Archive for: março, 2014

Acelera na terra, no asfalto tira o pé

No Sertão cada um tem sua mania. Mania, não, loucura. Se alguém disser que não é louco, corra desse indivíduo, pois é o mais alucinado de todos. E não pense que o nosso, caríssimo, leitor foge da comprovada estatística. Todos: eu, tu, você, nós, vós, eles, aquele, fulano, beltrano, sicrano, José, Maria, Barack Obama, Xuxa; todos, não há exceção, temos um grau de loucura. Há pessoas que só dormem, sempre, com a mesma roupa, outras que só frequentam os mesmos bares, uns só conseguem ir para cama após fazer dez, vinte Pai Nosso, e por aí vai… É loucura para todos os gostos. Você, leitor, já parou para reparar? Eu nunca lhe vi, mas sei que você só senta na mesma cadeira quando vai almoçar ou jantar. Estou certo? Certamente. Isso é algo normal, coisa dos loucos, eu mesmo faço dessa forma, sou também um louco. Não jogo pedras, mas partilho das maluquices deste mundo.

Na nossa região, volta e meia, aparecem-nos histórias, quando chega é porque possui um quê de engraçado.

Um senhor possuía um ônibus, ele era o dono e o chofer ao mesmo tempo. Foi contratado para levar, a um comício em outro município, um grupo de correligionários. O evento estava marcado para começar às onze horas, a saída deles para acontecer às oito. Vinte minutos após o combinado, o motorista dava a partida no seu automóvel. Levava além do permitido, quase o dobro de pessoas. Os primeiros trinta quilômetros de estrada eram de terra, cheia de costelas de vaca e buracos. O motorista sentou o pé, mas sentou sem dó, o ônibus corria para mais de cem. O pessoal começou a cantar:

- Se esta porra não virar, eu chego lá.

Um gritava:

- Devagar, motorista! O senhor não está levando boi não.

Foi aí que o pé do homem ficou ainda mais pesado. Vencido o trecho de terra, passou por uma cidade devagar e logo entrou em uma estrada toda asfaltada, um tapete. Um disse ao outro:

- Agora nós iremos morrer. Se ele correu daquela forma na estrada de terra, agora neste tapete o homem irá voar.

Um quilômetro, dois quilômetros, três quilômetros. Um passageiro gritou:

- O ônibus está com defeito, motorista?

- Por quê? – indaga o chofer.

- Pois está quase parado. Se continuarmos neste ritmo, perderemos o comício.

- Já que vocês querem, vou acelerar mais.

Dez, vinte quilômetros transcorridos e nada.

- Desse jeito nós vamos perder o comício, homem. A estrada está ótima. Sente o pé neste trem!

- Vamos, motorista, aperte esse acelerador. Neste momento a comitiva do Governador já deve está chegando.

O velocímetro não passava dos trinta. O motorista parecia a um surdo, não se importava com os pedidos, era como se não fosse com ele. Pelas janelas os passageiros viam todos os carros ultrapassarem o ônibus com a maior facilidade.

- Se fosse eu no volante, nenhum desses cornos passariam da gente! Aperte este acelerador, homem!

O ônibus viajou cerca de setenta quilômetros em trinta por hora. Quando chegou ao destino, o comício já iria começar.

Na volta, a tarde já tomava ares de ressaca, um da comitiva já entrou logo bradando:

- Vamos dormir enquanto viajamos na estrada de asfalto, porque na de terra, prepare-se para as pancadas.

A volta foi igual à ida. No asfalto uma tartaruga a passear, mas no cascalho se transformou no mais rápido dos felinos.

História baseada em fatos reais, história essa acontecida na nossa região.

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Pago caro por um filhote deste bicho

A evolução humana vem escalando ribanceira acima faz muito tempo, ultimamente tem se acelerado, tudo gira alucinadamente. No rastro da nossa história há um legado de progresso, nos últimos séculos inventaram-se o avião, o automóvel, o barco… Deixamos o lombo do jumento em paz para sentarmos no conforto de uma poltrona acolchoada.

No meado do século vinte, em nossa região, chegaram os primeiros automóveis. Quanta alegria ao vislumbrar tamanho progresso. Um ser que se movia sem possuir uma alma. Seria obra de Satanás? Por onde passava levantava suspiros, aplausos, sorrisos… Até banda de música o recepcionava. Os automóveis eram a sensação do momento.

Em uma segunda-feira, numa cidadezinha do Sertão, a feira livre acontecia na Praça. Pelo local se avistava carros de bois, carroças, charretes, cavalos, mulas, jegues… Um comercializava farinha, o outro vendia rapadura, alguns compravam feijão, meia dúzia de dezenas apenas pedia. A seca castigava, o homem sofria, mas nas bocas desdentadas de muitos saltavam largos sorrisos.

- Compadre, tão dizendo por aí que doutor Manoel estará na feira hoje.

- Mas e é, compadre! Ele vem mesmo?

- Logo, logo dará as caras na esquina.

- Escutou, compadre? Foguete. Deve de ser o doutor Manoel que chegou.

- Vamos lá ver.

Pela rua de terra batida adentrou um automóvel, o povão esvaziou a feira e cercou a novidade, fogos subiam ao céu e alertava a comunidade do fato, uma filarmônica aromatizava o ar com canções a embriagar os sentidos.

- Compadre, olhe só que animal!

- Deste eu nunca vi, compadre!

Doutor Manoel estacionou seu veículo e desceu para conversar com o público. Vestia terno branco e gravata, na cabeça um chapéu panamá.

- Doutor Manoel, sê sabe que tenho terras, dinheiro…

- Claro que sei, Joaquim.

- Põe preço no animal?

- Qual animal?

- Neste daí que o senhor veio montado.

- No automóvel?

- Neste tal de automóvel mesmo.

- Desculpe-me, mas não está a venda.

- Então vamos firmar um compromisso.

- Vamos. De qual compromisso, o amigo, está a falar?

- O primeiro filho que este tal de automóvel parir será meu. Comprarei o pequeno em sua mão.

- Como assim parir?

- Estamos ou não estamos combinados?

- Se meu automóvel parir, eu juro que a cria eu lhe darei de graça.

- Então o danado é um macho, não dá cria?

- Ele não possui vida.

- E por que eu vi ele andando? Ou você acha que eu estou louco da cuca?

- Não, o senhor não está louco. De fato ele anda. É um automóvel movido a combustível.

- Se ele não tem vida e anda, só pode ser coisa do Demônio! Eu não quero filho desse Satanás mais não. Deus me livre, cruz credo! – virou as costas e sumiu entre as barracas.

História baseada em fatos reais acontecidos em uma cidade da nossa região nos tempos de outrora.

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Morar em São Paulo, vou não, obrigado

Uma alternativa que o povo do sertão sempre teve foi fugir da seca e se abrigar nas terras da garoa para trabalhar e fazer riqueza. No decorrer dos anos levas e mais levas de migrantes nordestinos caminharam na direção do progresso, do trabalho, do dinheiro e do sonho de uma vida melhor. Nas décadas passadas, a vida do sertanejo era mais sofrida. Morria-se de fome, de várias doenças, muitos pereciam bem antes de conhecer a luz do sol. Com o passar do tempo e uma distribuição de renda melhor aos estados menos desenvolvidos, mudou-se um pouco a realidade.

João, um homem que nasceu no Sertão e sempre viveu metido nele, igual a mandacaru e umbuzeiro enraizados no chão duro, foi obrigado pelo destino a ir a São Paulo. Um homem da roça, de pouco estudo ou quase nada, de nenhuma habilidade em cidades grandes, apenas detentor do conhecimento relativo à produção do campo. O pobre homem levou um choque ao se deparar dentro de um novo mundo, ambiente que se abriu como em um conto de fadas as retinas empoeiradas.

O nordestino conheceu um parente da esposa que, por sinal, detinha muitas posses (um rico).

- Doutor Estevão, o senhor é um homem muito rico, não é?

- Se olharmos para o povo do Sertão, eu sou um milionário…

- Tudo aqui é muito bonito. Ninguém passa por necessidade…

- Alguns passam… Aqui quem trabalha tem de tudo, mas o infeliz que é preguiçoso, esse sim, passa fome e ainda por cima mora na rua.

- E é!

- João, eu posso lhe dá um conselho?

- Pode.

- Por que você não larga o Sertão e vem morar em São Paulo?

- Largar o Sertão para morar em São Paulo?

- Isso. Comigo aqui não lhe faltará serviço.

- Nunca pensei nisso antes. Sempre via parentes e amigos vindo para cá, mas nunca pensei em lagar tudo para morar em São Paulo.

- Deixe aquele Sertão atrasado. Aqui é que é lugar para se viver. Temos de tudo. Largue aquilo lá e venha com sua esposa e filho para cá.

- O Sertão é atrasado?

- E põe atrasado nisso, João… Lá a pessoa se brincar passa fome, não há trabalho, não há água, só tem mato seco.

- Mas eu trabalho na roça.

- E você chama aquilo de trabalho? Quanto você tira de suas terras secas por mês? Dá para se alimentar, ter carro novo, mansão, viajar para curtir as férias?

- O que eu ganho fica tudo na mesa.

- Então, venha para cá, homem.

- Qual seria meu trabalho?

- Você trabalharia em uma das minhas fábricas.

- Onde fica essa fábrica.

- Perto daqui. Só precisa pegar três conduções.

- A que horas terei que levantar?

- Quatro da madrugada.

- Mas e é! Todos os dias os seus funcionários acordam a essa hora?

- Sim. Aqui não há espaço para preguiça.

- Voltarei para casa a que horas?

- Deixa a fábrica às dezessete horas. Mais duas horas para voltar. Às oito horas da noite estará na companhia da família.

- Mais e é! Sábado e domingo são de folga?

- Só domingo, mas nem sempre a sua folga cai em um domingo.

- O senhor faz tudo isso há quanto tempo?

- De quando eu me conheço por gente.

- Quero essa sua vida não. Aqui se ganha muito, mas se perde com os dias de vida. Trabalha demais.

- O seu salário de um mês trabalhando para mim é maior do que aquele que você ganha em mais de um ano em sua terra.

- Mais e é!

- Aqui se come do bom e do melhor. Há muita fartura…

- Mais e é!

- Aqui você pode ir ao cinema, ao campo de futebol, a praia, ao shopping e se gostar de umas aventuras… aos bordeis. Aqui nós vivemos bem, já no seu Sertão, é só padecimento.

- Mas lá eu acordo com os passarinhos na janela, posso sentar no banco da rua, conversar com os amigos…

- Quieta com isso, tudo coisa do passado. Agora é tempo do progresso. Ganhar dinheiro, fazer fortuna…

- As crianças podem brincar no terreiro, soltar pipa, correr atrás dos frangos.

- Aqui temos videogames, parques, circos… Aqui é que vivemos…

- Me deixe eu na minha terra, isso aqui é coisa para doidos. Muita loucura essa vida.

- Que nada. Venha ver meus carros.

- Esses carros são todos seus?

- São lindos! Todos meus.

- Cada dia o senhor usa um diferente para sair?

- Não! Aqui se sair com um carro desses os bandidos os levam na hora.

- Então para que quer esses carros?

- Eu gosto de colecioná-los. Isso aqui vale uma fortuna.

- O senhor não tem medo que os bandidos entrem aqui e roubem seu patrimônio?

- Olhe para o tamanho do muro. Temos cerca elétrica, seguranças, câmeras por todas as partes e os carros são todos segurados.

- Lá no Sertão não precisamos nada disso.

- Quieta com o Sertão! Aquilo lá não é vida.

- Lá com pouco se vive.

- Sobrevive!

- Quanto o senhor precisa para pagar todos seus gastos mensais?

- Muito dinheiro. Se eu não trabalhar muito não conseguiria manter meu nível de vida.

- O seu trabalho serve mais para conservar em seu poder tais pertences: carros, mansões, festas…

- E tem outra coisa na vida senão as que você acabou de mencionar?

- Nasci na roça, sou de lá, acho que morrerei por lá mesmo. Isso tudo aqui é muito para mim. Acho que não iria me adaptar.

- Você é quem sabe. Tantos queriam uma oportunidade dessas. Mas respeito sua decisão. Vamos, quero lhe mostrar minha mansão.

- Vamos.

- Isso aqui que é vida, João!

- E é!

História baseada em um convite de um empresário de São Paulo a um nordestino da nossa região. O sertanejo rejeitou o convite, nós aproveitamos o gancho e fizemos um conto.

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