Archive for: novembro 13th, 2014

O analfabeto

nov 13 2014 Published by under Contos, Crônica

analfabeto

A vida proporciona aos seres humanos milhares de oportunidades, muitos apenas podem seguir por certo corredor estreito, sequer a cabeça eles conseguem se movimentar, são escravos de uma única linha.

- Dr. Professor, quero falar com cê.

- Pois não. O que deseja mesmo de mim?

- Como?

- Pode falar.

- Dr. Professor, preciso escrever meu nome. Disse que eu preciso.

- Qual é o seu nome?

- João.

- Só João? E o sobrenome?

- Ser João já é difícil, tá bom assim.

Um garoto, que assistia a conversa ao lado, gritou:

- Eu sei escrever João. Já escrevo meu nome todo. Meu pai me disse que quem não sabe ler e nem escrever é um burro.

- Os homem fala que eu sou burro, mas eu não tenho as orelha grande e nem casco. Por que será?

- Você não é burro, apenas não teve a oportunidade para estudar – disse o professor.

- Olhe para mim – fala a criança. – Sou tão pequena e já sei mais que o senhor, um homem velho.

- Ocê já foi pra escola, eu só sei o que é machado, foice, enxada, isso sim sou bom. Nasci no mato, cresci correndo atrás de preá, depois meu pai deu um machado pra eu.

- O senhor sabe as continhas? – indaga a criança.

- Sei não. Na fazenda só sei contar um, dois e três boi, mais é um bocado, tantão, boiada. Aqui tem um, dois, três, lá tem um tantão, – apontou para a sala de aula repleta de alunos –, uma boiada.

- Você precisará se esforçar muito para aprender – disse o professor.

- Olhe minhas mão, tantão de calo, uma boiada. Quero saber os número. Fui na onde vende pão, levei uma moeda, cinco pão o homem colocou na capanga, sair, na porta ele gritou, deu a eu duas moeda, disse que era troco. Fiquei feliz, dei uma, ganhei cinco pão e duas moeda. No outro dia, pedi cinco pão, e dei uma moeda, o homem disse que não comprava um, dei a outra moeda, ele deu um pão e deu duas moeda pra eu. No outro dia ele disse que as moeda só comprava uma bala doce. É muito doido, não sei de nada, olho para as moeda é tudo igual, o homem diz que não é igual, chama eu de burro, de jumento, fala pra eu estudar. Pedi ele cinco pão porque vi outro home pedi, toda vez cinco pão, é bonito falar cinco, o cinco pão é um tantão, uma boiada, enche a barriga dos bacurau lá do rancho.

- Vou lhe ensinar as letras e os números – asseverou o professor.

- Dr. Professor, não quero ser burro, quero fazer o nome, quero saber depois do três, a vida de burro é ruim, sofre sem saber.

- Seu João, amanhã eu vou lhe ensinar as vogais.

- Eu já sei escrever as vogais: a, e, i, o, u – disse a criança cheia de si.

- Ocê ensina eu, menino?

- Mas eu não sou professor?

- Ocê sabe, ensina eu, não quero ser burro.

- Pode deixar comigo, seu João, eu mesmo irei lhe ensinar – disse o professor.

- Não tenho nada pra dá ocê, Dr. Professor. A roça foi ruim, perdeu o feijão, a vaca morreu de sede, só desgraça na vida.

- Não me dê nada. Farei por amizade.

- Quando as coisas eu saber, serei feliz. O homem falou quem sabe as coisas não passa fome. A fome dói demais, Dr. Professor, quero fome mais não.

- Quieta tio… – disse o garoto sorrindo – Meu pai me disse que papagaio velho não aprende a falar.

- Vá se sentar no seu lugar – ordenou o professor. – João, amanhã você volte para começarmos.

- Não sei.

- Por que não sabe?

- Ensina meus bacurau? Sou burro, sou papagaio velho, vivo com fome e com sede, aguento. Os bacurau precisa aprender, não quero que sofra igual eu.

- Venham todos. Onde come um, come dois, come cinco.

- Não sei como agradecer. Dr. Professor é gente boa, até comida vai dá nóis. Inté, Deus ajude ocê, Dr. Professor.

- Vá com Deus, João. Espero o senhor e os seus filhos amanhã.

Comments are off for this post