Archive for: maio, 2014

Deixei de comer carne

Homens matando boi-2012 - Uillian Novaes

O mundo proporciona aos seus filhos situações diversas, às vezes, até foge a razão. Como pode um gato ser amigo de um pássaro; um coelho, de um cão? Com o advento dos animais domésticos, classes antes antagônicas se viram amigas, tornou-se possível o adestramento e assim a educação dos instintos desses seres. Filhotes de gato mamando em uma cachorra, papagaio brincando com felinos e cães. Se por um lado olhamos aos animais com bons olhos, por outro, ainda possuímos a maldade cruel de um demônio.

São poucos os humanos que abdicam de degustar um bom pedaço de carne. Pode ser ela frita, ou assada, no espeto, grelhada, tanto faz. Muitos só almoçam ou jantam se sobre o amontoado de alimento estiver um pedaço grande e saboroso de carne.

- João, nós já separamos os dois animais que compramos do senhor. Um já está morto, o outro nós iremos dá cabo dele agora.

- Deixe-me ver se vocês pegaram os bois certos.

- Pegamos o amarelo e o preto, os que combinamos.

Os dois andaram em direção ao curral. Ao chegar ao local, João avistou logo um dos bois de pernas para o alto, já sem o couro, três homens com machados e facas sobre a presa.

- Aquele que está morto foi qual? – indagou João.

- O preto.

Um cheiro forte impregnava o ambiente. João viu o estômago embrulhar. Os demais acostumados com as agruras do serviço nada sentiam de estranho, apenas a normalidade do dia a dia.

- Primeira vez que eu vejo um açougueiro matar um boi.

- Verdade? Já matei tantos que sequer posso prever a quantidade, para mais de dez mil. São sessenta anos nesta atividade.

O chão estava cheio de fezes do gado que dormiu no curral na noite que passou. Cachorros rodopiavam a procura de uma sobra qualquer, moscas vagueavam atraídas pelo cheiro forte.

Um dos homens trazia na mão a cabeça do boi preto, jogou sobre a carroceria de uma picape velha, forrava o chão dela ramos de um arbusto chamado na região por Cajazeira. Logo o outro trazia as entranhas, o bofe aqui denominado.

Enquanto dois homens seguravam nas patas do boi morto, outro ficava sobre ele a deferi golpes de machado, abrindo em seguida as bandas. Em poucos minutos repartiram o animal e o fez em quatro partes, quarto no linguajar dos açougueiros. Os homens juntaram e colocaram todo o produto sobre a carroceria do carro.

- José, nós já terminamos com este.

- Traga o outro. Não podemos perder tempo.

Um dos homens soltou o boi amarelo no curral. Outro jogou o laço e o apanhou pelo pescoço. Levou o coitado ao tronco. O boi berrava, o boi tentava em vão se soltar da danada sina.

- Vá lá, Paulão, dê a machadada! – gritou José.

O homem apanhou um machado sujo de sangue e foi na direção do boi. Ergueu-o e levou a testa do bicho. O boi sentindo o golpe tirou um pouco a cabeça para o lado. O machado pegou com toda força no lado do olho direito, sangue jorrava pelo corte que fez no osso. O boi berrava forte, a língua estava para fora, tremia diante a morte eminente.

- Paulão, acabe logo com isso! – gritou José novamente.

O machado voltou a subir e em seguida a descer, desta vez foi certeiro na testa do animal que arriou de imediato. Um dos homens correu e com uma faca fez sangrar o pescoço na parte de cima. A vida se extinguia na fúria humana conhecedora do bem e do mal.

João ainda viu descer do olho direito do animal uma enorme gota de lágrima, o mar de piedade, a dor da humilhação, o sossego do túmulo. Dos olhos do ex-dono também brotou o efeito dos puros sentimentos.

Os homens se lançaram sobre o cadáver do animal a deferir cortes certeiros. Eram os abutres a estraçalhar uma carcaça. Um cheiro forte voltou a impregnar o ambiente. Cachorros andavam de um lado a outro, inquietos. Os bois no pasto estavam com as orelhas em pé, olhos bem aberto em direção ao curral, a natureza chorava aquela carnificina.

- Tenho que ir – falou João.

- Eu tenho interesse nos outros animais, se o senhor quiser o que lhe ofereci, é só falar.

- Depois a gente ver. Bom trabalho para vocês.

João se retirava do local, abalado com tudo que acabara de presenciar. A morte é feia, ainda mais de certas formas, por menor que seja, por mais insignificante que achamos ser uma vida, morrer talvez signifique o fim, desta forma se torna cruel a aceitação de um ser tirar a vida de outro. Com o espírito abalado, o pobre senhor caminhava lentamente em suas reflexões.

- Como podemos criar os bichos e depois darmos a eles tal fim. Como somos maus. Tanta crueldade, tanta loucura, para os açougueiros normalidade da profissão. Que vida louca!

Passado duas semanas, aquele episódio já havia evaporado da mente de João, ele em viagem parou em um restaurante de beira de estrada com alguns amigos para almoçar. Tomavam cerveja enquanto esperavam pela comida. O garçom aproximou com um belo e cheiroso espeto de carne.

- Vai uma picanha mal passada, senhor.

- Por favor – disse João.

O garçom deixou deslizar a lâmina afiada pela carne, um pedaço foi pendendo à medida que a faca descia, o vermelho sangue apareceu, e como num instalo a lembrança da lágrima do boi voltou a bagunçar o seu pensamento.

- Garçom, um momento! Tinha-me esquecido, não posso comer carne vermelha.

- Temos frango. O senhor deseja?

- Sim, por favor.

Deste dia em diante nunca mais conseguiu saborear um bom e suculento churrasco, ou mesmo um pequeno bife. Muitas pessoas são dotadas de sensibilidade, outras ignoram dizendo que tais fatos fazem parte da vida, certo ou não, a verdade é a nossa incerteza perante a vida.

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Quero greve dos Professores

mai 25 2014 Published by under Contos

aluno

- Alunos, caso o Sindicato da categoria decida a favor da greve, amanhã não teremos aula.

- Graça a Deus! – grita Pedrinho feliz da vida.

- Por que essa alegria toda, Pedrinho? – indaga a Professora.

- Sem aula poderemos brincar a vontade. Tomara que o Presidente não conceda suas reivindicações.

- Você está doido, menino! Não fale uma coisa dessas. Estudar é muito bom.

- Ensinar é bom, Professora? A senhora mesmo não cansa de dizer que se encontrasse outra profissão nunca mais lecionaria.

- É diferente.

- Já aprendi na escola o suficiente para se dá bem na vida.

- Já aprendeu!

- Já sim. Para que mesmo eu quero saber essas formulas malucas que nunca iremos usar? Regras que só servem para encher papel.

- O senhor está equivocado. A educação é a base de tudo. Só quem se dedica aos estudos é que tem um futuro de sucesso.

- Tem muitos políticos que pouco tempo passou sentando em um banco destes e hoje são milionários.

- Ter sucesso na vida não é somente ter dinheiro.

- Professora, eu já sei soletrar. Quer ver: b com a, ba; b com é, be; b com i, bi; b com o, bo.

- Esqueceu-se do B com u, bu.

- Sê tá doida, Professora.

Os demais alunos caíram na gargalhada.

- Deixe-me continuar, Professora. C com a, ca; c com é, ce; c com o, co; c com u…

- Pode parar, seu moleque atrevido! Não gosto de gracinha em minha sala de aula não.

Os alunos assobiavam, sorriam, gritavam, era uma festa só.

- Professora, não fique nervosa, a senhora sabe, amanhã será feriado. Amanhã no cedo estarei no rio a tomar banho. Deus, como o senhor é bom para as criancinhas!

- Só pelo que acabei de ouvir, minha opinião é que não tenha mais greve.

- Não pense negativo, Professora. Para que fazer amanhã o que se pode fazer depois? Quem trabalha muito é americano e japonês; brasileiro, só sonha com sombra e água fresca.

- É por isso que o Brasil está como está.

- Quem disse que eu trocaria meu paraíso por residir nas terras estressantes dos gringos? Quem trabalha muito é jumento. Pare e olhe para a cara de um pobre jegue, dá vontade até de chorar, pois só anda cansado.

- Nossa conversa já se estendeu demais. Vamos voltar à lousa. Doze mais doze?

- Vinte e quatro, vou ao banheiro e volto rápido – Pedrinho respondeu e saiu correndo porta a fora. Dor de barriga, ou mais uma do moleque travesso?

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Cordel – Os Doze Apóstolos

mai 21 2014 Published by under Cordel, Vídeos

Assista ao Vídeo:

Os Doze Apóstolos

***

Doze foram os escolhidos

Com grande missão a fazer

Passar os ensinamentos

Para as mentes esclarecer

De um homem fantástico

Que fez o amor renascer.

 ***

Eram doze repito

Com brilho de amanhecer

A noite negra e escura

Como múmia a perecer

As parábolas cantadas

O mundo não iria esquecer.

 ***

Não eram eles os melhores

Mas fizeram por merecer

Nos ombros o pesado fardo

Com o mesmo passaram a viver

Pregando o evangelho

Preparados para morrer.

 ***

Pedro o negou três vezes

A escritura assim faz ler

Judas ao carrasco o entregou

Para os abutres comer

Jesus foi posto na cruz

Vinagre o fizeram beber.

 ***

Após a morte do Cristo

Sua luz voltou a florescer

Provando aos Apóstolos

Que ninguém há de morrer

Pediu que divulgassem

A boa estrada a percorrer.

 ***

Sendo o caminho certo

Na verdade podemos crer

A vida que nos confiaram

Foi para evoluir e crescer

Seguindo as Suas pegadas

Com certeza iremos vencer.

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Que gato é este?

- Senhor, por favor, não abra a caixa.

- Por que não? Preciso saber o consumo desta residência.

- Meu pai disse que ele colocou um gato aí dentro. Disse também que era para eu manter segredo, mas como sou um garoto que não gosta de mentir, falo-lhe a verdade.

- Então o seu pai é o Paulão?

- Sim, é ele. Não quero que meu nariz cresça igual ao do Pinóquio. O senhor já assistiu ao filme de Pinóquio?

- Já, mas já faz muito tempo. Por quê?

- O nariz dele após a mentira cresceu, cresceu, cresceu. Meu nariz está grande, senhor?

- Não. Normal.

- Meu pai me pediu segredo, mas, você sabe, não quero ter um nariz igual ao…

- Já sei, já sei, igual ao de Pinóquio!

- Por que o senhor está nervoso?

- Quer dizer que seu pai colocou um gato aí. Aquele danado me paga. Hoje eu lhe meto uma salgada multa. – Levou a mão direita à caixa para abri-la.

- Não faça isso, senhor!

- Você é um menino muito esperto, quer proteger o papai. – Puxou a tampa. – Ai! Socorro! Socorro! – Correu a catar cavacos e em soluços.

- Eu lhe falei que meu pai havia colocado um gato aí dentro, mas o senhor não quis me escutar.

- Eu pensei que era um gato na água. Jamais iria pensar num animal.

- E aí, atoleimado – grita um homem debruçado na janela do andar de cima. – Pensou que iria me meter uma multa, no entanto fui eu que lhe preguei uma peça. Da próxima vez que uma criança lhe falar algo, não duvide. Que lhe sirva de lição.

- Você me paga, seu desgraçado!

- Vá trabalhar, rapaz! Já conversou demais. Ou você quer que eu faça um queixa na empresa em que você trabalha?

O homem saiu sem graça e bravo.

Na vida como na escrita há termos que a depender do contesto tanto pode dizer uma coisa ou outra. Se eu lhe disser “aqui tem um gato”, pare e pense um pouco mais, poderá ser um pequeno bichano, uma ligação clandestina de água, ou um rapaz dotado de uma boa aparência e de músculos.

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Um fio de vida

mai 19 2014 Published by under Poesia

Um fio de vida

A vida é um fio

Frágil

Fino

Alongado

Um fio tênue

Resistente

Grosso

Encurtado

Um fio de água

Vulnerável

Disforme

Azulado

Um fio

Que como um rio descamba

Que como um fio se teia

Fio de náilon

Fio de aranha

Traça a aurora

Borda o meio dia

Costura o perecer

Tudo e todos andam

Sobre o ar do picadeiro

Na luz da navalha

Com medo

Tomado por duvidas

O fio acelera

Corre

Pula

Vira

Sobe

Desce

Em fim

Para.

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Falando do Amor

mai 14 2014 Published by under Poesia

amor

Nasce o amor como brota uma flor

Não importa o terreno

Se há chuva

Ou uma boa mão para cuidar

O Amor é reticências

Uma interrogação gostosa sem explicação

Muitos na pura alegria cantam-no em exclamações

Para descrevê-lo quantos travessões são necessários?

Amor, dois pontos

Saudade, carinho, apego, três pontos

“O amor é fogo que arde sem se ver”

Aspas, pois já dissera o brilhante Poeta

Com as palavras até tentamos

Chegamos apenas ao começo do primeiro parágrafo

O trabalho é árduo

O papel branco se torna um obstáculo

O amor escorrega feito sonhos perdido no acaso

Brilha aos olhos com grandiosidade de um astro exuberante

O amor é uma daquelas palavras que mesmo usando um dicionário não conseguimos entender

O antônimo dela simplesmente não germinou

Para o amor apenas temos as estrofes rimadas

As poesias declamadas

E os belos contos de fadas

Para o sujeito o cosmo

O infinito sideral

Pois neste texto não cabe nunca

Intensifica o advérbio

O maldito ponto final.

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Homenagem as Mães

mai 11 2014 Published by under Poesia

Hoje trago a ti, minha Mãe

Pétalas de gratidão

Orvalho de ternura

Raios de amor

Entrego-te meu coração

A terra é pouca

O céu é pouco

O mundo é pouco

Tudo é pouco pelo tanto que tens devotado por mim

Pelos cuidados

Pela educação

Pelo carinho

Pelo amor

Pelo pão

Obrigado, minha querida Mãe

Obrigado por existir

Obrigado por gostar de mim

Mais uma vez, obrigado

Obrigado tantas vezes for preciso

Tantas vezes necessário

Que Deu ilumine tua vida

Proteja teus passos

Parabéns pelo teu dia

Que a paz

A ternura

O amor

A alegria

Envolva-te no manto sagrado da mais pura magia

Coragem

Afeto

Empenho

Um beijo no rosto

Um sorriso

Um abraço

Outra vez, obrigado

Mais uma vez

Tantas vezes

Ainda é pouco

Obrigado.

Feliz Dia das Mães.

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Nem todas as promessas feitas são pagas

A humanidade convive entre dois mundos, o material e um suposto sobrenatural. Quando todas as portas já foram fechadas, quando não há mais uma estrada a seguir, não tem jeito, apela-se aos Santos.

Um rapaz, por ironia do destino, sofreu um acidente automobilístico, estava a dirigir, uma curva lhe tomou a direção, o veículo capotou e ele perdera os sentidos.

- Meu filho, seu irmão acabou de sofrer um acidente de carro.

- Meu irmão! ? Como assim! ? Ele está bem! ?

- Ele está em coma na UTI do hospital.

- Não pode ser! Eu estava ainda há pouco com ele.

Manoel se encontrava entre a vida e a morte. Todos os médicos atestavam o mesmo diagnostico: “O quadro é difícil, só mesmo Deus”. O paciente foi acometido de traumatismo craniano.

- Mãe, os médicos estão dizendo que é questão de horas para meu irmão falecer – fala Paulo a mãe. – Disseram-me também que a única coisa que podemos fazer no momento é rezar. A Igreja está aberta, vou lá conversar com Deus.

- Vá lá, meu filho, enquanto isso eu fico aqui a esperar por boas notícias.

Paulo foi ao encontro dos Santos, das orações, dos pedidos, das “promessas”… Na igreja, diante à imagem de Santo Expedito, ele se sentindo acuado, dialogou com a imagem:

- Santo Expedito, por favor, interceda pelo meu irmão. Ele está entre a vida e a morte, por favor, restitua-lhe a saúde.

- O que me ofereces em troca? – questiona o Santo.

Começava um dialogo entre Paulo e o seu subconsciente, ou talvez possa ter sido o próprio Santo, vá saber, o certo é que ele conversava e sua mente lhe respondia.

- Eu não tenho nada para lhe oferecer.

- Toda pessoa tem algo a oferecer. Apenas penses um pouco.

- O que o senhor que de mim?

- Não costumo interceder pelos outros sem ganhar algo em troca. Se não for dessa forma, morrerei de tanto trabalhar, pois o povo só sabe pedir. Se não possuis nada para me presentear, é melhor ires embora.

- Se meu irmão ficar bom, eu distribuirei todos os anos no dia 19 de abril, dia que homenageia o senhor, balas e doces para a criançada.

- O caso do seu irmão é grave, carece de uma penitência maior.

- Se for curado, ele irá ao Morro do Fogo a pé.

- Tu não achas pouco? Eu restituo a vida e ele faz uma pequena caminhada. O Morro do Fogo é logo ali. Aumentes o percurso.

- A Bom Jesus da Lapa.

- Fechado. Mas em qual dia?

- No dia seis de agosto, dia da romaria principal.

- Logo receberás o resultado.

- Quanto tempo?

- Bem antes do que imaginas.

- Obrigado, Santo Expedito.

- Não te esqueças do nosso trato. Promessa feita, resultado recebido, promessa paga.

- Trato é trato.

Paulo colocou o pé direito para fora do templo e a mãe dele já o recebia com um largo sorriso nos lábios.

- Meu filho acordou! Ele está conversando. Os médicos estão boquiabertos com a recuperação dele, falam em milagre.

“Minhas mãos fizeram a minha parte, agora espero que faças a tua”, uma voz martelou no seu inconsciente.

No outro dia cedo, Paulo foi ao quarto conversar com o irmão enfermo. Após dialogarem bastante sobre o acidente, sobre o suposto milagre, Paulo tocou no assunto:

- Manoel, quando você estava entre a vida e a morte, quando todos diziam que você iria morrer, eu corri à igreja e fiz uma promessa a Santo Expedito em prol de sua recuperação. Em seguida você estava curado.

- Você é um rapaz de bom coração, Paulo, diferente de mim.

- Após o meu trato com o Santo, logo ao sair do templo, nossa mãe chegou me dando a notícia da sua recuperação.

- Obrigado, Paulo. Qual foi mesmo a promessa que você fez?

- Primeiro eu tentei combinar com ele em doar balas, ir ao Morro do Fogo a pé, como não concordou, fui obrigado a aceitar a ida a pé a cidade de Bom Jesus da Lapa.

- Eu não sabia que eu tinha um irmão tão prestativo comigo. Ir a Lapa a pé é muito cansativo, uma distância longa. Você andará um bocado.

- Você não entendeu o que eu quis dizer. Quem irá pagar a promessa será você que obteve o lucro. Eu apenas fiz o intercâmbio.

- Eu! Você acha que eu sou louco de andar essa distância doida?

- Mas você não está bom?

- Estou bom, mas eu não me lembro de ter feito nenhuma promessa, ainda mais uma aberração dessas. Sou até Ateu.

- Então você não vai?

- Quem fez a promessa é que tem obrigação de pagar.

- E agora o que eu faço?

- Esquece esse negócio de promessa. Essas coisas de santos não existem. Eu só sei uma coisa: não pagarei promessa alguma.

- O que eu faço agora?

- Para que um santo quer mesmo um sacrifício desses? Esse negócio de promessa é baboseira. Esquece isso e vá cuidar da sua vida.

Os dias foram se passando, mas aquela promessa feita insistia em martelar no crânio incessantemente. “E a promessa. Não se esqueças da promessa. Rapaz, a promessa”.

- Está certo! Pagarei a promessa para meu irmão. Na festa do Bom Jesus eu irei a pé fazer a penitência e com isso ficar livre com o senhor. Hoje é quatro de janeiro, ainda faltam sete meses para a festa, quando faltar apenas um, eu começarei a me preparar.

“Por mais que te pareças muito tempo, cedo ou tarde baterás em tua porta”.

Os dias pulavam um por um como o fiel faz com as bolinhas do terço. O homem sempre a circular pela cidade de automóvel. Para ter uma ideia, a padaria que ficava a cinquenta metros, logo ali, ele fazia questão de tirar o carro da garagem para ir comprar o pão, já não sabia mais andar.

“Só restam dois meses”.

Começou a martelar em sua mente a maldita divida, a tão esperada data se aproximava, o homem andava, andava não, estava muito preocupado.

Faltando um mês, ele se vendo acuado, colocou um traje a caráter e saiu para seu primeiro dia de treinamento. Tinha em mente andar dez quilômetros, contudo ao chegar ao terceiro, pediu água, parou e ligou para a esposa.

- Sílvia, por favor, pegue o carro e venha me buscar. Não estou me sentindo bem.

A esposa ao chegar, encontrou-o sentado, todo vermelho e pálido.

- O que foi que teve com você?

Contou toda a história. O enfermo ficaria três dias de repouso, corpo quebrado, febre, assaduras pelas pernas. O problema persistia, a divida ainda havia de ser paga.

“Faltam dez dias”.

A mulher o aconselhou ir ter uma conversa com o Padre. Contou toda a história ao religioso. O mesmo o aconselhou que a promessa fosse paga indo à cidade de Bom Jesus da Lapa de automóvel.

- Obrigado, Padre, por ter negociado com Santo Expedido.

- Não foi um negócio, ele entendeu a situação e aceitou nossa proposta.

Na madrugada do dia seis de agosto, Paulo, juntamente com a família, dirigiu-se à cidade considerada como a Capital Baiana da Fé.

“Não foi este o nosso trato, mas a tua preocupação em pagá-lo mostra o respeito que tens por mim”.

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Cordel – A banana

mai 04 2014 Published by under Cordel, Vídeos

Assista ao Vídeo:

Cordel – A banana

***

Fruta doce e gostosa

Como uma, duas, três, quatro

Com minha barriga vazia

Se brincar como um cacho

Brilhante feito ouro

Alegria dos macacos.

 ***

Um homem entre milhares

Arremessou-a ao gramado

Espantando o jogador

Que fez de nada um caso

O mundo pasmo gritou

Cadeia ao abestalhado.

 ***

Do céu ao chão é racismo

Inveja cresce ao alto

Do torcedor ao jogador

Um repugnante ato

Que não diminui em nada

A estrela do pedaço.

 ***

A mídia gritou forte

Em defesa do astro

Esquece-se dos pobres

Dando valor ao afortunado

Com as alegorias da riqueza

Mostra seus maus hábitos.

 ***

Em filas públicas sofre

Padece o ser calado

Morre pobre sem médico

Cala diante ao fracasso

Olhe o racismo latente

Sem ao menos ser publicado.

 ***

Mas há alegria no País

A copa um cordel encantado

A bola senhora da vez

Alguns bolsos abarrotados

Nosso querido Brasil

Chora o casco atolado.

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O caminhão pipa atolou

Contando ninguém acredita, mas vamos narrar assim mesmo, faz parte do nosso saboroso ofício.

Uma comunidade do nosso querido Sertão estava em festa, iria comemorar o Santo padroeiro e seria contemplada pela administração pública com uma obra de grande cunho social. O momento máximo estava marcado para o sábado. As pessoas mais influentes se desdobravam nos preparativos. Eram esperados muitos visitantes, dentre eles, políticos. Naqueles dias quentes e empoeirados de verão, estiagem a varar meses, coração já amansado com a ingratidão das nuvens, havia a preocupação de se molhar o terreiro onde aconteceria o baile.

- Já está tudo acertado. O caminhão pipa estará aqui na tarde de sábado para molhar o terreiro.

- Que notícia boa – fala uma senhora. – Agora poderemos forropiar a noite toda.

Os dias foram se passando, o sol continuava a arder no lombo dos trabalhadores e a lhes tirar suor.

- Compadre, a previsão está dizendo que teremos chuva neste final de semana.

- Se não teve chuva em dezembro, janeiro e fevereiro, logo agora, final de abril, duvido. Olhe só para este sol. No céu não tem sequer uma nuvem.

- Tá feia a coisa, não tá, compadre?

- E põe feia nisso, Zé.

No sábado à tarde, o caminhão pipa partiu abarrotado de água para a dita comunidade. O trajeto era um pouco distante, o motorista saiu cedo. O céu se colocava limpo, algumas nuvens no pé do horizonte, mas o clima estava abafado. Em poucos minutos, meia hora, tudo se modificou. O sertanejo olhava ao alto desconfiado e indagava: “Será? Será que teremos chuva?”. Não demorou e São Pedro abriu as torneiras sem dó, água desceu em fartura, a terra seca não dava conta de sugar todo o líquido, logo as enxurradas se fizeram por todos os lados, tanques e riachos subiam o volume rapidamente.

- Compadre, Deus resolveu olhar para nós novamente.

- Viva São José! Viva nosso querido Padroeiro.

O caminhão se aproximava da comunidade, o limpador do para-brisa ia de um lado ao outro freneticamente. O veículo após descer uma ladeira para enfrentar um pequeno plano e depois voltar a subir outra, afunda as rodas na lama e atola. A chuva continuava forte, trovões e raios apareciam aos quatro pontos cardeais.

- O que eu faço agora? – indaga o motorista. – Como pode em plena seca um caminhão pipa atolar em plena chuvarada? Maldição! Ainda há pouco só tínhamos sol e poeira.

Meia hora transcorreu lentamente, a chuva diminuiu sua intensidade. Carros paravam de um lado e do outro da estrada, a passagem estava impossibilitada.

Um homem desceu de um dos automóveis, finos pingos o molhavam, e disse:

- Rapaz, eu preciso passar. Estou levando uma mulher para ter nenê no hospital da cidade.

O homem saiu do caminhão e gritou:

- Não vê que o caminhão está atolado!

- Se demorar muito, a mulher terá bebê aqui mesmo.

Outro homem desceu de outro veículo e perguntou:

- O caminhão está carregado?

- Sim – respondeu o motorista.

- Solte toda a água e depois o empurraremos.

- Jogar a água fora? Você só pode está louco. Tenho que levar a água para molhar o terreiro da festa.

- Molhar o terreiro da festa? Lá só tem lama e você ainda quer jogar mais água. Você só pode está louco. A chuva lá foi mais forte que aqui. Se aqui tem toda esta lama, lá a coisa ainda está pior. Já dizem por lá que irão adiar a festa.

- O patrão me mandou levar a água e eu vou levar.

- Nós precisamos passar! A mulher está preste a dá a luz. Solte essa água.

A discussão continuou acirrada. “Solte a água”. “Não solto”. “Solte”. “Já disse que não solto”.

A mulher então resolveu soltar, soltou um agudo grito:

- Vai nascer! Socorro!

Um rapaz deixa a poltrona do seu veículo e devagar vai ao registro do caminhão e o abre. A água começa a jorrar em abundância.

- Quem fez uma desgraça dessas? – indaga o motorista do caminhão. Logo em seguida correu par fechar o registro. A mesma pessoa que abriu resolveu a situação, apenas ergueu um pouco o pé direito que foi de encontro à canela do motorista que perdendo o equilíbrio foi de cara à lama. As pessoas gritaram de felicidade.

- Ligue o caminhão! – gritou um.

Como a chave estava na ignição foi fácil ligar e dá a partida. O motorista levantou louco da vida e correu na tentativa de impedir, mas o que havia assumido o volante conhecia do assunto, sem muita dificuldade tirou o caminhão da lama e o estacionou mais a frente, ao descer disse:

- Corra e se lave no restante da água, logo ela irá se acabar. Se quiser fechar o registro agora, fique a vontade.

O homem estava todo sujo de lama. Um rapaz ao chegar e ver de quem se travava logo sentenciou:

- Esse aí mal pegou em um volante e já se diz motorista. Ele não sabe dirigir não. Se fosse outro motorista, não nos teria causado esse transtorno todo.

O condutor que levava a mulher grávida já havia sumido estrada adentro, deixava para trás toda a confusão.

Ficou explicado: para caminhão atolar no Sertão só mesmo com grande barbeiragem de um motorista inexperiente.

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