Archive for: março 14th, 2014

Comendo letras muda-se a questão

A história da humanidade é contada por meio de códigos. O Brasil possui seu idioma, o Português. Temos o nosso alfabético com as suas vogais e as muitas consoantes. A gramática ensina as normas tidas formais. O dicionário explica o significado de cada palavra. Em cada região do nosso imenso país há uma maneira de se pronunciar as palavras. Painho, mainha, ô xente. Dizem que esse tipo de palavreado é da Bahia, mas no interior temos nosso jeito de falar. Aqui é a terra onde as pessoas gostam de economizar nas palavras. Se nós sofremos com a escassez de água, porque não encurtar as palavras?

- Ô, Zé, ond tá Tião? Precis de um cop di ol.

- Manué, sê sab, Tião nun tá, se picou po ri.

- Tô com fome.

- Lá no quintá tem bacate e aboba, sê quer Tião?

- Bacate é bom demais. Nestora eu vou lá rancar uns.

Por aqui acostumamos, no nosso dia a dia, a devorar certas letras. Miguel é Migé, Edmundo é Mundi, manteiga é mantega, sal é sá e por aí vai. Uma das coisas que não conseguimos devorar, sequer uma vogal ou uma consoante, chama-se rapadura, o trem é duro até para ser pronunciado.

- Mira (Sumira) tá no ingen de rapadura – fala José, mais conhecido por Zé.

Nessa pisada andamos e ainda hoje escorregamos na maneira como falamos. Há pouco tempo, estava sendo realizada uma Missa de Corpo Presente na Igreja. Alguns familiares choravam a perda do ente querido, outros acompanhavam enquanto colocavam a conversa em dia. Não há lugar melhor para conversar do que em um velório, todos falam baixo, um respeita o outro e o tempo é grande para por todas as histórias e os fuxicos em dia.

Na nossa região temos o costume de anunciar em carro de som avisando a comunidade o falecimento das pessoas. Naquele dia, o povo participava da missa, no dado momento o carro passou por uma rua próxima, era domingo, a cidade estava tomada pelo puro silêncio.

- Nota de falecimento. Faleceu hoje em Paramirim. – O carro foi se distanciado. – O senhor ——-, mais conhecido por – Cab —-.

Um logo olhou para o amigo e disse:

- Tõe, sê escutor? O pad usou o paletó pret.

- O pad? Será?

A notícia correu igual à fumaça entre os presentes. Não demorou e os celulares foram acionados. Em poucos minutos o pessoal de Salvador e São Paulo já sabia que o pad havia morrido.

- O padre morreu! – um falava.

- Mas não disseram que o Padre estava bom.

- Pegou uma infecção e morreu.

- Quem lhe falou isso?

- Quando nós estávamos na Missa de Corpo Presente na Igreja o pessoal começou a falar da morte do padre.

- Isso é mentira, o padre não morreu não.

- Morreu! Você está me chamando de mentirosa?

- O carro de som estava anunciando a morte do Cabo. O pessoal deve ter confundido Cabo por Padre. Tem gente por aqui que fala Cabo “cab” e Padre “pad”; e o pior que há pessoas que só entende desta forma.

Na economia das letras e nos sons parecidos se atribuem a uns conceitos que pertencem a outros.

História baseada em fatos reias.

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