Archive for: abril, 2014

A agonia do meu querido Rio

abr 22 2014 Published by under Poesia

Oh, Rio!

O que fizeste contigo?

Outrora abundante

Profundo

De mata alta

Fauna exuberante

Em suas límpidas águas

Passeavam rio acima

Rio abaixo

Traíras, caris, pacus e jundiás

Hoje te tenho cambaleante

Mata rala

Lixo pelas margens

Esgoto

Falta-te oxigênio

Quase sem vida

Triste

Vejo-te na face enrugada

Um filete de lágrimas

Oh, Rio!

Não chores…

Chorar?

Não são lágrimas o que correm

Desce meu sangue

De todos os lados recebo setas e dardos

Resisto porque sou forte

Mas já não tenho forças como antes

Aproveite

O que pensas ser lágrimas

É o que te alimentas

Quem não cuida do que tem

Nada há

Quando parar meu pranto

Que espanto!

Tudo perecerá

A tua dor, compadre

Não tenhas duvidas

Aumentarás

A minha será imensa

Pois já não conseguirei cumprir com a obrigação

Que é de desaguar no mar.

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Um presente para minha madrinha

A cultura da nossa região é linda, farta de nuances que nos fazem sentir simples. Com o tempo e as forças pujantes do progresso, os laços do outrora vão se desatando, o que era hábito corriqueiro, aos poucos, ganha tons de cafonices pelos atores da atual geração.

- Filho! Filho!

- Que foi, mãe? – grita o jovem.

- Venha cá! Depressa!

- Já estou aqui. O que a senhora quer que eu faça?

- Amanhã é Sexta-feira da Paixão.

- Dia de subir a serra.

- Não. Amanhã é dia de ir dá bênção a madrinha.

 - É mesmo. Amanhã eu vou ganhar um presente de minha madrinha.

- Vai ganhar um e dá outro. Vamos ao quintal pegar um frango para você levar como presente.

Os dois saíram para o terreiro. A mãe apanhou uma vasilha com milho.

- Pru-ti-tiu! Pru-ti-tiu!

A dona da casa chamava os bichos e lançava ao terreiro milho. Em poucos minutos as aves estavam a catar.

- Pegue aquele galo vermelho, Pedrinho.

- O vermelho?

- É ele sim, o mais bonito.

- Escolha outro, mãe. Esse aí é meu galo de estimação.

- Não discuta com a sua mãe, rapaz! Pegue o galo, agora. A sua madrinha merece o melhor presente. O que está esperando? Pegue o bicho.

O menino correu e não demorou já estava com o galo debaixo dos braços.

A mãe tomou o animal das mãos do filho, apanhou uma tira de roupa velha e passou-a várias vezes pelos pés, “peou”. Foi ao quarto no quintal e de lá trouxe um saco, jogou o bicho dentro, amarrando-o em seguida no telhado.

O menino estava triste, seu querido animal seria dado de presente, certamente não demoraria em ir parar na panela.

- Vou ter que salvar meu Bala Oito de qualquer jeito.

A noite chegou rapidamente, a família tomou banho, jantou, jogou um pouco de conversa fora e caiu na cama no peso de uma pedra, sono profundo de quem trabalha bastante.

À meia noite, o garoto levanta nas pontas dos pés, não havia pregado os olhos. Abriu a porta dos fundos igual a um gato ladrão, devagar, e foi ao galinheiro. Como estamos a falar em gato, como um gato ele se lançou em um galo e o agarrou, quando este deu seu primeiro piado forte, o garoto apertou o pescoço do pobre que se calou de imediato. As galinhas se agitaram, mas logo o ambiente voltou ao silêncio. O galo do saco, o Bala Oito, foi trocado pelo de barbela e crista grande.

No outro dia cedo, a mãe acorda com o primeiro canto do primeiro galo que se ousou a abrir a orquestra matinal. O relógio já corria em busca do número sete quando a mãe fez o filho levantar da cama.

- Pedrinho, acorde! Isso já não é mais hora de está na cama não. Vamos. Daqui a pouco você irá levar o presente para a sua madrinha.

Já a mesa, tomando seu café com leite, comendo bolos caseiros, a mãe indaga ao filho:

- Você escutou o barulho no galinheiro esta noite, Pedrinho?

- Não, mãe. Dormi feito uma pedra.

- Depois você reviste o quintal, pois eu acho que deve ter algum saruê pelas redondezas.

- Certo. Se tiver, ele verá a fúria dos meus punhos.

Passado duas horas, Pedrinho já havia tomado o banho, vestido uma roupa nova, estava pronto para a visita, a mãe pega o saco e diz:

- Vou tirar o galo do saco para você levar.

- Deixe-o no saco, assim ele não conseguirá escapar.

- Tem razão. Tome. Leve-o. Avise a sua madrinha que à tarde eu irei fazer uma visitinha a ela.

O garoto saiu todo alegre. Ao chegar à casa da madrinha, primeiro deu bênção, depois entregou o presente.

- Obrigado, Pedrinho. Eu também comprei um presentinho para você. – Entregou-lhe o embrulho.

- Minha mãe mandou dizer à senhora que ela virá lhe visitar à tarde.

Pedrinho contente e feliz retornou para a casa. Pensava ele: “Meu Bala Oito está salvo”. Após três dias, o garoto imaginando que a mãe já havia se esquecido do episódio, solta o galo, este estava preso em um local onde ninguém o veria, sequer escutaria o seu canto. Logo ao amanhecer, um cocoricó do primeiro galo tira o sono da dona da casa.

- Não pode ser.

Ela preparou o café da manhã e em seguida foi alimentar os bichos, a primeira ave que apareceu a seus olhos foi o dito galo.

- Então o danado fugiu – rápida como um falcão, agarrou-o pelas asas. – Eu mesmo o levarei para minha senhora.

- Lúcia, venho trazer seu galo de volta.

- Como assim, trazer de volta?

- Ele deve ter fugido do seu poleiro.

- Pode ser. Hoje mesmo Maria iria fazer o almoço, e ele seria o prato principal.

- Seria não, será. Olhe ele aqui. Maria, por favor, mate-o, pois ele poderá fugir novamente.

- Faça isso, Maria. – disse a patroa.

Ao retornar para casa, já se aproximava das dez, encontrou o filho a mesa.

- Hoje o senhor dormiu que chega!

- Eu esperei que a senhora me acordasse.

- Você sabe o galo que você deu para sua madrinha?

- O que aconteceu com ele?

- E não é que o danado fugiu e voltou ao nosso terreiro.

- Foi! Que bicho esperto.

- Mas eu o peguei e o levei de volta a verdadeira dona.

- A senhora não fez isso!

- Uma hora dessas, ele já esta sobre a pressão de uma boa panela.

- Matou meu querido Bala Oito.

- Galos são todos iguais. Escolha outro para você.

A madrinha do garoto teve a sorte de ter dois galos para dois domingos. Pedrinho ficou triste por alguns dias, mas não demorou e já tinha escolhido outro para substituir o famoso Bala Oito, o nome deste herdou o do falecido como homenagem.

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Meu filho está usando twitter

Internet

A evolução tecnológica se acelerou nos últimos tempos. No mundo digital tudo se transforma a uma velocidade espantosa. Nesse novo espaço que se criou brotam termos para situações até então desconhecidas. Há uns cinco anos, quem saberia o significado da palavra Facebook, Instragam, WhatsApp? São palavras que entraram nos dicionários há poucos dias, com certeza, no atual instante, novas estão na maternidade.

Na sociedade atual existem as castas, não aquelas usadas na Índia, mais as da Internet. Temos os mestres digitais e também os analfabetos. Muitas pessoas se indagadas sobre certos temos, certamente, ouviremos a seguinte resposta: “Não sei do que se trata”. As gerações conviventes no momento nasceram em mundos diferentes, crianças de hoje mal começam a se mexer e já ganham um brinquedo eletrônico, enquanto adultos de trinta a quarenta anos se sentem obrigados a manusear um celular por pura necessidade.

- Sandra, fiquei sabendo que o seu filho Paulo está usando Twitter!

- Meu filho está usando o quê? !

- Twitter.

- Aquele infeliz me paga! Eu vou ligar para ele agora mesmo. Se for verdade, hum, amanhã mesmo ele estará de volta. Alô! Paulo? Fiquei sabendo que o senhor está usando Twitter. É verdade?

- Todos os meus colegas usam o Twitter.

- Como é que é, seu desgraçado! Só porque seus colegas usam você também tem que usar. Andorinha que acompanha morcego dorme de cabeça para baixo.

- É bom demais o Twitter.

- Ainda por cima é atrevido. Como ousa falar isso para a sua mãe?

- Eu não sei por que esse nervoso todo.

- Fico aqui me matando para pagar seus estudos, trabalho dia e noite, faça sol ou chuva; e você me apronta uma dessa. Quando seu pai chegar, eu juro que falarei a ele.

- Não tem nada de mais usar Twitter.

- Não criei meu filho para ser um drogado não.

Joelma e outras duas irmãs de Sandra se desfaziam de tanto sorrir.

- Por que vocês estão sorrindo? Twitter não é uma espécie de droga?

- Mãe. Alô.

- Oi.

- Twitter é uma rede social igual ao Facebook – responde o filho.

- Joelma, o que é mesmo o Facebook? – indaga Sandra.

- É uma rede social igual ao Twitter.

- O que é uma rede social? !

- É um site da Internet…

- Pare! Pare! Pare! Não quero mais escutar esse papo. Não conheço e nem quero conhecer essa tal de Internet. Computador, para mim, é bicho de sete cabeças.

- Mãe, a senhora ainda está aí?

- Foi um mal entendido, meu filho. Agora vá estudar, mas cuidado com o uso exagerado desse negócio de Twitter.

- Tchau, mãe.

História baseada em fatos reais.

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Não necessito de dinheiro para beber pinga

No nosso Sertão, nas terras secas famintas por chuvas, muitos dos seus habitantes, ressecados por fora pelo contaste atrito dos raios solares e por dentro pelo excessivo consumo de água, são vorazes consumidores de aguardente, mais conhecida na região pelo carinhoso nome de “Pinga”.

Certa vez um senhor em viagem para uma cidade das intermediações de Bom Jesus da Lapa, ajudante de caminhão, atracou para descarregar a mercadoria, e mais adiante, carregar novamente de outros produtos. Ele era carregador, mas parecia patrão, pois andava bem vestido, sem falar na boa pronúncia das palavras e nos aprendizados colhidos nos vários anos de vida; um nato, no bom sentido, malandro.

- Oh, Zé! Zé! Olhe para mim, Zé! Zé, diabo, estou precisando de dois contos. Se eu não tomar uns dois copos de pinga agora, eu juro que vou enlouquecer.

- Só lhe darei o dinheiro após você descarregar o caminhão.

- Como eu irei descarregar o diabo desse caminhão se minha mente só pensa na pinga.

- Não é meu problema. Descarregue o carro e logo terá o dinheiro.

- Eu me ajeito. Mas você é sovina em, Zé.

Um rapaz estava a passar pela rua, distraída, a pensar nos seus problemas.

- Bom dia, senhor. Gostaria de saber em qual local posso comprar pinga no atacado, mas quero da melhor possível.

- Nesse bar logo à frente.

- Obrigado, senhor. Tenha um bom dia.

- De nada. Um bom dia para o senhor também.

Ele se dirigiu ao local. Um bar escuro, porém com muitos toneis azul abarrotado do remédio capaz de aliviar os desejos dele.

- Gostaria de falar com o dono do estabelecimento.

- Sou eu mesmo.

- Disseram-me que o senhor vende a melhor pinga da região. Soube também que o senhor vende no atacado.

- Vendo sim. A pinga minha, de fato, é a melhor da região. Têm pessoas que a leva para os grande centros do País.

- Gostaria de conferir o produto.

O homem apanhou uma garrafa.

- Deixe-me ligar a luz para o senhor observar melhor a cachaça.

- Rapaz, mais é alva. Deixe-me sentir o cheiro. Uhhhh… Doce, suave… Parece ser muito boa.

- O senhor bebe pinga? Quer experimentá-la?

- Para ser bom vendedor, o comerciante precisa entender do assunto. Conheço pinga de longe.

O homem pegou um copo pequeno.

- Não. Pegue o maior.

- Certo.

Colocou a pinga até a metade.

- Pode encher o copo.

- Sinta só o gosto da melhor pinga da região.

Ele bebeu aos pouquinhos, sempre fazendo movimentos com os lábios.

- Esta pinga é de primeira. – Virou o restante na boca e em um gole só ingeriu todo o líquido. – Ótima pinga! Realmente, de primeira!

- Eu tenho outra, mas é um pouco inferior a essa que o senhor bebeu.

- Pegue a amostra, por favor. Vamos ver qual das duas é a melhor.

Ele voltou a tomar outro copo cheio da pinga.

- Rapaz, agora eu fiquei na duvida. Duas pingas excelentes. Por favor, mais um copo da primeira somente para tirarmos as duvidas.

Ele em um só gole virou de uma só vez todo o conteúdo.

- Rapaz, nunca eu tomei umas pingas como essas duas na minha vida. Coloque só mais uma da segunda e aí eu decidirei de qual eu irei levar. O senhor tem uma carga para vender, não tem?

- Tenho.

Ele serviu mais um copo da segunda pinga, o homem voltou a beber com gosto, os olhos brilharam de contentamento.

- Vou ficar com a primeira. Bem que o senhor disse, a primeira é um pouquinho melhor, mas um pouquinho mesmo. Se eu não entendesse de pinga, diria que ambas são iguais. Mas a primeira, de fato, é melhor.

- Eu também sou chegado em uma pinguinha.

- Uma cachaça para almoçar não tem coisa melhor. Todos os dias eu tomo uma. O senhor separa uma carga para mim. Vou levar o caminhão para descarregar no supermercado Barão e voltarei para apanhar a carga de pinga. Qual é o preço do litro mesmo?

- Vinte contos.

- Pela qualidade do produto valeria até mais. Separe aí que até o final da tarde eu voltarei para apanhá-la.

- Pode deixar.

O homem foi saindo do estabelecimento devagar, antes de pôr o pé na calçada, ele disse:

- Obrigado por tudo.

O dono respondeu:

- De nada.

A carga de pinga foi arrumada, mas o comprador, como se diz por aqui, deu linha na pipa, nunca mais voltou à referida cidade. Ele bebeu quase um litro de cachaça sem ter um centavo no bolso. O que uma roupa nova e um falar manso não faz? Ditado muito repetido pelas esquinas e botecos: “O mundo é dos espertos”.

História baseada em fatos reais.

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O Trabalho move o Homem e dá sentido a Vida

abr 10 2014 Published by under Crônica

O pior dos trabalhadores não é o débil preguiçoso, mas sim aquele que detém qualidades, que carrega nas mãos a enxada, a pá, a foice, o lápis e que ainda assim descansa por falta de seiva, de vontade, de amor pela vida; a este tipo de gente, melhor seria ter nascido um inseto, uma formiga, que mesmo privado de razão usa a força do instinto, trabalha sem cessar até o último segundo de sua vida na luta pela causa que a Natureza o incumbiu; ao homem foi dado o poder da escolha, prefiro a sombra ao desgaste dos pés.

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A Lenda da Loira da Estrada de Água Quente

Pelo imaginário humano vagueia duvidas, medos, fantasias… Temos várias lendas, fatos confirmados por muitos e também chacoteados por outros. Uns dizem já terem visto, outros olham de banda, poucos afirmam de pés juntos que tudo não passam de histórias ou contos de fadas. A lenda do Curupira, a do Saci-Pererê, a da Mula Sem Cabeça… cada uma com a sua lição de moral.

Certo dia, já era final de tarde, porém o sol ainda estava brilhando com muita força, um homem conduzindo uma motocicleta trafega em direção a Água Quente. No sentido contrário vinha um automóvel. O rapaz do carro acionou duas vezes o sinal da luz alta, o da moto respondeu na igual saudação. Ao passar rente um ao outro, o homem do carro dá duas buzinadas e observa atentamente pelo retrovisor.

- Danadinho ele!

A estrada que liga Paramirim a Érico Cardoso (Água Quente) foi recentemente construída, antes se passava por outra próxima ao leito do rio, já não existe mais, vive debaixo das águas da Barragem.

- Estevão! Estevão!

- E aí, Paulo, o que lhe traz aqui a esta hora?

- Rapaz, estava curioso.

- Curioso?

- Sim. Quem era aquela Loira que você carregava na garupa da sua moto?

- Loira, que Loira?

- Não se faça de desentendido.

- Não sei do que o senhor está falando.

- Que mulher bonita. Tinha umas pernas! Oh mulherão!

- Você bebeu, Paulo? Está louco. Eu não trazia mulher alguma na garupa da moto.

- Quem diria… Logo você. Todos nós pensávamos que você fosse santo, mas aquela Loira prova que todos os homens são iguais. Uma aventura de vez enquanto faz bem ao coração.

- Que implicância é essa sua que só fala nessa Loira. Não sei de onde você tirou isso.

- Rapaz, deixe de besteira. Você não quer confirmar, tanto faz, o importante é que eu o vi com a Loira na garupa de sua moto.

- Você está louco.

O rapaz deu partida no veículo e sumiu rua acima. Logo ao chegar a casa, chamou a esposa ao canto e contou o ocorrido. No outro dia cedo, a notícia correu às casas de boca a ouvido na velocidade do vento. O sol já mostrava fraqueza quando o boato chegou ao seu ponto final, aos ouvidos da esposa de Estevão.

- Sandra, a notícia que circula pelas ruas da cidade é que Paulo viu uma Loira na garupa da moto do seu marido. Você se gabava do seu esposo, mas todos os homens são iguais.

O matrimônio do casal entrou em turbulência. A esposa ficou vários dias sem olhar para o marido. Com o tempo, os laços foram se unindo novamente e tudo voltou ao que era antes, porém a esposa sempre a jogar na cara do companheiro a infidelidade dele.

Passados alguns meses, um novo episódio volta a acontecer. Os fatos foram semelhantes ao já mencionado. O homem jurava de pé junto que não havia Loira na garupa da moto, ao contrário do primeiro caso, neste o rapaz era solteiro.

- João, quem era aquela Loira?

- Não sei de qual Loira o senhor está falando.

- Você é solteiro, se não quer falar é porque a moça é casada.

Os boatos se espalharam com mais rapidez, o povo só falava na tal Loira.

- Onde esta Loira está escondida que ninguém a ver? – pergunta um senhor na roda de amigos a conversar nos degraus da igreja à noite.

- Eu queria conhecê-la – diz outro.

A Loira já entrava no esquecimento quando um acidente faz o povo correr ao local. Um rapaz caiu da moto e veio a falecer. As pessoas cercavam o corpo, todos a conversar.

- Como aconteceu?

- Por quê?

- Ele corria demais?

- Será que exagerou na bebida?

Um carro para ao lado e um rapaz desce correndo.

- Fiquei sabendo e voltei para ver. Passei por eles a vinte metros daqui.

- Eles? – indaga o povo.

- Estava ele e uma Loira na garupa.

- Loira? ! – o povo volta a indagar.

- Tinha uma Loira na garupa da moto dele, tenho certeza que eu a vi.

- Mas aqui só se encontra ele. Onde estaria esta Loira?

- Eu não sei. Só sei que ele estava acompanhado por uma Loira.

A conversa seguia a todo vapor. Muitas perguntas e nenhuma resposta. Outro rapaz chega e diz também ter visto uma Loira na garupa da moto do falecido.

- Senhores, eu fiquei sabendo que a Loira se trata de um fantasma – fala uma mulher morena e de cabelos negros. – Disseram-me que a Loira sempre monta na garupa dos motoqueiros, também me falaram que se o motoqueiro perceber e olhar para o rosto dela, o coração endurece e ele morre na hora.

- Seria uma medusa? – indaga um rapaz.

- Disseram-me também que a tal Loira é uma alma penada.

- Alma penada – o rapaz volta o olhar para trás e lá já não estava mais ela. – Cadê a moça que estava aqui ainda há pouco?

- Que moça?

- A moça que falou da Loira. Uma morena de cabelos negros.

- Eu não a vi não.

Ninguém ali viu a morena, apenas ele. O acontecimento flutuou igual à fumaça nas mentes do povo. A mulher que achava que fora traída pediu perdão ao esposo. Estava esclarecido, a Loira se tratava de um fantasma.

Os dias foram passando rapidamente, no decorrer deste tempo, religiosos fizeram orações no percurso da estrada. O fato ia aos poucos se diluindo, perdendo força, porém bastava uma pessoa ter que ir sozinha de uma cidade a outra que o medo aparecia, ainda mais se fosse à noite.

Certo dia, um rapaz, já com seus trinta anos, dirigia ao retornar de Paramirim a Água Quente. O som estava ligado, mantinha uma velocidade condizente com a estrada. De repente, ele sente a presença de alguém sentado a seu lado, pensou em olhar, mas o medo de ter o coração virado pedra o fez ficar rígido ao volante, estava branco, trêmulo, suava em demasia, parecia que havia virado uma rocha. Apertou o pé, desejava chegar logo, foram cerca de dez quilômetros, pouco, mas que naquela noite pareceram a mil. Ao chegar próximo à entrada da cidade, ele sentiu que não havia mais a presença de uma pessoa ao lado, mesmo assim não se atreveu a olhar para o lado. Já era meia-noite, parou o carro defronte a casa, sequer o colocou na garagem, desceu trêmulo e fraco.

- O que é que você tem? – indaga a esposa ao abrir a porta. – Viu uma assombração?

- Ainda bem que eu não a vi, todavia ela esteve o tempo todo ao meu lado.

- De quem você está falando?

- Da Loira da estrada.

- A Loira!

- Assim que eu sentir a presença dela, eu firmei meu olhar para frente e sentei o pé no acelerador. Se eu não soubesse como proceder, agora estaria morto em uma das curvas da estrada.

A notícia voltou a circular, o povo correu a casa do rapaz, queria saber tim-tim por tim-tim do ocorrido.

A lenda da Loira da Estrada de Água Quente ainda vive na memória do povo, muitos têm medo de trafegar sozinhos pelo dito trecho; à noite, o medo é ainda maior.

História baseada em um fato real depois transformada neste conto pela mente de um aspirante a Escritor.

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Dei o troco com a mesma moeda

Na vida sempre há aqueles que acham que podem mais que os outros, os que fazem de tudo para se darem bem, são chamados de “sabidos”, “espertos”; na verdade ganham muito, contudo são escravos do dinheiro. Vivem do suor dos outros, malandros disfarçados de coelhos a darem o bote no primeiro que aparecer. Mas neste mundo de Deus, sempre temos alguém acima quando nos referimos às artes, pois para se viver deve ter dotes específicos para cada atividade, e uma das mais lucrativas se chama “Arte de Negociar”.

- Seu João, eu estou construindo uma casa e preciso de dois caminhões de tijolos. O senhor os tem?

- Tenho sim.

- Preciso dos tijolos para amanhã.

- Se é assim, o preço aumenta. Cada caminhão sai a mil contos.

- Subiu trinta por cento! Como estou precisando, pode colocar.

No outro dia cedo, os dois caminhões deixaram os tijolos no terreno predeterminado. De imediato os pedreiros começaram a levantar as paredes, dentro de uma semana, não havia sequer um único tijolo no chão, todos faziam parte do mosaico em pé.

Após sete dias da conversa da compra dos tijolos, João procura Joaquim:

- Compadre, já se passou uma semana da entrega dos tijolos, estou precisando do dinheiro.

- Foi quanto mesmo que fiquei lhe devendo?

- Dois mil contos.

- Dois mil? Então eu não lhe devo nada.

- Por quê? !

- O senhor não se lembra das duas parelhas de bois que lhe vendi no ano passado e que até hoje não vi a cor do dinheiro.

- Mas isso já faz dois anos.

- Então vamos esperar a minha divida passar dois anos para que eu fale a mesma coisa com o senhor.

- Compadre, este dinheiro já devo a outra pessoa. Pera aí! Seus bois me custaram mil e duzentos contos. Então o senhor me deve seiscentos contos.

- Os tijolos seus custaram mil e quatrocentos conto, seiscentos foi esperteza sua.

- Então o senhor me deve duzentos contos.

- Após dois anos, os duzentos contos pagam os juros.

- Que compadre desgraçado! Nunca mais farei negócio com o senhor.

- Nem a dinheiro?

- Nunca mais, não já falei! – deu as costas e saiu nervoso, não só pelo dinheiro que não iria receber, mas pela reputação que acabou ficando manchada.

História baseada em fatos reais.

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Retrato de um momento

abr 04 2014 Published by under Poesia

O dia acabou

Ventos trazem escuridão

Sacolejam plantas

Assoviam sobre telhados

Carregam consigo fumaça

Empurram nuvens pelo céu

Escondem astros

Fazem alegria virar terror

Aguçam pensamentos

Logo o frio cresce

Acoberta a cidade

Afugenta as andorinhas

Dá importância ao cobertor

Obriga o povo a descansar

Aos casais de namorados

Confortam-se num forte abraço

É a natureza e o seu poder

Quebrando o gelo da vida quente e atribulada de cada ser.

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Crescendo com as mudanças

abr 03 2014 Published by under Poesia

Não queiras mudar o mundo, as pessoas, as coisas; Deus só deseja de ti a tua própria mudança. É pouco, mas o essencial para grandes transformações. Experimentes ser hoje melhor que ontem e amanhã melhor que o agora. Se todos nós agíssemos de tal maneira, a Terra seria um belo e empolgante paraíso.

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Dia da Mentira

A nossa vida já foi mais cômica… Neste primeiro de abril, data que nos remetem a fatos rotineiros do passado da nossa querida região. Este dia era famoso, quantos não se enfureciam ao receber uma “Marcha”. “Eu marchei fulano!” – gritava alguém. Muitos levavam na esportiva e fazia pouco caso, uns ficavam de mal, no fim todos sorriam da sadia brincadeira. Era parte da cultura, do nosso folclore. Os anos foram se passando, a amizade de cidade pequena foi afrouxando os laços, nestes dias conturbados de fúria e rancor, brincar pode trazer grandes prejuízos, talvez até a morte.

- Maria! Oh, Maria!

- O que foi, Patroa?

- Maria, posso confiar na senhora?

- Mas é claro…

- Vá até o bar de seu João e entregue este bilhete a ele.

- Certo.

- Se eu souber que a senhora abriu ele, uh! você verá comigo quando aqui retornar.

- Para que mesmo eu iria abrir o bilhete, se sequer sei ler.

- Verdade. Tinha me esquecido. Agora vá. É um pé lá e outro cá.

- Já volto logo. Tenho muito serviço para fazer.

- Uma observação: espere pela resposta de seu João. Só retorne com o que o bilhete pede nas mãos.

- Pode deixar comigo.

A moça saiu à disparada, subiu uma ladeira, andou um trecho longo, desceu, virou, voltou a subir, enfim, já estava cansada, chegou.

- Seu João, dona Rita mandou que eu lhe entregasse este bilhete.

- Dona Rita? Deixe-me ver. – Abriu o recado, fez cara de mal e respondeu: – Você terá que ir ao boteco de Tião, o que ela me pede está com ele.

- Onde fica isto?

- Em frente ao Roseirão (estádio de futebol).

- Meu Deus do Céu, é longe demais! Tenho tanto trabalho para fazer.

- Eu não posso fazer nada. Se a sua patroa pediu, melhor obedecê-la.

- Me dá este bilhete aqui. – tomou da mão do homem e saiu a correr.

Voltou a andar, andava rápido, virava aqui, subia ali, quebrava acolá, enfim, chegou.

- Tião, minha patroa mandou entregar este bilhete ao senhor.

- Quem é mesmo a sua patroa?

- Rita.

- Para mim? Deixe-me ver. – Leu o bilhete, olhou para o teto, fez cara de pensativo, coçou a orelha. – Estava comigo até esta manhã, passei a Betão. A senhora terá que ir atrás dele.

- Eu já estou cansada, tenho muito serviço para fazer em casa. Notícia ruim esta que o senhor me deu. Onde ele mora?

- O bar dele fica próximo a Capela de São José, lá na Beira da Lagoa.

- O senhor quer me matar, Tião? O sol está quente demais… Sair daqui para ir ao outro lado da cidade. O que eu fiz para merecer tudo isso, Senhor? !

- É um pedido da patroa, melhor cumprir, pois é ela quem paga o seu salário.

- Me dê este bilhete aí.

Saiu loucamente. Entrou a andar pela estrada central, uma reta grande, naquele tempo ainda de cascalho, pés já sujos, rosto suado, cabelos a pedir chuva; andava rapidamente, só pensava em chegar.

- Senhor, onde fica o bar de Betão?

- É este aí.

- Mas está fechado?

- Já faz três meses que ele viajou com a família para São Paulo.

- Viajou foi?

- O bar está fechado.

- O senhor poderia ler este bilhete para mim, fazendo o favor?

- Posso sim. Dei-me cá. Aqui diz: “Hoje é primeiro de abril, Dia da Mentira, estou marchado a coitada, passe ela adiante”. Eu acho que a senhora caiu na brincadeira.

- Eu não me lembrava que hoje era Dia da Mentira não. Tantas coisas para fazer e a patroa me faz isso. Mas deixe ela comigo.

Na residência da senhora Rita, o pessoal todo se fartava de tanto sorrir, esperavam por ela. O tempo foi passando, passando, e nada. O sol já estava sobre o centro quando Rita gritou:

- E a comida? !

- É mesmo! – gritaram os filhos.

- Onde se meteu a danada da Maria?

- Chame Paulão e manda ir atrás daquela negrinha. Hoje ela me paga!

O capataz saiu à disparada em seu cavalo castanho. Não demorou e retornou com o seguinte recado.

- Patroa, ela está muito doente.

- Você a viu?

- Vi sim. Ela estava embrulhada em dois cobertores, muita febre. Ela me disse que foi o sol quente que tomou na cabeça. Mandou lhe falar que rodou a cidade inteira e não encontrou o que a senhora mandou buscar.

- Deixe a coitada descansar, ela merece.

A Patroa foi ao fogão de lenha fazer alguma coisa para tapar o rombo nas barrigas dos seus familiares.

No outro dia cedo, a empregada chega toda sorridente.

- Viu um passarinho verde foi? – indaga a patroa.

- A senhora me marchou ontem não foi?

- Uma brincadeirinha do Dia da Mentira. Faz parte da vida. Andou bastante? Até febre deu.

- Pior foi a marcha que a senhora levou.

Todos estavam à mesa a tomar café.

- Levei? Não me lembro.

- Eu não estava doente coisa alguma, foi tudo mentira. Uma brincadeirinha do Dia da Mentira. Faz parte da vida. Foi para o fogão sem querer.

Os filhos caíram na gargalhada.

- E eu aqui com dó da danada.

- Andei muito, mas a senhora trabalhou como ninguém no fogão e nas louças, teve seu dia de graxeira.

 - A negrinha, se não gostasse muito de você, iria lhe dá uma boa surra e depois ainda lhe colocaria no olho da rua.

- Uma igual a mim, não se encontra em qualquer lugar.

- Ainda por cima é atrevida.

História baseada em fatos reais.

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