Archive for: abril 21st, 2014

Um presente para minha madrinha

A cultura da nossa região é linda, farta de nuances que nos fazem sentir simples. Com o tempo e as forças pujantes do progresso, os laços do outrora vão se desatando, o que era hábito corriqueiro, aos poucos, ganha tons de cafonices pelos atores da atual geração.

- Filho! Filho!

- Que foi, mãe? – grita o jovem.

- Venha cá! Depressa!

- Já estou aqui. O que a senhora quer que eu faça?

- Amanhã é Sexta-feira da Paixão.

- Dia de subir a serra.

- Não. Amanhã é dia de ir dá bênção a madrinha.

 - É mesmo. Amanhã eu vou ganhar um presente de minha madrinha.

- Vai ganhar um e dá outro. Vamos ao quintal pegar um frango para você levar como presente.

Os dois saíram para o terreiro. A mãe apanhou uma vasilha com milho.

- Pru-ti-tiu! Pru-ti-tiu!

A dona da casa chamava os bichos e lançava ao terreiro milho. Em poucos minutos as aves estavam a catar.

- Pegue aquele galo vermelho, Pedrinho.

- O vermelho?

- É ele sim, o mais bonito.

- Escolha outro, mãe. Esse aí é meu galo de estimação.

- Não discuta com a sua mãe, rapaz! Pegue o galo, agora. A sua madrinha merece o melhor presente. O que está esperando? Pegue o bicho.

O menino correu e não demorou já estava com o galo debaixo dos braços.

A mãe tomou o animal das mãos do filho, apanhou uma tira de roupa velha e passou-a várias vezes pelos pés, “peou”. Foi ao quarto no quintal e de lá trouxe um saco, jogou o bicho dentro, amarrando-o em seguida no telhado.

O menino estava triste, seu querido animal seria dado de presente, certamente não demoraria em ir parar na panela.

- Vou ter que salvar meu Bala Oito de qualquer jeito.

A noite chegou rapidamente, a família tomou banho, jantou, jogou um pouco de conversa fora e caiu na cama no peso de uma pedra, sono profundo de quem trabalha bastante.

À meia noite, o garoto levanta nas pontas dos pés, não havia pregado os olhos. Abriu a porta dos fundos igual a um gato ladrão, devagar, e foi ao galinheiro. Como estamos a falar em gato, como um gato ele se lançou em um galo e o agarrou, quando este deu seu primeiro piado forte, o garoto apertou o pescoço do pobre que se calou de imediato. As galinhas se agitaram, mas logo o ambiente voltou ao silêncio. O galo do saco, o Bala Oito, foi trocado pelo de barbela e crista grande.

No outro dia cedo, a mãe acorda com o primeiro canto do primeiro galo que se ousou a abrir a orquestra matinal. O relógio já corria em busca do número sete quando a mãe fez o filho levantar da cama.

- Pedrinho, acorde! Isso já não é mais hora de está na cama não. Vamos. Daqui a pouco você irá levar o presente para a sua madrinha.

Já a mesa, tomando seu café com leite, comendo bolos caseiros, a mãe indaga ao filho:

- Você escutou o barulho no galinheiro esta noite, Pedrinho?

- Não, mãe. Dormi feito uma pedra.

- Depois você reviste o quintal, pois eu acho que deve ter algum saruê pelas redondezas.

- Certo. Se tiver, ele verá a fúria dos meus punhos.

Passado duas horas, Pedrinho já havia tomado o banho, vestido uma roupa nova, estava pronto para a visita, a mãe pega o saco e diz:

- Vou tirar o galo do saco para você levar.

- Deixe-o no saco, assim ele não conseguirá escapar.

- Tem razão. Tome. Leve-o. Avise a sua madrinha que à tarde eu irei fazer uma visitinha a ela.

O garoto saiu todo alegre. Ao chegar à casa da madrinha, primeiro deu bênção, depois entregou o presente.

- Obrigado, Pedrinho. Eu também comprei um presentinho para você. – Entregou-lhe o embrulho.

- Minha mãe mandou dizer à senhora que ela virá lhe visitar à tarde.

Pedrinho contente e feliz retornou para a casa. Pensava ele: “Meu Bala Oito está salvo”. Após três dias, o garoto imaginando que a mãe já havia se esquecido do episódio, solta o galo, este estava preso em um local onde ninguém o veria, sequer escutaria o seu canto. Logo ao amanhecer, um cocoricó do primeiro galo tira o sono da dona da casa.

- Não pode ser.

Ela preparou o café da manhã e em seguida foi alimentar os bichos, a primeira ave que apareceu a seus olhos foi o dito galo.

- Então o danado fugiu – rápida como um falcão, agarrou-o pelas asas. – Eu mesmo o levarei para minha senhora.

- Lúcia, venho trazer seu galo de volta.

- Como assim, trazer de volta?

- Ele deve ter fugido do seu poleiro.

- Pode ser. Hoje mesmo Maria iria fazer o almoço, e ele seria o prato principal.

- Seria não, será. Olhe ele aqui. Maria, por favor, mate-o, pois ele poderá fugir novamente.

- Faça isso, Maria. – disse a patroa.

Ao retornar para casa, já se aproximava das dez, encontrou o filho a mesa.

- Hoje o senhor dormiu que chega!

- Eu esperei que a senhora me acordasse.

- Você sabe o galo que você deu para sua madrinha?

- O que aconteceu com ele?

- E não é que o danado fugiu e voltou ao nosso terreiro.

- Foi! Que bicho esperto.

- Mas eu o peguei e o levei de volta a verdadeira dona.

- A senhora não fez isso!

- Uma hora dessas, ele já esta sobre a pressão de uma boa panela.

- Matou meu querido Bala Oito.

- Galos são todos iguais. Escolha outro para você.

A madrinha do garoto teve a sorte de ter dois galos para dois domingos. Pedrinho ficou triste por alguns dias, mas não demorou e já tinha escolhido outro para substituir o famoso Bala Oito, o nome deste herdou o do falecido como homenagem.

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