em outro país, aqui com essa não, pais lascado como o nosso oito mil é salário para alto escalão. Quando vejo essas coisas na televisão chego a pensar que eles estão falando a verdade, ainda bem que se trata de programa humorístico, quase me derreti de ri. Povo esperto, tirou a Escolinha do Professor Raimundo do ar para por algo mais engraçado ainda. Onde já se viu oito mil reais ser pouco? Nem na China, quanto mais no Brasil lascado que moramos. Sou do Sertão, aqui nem água temos direito, meus dentes foram ficando pelo caminho, meus pés tem rachaduras que formigas já fizeram formigueiros dentro, quando penso que já vi de tudo, não é que vem os engraçadinhos com algo novo, ô povo criativo este nosso. Se acha que oito mil é pouco, por favor, não demore, venha a minha humilde residência e troque o seu ordenado pelo meu salário mínimo. Se vier tomaremos café, fumaremos cigarro de palha, jogaremos conversa fora, no final ficarei feliz e sorrirei a vontade com meu contracheque de barão. Não demore, venha mesmo, estou lhe esperando. De quando eu assistir esse programa passei a sonhar com oito mil reias, estou pensando em ir a Brasília pedir reajuste do salário mínimo. E aí, você que tem um salário igual ao meu me acompanha?

Crônica de Zé do Bode.

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Crônicas de Zé do Bode

jul 04 2015 Published by under Zé do Bode

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Você conhece Zé do Bode? Não? Pois sou eu mesmo em pessoa e alma. Um cabra das catingueiras do Sertão, cabra macho, cabra de decisão. Comigo não tem essa de deixar para amanhã, resolvo tudo é na hora, por isso peço que mantenha distância, pois só ando sem freio e sem direção. Muitos irão indagar por que Zé do Bode? Adianto-lhe logo que nunca criei sequer um animal dessa espécie. Lembro-me bem quando tudo começou, foi no tempo em que eu ainda era garoto, nos meus saudosos dez anos. Primeiro dia de aula, a professora fazia a chamada: “José”. Meu amigo a corrigiu de imediato: “O nome dele é Zé, professora”. “Zé é a abreviação de José, respondeu a professora”. Outro moleque, engomado igual ao pai, filho de família de posses várias, levantou sorridente e se fez escutar: “Se é Zé, então é Zé do Bode”. A turma toda sorriu de mim em farta gargalhada, quase chorei de raiva, tremi, tive vontade de voar no pescoço dele. O danado não sabia com quem estava mexendo, mexia com bicho do mato, com onça, com caititu… Pois bem, deixei a sala alguns segundos antes de tocar a sineta. Fiquei a esperar em tocaia, assim que o cabra safado saiu em correria alegremente, sem saber encontrou um pé, o tombo foi inevitável. Ele no chão e eu a descarregar toda a minha fúria, murros e pontapés. Resultado: no primeiro dia de aula fui expulso. Ao adentrar em casa, foi minha vez de apanhar, minha mãe me deu uma surra de chicote, fiquei dias mancando, contudo aprendi a lição. Deixemos essa conversa de lado. Sou filho de Maria, não tenho pai, não tenho avôs, não tenho mais nenhum parente. Ainda jovem, escutei na casa de gente grande um menino perguntar a genitora: “Mãezinha, Zé está me dizendo que não tem pai”. A mãe respondeu: “Toda pessoa tem um pai”. Fiquei com aquilo na cabeça, indaguei a minha mãe: “Mãezinha…”. Recebi um tapa nas ventas, ela brava resmungou: “Que negócio é esse agora de me chamar de mãezinha? Virando menino mimado agora é? Você torne, seu cabra”. Nunca mais voltei a pronunciar tal palavra. Só queria saber qual o nome do meu pai. “Se alguém lhe perguntar quem é seu pai, diga que você é filho do Espírito Santo”. Só fiquei sabendo quem era o Espírito Santo quando perguntei ao padre da nossa capelinha de São João. Meu nome é José Zacarias, mais conhecido nas terras secas do nordeste por Zé do Bode, filho de Maria, lembrando a história de Jesus, filho sem pai.

Crônica de Zé do Bode.

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