Archive for: setembro, 2014

A vida é minha e faço dela o que bem entender

set 22 2014 Published by under Crônica

vida

Muitos se julgam detentores da própria vida. Será se somos dono dos resultados dos nossos desejos? A vida é minha e faço dela o que bem entender. Será? O ser humano se diz dotado de liberdade. Será se somos realmente livres?

A vida é minha, mas quase sempre não posso fazer o que meu corpo cobra. A sociedade tem sua moral, nela mora as leis, deveres e obrigações. Por mais que o indivíduo se julgue livre, na verdade, o pobre se encontra acorrentado pela cultura que se evoluiu no decorrer do tempo. A força de um ser é insignificante perante o todo.

Se cada indivíduo pudesse realizar seus sonhos, ser livres para agir como a imaginação determinasse, seria o homem igual ao gato, ao boi, as aves; o instinto ditaria os passos. Como somos dotados de raciocínio, de pensamento, tudo e todas as decisões primeiro passa pelo crivo da análise criteriosa dos pros e dos contras. Quando o ser agi, primeiro já se discutiu no pensamento.

Dizer que a sua vontade é o que se reproduz nos seus atos, pura fantasia para não dizer mentira. Fazemos quase tudo conforme o padrão previamente determinado. Aquele que se comporta diferente às regras do jogo social, imediatamente, recebe nos ombros o peso de grandes sanções.

Somos frutos da sociedade atual, lutamos por transformações que idealizamos ser elas vantajosas, mas dizer que somos livres, isso fica longe da real realidade. Por todos os lados pesadas correntes nos impedem de passar, de virar a rota, de fazer o que o apetite pede. Se a placa diz “Proibido Fumar”, o que você fará caso goste de nicotina? A vida pode até ser sua, mas você não faz dela o que bem quiser, a não ser que seja um alucinado mental.

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Caçador maldito

set 11 2014 Published by under Contos

Como posso confiar no futuro, se ao meu redor apenas há tristeza e destruição? A vida tem suas maldades, seus fins em si mesmo, suas loucuras…

Dois caçadores pararam seu carro rente a um curral, debaixo de uma árvore, desceram e apanharam seu arsenal no porta-malas. De armas nas mãos, dirigiram-se para a tocaia. Sentaram cada um em uma das galhas de um velho umbuzeiro. Com toda paciência do mundo esperavam sem pressa as pombas juritis, eram pescadores de pássaros. Não importava o quanto gastavam para colher seus objetivos; dez contos da munição, dez do combustível, um dia inteiro perdido, outras coisas mais. Não seria melhor comprar um frango no comércio, coisa de dez contos, e fazer o almoço do dia? Mas o gosto pela morte, pelo apertar do gatilho, por ver tombar a presa morta, isso sempre a falar mais alto, faz os olhos faiscarem de contentamento, para eles não têm preço.

Após dez horas de muita espera, um casal de pombas assenta sobre as galhas da mesma árvore, sequer desconfiava dos lobos à espreita, mal sabia que o cheiro de morte impregnava o local, que o fim poderia está bem mais próximo do que a vida supunha lhe oferecer. Um dos caçadores piscou o olho direito para o companheiro, levantou a arma, escolheu a mais gorda, mirou, deferiu-se o tiro. Um pipoco, o projétil viajou rasgando o ar, acertando em cheio a cabeça do pássaro tamanha era a pontaria do atirador. A outra pomba debandou rapidamente sem rumo.

A pomba esburacou já morta no chão duro. O homem desceu da galha, apanhou seu alimento e o colocou na capanga. O habito dos dois caçadores continuou, eles voltaram a esperar outras pombas, o objetivo era um só, matar. Matavam por matar, por diversão, por achar que tudo isso são normalidades triviais da natureza.

A outra pomba voltou ao ninho, era o macho. Esperava impaciente pela chegada da parceira, não conseguia imaginar, pois pombas não são dotadas de tal atributo, que a morte abraçou a companheira. A pomba voava, circulava pelas redondezas, cantava, cantava, retornava ao ninho, repetiu esses movimentos uma poção de vezes.

Três ovos estavam quietos, dentro as sementes tentavam germinar. Cadê o calor? Sem a quentura do corpo da mãe os pobres seres seriam privados da luz ainda no início da vida. O macho não possuía o instinto materno, não era dele essa atribuição. Se soubesse raciocinar, certamente chocaria os ovos, mas vivia apenas sobre os efeitos impostos pela natureza. O destino dos ovos estava traçado assim que o tiro acertou a cabeça da pomba mãe; sem forças para vencer a casca, sem o calor necessário para se fortalecerem, murcharam sem antes cumprir com a trajetória natural.

A pomba solteira aos poucos se afastou do local, precisava-se alimentar, tomar água. Os ovos viraram comidas para outros pássaros. A pomba guiada pela luz da sua alma cumpria com a resolução, vivia e fazia o mundo girar conforme suas obrigações. Não sentia dor, não sentia saudade, não sentia ódio, sequer sabia que existia vida e morte; se não via mais a companheira, apenas um desconforto e uma mudança de hábitos, para o animal o que importava e lhe cumpria realizar era as atribuições perante o cosmo.

As pombas não são como os humanos.

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Devo e não pago, a amizade que se lasque

set 05 2014 Published by under Contos

- Compadre, há quanto tempo.

- Já faz um mês que não venho em sua residência, compadre.

- E aí, como andam as coisas?

- Compadre, para ser bem sincero, mais ou menos.

- O que foi que aconteceu, compadre?

- Foi por isso que estou aqui. Preciso de quinhentos reais emprestados, tenho uma divida a vencer hoje, se eu não pagar, pagarei um juro alto. O compadre tem para me emprestar?

- Tenho oitocentos reais guardados para quitar uma prestação no próximo dia vinte.

- No dia dez eu garanto que você estará com o seu dinheiro em mãos.

- Se for assim.

- Se não for pedir muito, passe-me os oitocentos.

- Mas o compadre não só carece de quinhentos?

- Tenho outros negócios pendentes na praça. Dia dez eu irei receber mil e duzentos reais.

- Amigo é para essas horas…

O dinheiro foi passado de uma mão a outra. O homem se despediu sorrindo, o outro ficou em casa meu ressabiado.

Os dias transcorreram, passou o dia dez, no décimo nono dia, o compadre que havia emprestado o dinheiro lembrou que o outro compadre ainda não tinha lhe devolvido os oitocentos reais. Ele então se dirigiu a residência do amigo.

Ao chegar defronte a casa, bateu palmas, chamou pelo compadre, após dez minutos de insistência, a esposa do camarada saiu à porta.

- Você está louco, compadre? Para que tanto barulho?

- Há dez minutos estou a chamar, pensei que não havia ninguém em casa.

- E mesmo assim continuou a gritar. Eu estava tomando banho.

- O compadre se encontra?

- Não. Ele saiu. Não, viajou. Só retorna amanhã à tarde.

- Precisava falar com ele ainda hoje.

- Só amanhã. Se for urgente terá que esperar. Um dia a menos, um dia a mais, tanto faz.

- Diga a ele que amanhã eu retornarei.

- Certo. Até mais, compadre.

- Até mais, comadre.

O compadre deixou o local de orelhas em pé. Já havia passado nove dias do combinado, a mulher tinha dito que estava no banho, porém estava suja feito uma porca. Nesse angu certamente tem caroço.

No outro dia, no final da tarde, o compadre voltou à residência do amigo. A comadre saiu e disse que o esposo não se encontrava. No outro dia cedo retornou, a comadre repetiu as mesmas desculpas. O compadre fez que foi embora, mas ficou a espreita. Não demorou em o devedor pôr a cara para fora, o danado estava lá dentro. Rapidamente retornou ao interior, pois escutara algum ruído.

- Compadre, compadre! – batia palmas. – Compadre!

A esposa do homem saiu igual uma fera a defender suas crias.

- Mas ainda há pouco eu não lhe disse que o meu esposo não se encontrava? Agora vem o senhor de novo azucrinar a vida dessa mulher trabalhadora.

- É que eu preciso falar muito com ele.

- Ele saiu e não tem hora para voltar.

- Vagabundo eu sabia que seu esposo gostava de ser, mas mentirosa eu ainda não sabia que a comadre era.

- O compadre está me chamando de mentirosa?

- Com todas as letras: mentirosa, mentirosa e mentirosa! O compadre está aí dentro, pois eu o vi sair agora mesmo.

- Esposo, você viu o que o desgraçado do seu amigo me disse: chamou-me de mentirosa.

O homem apareceu cuspindo fogo pelas ventas.

- Ficou doido, compadre? O que é mesmo que você quer defronte a minha residência? Quer perturbar a vida alheira?

- O compadre ficou de me pagar dia dez os oitocentos reais.

- Fiquei, mas agora é desaforo, não vou pagar mais. Como pode um amigo desconfiar do outro assim. Só porque veio me cobrar, agora é honra, não pagarei sequer um centavo.

- Mas você me tomou emprestado.

- O compadre prova? Assinei algum papel? Se não, não lhe devo nada.

- Se meus amigos são dessa forma, não quero nem saber como são meus inimigos.

- Depois dessa desfeita, não me considere mais seu amigo.

- Os oitocentos reais para mim, são oitocentos reais; minha amizade, amizade de longas datas, custa bem mais. Fique com os oitocentos reias. Tomara que não venha a precisar de mais dinheiro no futuro.

O compadre se foi, o compadre e a comadre ficaram, amizades despedaçadas, a vida segue entre tombos e glórias, o dinheiro sempre a dominar as relações.

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História de pescador

set 04 2014 Published by under Contos

piranha

- Rapaz, você viu aquelas piranhas nas margens do rio, todas assanhadas?

- Cada coisa linda…

- Só filé.

- Você pegou quantas?

- Eu? Apenas uma. Mas a que eu peguei era bela, bonita, grande, os olhos frescos como a água do mar.

- Conseguir pegar três.

- Rapaz! Três? Que homem de sorte. A que eu peguei estava uma delícia, gostosa. Que sabor! Sua carne era de uma suavidade.

- Olha aí a pescaria desse cabra safado! Disse-me que ia pescar, mas na verdade foi à procura das piranhas da rua de cima. Nunca pensei que o senhor tivesse coragem de fazer algo assim comigo. Perdeu o amor aos dentes, foi? Hoje lhe acerto o passo.

A esposa logo deitou a mão pesada na face do marido, o coitado rodopiou.

- Agora volte é vá comer a piranha novamente, seu safado. Ela não era gostosa, saborosa, com os olhos frescos como a água do mar?

- Você está louca, mulher? Eu me referia aos peixes que pesquei mais o amigo. Não sabia que piranha é uma espécie de peixe?

O amigo sorria fartamente ao presenciar a desgraça do outro.

- Não é nada disso que você imaginou. Nós estávamos pescando, referimo-nos as piranhas do rio e não as da cidade – explicava o amigo.

- Foi? – indaga a mulher triste e sem jeito.

- Eu é que sair no prejuízo, pois tomei um baita de um tabefe na cara. Mulher quando cisma com algo é pior do que onça acuada.

- É pior do que mordida de piranha, isso sim – zoa o amigo.

Tome muito cuidado com as palavras, pois as mesmas dizem bem mais do que o de costume.

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Histórias das Figuras de Érico Cardoso – Bier 2

bier3

Todos os anos Ademário Cardoso deixava sua residência na Sede, ou na rua como aqui se denomina, para passar uma temporada com a família na fazenda Manguinha na outra margem do Rio Paramirim. Ficava por lá uns três meses, gostava da natureza, da vida na roça, dos afazeres.

Certo dia, perto do horário do almoço, almoçava sempre ao meio dia, cultura da rotina da casa, um cidadão de nome Bier chega à porta e fica a fitar o patriarca do local, após um bom tempo deixou sair da sua boca um bendito elogio:

- Ademário Cardoso! – colocava mais força no sobrenome. – Ademário Cardoso, quatro homens destes consertaria Água Quente – batia forte no peito.

Com um elogio daquele ficava difícil não ceder às intenções do sujeito. Bier sabia como ninguém elogiar, ganhar o outro nas palavras, na conversa.

- Adentre para cá, Bier. Venha almoçar com a gente.

- Comerei aqui mesmo na fresca da calçada.

Dorzila serviu um prato recheado ao homem, esse devorou em poucos minutos, terminado, pediu um copo com água, depois um com café. Parou rente a porta a observar, olhos nos olhos com Ademário, disse:

- Esse rebanho de passa fome tá bom tudo de cair no tiro – e saiu à disparada estrada a fora.

Esse era Bier, uma das figuras da então Água Quente, rico em histórias.

História baseada em fatos reais, contada a nós pelo senhor Dormário Cardoso.

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Microconto 3

set 01 2014 Published by under Microcontos

leao
Microconto 3

Mato um leão todos os dias, mas a fome do felino continua.

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