Archive for: janeiro, 2015

Quando cheguei tudo já existia

jan 08 2015 Published by under Crônica

terra

Tudo já existia quando eu aqui cheguei. As nuvens já vagavam pelo céu a formar imagens das mais diferentes formas. A chuva já molhava o chão. As estrelas já enfeitavam o céu. Os pássaros já cantavam na manhã e no final das tardes. O galo sempre a despertar. Quando aqui cheguei tudo estava como estar agora, salvo é claro algumas arrumações, tira daqui, coloca acolá. Quando cheguei, tomei-me de assombro. Seres ao meu redor sorriam e batiam palmas, faziam festa para um estranho que atracava neste cais. Logo perceberam que não era um anjo que eles reverenciavam, mas um menino chorão, e como chorava, chorava por imposição do corpo, algo estava errado. A minha boca foi tampada a força, tentei me safar, virava o rosto, gritava, contudo a insistência amansou meus nervos. E como era gostoso ficar com a boca calada, uma substância saia daquele objeto e acalentava meu corpo. Sugava com ânsia aquele peito, o leite era tudo de que precisava para me tornar uma criança pacata. Adormeci nos braços daquele ser que cuidava de mim com todo carinho e zelo. Como este mundo é belo. As criaturas são todas angelicais. Mal cheguei e já era tratado como rei.

Quando eu cheguei já havia as serras, já havia as árvores, já havia esta terra fofa que ora piso. Mas onde estava eu antes de tudo isso? Logo mais partirei, deixarei o mundo para outros. Para onde irei eu? Quando cheguei tudo já existia. Como tamanha e magistral obra fora feita? De onde vim? Germinei como uma planta; gozei das proezas deste mundo; sonhei; lutei por coisas supérfluas; briguei; tive filhos… Tudo já existia quando apareci ao mundo, tudo existirá quando partir, tudo será sempre como sempre foi. Estar aqui ou não estar, diz muito apenas para mim, no mais nada reflete. Meus passos são meus sonhos realizados, meus tropeços minha falta de experiência com as novas coisas, minhas glórias algo particular. Hoje vejo que a beleza das primeiras horas não condiz com todo o percurso; espinhos, pedras, despenhadeiros me aguardam a cada caminhar. A sociedade levanta a mão, bate com cacete, chuta a canela, imobiliza-me com uma cruel gravata. A loucura deste mundo sempre existiu? Quando cheguei aqui sonhava acordado nos braços de Maria, ao crescer padeci sobre as agruras da chibata de um Caifás e de um Pilatos eternos e ferozes. O mundo é belo, o homem com sua nódoa é que o faz ruim. Quando cheguei tudo já existia. Tudo já existia quando eu aqui cheguei.

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Perguntas de criança

jan 04 2015 Published by under Contos

filosofo

- Papai, meu coleguinha me perguntou o que eu gostaria de ser quando crescer.

- O que você respondeu a ele, filho?

- Disse que não sabia.

- É normal nesta fase da vida a criança não saber o que será quando crescer.

- Papai, quando o senhor cresceu o que você é?

- Como?

- Eu sou criança? Depois de criança, eu serei o quê?

- Primeiro você se ingressará em uma escola para estudar.

- E depois?

- Depois você irá fazer faculdade, formar-se-á para alguma área do conhecimento universal.

- E depois?

- Depois irá ingressar no mercado de trabalho, trabalhará e ganhará dinheiro. Com o dinheiro comprará casa, carro, qualquer coisa que quiser.

- E depois?

- Depois se casará, terá filhos…

- E depois?

- Depois ficará velhinho. Mas isso aí estar longe, meu filho, não carece se preocupar agora.

- E depois que eu estiver velhinho, o que serei, papai? Fale, não me esconda nada.

- Papai do Céu lhe levará para morar ao lado dele no paraíso.

- E depois?

- Não tem mais depois, é só isso, é o que sei.

- Era isso aí que eu deveria ter respondido ao meu coleguinha?

- Acho que sim, não sei ao certo.

- Papai, eu não quero crescer. É muito chato ser adulto. Parecem robôs, sempre o mesmo caminho, as mesmas babaquices, os mesmos vícios.

- Alguns escolhem a música, outros as letras, mas no fim é tudo a mesma coisa.

- No final irei morar ao lado do Papai do Céu. Quem é esse Papai do Céu? Quem é, papai, quem é o Papai do Céu? Diga-me, quero saber.

- É Deus.

- Deus! Quem é Deus?

- Deus? Boa pergunta. Quem, ou o que é Deus? Filho, eu não sei. Quando eu era pequeno, igual a você, indaguei a meu pai, contudo ele também não soube me dá uma resposta satisfatória. Deus é o Papai do Céu, é isso.

- Todas as pessoas crescem, mas no fundo não aprendem nada. Será se quando eu tiver a sua idade eu ainda não saberei quem é Deus?

- Meu Deus do Céu, esse menino tem espírito de filósofo.

- O que é filósofo?

- Deixe isso quieto, pelo menos por enquanto.

- Por que o senhor está nervoso?

- Nada não, filho. Depois a gente conversa mais. Essas perguntas me deixam tonto.

- Depois o senhor irá me explicar direitinho quem é este tal de filósofo. Gostei muito deste nome, filósofo. Se for algo bom, quem sabe eu não me torne um quando crescer.

- Tudo, menos isso, filho.

- Já não precisa nem me dizer do que se trata, é caso resolvido, serei um filósofo quando crescer. Tchau, papai. Vou responder a pergunta ao meu coleguinha. Agora já sei o que serei quando crescer.

- O que eu fiz?

- Vou ser um filosofo! Um filósofo! Quem sabe até lá eu descubra o que é ser filósofo. Pelo menos o nome é bonito. Filósofo. Estar resolvido, quando eu crescer eu serei um filósofo. Pelo menos um caminho eu já tenho a seguir, buscar o conhecimento, saber do que se trata o filósofo.

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Alguém especial

jan 03 2015 Published by under Poesia

sol-na-janela

Alguém especial

*

Quando eu acordo de manhã

Vou à janela

O sol aos meus olhos se abre

Como o encanto da flor ao beija-flor

São notas de um violão sem cordas

Um espetáculo

Um show

Quando eu acordo de manhã

Que sinto que estou vivo

Procuro por uma foto

No armário

Dentro dos livros

Não a achando

Encontro-me perdido.

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Tudo a mim pertence

jan 02 2015 Published by under Crônica

Neste vasto mundo, falo do mundo todo, não apenas do seu insignificante mundo, isso mesmo, insignificante, deste mundinho que ora anda metido. Ou você estar pensando que o mundo se faz exclusivamente daquilo que a sua pífia visão vislumbra? Meu caro amigo, pouco conhece, pouco sabe. A Terra se coloca diante seus pequenos olhos como algo imenso, não? Dentro da minha obra seria um grão de areia em um Sol feito de grãos de areia. Isso é só para você tomar sentindo do que eu sou. Confesso-lhe, sou bem maior.

Este seu automóvel, pertence a mim. Da mesma forma a sua casa, o seu relógio, a sua conta bancária, o seu sangue… Sua esposa não é sua, seus filhos não são seus, sua vida é minha. Sou tudo, tudo estar em mim, tudo a mim pertence. Não pense que por assim ser que sou um tirano despótico, não, pelo contrário, sou um patrão cheio de virtudes. Se sou tudo, por que não ser também o máximo em administrar, o máximo em legislar, o máximo em governar, o máximo em educar?

Você seria meu escravo, ou como se diz nos dias atuais, meu empregado, mas adoro chama-lo de companheiro de profissão. Odeio a preguiça, odeio os vagabundos, odeio aqueles que vão contra o meu sistema, reconheço, contudo, que mesmo dificultando o caminhar eles também chegarão onde minha ideia aponta. Por ser eu algo supremo, soberano, perpétuo, inteligente, nada me foge aos cuidados. Se você trabalha e consegue com o seu suor regalias para um bom viver, fico feliz, pois o bom trabalhador merece aplausos e as pompas da vitória. Os frutos dos seus esforços primeiro me fazem mais fortes, meu patrimônio cresce. O que me dá mais alegria é quando meus companheiros buscam o conhecimento e da teoria faça na prática novidades surgirem.

O conhecimento é o sentido e o mandamento da vida inteligente. Você é meu sopro, um princípio desta grande potência. Todo filho fruto de um pai nobre carrega na alma o brilho do genitor. Crescer no conhecimento, crescer nos sentimentos, crescer para alegria do pai, crescer para ser um dia quem sabe um ser que sequer imagina existir. Cresça, cresça sempre, o seu crescimento é a minha alegria.

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A má sorte de jogar na Mega-Sena

jan 01 2015 Published by under Crônica

mega-da-virada

Pensei em fazer uma fezinha na Mega da Virada, quando cheguei à lotérica e vi o tamanho da fila, recuei. Um senhor estava marcando os números na cartela. Indaguei-o quais ele iria jogar. Ele me disse que iria marcar os números da sorte dele, que sempre apostava nos ditos algarismos. Voltei a indaga-lo, desejaria saber se os tais números já havia lhe dado boas somas no passado. Que nada, respondeu o homem sorridente, mas um dia eu embaraço neles e fico rico. Pensei comigo: “Como podem ser da sorte. Já pensou se fossem do azar?”. Apanhei uma cartela e comecei a marcar para que todos pudessem ver. Meus números da sorte foram um, dois, três, quatro, cinco e seis. Um rapaz, curioso, olhou e logo sentenciou: “Já perdeu!”. Por quê, indaguei-o. “Porque nem se Deus quisesse sairiam os seis números seguidos”. Respondi em bom som, os seis números que marquei estarão no globo juntamente com os seis que você marcou, a chance dos meus saíres é a mesma dos seus. Ver como é difícil acertar este negócio? Meti meus dois contos no bolso e fui embora. Como pode um rapaz como eu perder dinheiro num jogo que só traz alegrias ao dono da banca? Esta malandragem o Governo dá o aval, as outras são de azar. Coitado do povo brasileiro, é surrupiado o ano todo e para fechar com chave de ouro o ano, eles ainda iludem com uma falsa esperança de uma vida abonada. Sou mais esperar pela visita do Papai Noel que sonhar em acertar e levar a ilusão da Mega-Sena.

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