Archive for: dezembro, 2014

O tudo do nada

dez 31 2014 Published by under Crônica

vida

A vida nos vai mostrando um bordado intrincado, cheio de curvas, ladeiras, despenhadeiros… Cada novo despertar um emaranhado de fatos e acontecimentos nos chegam, tira-nos a paz, lança-nos no lamaçal das interrogações. O remador continua com o seu remo, não olha para trás, sequer para o lado, olhar fixo, atenção constante, a embarcação avança sobre vidas e esqueletos. Somos meros meteoros em rotas de colisão. Cada dia um, cada um com a sua especifica sina.

Ainda ontem um homem forte, corajoso, destemido. Colidiu com algo que desconhecemos, apenas vimos o seu verdadeiro poder. Fez do Hércules um punhado de nada. Aos poucos foi o comprimindo, aos poucos, sempre aos poucos, até o singelo e fatídico momento. O que era tudo se fez em nada.

Ainda hoje estava ao nosso lado, sorridente, falastrão, contador de piadas. Deu-nos até logo e seguiu seu itinerário dirigindo um automóvel. Pouco tempo depois, pouco mesmo, colidiu com outro meteoro. Que desgraça! Muito sangue, carros de pneus para o céu, gente, muita gente tentando entender, tentando salvar o que ainda respirava.

Os acontecimentos nos chegam tirando-nos a tranquilidade, o sabor do viver. Enquanto uns sorriem, outros choram de dor, choram de culpa, choram por tantas coisas. A vida é assim, amarga, doce, lenta, rápida, suave, pesada…

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Onde estar a musicalidade?

dez 28 2014 Published by under Crônica

A música é a poesia cantada. Ela possui o poder de elevar a mente humana. São tantas as emoções. Um caldeirão de amor em que todos dançam sem distinção de cores. Na mistura dos estilos nascem os gostos e os artistas. A clássica acalma alguns, outros a odeiam. Uns amam o reggae, mas não suporta o samba. Há aqueles que só sabem dançar pagode, uma multidão que se perde no axé. Caminhando e cantando seguimos nossa evolução. Ou seria entre tapas e beijos? Não importa se esteja sentada na sua cadeira de rodas, ou aqui nesta mesa de bar, por todos os bares e lugares da vida a uma viola e uma voz a louvar o deus chamado Música.

Somos livres, como prega a santa Constituição. Livres para escolher o que é melhor para cada um. Somos livres para escutarmos a música que faz bem aos nossos sentidos. Nos últimos dias algo nos tirou a liberdade, impuseram-nos algumas canções que há dúvidas quanto a suas qualidades. Pelos ouvidos uma muriçoca a socar com força, a muriçoca soca, soca, soca, depois de tudo isso ela ainda pica, pica, pica. É loucura total. É torturante ao extremo. A mente quase se derreteu, o som era alto, estrondava pela rua, o bairro todo se via obrigado a saborear a muriçoca. Quando cansaram com a muriçoca, apareceu uma tal de lapada, eram tantas as lapadas que em três minutos foram milhares delas soltas pelo ar. Em seguida, os gritos começaram a chegar carregados de novinhas. Tanta apologia não chega a ser pedofilia? “Tudo é normal, somos livres, porra!” Alguém nos responde irado.

Resolvemos nos retirar da nossa casa, fomos a uma lanchonete. Dois minutos, as mesmas músicas voltaram a nos perturbar. Pagamos a conta e fomos ao sossego do rio. Aqui a muriçoca pode até nos incomodar, mas será o inseto. Não demorou, um jovem apareceu segurado um radinho desses que usam pen driver. Só se ouvia Mariazinha, Mariazinha, machuca, machuca. Não tem jeito, corremos para serra. Poucos minutos alguém liga um paredão de som na barraca as margens da barragem, o som era tão alto que subia para nos tirar a paz. De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar, se não tenho paz? Sou mais Roberto Carlos: “E que tudo mais vá pro inferno”.

Cada um possui sua liberdade, desde é claro que não interrompa ou agrida a liberdade do outro. Se gosta de um estilo de música, normal, coloque um fone de ouvido e curta seu som. As músicas de hoje são três palavras repetidas demasiadamente e com um ritmo que faz da pessoa uma marionete ambulante que para permanecer em pé somente com muito álcool e droga. Enquanto os que gostam de música se deliciam delas dentro de casa procurando a paz, a grande massa quer impor nessa minoria as barbaridades de uma sociedade doente que caminha sem rumo em direção ao caos.

Viva a Liberdade! Viva as leis que nunca foram leis. Viva a Música brasileira!

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Recordações

dez 27 2014 Published by under Crônica

O final de ano é o momento propício para os reencontros. Natal época de estar ao lado dos familiares, de se banquetear com a deliciosa ceia natalina. Virada de ano é outro momento ímpar, fogos, champanhe, camisa branca, abraços e apertos de mãos. A amizade se reencontra em novas conversas sobre velhos episódios, sorrisos, lágrimas, lembranças dos instantes aureolados.

Nestes dias que envolveram o símbolo do nascimento de Jesus, tivemos o prazer de compartilhar da conversa de dois velhos amigos. Voltaram a se encontrar após quase um ano. As lembranças vivas e fugazes de um tempo vivo em suas memórias renascem neste singular presente. Por que a fruta devorada sempre nos remete mais doçura que a que se encontra em nossa mão?

Você se lembra de Gentil? Já faleceu há algum tempo. Não diga. Era um baita de um zagueiro. Lembro-me de quando a equipe que ele jogava ganhava uma partida, ele ficava com o uniforme do jogo por três dias seguidos a desfilar pelas ruas e bares de Água Quente. O que aconteceu com Tõe Preto? Que goleiro! Ao viajar para São Paulo sumiu pela estrada e nunca mais retornou ao seu torrão natal. Nunca vi um goleiro como aquele, pegava bem mais que os goleiros profissionais de hoje.

Nessa mistura de fatos que se tornaram pingos da história da nossa região o sabor do passado contamina as horas atuais fazendo delas insignificantes perante a glória dos dias da juventude. Paramirim já não é mais como outrora, Água Quente herdou o nome de um antigo filho. Tínhamos o campo da Lixa, tínhamos o Cinema de Nelsão, tínhamos a Semana de Cultura. Hoje já não temos mais nada. O saudosismo, a nostalgia, parece afogar esses seres que não encontram na realidade um ponto de apoio. Tudo se modificou, os tempos são de outra geração. Buscar no passado o que já foi extinto, tentar resgatar e trazer ao presente um pouco de alento neste espaço estranho que se tornou o mundo.

Viver bem as diferenças do tempo, pois não tardará para sermos obrigados a novas mudanças. Temos um pouco de camaleão, somos borboletas. Os dias passam, as recordações vão se amontoando, como as nuvens que correm ligeiras pelo céu azul da Caatinga. Por sinal, o friozinho do início da manhã nos fez lembrar os antigos Santo Antônio.

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Sonho de Natal

dez 25 2014 Published by under Contos

A vida é um sonho doce regada a momentos amargos. A criança que há pouco veio ao mundo vive mensurada em uma substância entorpecente aos sentidos. Seu crescimento se dá repleto de imagens imaginarias de um mundo desejado, impossível, contudo, de existir nesta pequena parte do universo.

Uma criança perambula pelas ruas de uma cidade qualquer, anda sem rumo, vaga aérea aos perigos animalescos dos humanos. Cada objeto é uma nova descoberta. As páginas do grande mostruário se abrem uma a uma. Como esse pequeno ser apareceu? De onde surgiu? Indagações difíceis de respostas.

A pequena e frágil criança cresce ao sabor das vitaminas das migalhas recebidas. Seria um passarinho que não se importa em poupar? Vive cada dia como se o fosse a única alternativa a ser enfrentada. Um homem piedoso lhe oferece um pão, outro lhe dá um copo de suco, outro a presenteia com um lascado desaforo, outro sequer a nota. Como passarinho segue seu viver sem muito se importar com o que os demais seres pensam ou fazem, essa pequena ave só não consegue cantar tampouco voar.

- Olhe! Alguém está ali – a criança fala a si mesmo. – Vou me aproximar. Quem será?

Outra criança estava a brincar, feliz e sorridente, alegre com suas imaginações pueris. Uma pequena esfera o animava, corria de um lado ao outro.

Dois olhos pararam naquela singela cena, sequer piscavam, eram apenas contentamento. Por um instante ficou inerte, acabado esse ao receber um sorriso daquele que se divertia. Não ousou perguntar, esperava ansioso, queria participar da brincadeira. Tímido se postava na retaguarda, tinha medo, tinha receio de ser advertido.

- Quem é você? – o garoto com a bola na mão aproximou-se.

- Eu?

- Sim, quem é você? Quero dizer: qual é o seu nome?

- Não sei.

- Como assim não sabe? Toda criança tem um nome. Eu me chamo Moisés, meu pai se chama Fabiano, minha mãe é a Fátima. E você, como se chama?

- Não tenho nome.

garoto-jogando-bola- Quem são seus pais? Por que eles não lhe deram um nome?

- Eu não tenho pai, nem tampouco mãe.

- Todos nós temos pais e mães.

- Pois eu nunca tive.

- Onde você mora?

- Eu vivo pelas ruas.

- Pelas ruas? Nunca pensei que uma criança pudesse viver pelas ruas. Como faz para comer?

- Quando recebo comida de alguém. Sempre têm pessoas que me oferecem pão e suco. O que é isso aí em suas mãos.

- Uma bola. Foi o Papai Noel do ano passado que a me deu.

- Papai Noel! Quem é o Papai Noel?

- Quer dizer que você não conhece o Papai Noel? Quer dizer que você nunca ganhou um presente do Bom Velhinho?

- Nunca. Quem é o Bom Velhinho?

- O Bom Velhinho é o apelido do Papai Noel. Já fiz minha cartinha para o Papai Noel deste Natal. Nela coloquei que quero ser presenteado com uma bicicleta, um jogo de dados e um carrinho de controle remoto.

- Como faço para mandar uma cartinha ao Papai Noel?

- Não sei. A minha eu dei meu pai para que ele a entregasse ao Papai Noel. Como você não possui um pai, quem irá levar sua carta. Acho que você deverá ir pessoalmente até o Papai Noel.

- Mas eu não sei onde ele mora, não sei como ele é. O que eu faço?

- O Papai Noel possui barba branca, é velho, tem um gorro vermelho na cabeça, leva nas costas um saco cheio de presentes. Ele possui também um trenó, esse é puxado por seis renas. O Bom Velhinho vem do Polo Norte, entra em nossa casa pela chaminé, coloca ao pé das meias na janela os pedidos das cartas.

- Eu vou ter que encontrar este tal de Bom Velhinho. Preciso fazer um só pedido a ele. Como quero.

- Meu pai está me chamando. Tenho que ir. Tchau.

O garoto que andava sem rumo agora tinha algo a buscar. Um sonho crescia em sua mente. Tinha que encontrar o Papai Noel. Ele que vivia feito passarinho, perdera a paz, um desejo louco lhe tirava o sossego, cobra-lhe um quinhão do seu precioso tempo. Saiu a andar… Seus olhos atentos buscavam alguma pista.

Andou por várias ruas, de repente, ao longe vislumbrou um ponto vermelho. Só poderia ser ele. Adiantou os passos, dos lábios fugia um gostoso sorriso. Logo avistou a longa barba, o gorro, as botas, o saco de presentes, o trenó, as renas.

- Papai Noel! – gritou o garoto enquanto corria em direção ao seu prêmio. – Papai Noel!

Parou defronte a uma vidraça. Na vitrine estava sua busca, lá dentro descansava o Bom Velhinho ao lado das renas.

- Encontrei você! – gritou o garoto.

Algumas pessoas que passavam ao redor olharam curiosas, seguiram, porém, seus destinos.

O garoto estava fascinado com a figura do Papai Noel. Pelos bonitos olhos castanhos lágrimas brotaram e molharam o rosto.

- Papai Noel, eu estou aqui para lhe pedir um presente. Sei que o certo é lhe enviar uma cartinha com os pedidos, sei que o senhor entrega os presentes pela chaminé da casa, mas como não tenho casa e sequer sei escrever, faço da minha voz o meu único meio de comunicação. Sou pobre, vivo pelas ruas.

Chorava copiosamente o pobre garoto. Ajoelhado, com o rosto na direção do rosto do Papai Noel, de mãos juntas como se estivesse rezando, rogava em pranto:

- Papai Noel, eu não quero bicicleta, não quero bola, não quero brinquedo… Papai Noel, venho lhe pedir um pai, uma mãe. Quanto desejo ter uma família. Por favor, Papai Noel, dê-me uma família.

O Papai Noel continuava a sorrir para o garoto. O menino esperava uma resposta, mas ela não vinha, esperava, enquanto isso não parava de chorar, chorava copiosamente.

- Me dê um pai, Papai Noel! – gritava o garoto desesperadamente.

Uma mão tocou o ombro da criança, ela se assustou, por um segundo voltou a normalidade.

- Garoto, não chore.

A criança virou e viu um senhor barbudo de baixo para cima, por um momento pensou que estava diante do Bom Velhinho.

- Papai Noel, é você?

- Não, meu jovem, eu não sou o Papai Noel. Mas foi o Papai Noel quem me mandou até aqui para conversar com você.

- Ele vai me dá um pai?

- Ele ouviu suas súplicas. Ele me disse que você estava com fome, pediu para que eu lhe desse este lanche e este refrigerante. Mate a sua fome, você precisa se alimentar.

- Eu quero ganhar um pai – chorava o menino. – Não estou com fome.

- Não discuta com os pedidos do Papai Noel. Garoto, ele conhece cada um de nós. Ele me disse que sua busca está apenas no começo, seu pedido é muito complicado, carece de tempo. No momento coma. Depois siga sua viagem, procure por outros Papais Noel, um deles estará lhe esperando com o presente de que tanto deseja. Não deixe nunca seu sonho apagar.

- Obrigado, senhor.

- Não chore.

- Você quer ser meu pai, senhor?

- Até que gostaria muito, mas já sou velho, estou preste a partir deste mundo. Você precisa de um pai novo.

- Ninguém quer ser meu pai. Todas as crianças têm pais, somente eu que não tenho. Seja meu pai, senhor.

- Não posso. Siga seu destino. O Papai Noel lhe dará um pai no momento certo. Tenho que ir. Até mais.

O homem se perdeu na curva da esquina. O garoto sentou ao pé da vitrine, abriu o saco e começou a devorar o lance afoitamente, estava faminto, porém havia se esquecido da fome. Após comer tudo, recolheu o lixo e o colocou na lixeira, voltou, ficou frente a frente com o Papai Noel que não cansava de sorrir.

- Obrigado, Papai Noel. O lanche estava uma delícia. Vou procurar os seus irmãos.

Saiu a vagar pelas ruas da cidade. Andava feliz da vida, tinha lá no interior da alma a esperança que ao final as peças do quebra-cabeça se colocariam nos seus devidos lugares. Algo lhe aporrinhava: por onde começar a procurar. Olhava aos quatro cantos. Qual direção seguir? O sorriso sumiu dos lábios, o rosto voltou ao da preocupação. Aflito procurava pelo Papai Noel. Resolveu seguir o caminho que o nariz apontava. Há de me levar a algum lugar, pensava o garoto.

Ao longe avistou uma garota sentada num banco em um jardim de uma bela praça, ao lado de um pequeno lago artificial. Quem será? Voltou a se locomover, devagar, passo a passo. Ao chegar próximo à jovem, parou e ficou a contemplá-la. Ela estava entretida na sua leitura que sequer notara a aproximação dele. O garoto assoviou roubando-lhe a atenção.

- Quem é você? – indagou a jovem.

- Não tenho nome. Mas deixe isso para lá. Estou procurando pelo Papai Noel?

- Como assim procurando pelo Papai Noel?

- Preciso muito encontrá-lo. Tenho que fazer um pedido a ele?

- No ano passado o Papai Noel me deu uma coleção de livros, por sinal este que estou lendo faz parte dela. Sente-se. Deixe-me ler uma poesia para você.

crianca-lendo- O que é poesia?

- É quase uma música, porém recitada. Vou recitar a poesia do Cão Negão.

*

Meu querido cachorrinho

Quatro patas brancas

A cor se repete no focinho

O marrom toma toda a pança.

*

Animal bravo de dá medo

Corre atrás dos meninos

Late à noite ao ermo

Rasga a carne com seus caninos.

*

Dei-lhe um nome de cão

Nasceu na noite sem lua

Por isso o chamo de Negão

Hoje o rei das ruas.

*

Cão muito obediente

Faz tudo que mando

Como se fosse gente

Às vezes me deixa em planto.

*

- Você sabe onde eu posso encontrar o Papai Noel? Preciso fazê-lo um pedido.

- Qual é o pedido que você fará a ele?

- Vou pedir um pai e uma mãe.

- Quer dizer que você não tem nem pai e nem mãe? Como pode uma criança viver sem os pais? Meus pais fazem tudo que peço. Qualquer presente que desejo, eles têm que me dá. Se disser que não, eu choro muito, grito, esperneou, se for preciso os bofeteio até que cedam aos meus caprichos.

- Como eu quero ter um pai… Não o pediria nada, apenas queria ter um. Como pode você fazer essas barbaridades com seus pais?

- Você não viu nada. Eu mando lá em casa. Onde você mora?

- Moro na rua. Lembro-me que morava mais uma senhora em uma casa, mulher ruim, brava, cobria-me de pancadas diariamente. Certo tarde, ela me cortou no correão, sair louco pelas ruas, nunca mais voltei. É bem melhor viver nas ruas que na residência daquela bruxa.

- Se minha mãe pensar em triscar a mão em mim, nem sei do que sou capaz.

- A bruxa era forte, eu não tinha nenhuma chance com ela. Preciso ir, tenho que encontrar o Papai Noel, só ele para me ajudar.

- Nas lojas logo à frente têm vários Papais Noel, quem sabe não é um deles o que você procura. Só que até hoje nunca vi um Papai Noel de loja falar.

- O Papai Noel me dará um pai, eu sei que ele será gentil comigo.

- Vou recitar mais uma poesia para você, desta vez a da esperança.

*

Quem procura o que deseja

Sem desânimo e com ânsia

Um amor, um filho, um emprego

O que seja

Um dia alcança.

*

Quem procura incessantemente

E carrega no peito a esperança

Confiante na vitória

Trota, vacila, tropeça

Confiante

Sempre com visão futura anda.

*

Se ainda não encontrou

No Brasil, na China ou na França

Mantenha o foco no sonho

Seja guerreiro destemido

Persevere

Mantenha a confiança.

*

- Essa poesia parece que foi feita para você. Não desista do seu sonho, persista, mantenha o foco e a confiança.

- Obrigado pelas bonitas palavras. Vou à busca do Papai Noel, ele me dará um pai.

- Tenho que ir, meus pais me esperam. Tomara que voltemos a nos encontrar um dia. Gostei muito de você. Tchau.

- Tchau. Qual é seu nome?

- Samira.

O garoto voltou a vagar pelas ruas. A noite começava a ganhar a batalha contra o dia e no seu lento andar lançava sobre esta parte do globo seu enorme cobertor. Após andar bastante, cansado pela longa jornada, a criança apanhou alguns papelões, deitou no seu berço macio debaixo de um banco qualquer de uma praça. Adormeceu exausto acalentando o desejo de encontrar o Papai Noel que lhe presentearia com um lindo diamante, um pai.

Onde estou? Quem é você? Papai Noel! Onde está meu pai? Por que você não me diz nada? Fale comigo.

O Papai Noel balançava para frente e para trás como uma cadeira de balanço. O garoto encostou-se ao boneco, a mão o derrubou ribanceira abaixo, caiu de rosto na neve, sentia falta de ar, estava morrendo afogado na neve branca.

O garoto assustou suado e trêmulo.

- Onde estou?

Ao reparar no ambiente, refletiu que esteve sonhando. Ao seu lado um cão servia-lhe de travesseiro. O pobre animal o olhou piedoso e balançou o rabo várias vezes. O garoto levou à mão a cabeça do cachorro e o fez um dengo.

cachorro- Qual é o seu nome? Não tem nome? Deve ser igual a mim, também não possui um pai. Já sei como vou lhe chamar. De hoje em diante será Negão, o cão da poesia da garota Samira. Eu não tenho pai, você certamente também não, mas de hoje em diante terá um dono, um amigo.

Os dois pareciam já se conhecer de longas datas. O garoto acariciava o animal e recebia em troca latidos de alegria. Saíram pelas ruas a competir com os beija-flores o posto dos seres mais felizes naquela bonita manhã. Por certo período, esqueceu-se da perseguição que travava na busca de encontrar o Bom Velhinho.

Ao ver um senhor comendo pão e saboreando um café fumegante, lembrou-se, ou o estômago o obrigou a se lembrar de que o corpo necessitava de alimento. Sem notar se perdeu na imagem daquele pão que o senhor segurava. Ao perceber a fome da criança, o idoso o chamou para uma conversa.

- Olá, criança. Vejo que tem fome. Quer tomar café comigo?

- Quero. O senhor pode dá um pão para o meu amigo.

- Onde está seu amigo?

- Olhe ele aqui ao meu lado. Encontrei este cãozinho esta noite. O senhor sábia que o nome dele é Negão. Você tem pai?

- Já tive pai, mas ele já foi morar com Deus.

- Onde fica morar com Deus?

- No céu.

- Será se meu pai está nesse lugar.

- Você não tem pai?

- Estou procurando por ele, mas primeiro tenho que encontrar o Papai Noel.

- Por que o Papai Noel?

- Ele me dará um pai.

- Como e beba. Alimente também seu cão. Se amanhã você ainda não tiver encontrado o Papai Noel e se você com o seu cão estiverem com fome, volte a este estabelecimento, aqui eu estarei.

- O senhor é uma pessoa boa. Quer ser meu pai?

- Não posso, já tenho uma família. Mas se você não encontrar seu pai, eu juro que lhe darei uma família. Tenho que ir, o trabalho me espera. Sucesso na sua busca.

- Obrigado por me ajudar.

O garoto despreocupado com a fome voltou a vagar em busca do seu objetivo maior. Enquanto andava pelas ruas, brincava com seu cãozinho. A felicidade do mundo todo morava nos corações daquelas duas criaturinhas.

O garoto avistou um homem barbudo encostado em um poste. Aproximou-se para indagá-lo. O cão escolheu outro caminho.

- Senhor, preciso encontrar o Papai Noel.

- Todos nós precisamos. Sei onde ele está.

- Sabe?

- Você quer mesmo encontrar o Papai Noel? Vou lhe levar até ele.

homem O homem caminhava à frente e o garoto vinha logo atrás.

- É só a gente entrar naquele corredor e mais adiante encontraremos a casa do Papai Noel. Para que você quer mesmo encontrar o Papai Noel?

- Vou fazer um pedido a ele. Vou lhe pedi um pai.

- Um pai. Quer dizer que você não tem pai? O Papai Noel é uma pessoa boa, ele irá sim lhe dá um pai. Apressem os passos.

Ao adentrar no corredor, o homem rápido feito um falcão agarrou o garoto e o colocou debaixo do braço.

- Você não queria um pai? Eu serei seu pai. Você irá trabalhar para mim na fazenda. Já tenho uns cinco garotos, você será mais um.

- Não me leve senhor, eu preciso encontrar meu pai. Solte-me, por favor. Solte-me.

- Não adianta seus pedidos, seu destino está traçado.

- Socorro! Socorro!

- Não adianta gritar, ninguém virá lhe ajudar.

Somente a imagem do cão veio à mente da criança, então ele gritou forte, alto, com toda força que tinha no peito:

- Negão, socorro! Negão, socorro!

- Poupe a sua voz. Aiiiiiiiiii! – berrou o homem.

Uma boca feria a batata direita da perna do malfeitor.

- Saia de mim, desgraçado! – gritava o homem furioso. – Saia!

O cão o segurava, sangue começava a escorrer. Não tendo outra opção, o homem soltou o garoto. A criança na agilidade de um felino saiu a correr, deixou o corredor, enquanto partia, gritava.

- Vamos, Negão, corra! Corra, Negão! Corra!

Os dois se vendo livres das garras do importuno homem, ofegantes, cansados, ao sentir o conforto da grama do jardim da praça deixaram seus corpos caírem em um delicioso descanso.

- Foi por pouco, Negão. Quase aquele homem nos fariam prisioneiros. Vamos descansar alguns minutos. Só um pouco! Depois voltaremos a procurar o Papai Noel.

Tão logo levantaram, tão logo voltaram a andar. O garoto com sede foi até uma fonte e se empanturrou de água, o cão fez o mesmo, um ao lado do outro.

- Vamos, Negão, vamos encontrar o Bom Velhinho.

Perambularam pelas ruas até o entardecer, o desânimo apossava do coraçãozinho da criança, aos poucos a esperança desaparecia, o pavor crescia como erva daninha pelo corpo. Choramingava, soluçava, enquanto rompia, seus olhos fixos a observarem o chão.

- Negão, nunca irei encontrar o Papai Noel. Nunca terei um pai, Negão. Por que tem que ser assim? Eu só quero um pai. Todas as crianças têm pais. Eu quero um pai!

A noite já reinava absoluta, o frio obrigava as pessoas a se abrigarem em casa, o vento sacolejava as copas das árvores, papeis voavam de um lado a outro.  Na rua, somente os dois peregrinos, a criança e o cão.

- Qual direção seguir? Não tenho casa. Não tenho família. O que será de mim? Ainda bem que tenho você, Negão. Você me salvou das garras daquele homem.

papaiO garoto ia se entristecendo à medida que a quietude da noite se agigantava. O caos apertava o peito do jovem como se quisesse arrancar o coração de dentro. Ele chorava, ele gemia, ele molhava o rosto com as lágrimas do desânimo.

Sentou em um banco e ficou chorando em soluços. Uma voz lhe tirou daquele estado fantasmagórico de espírito.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

Passados dois minutos, novamente a voz vinha quebrar a calmaria local.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

- Você ouviu isso, Negão?

O cachorro acenou positivamente com a cabeça.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

O garoto correu sorridente em busca da pessoa que emitia aquele som. Parou atônito, um largo sorriso lhe estampou no rosto, os olhos brilharam como as estrelas no céu. A esperança afogava seu peito.

- Negão, Negão, encontramos o Papai Noel!

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

- Papai Noel, estou aqui para lhe pedi um presente. Papai Noel, por favor, dê-me um pai.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

- Vamos sentar neste banco e esperar pelo presente. Negão, eu vou ganhar um pai.

Os dois ficaram sentados a esperar. A madrugada aumentou o frio, mas para o garoto o que importava era apenas o presente que iria ganhar. Mesmo com toda a demora, sempre a escutar o Papai Noel dizer a frase, ele se animava, no fundo carregava a chama da esperança no âmago da alma.

O garoto começava a cochilar, uma luz, um barulho. Levantou-se os olhos devagar, vislumbrou um carro parar defronte a ele. O vidro desceu, dentro um rosto ganhou forma, era um homem. Será se eu estou sonhando, pensara o garoto.

- Pedrinho, é você?

- Não sei. Não tenho nome.

- Até que fim eu o encontrei! Há quanto tempo lhe procuro, Pedrinho.

- Quem é você?

- Você era apenas um menininho, quando ela lhe tirou de mim. Sou seu pai.

- Meu pai!

- Vou o levar para minha casa. Vamos. Pedrinho, Pedrinho, você não sabe o quanto estou feliz.

- Posso levar meu cão?

- Pode levar tudo que você quiser.

- Negão, Papai Noel me deu um pai!

Abraçou o cão carinhosamente. Voltou para a vitrine onde o Bom Velhinho estava e disse:

- Obrigado, Papai Noel, o senhor me fez a criança mais feliz do mundo. Como estou feliz. Tenho um pai, tenho um pai!

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente – o Papai Noel continuava a falar sua rotineira frase.

abraco O pai segurou a criança que estava segurando o cão e o levou em direção ao céu, a criança fez o mesmo com o animalzinho.

- Obrigado, Deus, por ter encontrado meu filho.

- Obrigado, Papai Noel, por ter me dado um pai de presente.

O cão olhando as estrelas rosnou em agradecimento por ter encontrado uma família.

Antes de partirem, sentaram os três no banco, a crianças questionava tudo.

- Como o senhor sabe que eu sou seu filho?

- Vou lhe contar toda a história.

- Sua mãe faleceu no seu parto. Quando você tinha um ano de vida, eu voltei a me casar, desta vez com a irmã da sua mãe. Ela era muito ciumenta, certo dia, eu não estava em casa, ela tomou você dos braços da babá e o entregou a alguém que não a conheço. Desse dia em diante, minha vida se transformou num inferno sem fim. Com a pressão para sabermos do seu paradeiro, a pobre mulher enlouqueceu, hoje se encontra em um hospício. Comecei a lhe procurar, já são quase três anos nessa luta. Hoje de manhã, ao passar por uma rua desta cidade, um homem acenou as mãos para mim várias vezes, parei o carro. Ele me perguntou se eu estava procurando por uma criança, disse que sim, ele me avisou que tinha conversado com uma criança que pedia desesperadamente ao Papai Noel por um presente e que o presente era um pai. Naquele momento fui tomado de uma luz interior, algo me dizia que o garoto era meu filho, mas antes de partir indaguei ao senhor o nome, ele me disse “Noel”.

- Como?

- Como o quê?

- Qual é mesmo o nome do senhor?

- Noel.

- Papai Noel! Eu sabia que ele me daria como presente meu pai. Foi o Bom Velhinho que nos uniu novamente.

- Eu não tinha pensando nisso. Noel! Só pode ser um milagre. Como ele ficou sabendo que eu procurava por meu filho?

- Obrigado, Papai Noel! – gritou o garoto fitando as estrelas.

O pai emocionado e em lágrimas também agradeceu da mesma forma:

- Obrigado, Papai Noel.

Ao terminarem, o cão ergueu o focinho para o alto e uivou em agradecimento.

- Até o cão agradece ao Papai Noel por ter encontrado uma família. Vamos filho, vamos para o nosso lar.

- Vamos, Negão, vamos para o nosso novo lar.

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