Archive for: agosto, 2014

Os dois lados da moeda

ago 16 2014 Published by under Contos

escravo-apanhando

Na vida sempre temos dois ou mais pontos de um único acontecimento. Se alguns sentem dor, outros sorriem de felicidade; se uns são dotados de riqueza, outros vivem na absoluta miséria; se há a luz, também existe a escuridão…

No passado não tão distante, em um tempo em que predominava a força do colonialismo e a subjugação do homem negro, uma pequena história se fez germinar; talvez não tenha sido da forma exata que a ela descrevemos, contudo possa ter sido moldada por linhas de crueldades ainda maiores.

O coronel daquelas bandas tinha viajado já fazia mais de três meses, a região onde pairava suas mãos encontrava-se na mais absoluta paz. Todos diziam: “Um paraíso”. Os escravos realizavam suas atividades sem temer o chicote e o tronco, as mulheres possuíam a liberdade de gozar das conversas altas nas portas e nas beiras dos fogões. A vida estava pintada por traços fieis de liberdade e de felicidade. Mas como há as estações, o gostoso verão deu lugar ao inverno rigoroso e frio, o coronel voltara de sua viagem, trazia consigo um coração petrificado, amargurado, sofrido pela longa jornada. Não havia mais corajoso para sorrir, as conversas eram cochichos ao pé das orelhas, alguns monossílabos, a vida no local mudou-se completamente.

A pequena população da fazenda já havia jantado, o coronel estava sentado em sua poltrona na sala, fumava charuto, cuspia no chão a todo o momento.

- Mandou-me chamar, coronel? – apresenta-se o capataz.

- Sim, mandei. Estou muito tenso, preciso descarregar minhas energias.

- Sei.

- Traga-me um negro jovem. Virgem.

- Não entendi?

- Que nunca tenha ido ao tronco. Quero um negro de costas lisas, pois o chicote descerá sem piedade, minha ferradura nela ficará assinalada.

- Com essas qualidades só temos o filho da Maria.

- Pode ser.

- Mas a Maria trabalha na casa do coronel?

- E daí? É bom o desgraçado ir se acostumando com a chibata, pois nascera para sofrer.

- Quando poderei levar o pobre ao tronco.

- Agora.

- Agora?

- Por que o espanto? Vou bater pouco. Agora saia. Daqui a pouco eu chegarei lá.

O capataz se retirou para cumprir a ordem que lhe fora ordenada. Como poderia levar seu amigo ao tronco, indagava a si mesmo. Não tinha como recuar, ou cumpria o que lhe fora incumbido, ou seria ele a ir novamente ao tronco.

- José – chama o capataz.

Os escravos já pressentiam a desgraça, todos com seus grandes olhos brancos de lua frisaram o capataz.

- Péssima notícia. O coronel mandou que eu o levasse ao tronco.

- Ao tronco? Eu não fiz nada. Cumpri com as minhas obrigações…

- O coronel está nervoso. Vamos, seu destino, sua sina já fora traçada quando você nasceu.

O capataz amarrou as mãos do amigo e o conduziu ao calvário. O pobre foi posto ao tronco com as costas prontas para o sacrifício, braços erguidos e presos nas argolas, pés acorrentados. O negro chorava temente ao que iria lhe atingir.

Não demorou quase nada, logo a figura sinistra do temido coronel adentrava pela porta, uma sombra, um vulto do mal. Sorveu sua ultima puxada no charuto quase no fim, jogou-o ao lado, voltou a cuspir.

- O negro chora? Gosto dos escandalosos, esse parece ser um deles. Guarde seus gritos para daqui a pouco, infeliz, pois irá sofrer só um pouquinho… Tire a camisa do negro, capataz!

O coronel apanhou a taça com sorriso nos lábios, passou a mãos por sobre a mesma, delirava. O negro sofria só em imaginar a humilhação que estava preste a passar. De um lado o opressor, do outro, a presa indefesa. O poder de uma casta esmagando e subjugando um ser de outra raça.

O chicote rebentou no lombo do negro que de imediato berrou feito fera. O coronel gargalhava, gritava, vociferava feito à besta. O choro do pobre homem tirava lágrimas dos olhos brancos do capataz.

- Como é bom poder usar meu chicote. Negro, tome mais esta.

O chicote voltou a ferir as costas do escravo. Outro berro ecoou pela noite escura e calma. Os companheiros na senzala choravam a dor do irmão que padecia. As estrelas perdiam o brilho em face à tamanha barbaridade. Os cães corriam para o mato temendo o fim do mundo. Os pássaros tentavam tapar os ouvidos colocando a cabeça embaixo das asas na tentativa de não escutar os lamentos.

- Toma mais esta, negro!

O capataz se segurava, retorcia as tripas de tanto ódio, serrava os punhos, comprimia os lábios, a pele da face se contraia, a mente desejava explodir. “Que ódio de mim! Como posso ficar parado diante a um branco a humilhar a minha raça?”. Ele se aguentava, sabedor das consequências que poderiam vir.

A chibata se divertia: “Como estou feliz neste vai e vem. De um dos lados a felicidade de quem me usa, do outro, a dor de quem me recebe nos lombos. Que loucura! Eu vou, eu volto, eu torno ir… É alucinante. Só sou chibata quando me usam, inerte em algum lugar sou um mero objeto qualquer. Deixe-me voar, deixe-me cumprir com a minha obrigação de chibata”. E voava, e cantava, e ardia no lombo, e bailava no ar.

O chicote desceu seguidamente por várias vezes. O coronel parecia possuído pelo demônio, era o próprio em carne e osso. Já cansado, ofegante, suado; tendo o escravo quase desfalecido das forças, em sangue, em chagas pelo corpo, ainda assim pungia muita crueldade no coração a dissipar.

- Capataz, traga-me uma vasilha com água e sal.

Em poucos minutos tinha em mãos o seu desejo. O escravo que já se tomava por si teve que suportar outro peso, a salmoura fora derramada devagar, gole por gole, nos seus ferimentos pelas mãos do coronel que não parava de gargalhar.

- Entregue o infeliz as negras, diga a elas que cuidem dos ferimentos dele. Não posso perder um bem, esse negro tem muita força, muito valor. Se ele morrer, avisem a todas elas, todas conhecerão o tronco.

O coronel retornou ao seu lar sorridente, encontrou a esposa já na cama.

- Qual foi o motivo de tanta alegria? – indaga a esposa.

- Extravasei um pouco. Agora poderemos ser felizes nesta gostosa noite.

- Aqueles gritos…

- Não estraguemos nossa noite pensando em algo sem importância.

O escravo retornou ao seu chiqueiro deformado pelas crueldades deste mundo.

- Meu corpo doe todo. Ardem muito minhas costas. Ai, ai, ai! Esta noite não conseguirei pregar os olhos. Por que tive que apanhar tanto? Será se somos bichos? Eu não pedi para nascer. Talvez a morte seja o que de melhor me serviria no momento.

As escravas lavavam os ferimentos e passavam algum tipo de erva medicinal. As suas mãos macias, membros de anjos, refrigerava o corpo em cortes.

A chibata descansava no prego na parede suja, molhada pelo sangue vermelho do negro, cansada, um pouco gasta, mas feliz por ter sido útil.

Os lados opostos da mesma moeda; de um ponto o escravo e a sua dor, do outro, o coronel e a sua alegria. De um dos lados a face de um rei, do outro, um valor. A dor de um nasceu da alegria do outro. As leis punem com rigor, a consciência também, mas o fato é que constantemente o mundo se atola nos lados da moeda. A guerra que para o presidente nada mais é do que pura deliberação dos seus altos poderes, na outra ponta, milhares de pessoas sofrem as chibatadas da alegria de um governante. As duas faces existem, estão por todas as partes, até os cegos conseguem vê-las.

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Vou beber mais uma

ago 11 2014 Published by under Contos

pinga

Quem se acostumou com a bebida, sabe como é difícil deixar de lado o vício, mesmo diante à morte eminente. A branquinha domina o corpo e acorrenta a alma. Ela aos poucos se torna amante, rouba o trabalho, rouba o cônjuge, rouba as noites, rouba todo o tempo. Para ela não há meio termo, do outro exige a escravidão eterna.

Um rapaz bebeu anos após anos, do nada é acometido por algumas dores, dores de morrer, é levado ao hospital apagado e em coma. Começava a luta entre a vida e a morte, os exames não eram bons, a família apreensiva chorava o resultado que poderia aparecer nas próximas horas.

- O quadro dele não é bom. Vários problemas dominam o corpo do rapaz, todos eles frutos da bebida, um por sinal, é a temida cirrose hepática – esclarece o profissional de saúde.

A morte o ignorou por enquanto, talvez uma segunda chance para se recuperar. Aos poucos foi se reabilitando, em três semanas retornou ao conforto do lar. Os familiares tomaram-no de zelo. A recomendação era de repouso e de nunca mais voltar a triscar um gole de álcool na boca.

O tempo foi se arrastando, no começo um batalhão o cercava, a bebida não conseguia imprimir no enfermo seu poder de atração. Mas com os dias, os laços vão se afrouxando, a confiança em si mesmo aumenta assustadoramente, cada um procura lidar com seus problemas, esquecendo-se dos alheios. O doente recupera suas energias, não demora em está de pé e começar a se impor. Mas o amor não se morre da noite para o dia, não se arrancam as raízes profundas desse sentimento rapidamente, bastará ao primeiro contado, bastará à primeira visão, para no peito o coração se acelerar, o sangue pelas veias correr quente e em alta velocidade. O amor se reacende, o brilho da branquinha faz os olhos do homem brilharem. Ele começa a rodear o litro, pega, cheira, olha, volta a pegar, cheira novamente. “Eu não posso beber. Tenho que me segurar”. Deixa então o local, sai a caminhar, assiste TV, vai ao supermercado, nada tira da sua mente a ideia fixa do seu eterno amor. Retorna, apanha em suas mãos o litro, olha, cheira, levanta, abre devagar a rosca, pega um copo, coloca novamente no lugar, volta a pegá-lo. “Que se dane a vida!”. Fecha o litro, olha, cheira, abre-o de novo. Tremulo deixa o seu amor descer devagar ao copo, sorri, sente-se nas nuvens, levanta o copo, olha-o calmamente e de gole em gole, suavemente, sorve seu desejo, no final deixa escapar um “arrrrrr” de contentamento.

Duas semanas depois, o amor abraça mortalmente o seu amante e juntos vão ser felizes em outra dimensão.

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O analfabeto

ago 09 2014 Published by under Contos, Crônica

homem-triste

- Por favor, senhor, seu nome.

- Meu nome?

- Sim. Apenas seu nome. Completo, por favor.

Uma caneta foi passada ao pobre homem. Ele pegou no objeto temeroso e tremulo. Parou e ficou a contemplar aquele negócio.

- Vamos, homem, seu nome! – grita a autoridade. – Eu não tenho o dia todo não.

- Meu nome?

- Isso, seu nome!

- Qual é o nome do senhor?

- Não importa o meu nome, apenas escreva o seu nome na droga desse papel.

- Como posso pôr meu nome neste papel, se nunca usei este trem antes?

- Quer dizer que você é mais um dos analfabetos. Paulão, traga-me o borrão!

Pegou o polegar do homem e melou na tinta preta, em seguida sujou a folha do papel com as marcas do dedo sujo.

- Paulão, leve o infeliz ao cárcere.

Paulão saiu a arrastar o homem.

- Paulão! Não se esqueça de ensinar direitinho o babá ao infeliz.

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Cuide dos seus pecados e esqueça-se dos outros

ago 07 2014 Published by under Crônica

Nas linhas da história vemos escrito em tinta vermelha à cultura humana descrita por pecados dos mais variados possíveis. Jesus em uma de suas mais sublimes passagens dissera: “Atire a primeira pedra quem nunca pecou”. Uma frase que não envelhece, sempre está a nos alto punir.

O Brasil sofre com o alto índice de corrupção, as pessoas apontam os políticos como os principais lobos maus desse pequeno conto de fadas. A Natureza então resolveu julgar o episódio à sua maneira.

- Veremos quais de vocês é menos corrupto, qual se chega mais próximo de um projeto de anjo. Vamos começar pelo senhor. Qual o seu nome, a sua profissão?

- Pedro, sou padeiro.

- Para o senhor quem é o culpado pela baderna que toma o seu país?

- Os políticos, são todos bandidos, rouba o povo sem se importar com as consequências, pois sabem que a lei não atinge tal classe.

- Olhando nos altos vejo que todos acusam os políticos pelas mazelas da terra em que vivem. Mas comecemos pelo padeiro. Vejo aqui que sempre que pôde usou farinha vencida na produção de seus pães, não pagava o de direito aos empregados e ficou devendo vários credores. Um mero pecador que sabe apontar os pecados alheios, porém se esquece dos seus. Só falei de alguns, mas o senhor sabe que são vários outros os seus delitos.

A natureza voltou a olhar ao público e apontou para outra pessoa.

- Seu nome e a sua profissão, por favor.

- Fernando, médico.

- Sua lista é bem rica em pecados, mas falaremos apenas de um. Quantas vezes o senhor deixou de atender às pessoas por considerá-las pobres, sem status sociais? Sabia que uma criança das quais o senhor negou atendimento faleceu fruto da sua falta de caráter?

Voltou a observar a plateia e apontou a outra pessoa.

- Meu nome é Maria, trabalhei como gari.

- Aquela bolsa com todo aquele dinheiro, porque não devolveu ao dono? Não minta, pois dentro havia o nome da pessoa e o endereço.

Vários foram interrogados, e todos, sem exceção, a Natureza elencava a lista dos pecados.

- E você, rapaz?

- Antônio, eu não trabalhei em nada.

- Vejo em sua fixa que é o que mais acusa os políticos, também sabemos que vendeu seu voto na eleição, que viveu nas custas das mulheres a extorquírem dinheiro. Um pecador igual aos demais. Aqui não temos nenhum santo. Quando for apontar um pecado do seu irmão, pare e olhe a si mesmo. Espere um pouco, faltou aquele último da fila. Por favor, apresente-se.

- Henrique, comerciante.

- Esse merece um raciocínio demorado. Comprou e fomentou o crime.

- Eu! Eu mesmo não.

- Pensava ser algo normal, pois todos agiam de igual modo. Quantos aparelhos de celular o senhor adquiriu por preço de banana? De onde saia todos eles? O senhor sabia que ao comprar os aparelhos a pessoa que lhe vendia saia a roubar e a furtar? Nesses ataques quantos inocentes perderam a vida… Sua culpa é tão grande quanto ao do que apertou o gatilho. Seu maldito dinheiro era o combustível para o rapaz praticar tais delitos. Você não passa de um pecador.

- Mas eu não sabia.

- Sabia. A sociedade está corrompida de baixo para cima e de cima para baixo. Todos são pecadores. Tire um do seu posto e coloque outro, tudo continuará de igual modo. Enquanto viverem reféns do dinheiro, serão pecadores. A inveja e o orgulho acorrentam e deixam o indivíduo cego.

- Queremos fazer a nossa defesa? – indaga o advogado.

- Defesa? Não há argumento para o erro. O senhor por sinal lucrou grande soma com o tráfico de drogas. De todos é o mais enrolado. As suas defesas de nada valem perante este tribunal. Não sou eu quem pune, a consciência de cada um se faz de juiz.

Somos seres em evolução, buscamos algo dourado, princípios que nos levam a perfeição. Concordamos que a estrada é longa e que ainda estamos nas primeiras séries de estudo, mas já avançamos bastante. Nesta nossa sociedade não existe santos, mas nem todos são feras. Mudemos nós e estaremos transformando o mundo.

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Romaria a Bom Jesus da Lapa

A Romaria à cidade de Bom Jesus Lapa é antiga, arrasta-se por vários anos. Com o passar dos tempos, ela foi se modificando, fruto da evolução tecnológica. Nos primórdios, os devotos para lá se dirigiam a pé ou levados pela força de alguma montaria. A fé daquele povo parece maior que a da população atual, as penitências por eles realizadas pagaria qualquer pecado. Ir à festa do Bom Jesus era obrigação de todos os fieis, a Meca do Sertão.

Conta-se que em certa época levavam-se dois dias a viagem de caminhão que doravante denominavam por “Pau-de-Arara”. Saia de Água Quente na parte da manhã, passava por Paramirim, Livramento, São Timóteo, Lagoa Real, parando para dormir em Caetité. No outro dia ainda na penumbra da noite, o caminhão seguia destino, levando na sua carroceria pessoas felizes e a cantar. Cantavam-se as músicas referentes à romaria a viagem toda.

Antes da cidade de Riacho de Santana, havia um bar de nome “O Quinca”, os veículos estacionavam, as pessoas faziam suas refeições, esperavam o motor do pau de arara esfriar. Ao partir se preparavam para o famoso “Areão da Lapa”, temido por muitos, era tanta areia que caminhões atolavam no seco, quando o fato acontecia, os demais carros que vinham logo atrás eram obrigados a parar, a estrada era estreita. Em uma dessas paradas, a vontade de seguir era tamanha que o povão juntou em um caminhão e no braço o tirou da areia, permitindo o fluxo do pequeno congestionamento.

Ao se aproximar da cidade de Bom Jesus da Lapa, os carros paravam, os homens desciam e caiam no mato. Em pouco tempo os feches de lenha eram acomodados sobre a carroceria, em seguida, a viagem continuava. A lenha seria usada para acender o fogo do fogão, dele sairia a comida para alimentar toda aquela gente.

Por vários anos o senhor Ademário Cardoso alugou uma das residências do senhor Chico Preto, casa grande, de muitos quartos e sala enorme. As pessoas se acomodavam por todos os lugares, era um movimento intenso de entra e sai durante todo o dia. Os que não tinham um abrigo para dormir, armavam-se redes nos caminhões.

A festa se resumia ao sobe e desce pelas ruas, as Missas, a Procissão, aos banhos no Rio São Francisco, aos goles nos botecos. Naquele tempo estava na moda sobrevoar a cidade de avião, pagava-se o ingresso e o indivíduo tinha o prazer de ver do alto o Santuário de Bom Jesus. Alguns dos vapores realizavam festas regidas por orquestra, o barco descia o Velho Chico levando o grupo em pleno divertimento. No meio do Rio existiam algumas ilhas, nessas muitos passavam o dia jogando bola e tomando banho. Na cidade havia a boate “Tudo Azul”, nela aconteciam às festas durante as noites, as orquestras faziam a alegria dos foliões.

Naquele tempo muitos se perdiam em meio à multidão, volta e meia o alto-falante bradava: “Atenção, o senhor José da Luz encontra-se perdido, por favor, algum parente ou amigo venha até a entrada do Santuário. O homem espera aflito”.

Certo ano, ao deixar a cidade, todos traziam presentes, o finado Basílio comprou um cari gigante (peixe), amarrou o animal no fundo do caminhão, ao chegar a Água Quente o peixe era só terra, estava temperado pela poeira e frito por receber tanto sol no lombo.

Assim que o pau-de-arara parava defronte a residência de Ademário, as pessoas já marcavam compromisso para o ano seguinte.

A Romaria ao Bom Jesus da Lapa era bem mais que uma singular manifestação religiosa, era festa, era lazer, era viagem, era aventura, era sair da rotina para alguns dias de sonho em uma terra distante.

Fatos contados a nós pelo senhor Dormário Viana Cardoso.

Foto: Ilustrativa, fonte internet.

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Lembranças de um carro de bois

ago 04 2014 Published by under Contos, Crônica

Voltando nas linhas escritas pelo meu tempo, na mágica adolescência dos meus dias, também no começo da velhice que ora deseja me devorar, recordo-me da figura do meu ilustre carro de bois. No alvorecer da minha existência, o carro ainda me pertencia, contudo não era eu mais a guiá-lo pelas estradas de terra do meu querido Sertão. Deixei minha fazenda na Lagoa do Mato e me meti em uma residência na primeira Praça da cidade, nada foi por acaso, deste ponto poderia observar meu querido veículo apontar para a feira do sábado. Na madrugada, galos ainda mudos, uma quietude de cemitério, de repente um corte suave e fagueiro no ar. Estava em jubilo, contente não mais conseguia pregar os olhos, ouvia aquele canto do eixo a arranhar os chumaços e os coçãos; a cada minuto corrido, o som se imprimia mais e mais alto a meus tímpanos. Levantava, abria a janela, observava o leste vivamente, as bandas do Rio. Os galos ao reconhecer o som logo se tratavam de encorpar a afinada orquestra, alguns cães, volta e meia, metiam um agudo forte na melodia. O sol jogava seu manto amarelo por sobre a serra, aos poucos ia engolindo a cidade que com ele acordava. Era dia de feira livre, dia de fazer negócio, dia da compra e da venda. O carro deixava-se ver no limiar do horizonte, meus olhos brilhavam com os raios do rei supremo que ora os atingiam. Para chegar à minha residência, uma pequena ladeira exigia muito da parelha de bois, animais grandes, amarelo claro, par de cifres a quase tocar um ao outro. O rangido aumentava o tom, minha alegria crescia na mesma batida. Meu amigo chegava à porta, eu já me encontrava de pé a esperá-lo. Bom dia, compadre. Bom dia, respondia o homem fatigado da viagem. Enquanto para mim tudo aquilo era sublime, para o pobre serviçal não passava de penúria e obrigação. O homem descia do carro e me acompanhava até a mesa, tomávamos café enquanto conversávamos. Ele devorava os alimentos com ânsia, estava faminto, parecia que há dias era privado de alimentação. O que trás para feira hoje, compadre? Trago: rapadura, laranja, falinha de mandioca, requeijão e algumas abóboras. Como anda a vida por lá? Do mesmo jeito sempre, nada muda, muito trabalho e pouca diversão, faz parte da vida. Tenho saudade de quando eu morava na roça. Lá a vida é muito dura, boa talvez para o senhor que foi patrão, serviçal sofre muito. Em seguida, o homem sobre a carga e a gritar com os bois terminava o percurso até a feira, eu voltava à cama e ficava a sonhar acordado, lembrando-me da minha adolescência.

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Vendedor de frutas

Todo bom comerciante é um artista nato que ganhou no dia a dia a sua experiência de negociar. Um produto que na mão da maioria vale um preço, na dele sobe vinte a trinta por cento, e consegue a venda mais rápido do que aquele que não vive de tal atividade.

- Senhor, quer comprar laranjas? Só frutas de primeira qualidade.

- E aí, como são essas laranjas?

- São doces feito mel.

- Que pena, amigo, eu queria umas laranjas azedas para fazer suco.

- No meio tem umas azedinhas.

- Veja como descobrimos a qualidade da mercadoria. Pela cara dessas laranjas, as mesmas são azedas iguais a limão.

- O senhor está enganado. Compre-me pelo menos uma dúzia, preciso do dinheiro para comprar o arroz, tenho dois filhos para alimentar, o comércio está fraco.

- Como sei que não me dará sossego enquanto não me vender as tais laranjas, vou comprá-las em sua mão.

- Se não for doce, o senhor poderá me devolver na próxima semana.

- Mas o amigo não estava a me vender laranjas? Agora vem com essa de doce. O amigo vende laranjas, ou doce? É brincadeira… Deixe uma dúzia desses limões aí sobre a mesa.

- São laranjas.

- Engana que eu gosto. Nessa escola que o amigo recebeu o diploma, eu fui professor.

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