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Retorno ao tempo bom de colégio

ago 23 2014 Published by under Contos, Crônica

dia-do-estudante

Na vida somos cada qual um pintor. Têm aqueles mestres, dotados de qualidades, inteligentes, que pintam quadros raros, diferentes e difíceis de compreender e de se fazer. Também temos os medianos, incluo-me nesta categoria, obras parecidas, pinceladas normais, paisagens, animais, nuvens, confesso que conseguir colocar em frente do meu humilde sapê uns pássaros no céu, uma raposa e dois frangos ao lado, tentei algo mais, porém parei em minha pouca capacidade. Há os que pintam quadros negros, com sangue, com ossos, caveiras, cemitérios, forca, precipícios. Não podemos deixar de mencionar as telas repletas de flores, insetos, beija-flores, jardins, perfumes. Na vida cada qual, dia a dia, escreve com pincel e tintas coloridas sua odisseia.

Por um estalo do momento, vi-me fuçando meu passado escolar, revirando todo aquele amontoado de fatos, acontecimentos, sonhos, ideias… Percebi que meus passos, ora rápidos, ora lentos, não se passaram de pegadas simples, não pesadas a ponto de sobreviver após minha partida, bem finas, frias como o vento de uma estação qualquer.

Voltar às origens da minha frondosa e espaçosa adolescência, retornar ao tempo em que não me importava com o futuro; tudo se resumia naquele local, naquele instante, tudo era absolutamente tudo. As paredes do colégio estão como dantes, cada sala com suas histórias, cada canto narra um pouco de muito. Voltei-me, já disse, no tempo, tempo bom volto a falar, tempo em que uma bola de meia valia mais do que um avião no céu.

A mente aos poucos se remexe e das suas entranhas força uma luz saltar-me dos olhos. Quantos colegas eu tive? Vários, muitos, um bocado. Lembro-me de alguns, de outros somente a feição, um tanto mais deles toda a importância desapareceu por completo da minha mente. Para onde foram todos? Tudo era tão concreto, tão duradouro, parecia que não iria se acabar nunca. De repente, vejo-me formado, perdido entre a multidão a procura do pão e do leite. Queria voltar, queria minha turma novamente, queria… Passou o meu tempo, se usei da melhor forma, bom, se não, ficou para trás.

Mas voltemos a tocar nos colegas. Como pode a amizade nascer tão espontânea e da mesma forma se evaporar? Certo é que tive colegas que sempre me foram estranhos, jamais trocamos um simples monossílabo. Tive também colegas das brincadeiras, das pescarias nos dias de provas, da colaboração nos trabalhos. Na turma sempre sentava no fundo, a minha frente cavalgava todos. Enquanto eu sofria para conquistar a mediana, eles nadavam em dez. Por onde andam todos eles? Hoje, se nos reencontrarmos, com certeza seremos no máximo velhos conhecidos, o laço se rompeu, a amizade se estacionou na nossa melhor fase.

As nuances da instituição de ensino mostram-me como em uma tela de TV todos os professores. Cada educador com o seu método, o seu jeito de nos cativar. Havia os que nos imprimiam medo, para esses ou se dedicava ao máximo, ou era reprovado. Uns professores gostavam de conversar, desses as aulas se transformavam em um verdadeiro circo regrado a fartas risada. Qual dos dois tipos era o mais eficaz? Os dois. Vivíamos a bailar ao sabor dos humores, não era uma ditadura sem fim, tampouco num circo eterno.

Acordava cedo, seis da manhã, para um jovem um tormento. Na temporada de chuvas, enfrentava a rua de lama, ia desviando de um lado ao outro, levava na mão um guarda-chuva machucado, na outra, os cadernos e os livros. Nos dias frios, chegava tremendo, sentava na calçada à frente do colégio para roubar um pouco o calor do tímido sol. Lembro-me de um senhor a me advertir: “Nhõ, olhe a parede, ela foi pintada ontem. Sente-se na calçada, por favor.”. Ele se referia a qualquer um por Nhõ, temia que um de nós deixasse na sua límpida parede as digitais do calçado gasto.

Nos intervalos corríamos a quadra, sob o sol a rachar a cabeça, estávamos a chutar a bola para um lado a outro. A sineta tocava e nós todos suados corríamos a lá gambás para a sala. A camisa molhada de suor colava ao corpo, a mente estava do lado de fora. “Como pode durar tanto estas aulas?” indagava-me a mim mesmo. Agora, distante daquele paraíso perdido, vejo que durou quase nada, algumas gotas de dias. É cruel saber que quando se tem não se dá o devido valor; o ouro só encanta os olhos daquele que o contempla na esperança vaga de um dia possuí-lo.

As lembranças são em variedades e tons a entorpecer a alma. Observando o curso deste meu ínfimo e maltrapilho rio, sinto-me feliz, contente por ter vivido de forma simples, sem as amarras de uma vida social forçada ao sabor das maneiras da classe dominante. A felicidade dos seres encontra-se na liberdade total de se viver da forma mais singela possível. Se há os que adoram cadeados, algemas, grades, mentes fechadas, guardem-nas, aperte-as, não nos dê esse desprazer de conhecer tal miséria.

Neste momento, vejo-me regressando do colégio, ao lado dos colegas em prosas diversas, o sol quente do meio dia a nos tirar a paz, de repente, alguns estudantes correndo, um segundo e estávamos todos na mesma algazarra, pobre estudante, quem diria que em seu aniversário receberia como presente ovos na cabeça e nas costas. A vida era desta forma, do nada tudo surgia rapidamente, tudo se reinventava.

Mas paremos por aqui por hoje, basta de tanto recordar, o coração é fraco, não há de suportar.

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