Archive for: maio, 2015

Não jogue lixo nas ruas

mai 24 2015 Published by under Crônica

panfleto-lixo

Em um bairro de uma cidade grande do Brasil, local como vários outros, com seus problemas pontuais, na linha de colisão entre os aspectos gerais da Natureza e a falta de educação das pessoas, um fato fisgou a atenção de um grupo de jovens. Sempre quando chove forte, as ruas do referido bairro ficam todas alagadas; o transtorno para os moradores e transeuntes são gigantescos. Para tentar sanar esse problema, o grupo se reuniu para discutir e encontrar uma forma que amenize a situação. Na reunião, um dos jovens propôs que fosse feito um mutirão de limpeza, proposta eliminada, pois os funcionários da Prefeitura já fazem o trabalho e assim mesmo os alagamentos continuam a acontecer. Outro indivíduo, iluminado por sabe-se lá o quê, colocou sua ideia na mesa. A proposta se baseava em esclarecer, ou até mesmo educar a população. Que ideia genial. Se cada um fizer a sua parte, o todo se completará, não teremos mais o maldito problema. Mas como educar tanta gente? O idealizador, sempre iluminado pelas forças ocultas, disse: “Distribuiremos panfletos informativo todos os dias”. Diante à genial proposta, o grupo aderiu à causa. Saíram pelos comércios pedindo recursos para aquisição do material impresso. Em pouco tempo, duas toneladas de folhetos estavam nas mãos dos adolescentes. De imediato começaram a distribuição. As pessoas ao receberem, parabenizavam o grupo pela iniciativa. A confiança em dias melhores crescia no peito dos jovens. “Estamos sendo úteis para o nosso Bairro”. Bastou a primeira chuva torrencial para que todo o trabalho realizado fosse parar nas bocas dos vários bueiros. A sociedade está tão mal-educada que os panfletos eram jogados diretamente nas ruas. As duas toneladas de informação salutar ajudaram no alagamento do bairro. Tristes, os jovens perceberam que o problema não era a chuva nem tampouco o lixo, mas os humanos que ainda não aprenderam a ser humano consigo mesmo.

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Um dia triste

mai 15 2015 Published by under Poemas

homem-de-cabeca-baixa

Um dia triste

***

Hoje eu acordei

Mas antes não o tivesse

Hoje eu andei pela praça

Mas não sentir nada

Hoje eu tirei fotografias

Mas todas sem luz

Hoje eu tomei banho

Mas ainda me sinto sujo

Hoje eu sorri

Mas não me lembro mais

Hoje eu li um clássico

Mas estava sem sal

Hoje foi um dia daqueles

Mas venci com firmeza

Hoje passou rápido

Mas tristemente

Hoje fez frio e ventou bastante

Mas no entardecer o sol brilhou

Hoje, sempre hoje

Mas… espere um pouco!

Hoje escrevi este poema

Mas…

Chega de tantos más!

Hoje por tudo isso

Mas com todos os más

Hoje ainda assim foi muito bom viver.

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Jumento Poeta

mai 01 2015 Published by under Contos, Crônica

jumento

Aquele que sabe algo, sabe tudo o que se sabe. O conhecimento abre portas tirando o ser da gaiola da ignorância. Quanto mais se ingere colheradas de aprendizado, maior é a fome. Na infinidade das coisas apenas o saber é capaz de transformar a inquietação do fim em algo plausível.

Certo dia, um Jumento, infeliz com a sua situação de burro, resolveu sair em busca de conhecimento. Algo dentro dele fervia, um calor tomou-lhe o corpo, empolgado correu em disparada atrás do seu novo sonho. Para muito, um objetivo complexo de ser alcançado, ainda mais se falando de um asno.

Passados alguns dias, o Jumento aprendera a vogal “A”. Ele saia pelos campos a soletrar a letra: um “AAAAAAAAAAAAAAA” um “AAAAAAAAA”. Qual foi o tamanho da felicidade que lhe apossava do peito. Os outros o olhavam de soslaio: “Endoidou de vez o pobre”.

Continuou na labuta do aprender, galgava a montanha passo a passo, as bruacas da mente vazias ganhavam suas primeiras sinapses. Um “AAAAAAAAA”, um “EEEEEEEEEEE”, um “IIIIIIIIIII”, um “OOOOOOOOOOOOO”, um “UUUUUUUUUUU”. Sentia-se um verdadeiro poeta, todos os outros jumentos o admiravam pela forma bonita que rinchava. Mesmo assim consideravam-no louco. Aprendera tão logo as consonantes, já sabia formar palavras. O jerico deixava a condição de burro.

De tanto tentar, de tanto buscar, conseguiu juntar os primeiros versos: “Eu fui jumento, não sabia as vogais, apenas rinchava, hoje ainda jumento, sou rico em conhecimento, um AAAAAAAA, um EEEEEEE, um IIIIIIIII, um OOOOOOOO, um UUUUUUUU”. Saiu a pronunciar sua poesia aos quatro cantos. Como pode um jumento se tornar poeta? Os amigos sem entender nada afastaram-se dele. Estava literalmente louco.

O Jumento ao adquirir um pouco de conhecimento viu crescer dentro de si a estrela do orgulho. Achava-se o maioral. Feliz com o que sabia, saiu a gozar de sua nova reputação. Considerava-se um gênio.  Nas suas andanças encontrou um idoso, um ser pálido, quieto, manso. O Jumento cheio de si, na sua petulância, quis zombar do senhor.

- Jumento, achas que sabes muito? Já paraste para observar o mundo? Quantas coisas há. Leias este livro que te empresto. Depois voltes que estarei aqui a te esperar.

O Jumento leu o livro uma vez, leu duas, leu três, demorou para entender o conteúdo. “Quem escreveu algo assim?”. Voltou a procurar o idoso.

- Que livro rico de informação – disse o Jumento.

- Escrevi este livro quando tinha quinze anos.

- Quinze anos?!

- Desejas que te empresto outros?

- Gostaria muito.

O Jumento passou a devorar um livro atrás do outro com farto apetite, quanto mais lia, mais inquieto ficava. Cada linha, cada parágrafo, traziam-lhe novas descobertas. O interesse só aumentava.

Em uma dada tarde, o idoso chamou a atenção do Jumento:

- Precisas deixar os livros por um tempo, precisas ir, sair e conhecer, aprender com as situações da vida. O mundo prático ensina muito. Basta de livros por um período.

O Jumento que escrevia livros, que fazia músicas, que recitava suas próprias poesias, saiu a perambular pelas cidades. Ao deparar com os humanos, na sua grande maioria ignorantes, analfabetos, viu que naquele espaço ele era um verdadeiro sábio. Em pouco tempo, conquistou o poder. Passou a carregar na cabeça uma coroa de alta majestade. Sabia como ninguém formular leis. A sua pátria prosperava, construiu escolas, universidades… A ignorância aos poucos deixava aquela terra. Sem motivação resolveu deixar tudo e ir a procura de novos sonhos. Já com a idade elevada, voltou a procurar o idoso. Ao chegar, apenas encontrou, sobre uma velha mesa de madeira, uma carta, nela uma frase estava escrita:

“Eu conseguir transformar um jumento em um sábio, agora é a sua vez de continuar com esta proposta que vem desde o começo do mundo”.

A carta foi escrita em uma língua antiga, somente seres de alto grau de sabedoria para entender tal frase.

O Jumento apoderou-se da casa, escrevia e estudava o tempo todo, esperava por um novo jumento, a proposta não poderia findar.

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