Archive for: junho, 2015

Indo ao cemitério à noite

Uma rotina nas cidades pequenas do interior do Sertão, locais onde a amizade prevalece, estar nas rodas de conversas nas praças ou bancos defrontes às residências se faz de um habito corriqueiro das noites escuras ou enluaradas. No meio do grupo, volta e meia um assunto assombroso domina as mentes. Falar em histórias de terror, casos ocorrido na região, levam muitos a se arrepiarem de pavor. De onde nasce este medo do desconhecido? Muitos dos que escutam sequer conseguem dormir quando retornam para casa.

Estava um aglomerado de jovens a dialogar em alto timbre. Alguns falavam, outros apenas escutavam inquietos. A noite era virgem de lua, as nuvens possuíam o céu, fazia frio e o vento soprava para o norte. O assunto seguia os casos que narravam acontecimentos sobre fantasmas, defuntos, almas penadas…

- Eu duvido que alguém aqui tenha coragem de ir ao cemitério apanhar um rosário no cruzeiro – afirma uma moça. – Dizem cada caso medonho daquele lugar.

- Se alguém for comigo, eu irei – afirma um rapaz.

- Não, não, não! Tem que ir sozinho. Acompanhado não vale.

- Sozinho? Vou não. Sou doido?

- Dizem os mais velhos que em certos dias um cavaleiro deixa o cemitério montado em seu cavalo negro, só se escuta o barulho dos cascos. Uma mulher já viu a cena, dos dois só se viam os olhos. Dizem que ele desce a ladeira da ponte e vai ao curral ordenhar as vacas.

- Minha mãe me contou – adentrou na conversa um jovem assombrado – que há uma alma penada no cemitério, uma mulher vestida de noiva. Todas as noite esta mulher levanta da sua sepultura vestida de branco e vai à igreja na esperança de se casar. A coitada morreu afogada no dia do casamento, foi enterrada com o tal vestido. Ela espera por um marido.

- Já escutei em um boteco que existe um grupo de cinco cachaceiros fantasmas – narrou outro rapaz. – Eles sempre deixam suas tumbas para irem tomar uma nas rodas dos embriagados.

- Será se há alguém aqui corajoso? – indaga a moça. – Acho que aqui só têm medrosos.

- Por que você não vai até lá? Você não é a corajosa?

- Eu! Deus me livre.

- Olhe quem vem logo ali – grita um dos jovens.

- É Biaca – disse a moça. – Biaca é corajoso. Ele não é igual a vocês, um bando de covardes.

- Qual é o assunto? – indaga Biaca.

O homem chegara embriagado, vestia um paletó azul-marinho.

- Você é corajoso, Biaca? – indaga a moça.

- Claro. Por que razão me pergunta? Nesta cidade não há homem mais corajoso que eu. Se tiver, apresente-me, porque ainda não o conheço.

- Ninguém aqui tem coragem de ir ao cemitério apanhar um rosário no cruzeiro. São todos medrosos.

- Vocês querem que eu vá?

- Queremos – disseram todos em uma só voz.

- Espere-me para ver. Não vão embora antes que eu volte.

- Para termos certeza da sua ida ao cemitério, por favor, apanhe o rosário azul.

- Se quiser eu trago todos.

- Dizem por aí que as almas penadas não deixam ninguém levar um rosário daqueles no decorrer da noite. Quem lá vai se dá muito mal.

- Crendices deste povo supersticioso.

Biaca saiu vacilante em direção ao cemitério, de paletó andava sozinho em meio ao silêncio. A turma procurou um local adequado para observa-lo.

Naquele tempo, o cemitério estava cercado em uma das suas quatro partes, o muro havia caído. Na chegada, o corajoso homem adentrou pela porta da frente, resoluto e firme passou entre as carneiras. Ao chegar ao pé do cruzeiro, olhou para cima e viu o rosário azul, ao levar a mão, assim que seus dedos tocaram o objeto, um piado de coruja o fez arrepiar dos pés à cabeça, o coração acelerou, do rosto suor gelado começou a escorrer. Apanhou o rosário e procurou a saída mais próxima. Sentia que algo o observava, passou a ter medo, adiantou os passos, abaixou o arame e tentou transpor a cerca. Algo o segurou pelas costas, ele tentava se livrar, não conseguia.

- Solte-me, sua alma penada! Solte-me! Eu lhe devolvo o rosário.

Algo o segurava, não havia jeito de soltá-lo. No susto, Biaca deixou os braços saírem das mangas do paletó, o rosário ficou pelo chão. O homem saiu loucamente em correria.

O grupo o esperava no meio da rua. Ficaram todos espantados ao verem Biaca vindo assombrando e correndo sem o seu amado paletó de todos os dias.

- O que foi que aconteceu, Biaca? – indaga a moça. – Cadê o seu paletó?

- A alma penada! Ela não me deixou sair com o rosário. Segurou-me pelas costas. Só me soltou quando joguei o rosário no chão.

- E o seu paletó?

- Ela ficou com ele.

- Não vai voltar para pegá-lo?

- Deus me livre. Se não fosse o meu paletó, o que seria de mim agora.

O grupo ficou por ali algum tempo mais. Ninguém queria ir para casa sozinho. Estavam todos com medo. O sono, para eles, foi repleto de pesadelos.

No outro dia cedo, a cidade toda já sabia do ocorrido. O padre cheio de si resolveu tirar a história a limpo. Foi ao cemitério. Ao chegar próximo a cerca, de imediato descobriu do que se tratava. No chão estava o rosário azul, enganchado no fio do arame-farpado encontrava-se o paletó azul-marinho de Biaca.

- Alma penada! – refletiu o padre. – Que nada.

História baseada em fatos reais.

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Um mais um?

jun 18 2015 Published by under Contos

Dois jovens dialogavam sobre tolices do dia a dia. Eles estavam metidos em assuntos furteis, literalmente “jogavam conversa fora”. A prosa seguia seu rumo costumeiro, algo vazio, sem importância, um tanto sem nexo. Nesta pequena roda de conversa, algo apareceu para tirar o sossego, um assunto nebuloso, forte o bastante para fazer-lhes perder os cabelos.

- Um mais um? – indagou Moreno.

- A prosa nossa está mesmo ruim – resmunga Galego. – A que ponto chegamos?

- Responda-me a pergunta que lhe fiz. Um mais um?

- Um mais um é dois.

- Um mais um é dois?

- Com certeza.

- Será?

- Claro. Todos sabemos que um mais um é dois. Foi desta maneira que aprendemos na escola.

- E dois mais dois?

- É fácil demais. Dois mais dois é quatro.

- Dois mais dois é quatro? Há algo estranho.

- Errado? Você está me chamando de burro?

- Cinco mais cinco?

- Cinco mais cinco é dez?

- Algo não bate. Parece que você não sabe fazer conta de adição.

A professora de nome Branca passava pelo corredor naquele instante.

- Professora! Professora! – grita Galego. – A senhora poderia nos responder uma pergunta?

- Claro. Qual pergunta?

- Meu amigo me indagou sobre uma questão de matemática. Eu o respondi corretamente, mas ele está falando que respondi errado.

- Sou professora de português. Talvez eu possa ajudar. Qual foi mesmo a pergunta que ele lhe fez?

- Professora, eu perguntei a ele quanto é um mais um – explicou Moreno.

- Eu respondi a ele que um mais um é dois, que dois mais dois é quatro, que cinco mais cinco é dez.

- Tem algo estranho na resposta dele, professora – fala Moreno. – Um mais um é dois, dois mais dois é quatro… Algo não soa bem.

- Não sou professora de matemática, todavia já sei qual é o erro. O erro se encontra na concordância do verbo “Ser”. Um mais um são dois, dois mais dois são quatro, cinco mais cinco são dez.

- Não lhe falei que tinha algo errado.

- Verdade. Um mais um são dois, dez mais dez são vinte…

- Tem mais alguma pergunta? – indaga a professora.

- Não – disse Moreno. – Muito obrigado por nos ter ajudado. Aprendemos muito nesta nossa conversa. Depois falam que jogamos conversa fora, às vezes aprendemos um pouco também.

- A vida ensina a todo momento – disse a professora enquanto começava a andar.

- A professora tanto é inteligente como bonita. Nunca mais me esquecerei que um mais um são dois… – reflete Galego. – Que professora! Com uma professora dessa eu seria o rapaz mais inteligente do mundo…

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A arte em si

jun 16 2015 Published by under Poesia

A arte em si

Um pincel; no rastro dos seus pelos, as cores; sobre o teto, o azul celeste; no rodapé, o marrom do chão; riscos germinam pássaros; do amarelo aparece o sol; no vai e vem do instrumento nasce das mãos do artista um mundo puxado pelo carrossel da imaginação.

A voz, nas ondas suaves vibra o som; o dó se estende ao lá que busca o sol em sequência harmônica; nas rimas das palavras se encadeiam sonoridades, os versos soltos voam em alegria, ouvidos absorvem a suave melodia das cordas, o tempo passa e a música permanece viva.

As palavras, na folha branca deita-se a mão, o lápis corre ligeiro a depender do fluir, serras e depressões vão ficando, os códigos do além da mente aparecem ao sabor delicioso da vontade, pouco se diz muito, muito pode não representar nada, polissêmica nas suas extremidades.

O tato, adestradas as mãos, famintas por formas, do barro ergue-se o pensamento, um jarro, uma moringa; na madeira se entalham formas, o homem no seu movimento se passa por deus, estátuas e monumentos vão crescendo ao cheiro doce da vontade.

Enraíza pelos poros, a arte, cresce em beleza, ganha traços de filosofia; educa os olhos cegos, cria gosto as cordas vocais de muitos, borda sentido na existência, suavizando as arestas tortas do ser.

Se a arte não muda, se o mundo se faz de arte, o bicho artista se eleva, sonha e delira em criações, desgasta com o seu dom e a sua vontade a ferrugem ácida que o enrola.

Suavizar a harmonia, ajustar ao máximo a corda do criar, pouco a pouco na labuta de limar o torto, passo a passo começa a cavalgar sobre a linha reta de certa perfeição.

O artista casando da mesmice, incomodado com o que apenas conhece, luta dia e noite, morre se for preciso, sempre alimentando a vontade de dá forma ao belo raro.

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