Archive for: novembro, 2014

Consulta médica

consulta

- Não estou me sentindo bem. Uma agonia dos diabos. Queima tudo por dentro.

- Por que você não procure um médico?

- Um médico? Sei não. Será se ele descobre o que eu estou sentindo?

- Claro, pois é um médico. Se ele não descobrir, passe então a procurar os serviços especiais de um bom curador.

- Fale-me um bom médico aí. Quieta com curador!

- Dr. Fulano de tal.

- Vou lá agora mesmo. Sei onde ele trabalha.

O rapaz saiu, deixou o amigo sozinho.

- A doença sua todo mundo já conhece: cachaça – murmurou, enquanto o amigo descia vacilante pela rua.

O homem adentrou pelo consultório médico, sequer bateu a porta.

- Doutor, estou aqui para fazer uma consulta com o senhor.

- Sente-se, por favor.

- Pois não, doutor.

- O que o senhor está se sentindo mesmo?

- Como? Eu venho até aqui para descobrir a causa do que me aflige e o senhor vem me perguntar o que eu estou sentindo. Quem é o médico aqui é o senhor, e não eu. O senhor é que tem que saber a causa da minha agonia. O senhor não sabe é de nada. Perdi meu tempo vindo até aqui. Vou embora. Fique com Deus. Médico de meia tigela.

Uma pequena história que aconteceu na região do Vale do Paramirim baseada em fatos reais. Preservamos os nomes dos atores do ocorrido.

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Ética na Sala de Aula

nov 25 2014 Published by under Crônica

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A sala de aula é um ambiente propício para a realização de algumas pesquisas de cunho social. Dentro desse recinto convivem várias pessoas de temperamentos, vocações e índoles diferentes. Todos aqueles que já passaram alguns anos de vida estudando ao lado dos colegas de classe sabem que no referido ambiente os sentidos se misturam com os sentimentos. No seu interior funciona uma rede intrínseca de mecanismos que realiza seu papel, dando movimento ao corpo. Uns são tímidos, outros falastrão, uns inteligentes, outros estudiosos, uns desinteressados, outros interessados demais, uns não sabem o que fazem ali, outros são apaixonados pelos estudos.

- Olá, alunos. Hoje é dia de avaliação. Espero que tenham estudado. A prova não está difícil.

Os cadernos de questões foram distribuídos aos alunos.

- Apenas um aviso: vou deixar vocês a sós. Como sei que todos prezam a Ética, não tem necessidade da minha permanência na sala de aula como meio de coerção. Quem for terminando a prova, por favor, coloque-a sobre a minha mesa, o último, deixem-nas na secretaria. Agora vou dá aula para a classe que se encontra após o corredor.

Na sala de aula contavam exatos trinta alunos. A princípio eles se entreolharam atônitos. Os dez primeiros minutos de prova imperou-se o silêncio. O ponteiro do relógio pulava para o próximo minuto, quando um aluno quebrou a calmaria.

- Preciso tirar nota alta nesta prova, tentei responder, mas não estudei o bastante. Quem se prontificará em me ajudar?

Não houve uma resposta imediata. Os alunos sentados nas cadeiras da frente continuavam a responder a atividade, sequer notaram a observação do colega. Os companheiros ao lado aderiram à ideia do amigo. Da turma somente duas pessoas não usaram tal método, responderam por pura competência, boas estudantes, acertaram todas as questões.

No outro dia, o professor adentrou feliz à sala de aula.

- Vocês estão de parabéns! A turma toda tirou dez. Fico feliz pela dedicação aos estudos. Se continuarem dessa forma, serão pessoas de sucesso na vida.

Apanhou um giz e escreveu no quadro a seguinte palavra: “Ética”.

- Sou professor de Filosofia, gosto do que faço. A Ética é um dos pontos centrais da filosofia. Se a sociedade fosse evoluída para a convivência sobre os parâmetros da Ética, viveríamos em um mundo de sonhos. Para a Ética todos são dotados de ideais, ferir tais conceitos sequer se imagina quando se vive nesse mundo. Vocês foram éticos ao cumprir com o previamente estabelecido. Estudem os próximos assuntos, porque iremos realizar a segunda avaliação daqui a exatos quinze dias. Quero que todos repitam a brilhante nota que obtiveram neste exame.

Os dias transcorrem rapidamente.

Opôs o professor distribuir as provas, anunciou os seguintes avisos:

- Da outra vez fizemos a avaliação sobre o efeito da Ética, desta vez faremos sobre o peso da Moral. Na outra oportunidade ninguém os fiscalizou, desta vez também não estarei na sala, mas por outro lado instalei quatro câmeras na sala. Tudo aqui está sendo filmado. Como confio em vocês, sei que teremos somente notas altas. A avaliação de hoje está bem mais fácil que a anterior. Quando terminarem, deixe as provas sobre a minha mesa.

A maioria dos alunos sequer pegara no livro, pensou que seria como da vez anterior. Não havia ninguém na sala para impedi-los de burlar o combinado, as câmeras, contudo, eram como se um batalhão estivesse em plena vigília.

O período (duas horas) de prova transcorreu no maior silêncio, nenhum dos alunos tentou algo ilícito. No final, as provas repousaram sobre a mesa do professor.

Na aula do dia seguinte, o professor triste adentrou pela sala. Olhou para os seus alunos, apanhou as provas na sua bolsa e disse:

- O que aconteceu? Com a Ética todos tiraram nota dez, já com a Moral… Será se vocês infringiram a nossa Ética? Disse que havia câmeras filmando a sala. Será se foi a tecnologia a grande culpada pelo fracasso da maioria? A Moral é tão forte que os deixaram cegos. Apenas falei das câmeras, mas se olhassem bem não iria encontrar nenhuma. Não coloquei tais apetrechos, pois para mim, o importante é o aprendizado, o aluno tirar dez ou zero, tanto faz, já para o aluno é a alegria do sucesso, ou as lágrimas do fracasso. O bom de tudo isso foi saber que na sociedade, mesmo não vivendo sobre os poderes supremos da Ética, vocês respeitam as Leis. O ponto negativo é saber que só as respeitam quando há uma sentinela a vigiar. Chegamos à conclusão que para a sociedade atual andar nos trilhos, ela necessita de cabresto e freio.

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Pisca, pisca no espaço

nov 15 2014 Published by under Contos, Crônica

ceu_estrelado

Estava eu metido nas minhas confusões da mente em uma madrugada de um dia qualquer. Deitado eu me encontrava em minha cama macia e cheirosa a observar pela janela aberta o céu. Algumas estrelas acenavam para mim. Piscavam como se quisessem me namorar, namorávamos a distância, perdia-me nos seus brilhos, nos seus mistérios. Por alguns minutos fiquei distraído, absorto ao mundo, meus olhos eram de certa estrela, apenas dela. A paixão é linda, mas acorrenta; entorpece, todavia nos faz prisioneiro.

A estrela por um instante perdeu seu posto de rainha, meus olhos passaram a consumir uma nova imagem, menor na importância, contudo usurpou a paixão do outro ser. O amor às vezes nos prega peça, quando tudo parece eterno, balde de água gelada.

Uma luz a piscar constantemente correu pelo céu. De imediato notei que se tratava de um avião, ia longe, na altura do horizonte, quase a perder na imensidão da distância. Foram poucos minutos de contemplação, no entanto acendeu em meu peito o fogo do pensamento. Meu cérebro se comunicava com o meu coração, este amoroso e passional, aquele racional na sua fiel estrutura.

Se esta mesma cena fosse vista nos tempos pretéritos, quais consequências teriam? Na pré-história, o homem em formação apontaria para a luz que piscava no céu e correria para a caverna mais próxima tomado pelo pavor, passaria a cultuar aquele sinal. As civilizações da Grécia, do Egito e dos Astecas adotariam como Deus aquele objeto não identificado. Da Vinci olharia cientificamente e assinalaria os extraterrestres como autores de tal façanha.

Um simples episódio dos dias atuais seria verdadeira bomba atômica em períodos anteriores. O celular que estamos tão habituados, há cem anos o taxaria de loucura dos cientistas. Até onde a humanidade poderá ir? Quais as surpresas que nos aguardam nas linhas futuras do tempo?

Estou aqui deitado a matutar, por este mundo milhares se perdem nos seus interesses. O avião que passou carrega em seu interior pessoas, algumas dormem, outras se divertem, talvez alguma olhem para certo ponto e indaguem o porquê de tudo isto. Ela a voar sobre as cidades, no chão milhares de seres a buscar o sustento, a dançar, a estudar, a comer, a namorar, a nascer, a morrer… A linha da evolução gira constantemente sobre si mesma, cada badalar do ponteiro uma nova flor se abre, a engrenagem não pode nunca estacionar, por isso há mudanças constantes.

O aviãozinho passou quase despercebido, neste mundo não há anonimato, sempre tem um a observar. O brilho das suas luzes voavam aos quatro cantos, luzes foram criadas para serem vistas, quando aparecem não consigo ficar sem contemplá-las.

O avião seguiu seu caminho, sob os brilhos das estrelas fui lançado ao mundo dos sonhos, dormi sem perceber; as estrelas voltaram, estavam mais bonitas, brilhavam intensamente; sonhava em conhecer outros mundos viajando em um avião, ao acordar na realidade me dei conta que tudo se faz possível, que se algo existe hoje é porque alguém delirou no passado.

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Consciência

nov 14 2014 Published by under Poesia

Consciência

*

Olhei

Senti

Escutei

Falei

Com consciência:

Da ilusão do mundo

Da vida sem fundo

De que pouco ganhei

Da verdade que amo

Da mentira que falo

Do nada que sou

Do mundo que invento

Da dúvida faminta

Que nos lança ao abismo

Que nos faz mecanismo

De algo sem controle

De perguntas e respostas

Da ideia firme

De que não entendo

De que nada sei.

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O analfabeto

nov 13 2014 Published by under Contos, Crônica

analfabeto

A vida proporciona aos seres humanos milhares de oportunidades, muitos apenas podem seguir por certo corredor estreito, sequer a cabeça eles conseguem se movimentar, são escravos de uma única linha.

- Dr. Professor, quero falar com cê.

- Pois não. O que deseja mesmo de mim?

- Como?

- Pode falar.

- Dr. Professor, preciso escrever meu nome. Disse que eu preciso.

- Qual é o seu nome?

- João.

- Só João? E o sobrenome?

- Ser João já é difícil, tá bom assim.

Um garoto, que assistia a conversa ao lado, gritou:

- Eu sei escrever João. Já escrevo meu nome todo. Meu pai me disse que quem não sabe ler e nem escrever é um burro.

- Os homem fala que eu sou burro, mas eu não tenho as orelha grande e nem casco. Por que será?

- Você não é burro, apenas não teve a oportunidade para estudar – disse o professor.

- Olhe para mim – fala a criança. – Sou tão pequena e já sei mais que o senhor, um homem velho.

- Ocê já foi pra escola, eu só sei o que é machado, foice, enxada, isso sim sou bom. Nasci no mato, cresci correndo atrás de preá, depois meu pai deu um machado pra eu.

- O senhor sabe as continhas? – indaga a criança.

- Sei não. Na fazenda só sei contar um, dois e três boi, mais é um bocado, tantão, boiada. Aqui tem um, dois, três, lá tem um tantão, – apontou para a sala de aula repleta de alunos –, uma boiada.

- Você precisará se esforçar muito para aprender – disse o professor.

- Olhe minhas mão, tantão de calo, uma boiada. Quero saber os número. Fui na onde vende pão, levei uma moeda, cinco pão o homem colocou na capanga, sair, na porta ele gritou, deu a eu duas moeda, disse que era troco. Fiquei feliz, dei uma, ganhei cinco pão e duas moeda. No outro dia, pedi cinco pão, e dei uma moeda, o homem disse que não comprava um, dei a outra moeda, ele deu um pão e deu duas moeda pra eu. No outro dia ele disse que as moeda só comprava uma bala doce. É muito doido, não sei de nada, olho para as moeda é tudo igual, o homem diz que não é igual, chama eu de burro, de jumento, fala pra eu estudar. Pedi ele cinco pão porque vi outro home pedi, toda vez cinco pão, é bonito falar cinco, o cinco pão é um tantão, uma boiada, enche a barriga dos bacurau lá do rancho.

- Vou lhe ensinar as letras e os números – asseverou o professor.

- Dr. Professor, não quero ser burro, quero fazer o nome, quero saber depois do três, a vida de burro é ruim, sofre sem saber.

- Seu João, amanhã eu vou lhe ensinar as vogais.

- Eu já sei escrever as vogais: a, e, i, o, u – disse a criança cheia de si.

- Ocê ensina eu, menino?

- Mas eu não sou professor?

- Ocê sabe, ensina eu, não quero ser burro.

- Pode deixar comigo, seu João, eu mesmo irei lhe ensinar – disse o professor.

- Não tenho nada pra dá ocê, Dr. Professor. A roça foi ruim, perdeu o feijão, a vaca morreu de sede, só desgraça na vida.

- Não me dê nada. Farei por amizade.

- Quando as coisas eu saber, serei feliz. O homem falou quem sabe as coisas não passa fome. A fome dói demais, Dr. Professor, quero fome mais não.

- Quieta tio… – disse o garoto sorrindo – Meu pai me disse que papagaio velho não aprende a falar.

- Vá se sentar no seu lugar – ordenou o professor. – João, amanhã você volte para começarmos.

- Não sei.

- Por que não sabe?

- Ensina meus bacurau? Sou burro, sou papagaio velho, vivo com fome e com sede, aguento. Os bacurau precisa aprender, não quero que sofra igual eu.

- Venham todos. Onde come um, come dois, come cinco.

- Não sei como agradecer. Dr. Professor é gente boa, até comida vai dá nóis. Inté, Deus ajude ocê, Dr. Professor.

- Vá com Deus, João. Espero o senhor e os seus filhos amanhã.

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Lição para a vida

nov 10 2014 Published by under Contos, Crônica

Quando lhe encontrei, coisa estranha, linhas e mais linhas, letras aos milhares, uma porção de páginas. Quando lhe encontrei, não foi amor à primeira vista, obrigação a mim imposta. Quando lhe encontrei, como quis fazer uso do fogo, ou de um lago profundo. Quando lhe encontrei, uma tempestade, corda para amansar o instinto deste burro bravo.

Comecei a percorrer minha estrada, sem gosto, sem prazer, executava uma obrigação. De início, confesso-lhe que foi complicado, arranhava, pulava, não entendia, voltava, tentava seguir, a cabeça, literalmente, fervia. Como tinha uma tarefa a realizar, como gosto de cumprir com a palavra, prosseguia vacilante com minha pesada cruz incrustada na mente.

Da aspereza dos polos, aos poucos não é que brotou um sentimento nobre, a revolta se converteu em amizade, com o tempo se transformou no mais puro e singelo amor. Amava aquele objeto, queria tê-lo constantemente, apaixonado ia para cama e acordava ao lado dele, união das duas partes em um todo. O costume moldou-se um novo hábito.

Hoje perco tempo contemplando meu sucesso. O que seria de mim na sua falta? Como esse amor me fez mudar, não direi da água ao vinho, mas da lama a chuva. O frescor da água, a limpidez, o cheiro sem cheiro, a cor sem cor, algo inexplicável, algo incomparável. Cresci e agradeço ao meu Professor, vários Professores, cada um à sua maneira, com o seu jeito particular de nos ensinar, de nos propor soluções até então estranhas a nós.

Falo dos milhares de professores mudos que vagam pela Terra, muitos perdidos nas estantes, prateleiras, malas, bolsos, livrarias, bibliotecas… O que dizer do poder impactante do Livro. Que sabedoria. Mudo por natureza, pronto a ensinar quem seus códigos conseguem decodificar. As carreirinhas de palavras a formarem enunciados, a dizer o que não conhecemos e o que já nos foi dito de uma nova maneira.

O gosto pela leitura se inicia quase sempre por imposição ou necessidade, com o tempo o dever passa a familiaridade de um ente querido, com mais idade vira obsessão, um amor eterno.

Amar os Livros, para obter a sabedoria.

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