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Vou beber mais uma

ago 11 2014 Published by under Contos

pinga

Quem se acostumou com a bebida, sabe como é difícil deixar de lado o vício, mesmo diante à morte eminente. A branquinha domina o corpo e acorrenta a alma. Ela aos poucos se torna amante, rouba o trabalho, rouba o cônjuge, rouba as noites, rouba todo o tempo. Para ela não há meio termo, do outro exige a escravidão eterna.

Um rapaz bebeu anos após anos, do nada é acometido por algumas dores, dores de morrer, é levado ao hospital apagado e em coma. Começava a luta entre a vida e a morte, os exames não eram bons, a família apreensiva chorava o resultado que poderia aparecer nas próximas horas.

- O quadro dele não é bom. Vários problemas dominam o corpo do rapaz, todos eles frutos da bebida, um por sinal, é a temida cirrose hepática – esclarece o profissional de saúde.

A morte o ignorou por enquanto, talvez uma segunda chance para se recuperar. Aos poucos foi se reabilitando, em três semanas retornou ao conforto do lar. Os familiares tomaram-no de zelo. A recomendação era de repouso e de nunca mais voltar a triscar um gole de álcool na boca.

O tempo foi se arrastando, no começo um batalhão o cercava, a bebida não conseguia imprimir no enfermo seu poder de atração. Mas com os dias, os laços vão se afrouxando, a confiança em si mesmo aumenta assustadoramente, cada um procura lidar com seus problemas, esquecendo-se dos alheios. O doente recupera suas energias, não demora em está de pé e começar a se impor. Mas o amor não se morre da noite para o dia, não se arrancam as raízes profundas desse sentimento rapidamente, bastará ao primeiro contado, bastará à primeira visão, para no peito o coração se acelerar, o sangue pelas veias correr quente e em alta velocidade. O amor se reacende, o brilho da branquinha faz os olhos do homem brilharem. Ele começa a rodear o litro, pega, cheira, olha, volta a pegar, cheira novamente. “Eu não posso beber. Tenho que me segurar”. Deixa então o local, sai a caminhar, assiste TV, vai ao supermercado, nada tira da sua mente a ideia fixa do seu eterno amor. Retorna, apanha em suas mãos o litro, olha, cheira, levanta, abre devagar a rosca, pega um copo, coloca novamente no lugar, volta a pegá-lo. “Que se dane a vida!”. Fecha o litro, olha, cheira, abre-o de novo. Tremulo deixa o seu amor descer devagar ao copo, sorri, sente-se nas nuvens, levanta o copo, olha-o calmamente e de gole em gole, suavemente, sorve seu desejo, no final deixa escapar um “arrrrrr” de contentamento.

Duas semanas depois, o amor abraça mortalmente o seu amante e juntos vão ser felizes em outra dimensão.

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