Archive for: agosto 4th, 2014

Lembranças de um carro de bois

ago 04 2014 Published by under Contos, Crônica

Voltando nas linhas escritas pelo meu tempo, na mágica adolescência dos meus dias, também no começo da velhice que ora deseja me devorar, recordo-me da figura do meu ilustre carro de bois. No alvorecer da minha existência, o carro ainda me pertencia, contudo não era eu mais a guiá-lo pelas estradas de terra do meu querido Sertão. Deixei minha fazenda na Lagoa do Mato e me meti em uma residência na primeira Praça da cidade, nada foi por acaso, deste ponto poderia observar meu querido veículo apontar para a feira do sábado. Na madrugada, galos ainda mudos, uma quietude de cemitério, de repente um corte suave e fagueiro no ar. Estava em jubilo, contente não mais conseguia pregar os olhos, ouvia aquele canto do eixo a arranhar os chumaços e os coçãos; a cada minuto corrido, o som se imprimia mais e mais alto a meus tímpanos. Levantava, abria a janela, observava o leste vivamente, as bandas do Rio. Os galos ao reconhecer o som logo se tratavam de encorpar a afinada orquestra, alguns cães, volta e meia, metiam um agudo forte na melodia. O sol jogava seu manto amarelo por sobre a serra, aos poucos ia engolindo a cidade que com ele acordava. Era dia de feira livre, dia de fazer negócio, dia da compra e da venda. O carro deixava-se ver no limiar do horizonte, meus olhos brilhavam com os raios do rei supremo que ora os atingiam. Para chegar à minha residência, uma pequena ladeira exigia muito da parelha de bois, animais grandes, amarelo claro, par de cifres a quase tocar um ao outro. O rangido aumentava o tom, minha alegria crescia na mesma batida. Meu amigo chegava à porta, eu já me encontrava de pé a esperá-lo. Bom dia, compadre. Bom dia, respondia o homem fatigado da viagem. Enquanto para mim tudo aquilo era sublime, para o pobre serviçal não passava de penúria e obrigação. O homem descia do carro e me acompanhava até a mesa, tomávamos café enquanto conversávamos. Ele devorava os alimentos com ânsia, estava faminto, parecia que há dias era privado de alimentação. O que trás para feira hoje, compadre? Trago: rapadura, laranja, falinha de mandioca, requeijão e algumas abóboras. Como anda a vida por lá? Do mesmo jeito sempre, nada muda, muito trabalho e pouca diversão, faz parte da vida. Tenho saudade de quando eu morava na roça. Lá a vida é muito dura, boa talvez para o senhor que foi patrão, serviçal sofre muito. Em seguida, o homem sobre a carga e a gritar com os bois terminava o percurso até a feira, eu voltava à cama e ficava a sonhar acordado, lembrando-me da minha adolescência.

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