Archive for: abril 11th, 2014

Não necessito de dinheiro para beber pinga

No nosso Sertão, nas terras secas famintas por chuvas, muitos dos seus habitantes, ressecados por fora pelo contaste atrito dos raios solares e por dentro pelo excessivo consumo de água, são vorazes consumidores de aguardente, mais conhecida na região pelo carinhoso nome de “Pinga”.

Certa vez um senhor em viagem para uma cidade das intermediações de Bom Jesus da Lapa, ajudante de caminhão, atracou para descarregar a mercadoria, e mais adiante, carregar novamente de outros produtos. Ele era carregador, mas parecia patrão, pois andava bem vestido, sem falar na boa pronúncia das palavras e nos aprendizados colhidos nos vários anos de vida; um nato, no bom sentido, malandro.

- Oh, Zé! Zé! Olhe para mim, Zé! Zé, diabo, estou precisando de dois contos. Se eu não tomar uns dois copos de pinga agora, eu juro que vou enlouquecer.

- Só lhe darei o dinheiro após você descarregar o caminhão.

- Como eu irei descarregar o diabo desse caminhão se minha mente só pensa na pinga.

- Não é meu problema. Descarregue o carro e logo terá o dinheiro.

- Eu me ajeito. Mas você é sovina em, Zé.

Um rapaz estava a passar pela rua, distraída, a pensar nos seus problemas.

- Bom dia, senhor. Gostaria de saber em qual local posso comprar pinga no atacado, mas quero da melhor possível.

- Nesse bar logo à frente.

- Obrigado, senhor. Tenha um bom dia.

- De nada. Um bom dia para o senhor também.

Ele se dirigiu ao local. Um bar escuro, porém com muitos toneis azul abarrotado do remédio capaz de aliviar os desejos dele.

- Gostaria de falar com o dono do estabelecimento.

- Sou eu mesmo.

- Disseram-me que o senhor vende a melhor pinga da região. Soube também que o senhor vende no atacado.

- Vendo sim. A pinga minha, de fato, é a melhor da região. Têm pessoas que a leva para os grande centros do País.

- Gostaria de conferir o produto.

O homem apanhou uma garrafa.

- Deixe-me ligar a luz para o senhor observar melhor a cachaça.

- Rapaz, mais é alva. Deixe-me sentir o cheiro. Uhhhh… Doce, suave… Parece ser muito boa.

- O senhor bebe pinga? Quer experimentá-la?

- Para ser bom vendedor, o comerciante precisa entender do assunto. Conheço pinga de longe.

O homem pegou um copo pequeno.

- Não. Pegue o maior.

- Certo.

Colocou a pinga até a metade.

- Pode encher o copo.

- Sinta só o gosto da melhor pinga da região.

Ele bebeu aos pouquinhos, sempre fazendo movimentos com os lábios.

- Esta pinga é de primeira. – Virou o restante na boca e em um gole só ingeriu todo o líquido. – Ótima pinga! Realmente, de primeira!

- Eu tenho outra, mas é um pouco inferior a essa que o senhor bebeu.

- Pegue a amostra, por favor. Vamos ver qual das duas é a melhor.

Ele voltou a tomar outro copo cheio da pinga.

- Rapaz, agora eu fiquei na duvida. Duas pingas excelentes. Por favor, mais um copo da primeira somente para tirarmos as duvidas.

Ele em um só gole virou de uma só vez todo o conteúdo.

- Rapaz, nunca eu tomei umas pingas como essas duas na minha vida. Coloque só mais uma da segunda e aí eu decidirei de qual eu irei levar. O senhor tem uma carga para vender, não tem?

- Tenho.

Ele serviu mais um copo da segunda pinga, o homem voltou a beber com gosto, os olhos brilharam de contentamento.

- Vou ficar com a primeira. Bem que o senhor disse, a primeira é um pouquinho melhor, mas um pouquinho mesmo. Se eu não entendesse de pinga, diria que ambas são iguais. Mas a primeira, de fato, é melhor.

- Eu também sou chegado em uma pinguinha.

- Uma cachaça para almoçar não tem coisa melhor. Todos os dias eu tomo uma. O senhor separa uma carga para mim. Vou levar o caminhão para descarregar no supermercado Barão e voltarei para apanhar a carga de pinga. Qual é o preço do litro mesmo?

- Vinte contos.

- Pela qualidade do produto valeria até mais. Separe aí que até o final da tarde eu voltarei para apanhá-la.

- Pode deixar.

O homem foi saindo do estabelecimento devagar, antes de pôr o pé na calçada, ele disse:

- Obrigado por tudo.

O dono respondeu:

- De nada.

A carga de pinga foi arrumada, mas o comprador, como se diz por aqui, deu linha na pipa, nunca mais voltou à referida cidade. Ele bebeu quase um litro de cachaça sem ter um centavo no bolso. O que uma roupa nova e um falar manso não faz? Ditado muito repetido pelas esquinas e botecos: “O mundo é dos espertos”.

História baseada em fatos reais.

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