Archive for: agosto, 2014

Um pouquinho da gente

ago 31 2014 Published by under Poesia

Um Pouquinho da Gente.

***

Hoje, o que você fez?

Nada.

O que você fez ontem?

Nada.

Na semana passada, o que você fez?

Nada.

O que você fez no mês anterior?

Nada.

Seu rosto são seus passos

Portanto

Nada vezes nada

Igual a nada

Fazer o quê, seu Nada?

A sua resposta já conhecemos

Nada.

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Histórias das Figuras de Érico Cardoso – Bier 1

As figuras que enfeitam a linda história do município de Água Quente, atualmente Érico Cardoso, são recheadas de nuances que encantam e ao mesmo tempo nos fazem sorrir.

Muitos na nossa região conheceram um tal de Bier, não foi do nosso tempo, mas sempre escutamos algo a seu respeito. Dormário Cardoso nos contou um fato e resolvemos deixá-lo registrado para posteridade.

Naquele tempo em que a política era acirrada e, nas muitas das vezes, violenta no citado município, disputa entre os caciques Érico Cardoso e João Martins, Bier por ser personagem do povo transitava entre ambos os lados com certa facilidade e sem despertar rancor por nenhuma das partes.

Nos meses anteriores a eleição, o movimento e o falatório sobre a mesma aumentava. Bier sempre brincalhão encontrava maneiras de pôr mais lenha na fogueira de labaredas já altas.

Ele chegava à porta da residência de Érico Cardoso, olhos grudados por cerca de dois minutos com os do chefe político, dizia:

- Como disse Joãozinho: “Érico tá bom é de cair no tiro”.

Repetia a frase uma poção de vezes e se dirigia à residência de Joãozinho. Chegando lá, parava à porta, olhava fixamente nos olhos do político e soltava o verbo:

- Como disse Érico Cardoso: “João Martins tá bom é de cair no fuzil”.

Bier foi, é e sempre será uma figura histórica do município de Érico Cardoso.

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Microconto 2

ago 30 2014 Published by under Microcontos

Microconto 2

No hospício os loucos são poucos, um médico atende cem.

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Microconto 1

ago 28 2014 Published by under Frases, Microcontos

Microconto 1:

Para nós, nós somos tudo; para o mundo, não somos nada.

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Comigo gol só se for de bicicleta

A história do futebol em nossa região é muito rica e, nas muitas das vezes, cômica. Se na região já é desta forma, quanto mais no município da outrora Água Quente? Érico Cardoso é uma terra de um povo criativo, brincalhão, que sabe viver a vida da melhor maneira.

Um centroavante nato de nome Dudu de Basílio, jogava sempre ao lado dos defensores Dormário e Bernardo pela equipe do Juventus da Malhadinha. De tanto praticar o esporte juntos cresceu o entrosamento, cada um sabia de antemão o que o outro iria realizar dentro de campo, desta forma os gols saiam com mais facilidade.

Vamos narrar um lance corriqueiro no decorrer daquelas memoráveis partidas, ao nos contar, os senhores Altamiro e Dormário se desfaziam em risada.

“Dormário desarma o atacante adversário, olha para frente, vê o matador Dudu se deixar ir pela diagonal, lança a bola no seu bicudão clássico. O atacante corre, para a bola, dispara pela linha de fundo, cruza a bola para área, o zagueiro adversário antecipa e coloca pela linha de fundo. Escanteio aponta o Árbitro indicando com a mão direita o tiro de meta. Dormário deixa o sistema defensivo, um meio campo volta para guarnecer a zaga. Dormário ajeita a bola com calma, olha para área e vê Dudu já se posicionado para um lance genial. O atacante Dudu encontra-se agachado esperando a bola para emendar uma linda bicicleta. A bola recebe uma bicuda e viaja, voa sobre os jogadores, encontra a chuteira afiada do atacante matador. De bike Dudu coloca a bola no fundo da rede. Golllll… Faltando somente dois minutos para o final a torcida grita: ‘É campeão! É campeão’. Dudu é o homem da partida, marcou o único gol do jogo, gol do título, gol de matador, uma verdadeira pintura assinada com a marca do craque. Dudu de Basílio, o homem da bicicleta”.

Todas as vezes que tinha um tiro de canto e que Dormário pegava a bola para bater, Dudu logo se posicionava agachado para dá sua famosa bicicleta. A torcida ia ao delírio.

História baseada em fatos reais, contadas a nós pelos senhores Altamiro (Boga) e Dormário.

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Retorno ao tempo bom de colégio

ago 23 2014 Published by under Contos, Crônica

dia-do-estudante

Na vida somos cada qual um pintor. Têm aqueles mestres, dotados de qualidades, inteligentes, que pintam quadros raros, diferentes e difíceis de compreender e de se fazer. Também temos os medianos, incluo-me nesta categoria, obras parecidas, pinceladas normais, paisagens, animais, nuvens, confesso que conseguir colocar em frente do meu humilde sapê uns pássaros no céu, uma raposa e dois frangos ao lado, tentei algo mais, porém parei em minha pouca capacidade. Há os que pintam quadros negros, com sangue, com ossos, caveiras, cemitérios, forca, precipícios. Não podemos deixar de mencionar as telas repletas de flores, insetos, beija-flores, jardins, perfumes. Na vida cada qual, dia a dia, escreve com pincel e tintas coloridas sua odisseia.

Por um estalo do momento, vi-me fuçando meu passado escolar, revirando todo aquele amontoado de fatos, acontecimentos, sonhos, ideias… Percebi que meus passos, ora rápidos, ora lentos, não se passaram de pegadas simples, não pesadas a ponto de sobreviver após minha partida, bem finas, frias como o vento de uma estação qualquer.

Voltar às origens da minha frondosa e espaçosa adolescência, retornar ao tempo em que não me importava com o futuro; tudo se resumia naquele local, naquele instante, tudo era absolutamente tudo. As paredes do colégio estão como dantes, cada sala com suas histórias, cada canto narra um pouco de muito. Voltei-me, já disse, no tempo, tempo bom volto a falar, tempo em que uma bola de meia valia mais do que um avião no céu.

A mente aos poucos se remexe e das suas entranhas força uma luz saltar-me dos olhos. Quantos colegas eu tive? Vários, muitos, um bocado. Lembro-me de alguns, de outros somente a feição, um tanto mais deles toda a importância desapareceu por completo da minha mente. Para onde foram todos? Tudo era tão concreto, tão duradouro, parecia que não iria se acabar nunca. De repente, vejo-me formado, perdido entre a multidão a procura do pão e do leite. Queria voltar, queria minha turma novamente, queria… Passou o meu tempo, se usei da melhor forma, bom, se não, ficou para trás.

Mas voltemos a tocar nos colegas. Como pode a amizade nascer tão espontânea e da mesma forma se evaporar? Certo é que tive colegas que sempre me foram estranhos, jamais trocamos um simples monossílabo. Tive também colegas das brincadeiras, das pescarias nos dias de provas, da colaboração nos trabalhos. Na turma sempre sentava no fundo, a minha frente cavalgava todos. Enquanto eu sofria para conquistar a mediana, eles nadavam em dez. Por onde andam todos eles? Hoje, se nos reencontrarmos, com certeza seremos no máximo velhos conhecidos, o laço se rompeu, a amizade se estacionou na nossa melhor fase.

As nuances da instituição de ensino mostram-me como em uma tela de TV todos os professores. Cada educador com o seu método, o seu jeito de nos cativar. Havia os que nos imprimiam medo, para esses ou se dedicava ao máximo, ou era reprovado. Uns professores gostavam de conversar, desses as aulas se transformavam em um verdadeiro circo regrado a fartas risada. Qual dos dois tipos era o mais eficaz? Os dois. Vivíamos a bailar ao sabor dos humores, não era uma ditadura sem fim, tampouco num circo eterno.

Acordava cedo, seis da manhã, para um jovem um tormento. Na temporada de chuvas, enfrentava a rua de lama, ia desviando de um lado ao outro, levava na mão um guarda-chuva machucado, na outra, os cadernos e os livros. Nos dias frios, chegava tremendo, sentava na calçada à frente do colégio para roubar um pouco o calor do tímido sol. Lembro-me de um senhor a me advertir: “Nhõ, olhe a parede, ela foi pintada ontem. Sente-se na calçada, por favor.”. Ele se referia a qualquer um por Nhõ, temia que um de nós deixasse na sua límpida parede as digitais do calçado gasto.

Nos intervalos corríamos a quadra, sob o sol a rachar a cabeça, estávamos a chutar a bola para um lado a outro. A sineta tocava e nós todos suados corríamos a lá gambás para a sala. A camisa molhada de suor colava ao corpo, a mente estava do lado de fora. “Como pode durar tanto estas aulas?” indagava-me a mim mesmo. Agora, distante daquele paraíso perdido, vejo que durou quase nada, algumas gotas de dias. É cruel saber que quando se tem não se dá o devido valor; o ouro só encanta os olhos daquele que o contempla na esperança vaga de um dia possuí-lo.

As lembranças são em variedades e tons a entorpecer a alma. Observando o curso deste meu ínfimo e maltrapilho rio, sinto-me feliz, contente por ter vivido de forma simples, sem as amarras de uma vida social forçada ao sabor das maneiras da classe dominante. A felicidade dos seres encontra-se na liberdade total de se viver da forma mais singela possível. Se há os que adoram cadeados, algemas, grades, mentes fechadas, guardem-nas, aperte-as, não nos dê esse desprazer de conhecer tal miséria.

Neste momento, vejo-me regressando do colégio, ao lado dos colegas em prosas diversas, o sol quente do meio dia a nos tirar a paz, de repente, alguns estudantes correndo, um segundo e estávamos todos na mesma algazarra, pobre estudante, quem diria que em seu aniversário receberia como presente ovos na cabeça e nas costas. A vida era desta forma, do nada tudo surgia rapidamente, tudo se reinventava.

Mas paremos por aqui por hoje, basta de tanto recordar, o coração é fraco, não há de suportar.

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Os galos e o brilho da Lua

ago 21 2014 Published by under Contos

A noite escura afoga a luz no espaço sem cores, tira dos objetos seus traços magistrais, retrai os seres a meros vultos, dá mais visibilidade aos sons. A noite escura se eleva a ouro na presença dos raios aureolados da Lua cheia, cresce nas nuances das formas e das sombras, ganha ares de boemia, cheira aromas primaveris.

As estrelas se enfraquecem diante a luz noturna, o Sol é esquecido por um instante, o rei se reina do seu absoluto poder. Um galo desperta dos sonhos de galo, abre os redondos olhos, é pego, amarrado, amordaçado, enforcado, trucidado pelo fascinante brilho. Aquela bola a pegar fogo sobre a testa, hipnose instantânea, olhos se dilatam, agigantam-se, tomam todo o rosto; olhos redondos, olhos de reverência. Em transe ergue o pescoço três vezes e em estado sonambúlico deixa escapar da goela seu grito forte de louvor. Aquele canto de co, de co, co ri co rasga o oxigênio, penetra pelas frestas, adentra as intimidades das copas verdes, corre pelos túneis dos vermes, dispara aos lados, para, não, vara o ouvido de outro galo. Esse recebe o golpe e se contrai, o transe se alonga, o olhar se volta ao alto, olhos arregalados, olhos redondos, olhos de galo, três erguidas de pescoço, um novo canto explode e se deixa fugir na busca desenfreada. A teia se entrelaça nos sons, galos loucamente, música suave da sintonia da noite de um lindo e espetacular luar.

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Assassinato no Arrozal

A vida na zona rural tem das suas rotinas diárias. Levantar com os galos, arar terra, alimentar o rebanho, regar, tirar leite, colher frutas no pomar, e por aí se segue a eterna labuta, sem férias e tampouco feriado.

Em nossa região, tivemos o arroz como uma das culturas predominante, com o passar do tempo e com as mudanças no clima e no comércio, de tal lavoura só se consegue colher prejuízos e muito suor.

No ano de 1972, na região da então Água Quente, na comunidade de Tabua, um homem do campo de nome Fidelcino labutava com uma pequena roça de arroz. Como o serviço era do nascer do sol ao deitar para o descanso, sobrava um quinhão até para os filhos, pois tinham que passar o dia todo a espantar os pássaros que apareciam para saborear os apetitosos cachos. O filho do dono da propriedade era o guarda da plantação; fazia os espantalhos e os distribuíam pelo arrozal, com um estilingue ficava a atirar pedras de um lado a outro, batia em uma lata, gritava, cantava… Para o jovem aquele serviço se assemelhava a uma prisão, o desejo era sair, passear, namorar…

Durante seis dias da semana, o rapaz fazia o serviço sem muitas queixas, mas na segunda-feira, dia de feira livre na sede, dia de paquerar, dia de se divertir, nessas ocasiões sentia o coração apertar e o sangue ferver por todo o corpo.

Havia duas semanas que o nosso trabalhador conhecera uma jovem, que para ele era a mais bela das princesas, algo vindo do mundo dos sonhos. As coisas iam se ajeitando entre eles, tudo encaminhava para um relacionamento, mas as investidas e os sucessos só aconteciam nos dias de feira livre, momento em que os dois se colocavam no mesmo local, já que moravam distante um do outro.

O jovem tentava descobrir uma maneira de deixar o trabalho e ir ao encontro da futura amada. Mas qual? O que fazer? Pensava, novamente pensava, pensava de novo, nada refrescava a cabeça louca do pobre apaixonado.

Surge diante dele um boi, não um boi qualquer, um animal com um ferimento, uma bicheira, da qual escorria bastante sangue. O bicho incomodado esfregou a parte ensanguentada em um mourão na tentativa de se coçar, além do sangue na madeira, pelo chão ficaram vários pingos também. Uma luz acendeu na mente turbulenta do rapaz. Deixou a roça em correria e foi ter na casa dos pais na comunidade de Ovos.

- Pai, pai! – entra agitado e gritando, suor descia pela face, ofegante avisava ao genitor o que acabara de presenciar. – Pai, eu vi no meio da roça de arroz um homem esfaquear outro!

- Você conheceu os homens? – indaga o pai preocupado. – Isso não é brincadeira sua não? Com morte não se brinca.

- Não, estou falando sério, eu juro. Quando eu vi aquela cena, comecei a correr, tive medo que ele me visse e quisesse me matar também.

- Vamos lá conferir.

- É melhor chamar a polícia.

- A polícia?

- Se o matador ainda estiver lá? Quem sabe ele não mate nós também?

- Tem razão. A polícia sabe lidar melhor que nós dois juntos. Vamos à feira informar ao delegado.

A metade do plano do rapaz havia obtido sucesso. Ao chegar à sede, o rapaz deixou-se sumir no meio da multidão, enquanto o pai se dirigia até a delegacia. O senhor partiu da feira livre na companhia de dois policiais; como o rapaz não chegava, foram eles somente.

Não sabemos se o rapaz tivera sucesso com o seu romance. Já na roça, eles encontraram o sangue no mourão e no chão, em outro local havia no meio do capim também. O rapaz havia falado a verdade. Mas por onde andava o corpo do defunto? Eles procuraram por todos os locais próximos e não o encontrou. Um mistério. Quem seriam eles: o morto e o matador? Ninguém ao certo sabia. Gente da comunidade não era, pois todos se encontravam em suas residências.

A notícia do tal matador perambulou pelas localidades igual pólvora pegando fogo. O temor tomou conta daquela gente, ninguém mais queria por os pés fora de casa, o medo e o pânico os dominaram.

Logo começaram a surgir boatos de todas as ordens. Uns afirmavam que havia visto um homem armado deixando a roça, outro dizia que conversara com um indivíduo armado em um boteco, outros mais distantes disseram que havia dado comida a um estranho. As histórias foram moldando novos contextos ao caso. O clima de medo e de apreensão era imenso. Os policiais faziam ronda na tentativa de descobrir a figura do matador, ou encontrar o corpo da vítima. Todos desejavam saber alguma coisa sobre o assassino e o defunto. Suposições eram levantadas: o homem enterrara o corpo em algum local, jogara em uma caverna, e por aí seguia os falatórios.

O medo crescia com as horas, de tempo em tempo, algo novo era especulado.

- Encontrei um homem estranho subindo a serra em determinado local – afirmava um senhor.

A polícia se dirigia ao lugar, alarme falso. Várias foram às notícias desencontradas. A população medrosa se recolhia em casa, todos tinham medo de encontrar com tal o matador. Os policiais perderam a esperança diante à tantos alarmes falsos. A vida no lugarejo seguia tensa, arisca.

Havia passado sete dias do episódio, quando o senhor foi obrigado a ir a roça colher o arroz que corria sérios riscos de se perder no campo. Poupou o filho do serviço, temeroso de algo ruim vir a acontecer com a prole. Chegou e presenciou a passarada a devorar seu trabalho, olhou para o lado onde o homem tinha sido assassinado, lá viu um boi preto, o mesmo animal, a esfregar o dorso no mesmo mourão, foi até lá conferir. A bicheira estava feia, precisava de cuidados. De imediato, no homem o sangue começou a ferver, rodopiava pelo corpo em alta velocidade. Montou em seu cavalo castanho e saiu em disparada a chicoteá-lo.

- Mulher, onde está o rapaz? – descia do cavalo e entrava loucamente sala adentro.

- Disse que ia à feira.

- Ele disse que ia à feira foi? Pois é lá que a lição será dada. Mais nunca aquele infeliz mentirá para mim. Hoje ele me pagará caro.

Montou novamente no animal e sumiu na estrada de terra adentro. O cavalo só perdeu a velocidade já na feira, cansado e melado de suor. O homem pulou antes mesmo que o animal parasse. Entrou entre o povão a procura da caça. Encontrou o rapaz abraçado com a namoradinha a conversar sentados ao redor de uma mesa de um dos bares da praça. O filho não teve tempo de se esquivar, foi agarrado pelo braço esquerdo, levantado e chicoteado com uma bainha de facão na frente da namorada e de todos. O povão cercou o bar, ninguém conseguia sair, nem entrar, todos desejavam saber qual o motivo da surra. O rapaz levou mais de cinquenta chibatadas, distribuídas no lombo, nas pernas, nos braços. Gritava de dor e chorava. Pedidos para parar de bater eram ouvidos. Em dado momento, dois policiais adentraram, de imediato agarrou o homem que estava em estado furioso, fora de si, e o fez cessar. O senhor foi encaminhado à delegacia e lá esclareceu o ocorrido ao delegado. Já calmo, retornaram para casa, ele montado em seu cavalo, tendo o rapaz à frente e a andar.

O arrozal havia sido comprometido, os pássaros levaram no bico mais da metade da produção, não houve assassinato, pura travessura do adolescente. Entre perdas e ganhos, o rapaz ganhou alguns beijos e sofreu uma baita de uma sorva; o agricultor perdeu metade do arroz e a calma, a esposa perdeu horas a cuidar do filho, o mundo sempre termina no lucro, alimentou seus passarinhos, deu assunto às línguas, ganhou uma história.

A vida no povoado voltou a sua normalidade.

História baseada em fatos reais, contada a nós pelo senhor Antônio de Nondas.

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O vento que sempre sopra

ago 18 2014 Published by under Contos

A vida nos dá a oportunidade de aprender e de se melhorar. Feliz quem busca a cada dia se tornar mais culto. A existência é um campo fértil onde os seres humanos têm nas mãos tantas ferramentas ao seu dispor de que possam imaginar, para isso basta apenas à força da vontade.

Todas as tardes, sempre que passava por certo local, encontrava um senhor sentado em um banco. Carregava na mão como apoio uma bengala; na cabeça um velho boné, desbotado e pintado com uma propaganda de um comércio local; nos pés um chinelo de correias azuis; calça e camisa. Não me recordo se carregava no braço um relógio, talvez naquela idade as horas já não fossem mais bem vindas. Transparecia ser dotado de felicidade, seus traços era de um idoso alegre.

- Boa tarde – disse-me a ele.

- Boa tarde, meu jovem – respondia seriamente.

Sempre se repetiam os mesmos dizeres. Os meses se arrastaram, dias, e não me lembro de se passara ano, mas deve ter vencido algumas primaveras.

Certa tarde, dia de muito frio, o vento gritava forte, o sol sumia em sua toca noturna, ao passar não o vi sentado no seu habitual banco. Talvez fosse a friagem? indaguei-me. Por sete dias seguidos não o vi mais, já não fazia mais frio. Parei frente à porta de um bar e perguntei ao funcionário sobre o idoso, ele refrescou minha curiosidade:

- Hoje completa sete dias do falecimento dele.

- Como assim falecimento? – assustei-me com a resposta, não havia me passado tal conclusão.

O rapaz me narrou todo o episódio, fatos que não carecem ser explicados, pois são meros acontecimentos triviais dos instantes que antecedem a falência total dos órgãos. Mas contaremos o que envolveu o velório e o sepultamento.

O senhor fora velado na residência de uma irmã, por sinal, a dita somente o suportava em vida pelo simples fato de ter em mãos o benefício da aposentaria dele. Cinco a dez curiosos adentraram no recinto. Como não tinha amigos, alguns chegados da irmã trataram de pegar nas alças do caixão e o conduzir até o cemitério, sequer fora chamado um padre para uma missa, enterrou na terra, sobre o amontoado foi posta uma cruz, não tinha nome, não havia a data de nascimento e tão pouco a de morte. O coveiro ao sentir tanta friagem dos integrantes do cortejo, ergueu a voz e fez um Pai Nosso em homenagem ao defunto.

- Que história triste – refletir. – Ele me parecia ser um homem tão bom, não merecia tanta indiferença.

- Dizem que na juventude roubou os irmãos, levando a família à falência.

Poucos dias e ninguém mais se lembrará dele, será como uma rajada mansa de vento que passou e sequer fora notada. Quantos milhares e milhões na história tiveram a sina de não ter sido registrado sequer em livro, sequer em uma lápide de um cemitério qualquer? O leitor saberia me dizer quem foi João da Silva Santos? Certamente tenha existido tal cidadão, mas quem seria ele? Pouco importa mais, passou, se não deixou pegadas, tanto faz, porque para a odisseia humana somente alguns iluminados nunca perecem, serão por toda eternidade os ventos que jamais deixarão de soprar.

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A punição de uma traição

ago 17 2014 Published by under Contos

Quando o homem viaja para trabalhar em terra distante, a esposa fica desprotegida das asas do maridão, desta forma as raposas, os lobos, os carcarás e os gaviões a cercam com seus galanteios, olhares, recados, presentes, propostas de muito amor. Se a pobre gazela tem o espírito fraco, a coitada se deixa levar pela lábia afiada desses seres trevosos e se joga de corpo e alma nessa arapuca.

Um rapaz deixou sua família e foi buscar melhoras na capital, sonhava em dias dourados; comprar uma casa, adquiri um automóvel, pagar os estudos do filho. Assim que ele viajou, um sujeito começou a atacar a mulher que na cidade ficara a espera do marido. Ela tentou, no começo, suportar, mas com a ausência do marido e a vontade de prazer cedeu aos caprichos do Ricardão.

O rapaz passou a dominar a casa, homem que abominava o trabalho, tinha tempo suficiente para dá toda atenção a sua presa. A cada dia a pobre mais apaixonada ficava. Ele conhecedor das mentes das mulheres começou a chantageá-la.

- Estou precisando de um tênis novo.

A mulher comprava o presente e deixava a sua perdição feliz.

- Estou precisando de um calca.

A mulher ligava ao esposo e pedia dinheiro para a despesa do lar e comprava o desejo do homem.

- Meu carro está sem gasolina, preciso de cem reais.

A vida deles continuou nesse ritmo. Passado um ano, o esposo retorna da capital, voltava com o bolso cheio de dinheiro, não mais, porque a esposa tirou um pouco para o amante. Com a chegada do homem, o intruso se afastou. A esposa cobriu o esposo de mimos, queria passar sua fidelidade, queria mostrar seu respeito.

Mas na vida somos meros espectadores, a natureza nos prega peça, desta forma se sucedeu. Após um mês do retorno, o marido sentiu algo estranho, a barriga da esposa estava diferente. Com a orelha em pé, tentou colher alguma informação pelas ruas, algo de anormal acontecera enquanto ele estava viajando. Mais dez dias passados, a cisma cresceu, ele pegou a mulher pelo braço e a levou a um hospital.

Antes de qualquer enxame, o médico sorriu e disse:

- Meus parabéns! Antes mesmo de fazer o enxame, já adianto a vocês dois: estão prestes a ter seu primeiro filho.

O homem olhou para a esposa e com o olhar disse bem mais que mil palavras. Em seguida indagou, tristemente, ao médico:

- Como pode ela está esperando um bebê, doutor, se passei o ano todo na capital?

- Falei besteira – respondeu baixinho o profissional de saúde.

E assim se desfez uma família. O Ricardão sumiu do mapa, a esposa ficou com o peso de sozinha criar o diploma, o homem se mandou para capital e a vida seguiu seu curso torto e turbulento.

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