Archive for: agosto 21st, 2014

Os galos e o brilho da Lua

ago 21 2014 Published by under Contos

A noite escura afoga a luz no espaço sem cores, tira dos objetos seus traços magistrais, retrai os seres a meros vultos, dá mais visibilidade aos sons. A noite escura se eleva a ouro na presença dos raios aureolados da Lua cheia, cresce nas nuances das formas e das sombras, ganha ares de boemia, cheira aromas primaveris.

As estrelas se enfraquecem diante a luz noturna, o Sol é esquecido por um instante, o rei se reina do seu absoluto poder. Um galo desperta dos sonhos de galo, abre os redondos olhos, é pego, amarrado, amordaçado, enforcado, trucidado pelo fascinante brilho. Aquela bola a pegar fogo sobre a testa, hipnose instantânea, olhos se dilatam, agigantam-se, tomam todo o rosto; olhos redondos, olhos de reverência. Em transe ergue o pescoço três vezes e em estado sonambúlico deixa escapar da goela seu grito forte de louvor. Aquele canto de co, de co, co ri co rasga o oxigênio, penetra pelas frestas, adentra as intimidades das copas verdes, corre pelos túneis dos vermes, dispara aos lados, para, não, vara o ouvido de outro galo. Esse recebe o golpe e se contrai, o transe se alonga, o olhar se volta ao alto, olhos arregalados, olhos redondos, olhos de galo, três erguidas de pescoço, um novo canto explode e se deixa fugir na busca desenfreada. A teia se entrelaça nos sons, galos loucamente, música suave da sintonia da noite de um lindo e espetacular luar.

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Assassinato no Arrozal

A vida na zona rural tem das suas rotinas diárias. Levantar com os galos, arar terra, alimentar o rebanho, regar, tirar leite, colher frutas no pomar, e por aí se segue a eterna labuta, sem férias e tampouco feriado.

Em nossa região, tivemos o arroz como uma das culturas predominante, com o passar do tempo e com as mudanças no clima e no comércio, de tal lavoura só se consegue colher prejuízos e muito suor.

No ano de 1972, na região da então Água Quente, na comunidade de Tabua, um homem do campo de nome Fidelcino labutava com uma pequena roça de arroz. Como o serviço era do nascer do sol ao deitar para o descanso, sobrava um quinhão até para os filhos, pois tinham que passar o dia todo a espantar os pássaros que apareciam para saborear os apetitosos cachos. O filho do dono da propriedade era o guarda da plantação; fazia os espantalhos e os distribuíam pelo arrozal, com um estilingue ficava a atirar pedras de um lado a outro, batia em uma lata, gritava, cantava… Para o jovem aquele serviço se assemelhava a uma prisão, o desejo era sair, passear, namorar…

Durante seis dias da semana, o rapaz fazia o serviço sem muitas queixas, mas na segunda-feira, dia de feira livre na sede, dia de paquerar, dia de se divertir, nessas ocasiões sentia o coração apertar e o sangue ferver por todo o corpo.

Havia duas semanas que o nosso trabalhador conhecera uma jovem, que para ele era a mais bela das princesas, algo vindo do mundo dos sonhos. As coisas iam se ajeitando entre eles, tudo encaminhava para um relacionamento, mas as investidas e os sucessos só aconteciam nos dias de feira livre, momento em que os dois se colocavam no mesmo local, já que moravam distante um do outro.

O jovem tentava descobrir uma maneira de deixar o trabalho e ir ao encontro da futura amada. Mas qual? O que fazer? Pensava, novamente pensava, pensava de novo, nada refrescava a cabeça louca do pobre apaixonado.

Surge diante dele um boi, não um boi qualquer, um animal com um ferimento, uma bicheira, da qual escorria bastante sangue. O bicho incomodado esfregou a parte ensanguentada em um mourão na tentativa de se coçar, além do sangue na madeira, pelo chão ficaram vários pingos também. Uma luz acendeu na mente turbulenta do rapaz. Deixou a roça em correria e foi ter na casa dos pais na comunidade de Ovos.

- Pai, pai! – entra agitado e gritando, suor descia pela face, ofegante avisava ao genitor o que acabara de presenciar. – Pai, eu vi no meio da roça de arroz um homem esfaquear outro!

- Você conheceu os homens? – indaga o pai preocupado. – Isso não é brincadeira sua não? Com morte não se brinca.

- Não, estou falando sério, eu juro. Quando eu vi aquela cena, comecei a correr, tive medo que ele me visse e quisesse me matar também.

- Vamos lá conferir.

- É melhor chamar a polícia.

- A polícia?

- Se o matador ainda estiver lá? Quem sabe ele não mate nós também?

- Tem razão. A polícia sabe lidar melhor que nós dois juntos. Vamos à feira informar ao delegado.

A metade do plano do rapaz havia obtido sucesso. Ao chegar à sede, o rapaz deixou-se sumir no meio da multidão, enquanto o pai se dirigia até a delegacia. O senhor partiu da feira livre na companhia de dois policiais; como o rapaz não chegava, foram eles somente.

Não sabemos se o rapaz tivera sucesso com o seu romance. Já na roça, eles encontraram o sangue no mourão e no chão, em outro local havia no meio do capim também. O rapaz havia falado a verdade. Mas por onde andava o corpo do defunto? Eles procuraram por todos os locais próximos e não o encontrou. Um mistério. Quem seriam eles: o morto e o matador? Ninguém ao certo sabia. Gente da comunidade não era, pois todos se encontravam em suas residências.

A notícia do tal matador perambulou pelas localidades igual pólvora pegando fogo. O temor tomou conta daquela gente, ninguém mais queria por os pés fora de casa, o medo e o pânico os dominaram.

Logo começaram a surgir boatos de todas as ordens. Uns afirmavam que havia visto um homem armado deixando a roça, outro dizia que conversara com um indivíduo armado em um boteco, outros mais distantes disseram que havia dado comida a um estranho. As histórias foram moldando novos contextos ao caso. O clima de medo e de apreensão era imenso. Os policiais faziam ronda na tentativa de descobrir a figura do matador, ou encontrar o corpo da vítima. Todos desejavam saber alguma coisa sobre o assassino e o defunto. Suposições eram levantadas: o homem enterrara o corpo em algum local, jogara em uma caverna, e por aí seguia os falatórios.

O medo crescia com as horas, de tempo em tempo, algo novo era especulado.

- Encontrei um homem estranho subindo a serra em determinado local – afirmava um senhor.

A polícia se dirigia ao lugar, alarme falso. Várias foram às notícias desencontradas. A população medrosa se recolhia em casa, todos tinham medo de encontrar com tal o matador. Os policiais perderam a esperança diante à tantos alarmes falsos. A vida no lugarejo seguia tensa, arisca.

Havia passado sete dias do episódio, quando o senhor foi obrigado a ir a roça colher o arroz que corria sérios riscos de se perder no campo. Poupou o filho do serviço, temeroso de algo ruim vir a acontecer com a prole. Chegou e presenciou a passarada a devorar seu trabalho, olhou para o lado onde o homem tinha sido assassinado, lá viu um boi preto, o mesmo animal, a esfregar o dorso no mesmo mourão, foi até lá conferir. A bicheira estava feia, precisava de cuidados. De imediato, no homem o sangue começou a ferver, rodopiava pelo corpo em alta velocidade. Montou em seu cavalo castanho e saiu em disparada a chicoteá-lo.

- Mulher, onde está o rapaz? – descia do cavalo e entrava loucamente sala adentro.

- Disse que ia à feira.

- Ele disse que ia à feira foi? Pois é lá que a lição será dada. Mais nunca aquele infeliz mentirá para mim. Hoje ele me pagará caro.

Montou novamente no animal e sumiu na estrada de terra adentro. O cavalo só perdeu a velocidade já na feira, cansado e melado de suor. O homem pulou antes mesmo que o animal parasse. Entrou entre o povão a procura da caça. Encontrou o rapaz abraçado com a namoradinha a conversar sentados ao redor de uma mesa de um dos bares da praça. O filho não teve tempo de se esquivar, foi agarrado pelo braço esquerdo, levantado e chicoteado com uma bainha de facão na frente da namorada e de todos. O povão cercou o bar, ninguém conseguia sair, nem entrar, todos desejavam saber qual o motivo da surra. O rapaz levou mais de cinquenta chibatadas, distribuídas no lombo, nas pernas, nos braços. Gritava de dor e chorava. Pedidos para parar de bater eram ouvidos. Em dado momento, dois policiais adentraram, de imediato agarrou o homem que estava em estado furioso, fora de si, e o fez cessar. O senhor foi encaminhado à delegacia e lá esclareceu o ocorrido ao delegado. Já calmo, retornaram para casa, ele montado em seu cavalo, tendo o rapaz à frente e a andar.

O arrozal havia sido comprometido, os pássaros levaram no bico mais da metade da produção, não houve assassinato, pura travessura do adolescente. Entre perdas e ganhos, o rapaz ganhou alguns beijos e sofreu uma baita de uma sorva; o agricultor perdeu metade do arroz e a calma, a esposa perdeu horas a cuidar do filho, o mundo sempre termina no lucro, alimentou seus passarinhos, deu assunto às línguas, ganhou uma história.

A vida no povoado voltou a sua normalidade.

História baseada em fatos reais, contada a nós pelo senhor Antônio de Nondas.

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