Archive for: março, 2014

O Futebol em nossa região morre a cada jogo

mar 31 2014 Published by under Crônica

O esporte que tanto nos emocionava vem ao longo do tempo perdendo o apelo popular. Ao conversar com os antigos jogadores de Paramirim e Érico Cardoso sonhamos situações vividas por eles. Os relatos contados pelos mesmos falam de uma época em que havia amor pelo esporte, tempo dos campos lotados de torcedores, duelos vivos ainda nas mentes dos nossos veteranos.

- No meu tempo cada jogador comprava seu calçado. A bola e as camisas eram frutos do suor nosso. Para viajar às comunidades íamos a pé, a cavalo, quando longe de caminhão, passagem pagas pelos jogadores. Hoje o pessoal tem campo gramado, chuteiras, bolas, jogos de camisas e alguns ainda recebem para jogar, porém não há mais futebol. Tempo bom foi o nosso. Naquele tempo até os treinos de finais de tarde apareciam mais gente para assistir que nos dias atuais os estádios recebem para jogos de domingo – lembra certo senhor que não queremos divulgar o nome.

O Futebol entra no descrédito, na queda rumo ao esquecimento. Olhemos a Copa do Mundo, nas Copas passadas havia alegria pelas ruas, lojas enfeitadas, pessoas usando a camisa amarela, na deste ano, justamente na realizada em nosso querido Brasil, a grande maioria questiona o porquê de fazer um evento desta magnitude em um país carente em quase tudo.

Neste último domingo, dia 30 de março de 2014, ficamos triste ao saber que a grande Final da Copa Regional de Seleções não aconteceu. Alguém irá logo nos indagar: “Por quê?”. A equipe de Rio de Contas simplesmente não compareceu para a partida. Os dirigentes da citada Seleção devem ter suas desculpas, não motivos, para tamanha agressão aos torcedores, a imprensa, a equipe adversária, aos organizadores e aos políticos que patrocinaram o campeonato. Um ato pensado que mancha o “Espírito Esportivo”. O esporte é feito para dá exemplos, cumprir com os compromissos, não apenas visando uma vitória. Rio de Contas havia vencido a primeira partida jogando em casa pelo placar de um a zero, só precisava de um empate em Livramento. Por que não compareceu? Ficou com medo de perder? Não sabemos.

No meio esportivo a depender do derrotado o mesmo sai mais vitorioso que o próprio campeão. Quem não se lembra de Vanderlei Cordeiro de Lima, que ao ser atrapalhado por um indivíduo acabou ficando em terceiro na prova, seu humilde e brilhante gesto emocionou e levou muitas pessoas às lágrimas, até hoje é lembrado por muitos, enquanto o vencedor sequer se sabe mais o nome. Cada episódio é um ensinamento que a vida nos dá. Hoje olhando para o Campeão Michael Schumacher ficamos a imaginar, quantos títulos, quantas vitórias, quanto dinheiro, todavia, como brasileiro, só conseguimos olhar para ele como uma pessoa dotada de grande potencial e que deixou, de forma contrária ao esporte, se levar pela pilantragem. Aqueles: “Diminua a velocidade (Massa ou Rubinho) e deixe Michael Schumacher passar”. Atitudes que borraram a bandeira da Formula Um. O Grande Campeão não precisava daquelas manobras, mas por vaidade e vontade de se colocar no topo usou de tais mecanismos, uma pena para alguém com tamanho talento.

Fonte wikipedia.org: “Durante o encerramento dos Jogos, foi anunciado que por seu feito, seu espírito esportivo em continuar na disputa mesmo sendo atacado e a humildade demonstrada após a prova, Vanderlei seria agraciado com a Medalha Pierre de Coubertin, concedida pelo COI para atletas que valorizam a competição olímpica mais do que a vitória e que é considerada uma honra elevadíssima atribuída pela entidade. Ela lhe foi entregue numa cerimônia no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 2004, numa cerimônia oficial em sua homenagem com a presença de seu benfeitor grego, Polyvios Kossivas. Na mesma cerimônia, ele também foi escolhido como “Atleta Brasileiro do Ano de 2004″. Antes de Vanderlei, o último atleta a receber a homenagem tinha sido o velejador canadense Lawrence Lemieux, que nos Jogos de Seul 1988 abandonou a disputa de sua prova na classe 470 para salvar outros competidores que haviam caído ao mar depois do barco deles ter capotado. Dois outros atletas a receberam postumamente, o tcheco Emil Zatopek e o alemão Luz Long”.

A Seleção de Livramento levantou o troféu de Campeão ao vencer a partida no WO. O papelão armado pela Seleção de Rio de Contas mostra a real situação do Futebol em nossa região. Quando se realiza uma competição entre Seleções, entre Ligas, o que jamais poderá acontecer é atos infantis que nos lembram intrigas de crianças.  “Se você não jogar do meu lado, eu fico de mal”. Olhando as fotos vemos os Árbitros da Federação Baiana, a Polícia presente, os troféus ofertados pela Federação, tudo arrumado para o grande evento, contudo uma das Seleções se achando acima dos demais sequer aparece para o espetáculo. Se Deus nos desse o poder de voltar no tempo, não tenha duvidas, voltaria para viver com aqueles que de fato amavam o Futebol.

Aperte aqui para ver a matéria: Seleção de Livramento é a campeã da Copa Regional de Seleções.

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Justiça Injusta

É de conhecimento de todos nós brasileiros que o Brasil é um país democrático e que as Leis possuem diferentes pesos e medidas a depender de cada indivíduo. Os que têm muito dinheiro conseguem com maior facilidade se livrar das possíveis penalidades, já um ladrão de galinha que furta por sentir o estômago roncar lhe falta recursos para se livrar das pesadas grades. A justiça que se diz justa é tão injusta que chega a ser justo chamá-la de injusta. São tantas as Leis, as Normas, as Resoluções que ficamos a pensar: “Para que tudo isso mesmo?”. Quanto maior o número de regras, mais fácil fica encontrar uma saída, as ditas “brechas da lei”.

Um pobre homem da zona rural, trabalhador, levanta com os galos e trabalha o dia todo sob o calor do sol do Sertão, certo dia ao adentrar em sua residência sentiu a falta de seu aparelho de DVD. A janela se encontrava aberta, alguém havia entrado no recinto. Pensou em levar o caso à Polícia, porém recuou, muito trabalho e no final daria em nada. Um aparelho de DVD, pouca coisa para roubar o sono de um homem trabalhador.

No outro dia cedo, ele se perdeu nos afazeres das obrigações, sequer se lembrava mais do que lhe fora furtado no dia anterior. Ao chegar a casa, já era final de tarde, um singelo sinal lhe trouxe a mente o ocorrido, a janela estava novamente escancarada. Olhou para a estante e lá não se encontrava o aparelho de som. “Tenho que levar o caso ao conhecimento das autoridades. Mas se eu levar, o danado certamente fugirá. Se ele apareceu em duas oportunidades, aparecerá em uma terceira. Deixe-o comigo” – pensou o homem.

Durante a noite, o homem espalhou entre os amigos que na manhã seguinte antes que o sol ousasse pôr o rosto para fora sairia em viagem para a sede do município. O lugar pequeno, logo todos já estavam sabendo, inclusive o bandido.

As oito em ponto, passos do lado de fora, pouco tempo depois a janela foi aberta, os raios solares clareou o recinto. O silêncio predominava, campo limpo para os malandros agirem. Entrou como se fosse o dono da residência, desconectou os cabos e apanhou com as duas mãos o televisor; em seguida virou em direção a janela e se colocou a andar. Um barulho, uma corda, um aperto, o peixe faminto mordeu a isca.

- Como sou bom no laço. Boi nenhum nunca me venceu, não seria um verme a ser o primeiro. Nem pense em deixar a televisão cair.

Aproximou-se e ao olhar para o rosto reconheceu de imediato o rapaz. Tomou a televisão e a pôs sobre a mesa. O rapaz tremia, pedia perdão, clemência…

- Você irá responder à Polícia.

- Se meu pai souber que eu fiz isso, ele me mata.

Amarrou o danado e o deixou dentro de um quarto, não podia gritar porque estava amordaçado.

- Vou, mas não demoro.

O homem saiu a cavalo feliz pelo feito. Chegou a delegacia e comunicou ao delegado.

- Delegado, capturei um bandido.

- Como?

- Peguei um bandido furtando minha residência. Como sou bom no laço, foi fácil pegá-lo.

- Você sabia que o que você fez é crime?

- Crime? Por quê? Pegar bandido é crime?

- Vamos lá.

Chegando ao local o delegado pediu para que o dono abrisse a porta.

- Onde está o elemento?

- Dentro do quarto, trancado.

- Deixar uma pessoa em cárcere privado é crime.

Abriu a porta e o rapaz se encontrava no chão a remexer.

- Solte o rapaz.

- Soltar? Mas ele é um bandido.

- O senhor, por ventura, tem provas?

- Provas?

- Solte-o agora!

O homem a contragosto fez o que a autoridade lhe obrigou.

- Agora, você, pode ir – falou o delegado.

- Posso? – perguntou o rapaz.

- Quanto ao senhor, levá-lo-ei a delegacia. Responderá pelo crime cometido.

- Que crime, delegado?

- Cárcere privado.

Ele olhou para o rosto do rapaz, esse sorria de contente.

- Antes tivesse o matado, pelo menos não veria a risada deste infeliz.

O delegado conduziu o homem a delegacia. Ele deu o depoimento, pagou uma fiança e voltou triste para casa. Mas não pense que acabou o pesadelo, o pobre ainda passou por mais uma de doer na alma. Ao entrar em sua casa, a janela estava aberta, sequer fora fechada, sobre a mesa faltava-lhe a televisão. Aí alguém irá indagar: “Quem a levou”. Melhor nem falar, vá que sobra para nós também.

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Fazendo exame de fezes

Na vida dos tempos modernos as idas e vindas aos centros médicos têm virado rotina para muitas pessoas. Há exame para tudo quanto é problema, para cada parte do corpo, um especialista.

- Doutor, tenho sentido dores fortes na barriga.

- Para saber ao certo como anda seu intestino preciso de um exame de fezes.

- O que eu tenho que fazer?

- Você só precisa colher as suas primeiras fezes do dia e trazer para ser analisadas. Coloque-as no recipiente e depois guarde na geladeira, só o retire na hora que o senhor for trazer para cá.

O homem foi embora. No jantar da noite se fartou com tudo que tinha direito. Após a novela foi se deitar. Quando o relógio badalou três horas, ele se assustou. A barriga roncava, parecia que era ela que estava a dormir. Saiu e foi ao banheiro, no caminho deixou fugir dois puns, um mais fedido que o outro. Pegou uma vasilha, dessas que vem com paçoquinha, abaixou as calcas e colocou para fora tudo aquilo que o incomodava. Tampou o vasilhame e o levou para a geladeira, no trajeto mantinha a certa distância do nariz, o cheirinho estava de doer. Abriu a geladeira, nela havia frutas, legumes, sucos, outros produtos e algumas vasilhas com o que havia sobrado do jantar. Ele empurrou duas panelas para o lado e acomodou com esforço o frasco. Fechou a geladeira e voltou a dormir. Na manhã bem cedo, cinco horas, o filho levantou juntamente com a esposa para fazer o café. No mesmo momento o senhor também chegou à sala. Enquanto a mulher escovava os dentes, o rapaz estava a abrir a geladeira. Quando puxou a porta, quase caiu de costas.

- Meu Deus do Céu! Deve ter um cachorro morto dentro desta geladeira!

O ar que estava preso ao ver livre subiu pelo rosto da pessoa, algo terrível para as narinas.

- O que é isto? – pegou a vasilha e viu o conteúdo, não precisava nem ver, o mau cheiro já dizia. – Quem colocou isto dentro da geladeira?

- Fui eu, meu filho.

- O senhor só pode está doido, meu pai. Como é que você faz suas necessidades e as guarda dentro da nossa geladeira?

- Foi o médico quem pediu.

- Fosse colocar na geladeira da casa dele.

- Ele me pediu para colher as fezes e depois guardá-las na geladeira.

- Mas precisava guardar um quilo?

- Eu pensei que ele precisava de bastante para analisar.

- Era só comprar um frascozinho na farmácia por uma mixaria e pôr dentro dez ou quinze gramas de fezes.

- Era?

- Mulher, ligue para alguém vir desinfetar nossa geladeira. Também não se esqueça de ir ao mercado, pois estes produtos já não prestam mais. Perdi até o apetite.

História baseada em fatos reais.

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Segura na mão de Deus

O povo brasileiro é bastante religioso e acredita muito na existência de Deus, mesmo os que dizem o contrário, os ditos Ateus, ainda assim quando a dor bate em sua porta o primeiro nome que vem a boca é “Deus”.

- Deus, me ajude a sair dessa enrascada que me meti!

- Deus, me cure desta doença grave!

- Deus, eu não quero morrer!

São algumas frases ditas por todos nós quando a missão é impossível ou quase impossível de se realizar.

Em uma comunidade da zona rural, certa pessoa começou a sentir algumas dores, o quadro no decorrer das horas foi piorando, quando os familiares sentiram que o enfermo não suportaria por muito tempo, resolveram procurar ajuda em um hospital. O problema é que o dito local se encontrava a trinta quilômetros de onde estavam. Buscaram um automóvel e colocaram o homem a gemer de dores dentro. O carro levando o doente foi à frente e logo atrás outros cinco. A estrada era de terra e cheia de costelas de vaca, se a doença não o matasse, certamente as pancadas o levaria ao além. Na metade do percurso as pessoas que acompanhavam o doente pedem ao motorista para que parasse o veículo, o homem estava morrendo. Os demais carros também pararam de imediato, todos os tripulantes encostaram para saber o que estava acontecendo.

- O que foi que aconteceu? – pergunta um dos irmãos do enfermo, estava aflito.

- O homem está morrendo – responde alguém.

- Vamos rezar para a alma dele – fala uma mulher muito religiosa.

Todos de mãos dadas começaram a cantar a seguinte canção:

- Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus…

O enfermo no seu desmaio profundo ouviu ao longe as pessoas pedirem a ele para que segurasse na mão de Deus, o medo foi tamanho que ele arregalou os enormes olhos e gritou com toda força que ainda tinha nos pulmões:

- Deus é muito bom, mas eu não quero pegar nas mãos Dele agora não! Estou bem, estou bem! Me leve para o hospital.

Na dúvida entre o Céu e a Terra, sempre escolhemos o paraíso  que já conhecemos.

História baseada em um fato real que aconteceu em nossa região.

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Bala na agulha

rifle

Uma invenção fruto das ilusões humanas nasceu com o objetivo único de matar.  Criaram-se as armas de fogo com o propósito de serem usadas nos campos de guerras. Após o seu nascedouro elas disseminaram por todos os cantos da Terra. Nos atuais dias, mesmo sendo proibido o porte, há uma facilidade em adquirir uma. Pelas ruas homens, mulheres, jovens ou idosos as carregam na cintura ou no carro, muitas são guardadas em casa.

Escutamos uma conversa entre dois senhores na feira livre.

- Arma só presta para bandido.

- Ter uma arma em casa é segurança caso um bandido entre para roubar.

- Arma só serve para aquele que vai atacar. Se for para defender, o melhor mesmo é fazer o que o bandido pede.

Conhecemos vários relatos de casos envolvendo armas de fogo em que pessoas perdem a vida por pura distração ou brincadeira.

- Eu não queria atirar nele.

- Mas atirou – fala o inconsciente.

- Eu não queria ter puxado o gatilho.

- Mas puxou.

- Não foi culpa minha… Eu não sabia que tinha uma bala na agulha.

- Foi culpa sua sim. Você foi negligente. Usar arma é crime. Onde já se viu brincar com arma de fogo?

- O que eu faço para reparar meu erro?

- Essa culpa você a levará para o caixão. Todas as noites ela visitará seus sonhos.

Outro dia desses estava um grupo de pessoas a conversar alto. Eles (todos do sexo masculino) se encontravam em uma comunidade da zona rural, defronte a um boteco. Um senhor chegou e quis saber qual o motivo daquela algazarra toda.

- O que está acontecendo aí, senhores?

- Comprei este brinquedinho hoje. Olhe como é linda.

- Já tive uma dessa.

- O problema é que ninguém aqui sabe manuseá-la.

- Dei-me a danada. Quantos veados já não derrubei com uma dessa.

Ele apanhou a arma, um rifle, fez três movimentos, trap, trap e… trap. Um grande pipoco. Bãoooooo. Homens caíram para os lados, mulheres gritaram de pavor, crianças correram iguais loucos ao matagal.

- Meu Deus do Céu, o que eu fiz? – grita o homem com a arma na mão. – Você não me disseram que havia uma bala no pente.

- E eu lá sabia que tinha bala aí dentro. O homem o qual a comprei não me disse nada.

O pessoal foi aos poucos se levantando, assustado e trêmulo.

- Foi sorte – disse o homem com a arma na mão. – Se tivesse alguém na minha frente teria acontecido uma desgraça. Graças a Deus que a direção que voou a bala estava livre.

- Dei-me essa arma. Vou guardá-la. Quase um de nós estava morto neste momento.

História baseada em um fato real que aconteceu em nossa região.

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Cada um tem seu dia para morrer?

Quando o danado dia chega cabe-nos vestir o paletó preto, calçar a melhor botina, usar uma cueca nova, aparar a barba e descansar enrolado nas garras da eternidade. O dia fatal todos nós o temos. Mas qual seria ele? Um domingo, um dia de chuva, de festa, de feira livre, qual? Deus escreve da maneira que lhe agrada mais, a nós apenas nos compete obedecer e seguir nosso calvário de cabeça baixa.

Nas terras do Sertão uma família descansava o corpo dolorido da labuta do dia que acabara de ficar para trás. Quando a pessoa vai para cama muito cansada não se dorme, apaga. O sertanejo desligou o interruptor da sua própria luz sobre o peso da fadiga corporal. Dormia pesadamente, um sono de túmulo, algo pesado demais para ser incomodado pelos sonhos e pesadelos. Mas as linhas de Deus já foram traçadas previamente, ou será que não? O homem entrou nos contos de fadas e começou a delirar. Sonhava está no quintal de sua residência sentado a observar os bichos.

Um galo cantou alto entre o capim.

- Galo cantando a esta hora? – olhou para cima e viu a lua. – Tá explicado. O pobre está pensando que já é dia. – Voltou a olhar para o céu e lá já não a encontrava mais. – O que está acontecendo?

O galo voltou a cantar, desta vez em um grau ainda mais agudo. Saiu de dentro do capim, ficou frente com o homem e não parou mais de cantar. Cantava, cantava e cantava. Estava louco o bicho?

- Quite, diabo! Me deixe dormir.

O galo continuava a cantar. O homem se sentiu perturbado, levantou e pegou uma pedra e a arremessou contra a ave. A pedra ao sair de sua mão não seguiu viagem sequer dois metros à frente. Ele correu na direção do bicho, suas pernas pesadas o seguravam, seus olhos viram um cão negro feito a noite se lançar ferozmente contra o galo. Da fera só se enxergava seus enormes olhos brilhantes. Os dois animais sumiram entre o capim. O silêncio prevalecia no local, de repente o cão volta com a boca cheia de penas, seu rosto todo manchado de sangue. O cão o observava, em seguida disparou rumo ao homem, esse rápido feito um relâmpago deferiu uma paulada na cabeça do animal. O bicho caiu estrebuchando e logo morreu. Pela boca saia uma grande quantidade de sangue, o homem aproximou os olhos, viu refletido no líquido vermelho a sua face, porém com os olhos de defunto e lavas a sair pelos orifícios.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiii!

- O que foi, homem? ! – assusta a esposa que dormia ao lado.

- Pesadelo!

- Deu para ter medo de pesadelo?

- Vou tomar um copo d’água e já volto.

Saiu e foi sentir a brisa da noite. Esperava encontrar algo, um sinal, uma pista que desse ar de realidade ao sonho. Alguns grilos cantavam e nada mais. Tomou a água e procurou a cama. O sono logo retornou e ele voltou a dormir pesadamente. Não demorou e a esposa o acordava para os trabalhos do dia.

- José, está na hora. Hoje é dia de feira.

Acordou cansado e triste. Não sabia o motivo da sua tristeza, sentia indisposição. Abriu a janela e olhou para o terreiro, um galo cantou na casa da vizinha, o sonho voltou a povoar seus pensamentos. Sentou a mesa para tomar seu café.

- Maria, estou com mau pressentimento. Tive um sonho estranho. Acho que hoje acontecerá algo de ruim.

- Você ultimamente anda muito cansado… pode ser isso.

O dia começava a clarear e os galos a cantar. Um na casa de João, outro no terreiro do vizinho, mais um ali, e tantos outros….

- Maria, hoje os galos acordaram para cantar. Isso não é bom.

- Todos os dias são assim mesmo. Agora, caso passe das oito e eles continuem com a algazarra, aí pode encomendar um caixão que a Morte se encontra nas proximidades em busca de alguém.

- Deus me livre – fez a cruz três vezes.

João ajeitou todas as mercadorias nas bruacas e partiu montado em seu cavalo branco a puxar uma mula. Não demorou e já estava no seu ponto habitual na praça a espera dos fregueses. Naquele movimento todo se esqueceu dos problemas da noite. Certa hora sentou em um tamborete para tomar um suco e comer um pedaço de rapadura. Estava metido nesse gostoso trabalho quando escutou um galo cantar, foi como em um estalo. Ele olhou para o lado e o galo estava lá, bem em sua frente. Olhou de novo e o bicho o encarava. Os galos na intermediação começaram a cantar. O relógio já marcava doze horas e os galos continuavam soltando o cocoricó. Como havia dito a esposa Maria: “Alguém irá morrer se os galos continuarem a cantar após o horário habitual”. Aos poucos o pessoal ia partindo e com eles os galos iam juntos, certamente as aves virariam o almoço dos dias seguintes. Sentado a matutar viu um senhor passar montado em um jumento, ao lado estava um galo, preto da cor da noite, amarrado aos pés, viajava de cabeça para baixo. O animal de repente cantou. O jumento seguiu seu desiderato, partiu em disparada logo atrás um cão negro a latir. Sumiram na esquina da rua que dava acesso à ponte.

- Que coisa maluca. Vou ajeitar minhas coisas e vou embora.

Poucos minutos tinha retirado todos os pertences e ajeitado o pouco que sobrou em uma bruaca. Amarrou os animais em uma árvore e foi à banca de carnes no barracão para comprar o produto. Nas costas carregava um saco, nele alguns cereais. Entrou no local e pediu ao dono o de sempre. O açougueiro cortou a carne, pesou e a colocou em uma sacola. O homem pagou e ao mesmo instante pegou a sacola. Neste momento um menino entra correndo no local, ofegante e trêmulo.

- Seu João, um homem me pediu para que viesse chamar o senhor.

- Para que, menino? De qual homem você está falando?

- Não sei. Ele me deu dez contos de reis para vir trazer o recado.

- Onde ele se encontra?

- Venha que eu levo o senhor lá.

Ao chegar ao local o homem não estava mais. João discutiu com o garoto e saiu para apanhar suas montarias. A feira estava no seu fim. As pessoas da zona rural deixavam o recinto aos montes. João pegou a estrada da ponte e partiu na direção da sua terra. Estava distraído, não pensava em nada, apenas desejava chegar a casa e tomar um bom banho, estava cansado. Na metade do caminho escutou como um sopro ao pé do ouvido: “A carne”. Ele de imediato parou e conferiu o saco, ela não estava dentro. Amarrou um dos animais em um mourão e voltou à disparada para ver se encontrava a carne. Entrou pela cidade a levantar poeira, freou o animal e em um salto já estava na porta do barracão. Olhou para a mesa e lá estava o saco com a carne. “Como pode ninguém ter levado ela?”, pensa João. Ele sorriu, entrou a andar, levou a mão ao saco de carne. Quando virava para ir embora, uma corda quebra, a madeira pesada que era usada para pendurar os quartos dos bois desce com toda força e velocidade atingido em cheio a cabeça do homem. Perdeu a vida na hora, sem ao menos saber o que havia ocasionado. Uma poça de sangue cresceu ao redor da cabeça. Em poucos minutos a cidade toda rodeava o cadáver.

Os galos estavam certos, alguém iria morrer.

História baseada em um fato real.

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Caiu, levante

Neste mundo há humores os mais diversos possíveis. Cada pessoa age de forma diferente ou semelhante com atitudes de outrem. Uns são calmos, outros, nervosos, têm os mansos, os agoniados…

Um rapaz já maduro, de índole forte, estava debruçado na janela a olhar para o movimento da rua acompanhado pela fiel companheira. Eles moram em um prédio, do alto a visão é perfeita. De repente suas retinas foram fisgadas por algo. Dois motoqueiros vinham fazendo barulho e empinando.

- Olhe para aqueles meliantes, mulher.

- Que perigo.

- Era a polícia pegar e dá uma lição.

Um dos motoqueiros arrancou e começou a empinar, levou até defronte a janela do prédio onde se encontravam os dois. O jovem desequilibrou e foi ao chão. O barulho escutou longe.

- Marido, vai ver o que aconteceu com o rapaz! – grita a mulher.

- Lá tem cerveja, mulher?

- Não.

- Caiu? Levante, seu vagabundo!

O rapaz levantou sem graça, sacudiu a poeira, montou na moto e partiu louco da vida.

História baseada em fatos reais.

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Comendo letras muda-se a questão

A história da humanidade é contada por meio de códigos. O Brasil possui seu idioma, o Português. Temos o nosso alfabético com as suas vogais e as muitas consoantes. A gramática ensina as normas tidas formais. O dicionário explica o significado de cada palavra. Em cada região do nosso imenso país há uma maneira de se pronunciar as palavras. Painho, mainha, ô xente. Dizem que esse tipo de palavreado é da Bahia, mas no interior temos nosso jeito de falar. Aqui é a terra onde as pessoas gostam de economizar nas palavras. Se nós sofremos com a escassez de água, porque não encurtar as palavras?

- Ô, Zé, ond tá Tião? Precis de um cop di ol.

- Manué, sê sab, Tião nun tá, se picou po ri.

- Tô com fome.

- Lá no quintá tem bacate e aboba, sê quer Tião?

- Bacate é bom demais. Nestora eu vou lá rancar uns.

Por aqui acostumamos, no nosso dia a dia, a devorar certas letras. Miguel é Migé, Edmundo é Mundi, manteiga é mantega, sal é sá e por aí vai. Uma das coisas que não conseguimos devorar, sequer uma vogal ou uma consoante, chama-se rapadura, o trem é duro até para ser pronunciado.

- Mira (Sumira) tá no ingen de rapadura – fala José, mais conhecido por Zé.

Nessa pisada andamos e ainda hoje escorregamos na maneira como falamos. Há pouco tempo, estava sendo realizada uma Missa de Corpo Presente na Igreja. Alguns familiares choravam a perda do ente querido, outros acompanhavam enquanto colocavam a conversa em dia. Não há lugar melhor para conversar do que em um velório, todos falam baixo, um respeita o outro e o tempo é grande para por todas as histórias e os fuxicos em dia.

Na nossa região temos o costume de anunciar em carro de som avisando a comunidade o falecimento das pessoas. Naquele dia, o povo participava da missa, no dado momento o carro passou por uma rua próxima, era domingo, a cidade estava tomada pelo puro silêncio.

- Nota de falecimento. Faleceu hoje em Paramirim. – O carro foi se distanciado. – O senhor ——-, mais conhecido por – Cab —-.

Um logo olhou para o amigo e disse:

- Tõe, sê escutor? O pad usou o paletó pret.

- O pad? Será?

A notícia correu igual à fumaça entre os presentes. Não demorou e os celulares foram acionados. Em poucos minutos o pessoal de Salvador e São Paulo já sabia que o pad havia morrido.

- O padre morreu! – um falava.

- Mas não disseram que o Padre estava bom.

- Pegou uma infecção e morreu.

- Quem lhe falou isso?

- Quando nós estávamos na Missa de Corpo Presente na Igreja o pessoal começou a falar da morte do padre.

- Isso é mentira, o padre não morreu não.

- Morreu! Você está me chamando de mentirosa?

- O carro de som estava anunciando a morte do Cabo. O pessoal deve ter confundido Cabo por Padre. Tem gente por aqui que fala Cabo “cab” e Padre “pad”; e o pior que há pessoas que só entende desta forma.

Na economia das letras e nos sons parecidos se atribuem a uns conceitos que pertencem a outros.

História baseada em fatos reias.

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A culpa e os defeitos são dos outros

O ser humano é um bicho estranho, complicado, chato, arrogante, mandão e se estende em outros mais pesados e pegajosos adjetivos. Também possuímos nossas virtudes, alguns carregam em si uma luz de maior intensidade, outros uma pequena chama de um singelo palito de fósforo.

Na sociedade, a maioria, grande maioria, quase todos seus indivíduos se armam de unhas e dentes para cobrar seus direitos, apontar os erros alheios, falar o modo correto de se realizar certas atividades. O que mais se ouve pelas ruas e praças são conselhos, o povo tem resposta para tudo.

- João, o mundo está perdido! – fala Paulo ao amigo.

- Por quê?

- Os homens estão destruindo a natureza. Eles cortam as árvores, matam os animais, poluem a atmosfera, assoreiam os rios, infectam os mares.

- De fato.

- João, o mundo está perdido!

- Por quê?

- Os políticos são todos corruptos. Roubam o dinheiro da saúde, da educação, do saneamento… As crianças vivem na miséria, as mulheres se prostituem, os homens são obrigados a furtar e a matar.

- De fato.

- João, o mundo está perdido!

- Por quê?

- As religiões só pensam no dinheiro dos fieis. A população trabalha para encher os cofres das igrejas. Enquanto isso eles não fazem nada em benefício da população.

- De fato.

- João…

- Um momento! – interrompeu o amigo. – Sabemos que o mundo tem suas mazelas, isso todos sabemos. Faço-lhe um simples questionamento: “O que o senhor tem feito para mudar tal situação?”.

- Eu?

- Sim, você. O que, o amigo, tem feito? Falar é fácil, colocar a culpa nos outros, também, mas fazer, compadre, isso é para poucos. Outro dia desses, eu vi um caminhão de madeira descarregando o produto em sua residência, hoje ela já possui um telhado novo. Quantas árvores foram mortas para o seu conforto? O senhor é um ótimo professor, por que não ensina de graça aos mais necessitados? Pegue a enxada e vá trabalhar se seu sonho é ver um mundo menos desigual.

- O senhor hoje está nervoso.

- Não, não estou nervoso. Apenas lhe mostro que o senhor está errado. Se não quer ajudar, pelo menos não atrapalhe. Hoje mesmo o senhor passou o dia todo dentro de casa ora dormindo ora assistindo televisão. Deveria ter gasto seu tempo trabalhando em prol daquilo que tanto prega.

- Já entendi.

- O senhor fala mal de Deus, dos políticos, dos religiosos, dos esportistas, dos garis, dos funcionários dos bancos, dos correios, mas esquece de apontar o dedo para si próprio.

- Valeu. Vou embora.

- Boa noite.

História baseada em fatos reais.

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Tragédia em Macaúbas nos faz ter saudade de Lampião

Comprei um livro ontem, hoje durante a tarde comecei a folheá-lo. Sou do Sertão, por isso gosto das suas histórias. O título do livro: “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”. Rapaz, o livro é muito bom, a história do homem é de arrepiar. Li ao todo quinze páginas, e tive que sair. Antes de ir para cama voltei a ler mais umas dez páginas. O relógio já encostava seu ponteiro menor no número onze, antes escovei os dentes, fiz um Pai Nosso e apaguei-me. “Deus, proteja-me durante o dono”.

No decorrer do meu repouso comecei a sonhar. Sonhava com ele, com Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Ele e o seu bando invadiam minha cidade para saltear, fazer motim, roubar. Eu assistia a tudo pela fresta da janela. Ouviam-se muitos tiros, gritos, pavor e explosões. De repente Corisco desceu de seu cavalo negro e veio na direção da minha janela dizendo: “Eu sei que você está aí. Vou arrancar seus olhos”. Continuou no seu propósito, passo a passo.  Deixei a janela e me encolhi feito um vira-lata no canto da parede. A janela foi aberta em um pontapé. Um estrondo. “Bãooooooooo”. Assustei com o meu coração a sair pela boca acelerado em demasia. Estava no chão, sem juízo usava o instinto correndo loucamente sem rumo ou mesmo direção.

Por um momento eu imaginava está metido em um pesadelo, mas não, a coisa era real. Há muitos tiros do lado de fora, explosões, cortaram a luz, celular não pega. Gritei com toda a força que os meus pulmões possuem: “Lampião voltou! Lampião ataca Macaúbas”. Os tiros continuaram por cerca de quarenta e cinco minutos. Soquei-me debaixo da cama e pus o travesseiro sobre a cabeça na tentativa de ofuscar o barulho. Como quarenta e cinco minutos demoraram de passar, uma eternidade.

O silêncio voltou a ser dono da noite, logo o povão correu as ruas e o barulho recomeçou. A energia foi restituída e minhas retinas puderam ver que não se tratava de Lampião, em minha frente estava a Agência do Banco do Brasil toda detonada. Um colega aproximou e o indaguei:

- Isso tudo foi fruto do Virgulino?

- Que Virgulino? Você está doido! Mais de vinte bandidos colocaram o banco abaixo. Quem é este Virgulino mesmo?

- Lampião.

- Lampião? O Rei do Cangaço?

-Sim, ele mesmo.

- Após ver esta tragédia em nossa querida cidade, eu não tenho mais duvidas: sinto-me saudade de Lampião.

História baseada em um fato real acontecido na cidade de Macaúbas na madrugada do dia 12 de março de 2014.

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