Archive for: fevereiro 23rd, 2014

Uma surra para aprender

sandália

A educação no decorrer dos tempos vai se adequando conforme a realidade de cada momento. Criam-se leis, novos órgãos, tudo para diminuir ou acabar com os modelos já ultrapassados de conduta. O ser humano caminha em busca da paz e do bem. Contudo no passado, em um período não tão distante assim, crianças sofriam nas mãos dos pais e dos professores, usavam-se a palmatória, o chicote, a cinta, a taca, a sandália e os temidos beliscões e puxões de cabelos. A cultura muda de acordo as exigências, nos dias atuais já não praticamos de muitos atos que há trinta anos era rotina nas casas e nas escolas.

- Raimundo, eu estou indo para a roça e só voltarei no início da noite. Assim que você chegar da escola pegue o balde e vá apanhar água na lagoa e molhe os pés de coco.

- Sim, senhor.

O homem montou em seu cavalo castanho, jogou um saco no ombro, ajeitou a foice e com a boca fez dois gestos, o animal se pôs a andar. O sol estava quente, não havia sequer uma nuvem, o céu todo azul. Raimundo apanhou os cadernos e correu para a escola, faltavam dez minutos para o início da aula. O aluno que chegasse atrasado era impedido de entrar e ainda sofria ao regressar para casa com as broncas dos pais, nas muitas das vezes apanhava. A Sineta já estava na mão da professora quando o aluno entrou feito lebre fugindo do leão sala adentro.

- Salvo pelos segundos, Raimundo!

O garoto sentou na sua pobre banca e manteve em absoluto silêncio. A aula transcorreu normalmente. No final, já era cinco da tarde, a sineta voltou a tocar e a garotada correu para suas casas. Raimundo seguiu seu percurso lembrando-se dos coqueiros, mas antes da casa havia um campinho e a molecada jogava bola.

- Raimundo, venha jogar com a gente. Ainda tem uma vaga – gritou Joãozinho.

- Se você não vier agora, quando voltar não haverá mais vagas – acrescentou Pedro.

Raimundo deixou os cadernos em um canto e correu para a diversão, lembrava que quando voltasse para casa haveria de molhar os coqueiros. A brincadeira se estendeu até o escuro empurrar o sol para outras bandas. O jovem feliz por ter feito vários gols se esqueceu da tarefa lhe conferida pelo pai. Já em casa foi ajudar a mãe com o pilão de arroz.

- Raimundo!

Aquela palavra varou o coração, um choque, algo que fez com que Raimundo lembra-se da tarefa que foi a ele conferida.

- Raimundo, você fez o que eu lhe mandei?

- Sim. Já molhei todos os coqueiros.

A mão do pai na ligeireza de um felino segurou pelo braço da criança e a ergueu, com a outra mão fez descer uma sandália que atingiu em cheio a bunda do garoto.

- Ai! Ai! Ai!

- Isso é para você aprender a não mentir nunca mais, seu moleque!

Soltou o menino e esse saiu catando cavaco para debaixo da saia da mãe soluçando e choramingando.

- O que foi que ele fez, marido?

- Mandei que ele molhasse os coqueiros, passei no campinho e ele estava lá na brincadeira, cheguei e fui conferi, mas o danado não acatou minhas ordens. E o pior: ele mentiu ao me dizer que havia molhado. Bati pela mentira e não por não me ter obedecido. Espero que ele tenha aprendido, porque cada mentira sua, seu moleque, será outra surra. Agora pegue o balde e vá à lagoa apanhar água e molhar os coqueiros.

- Raimundo, você não sabe que mentir é feio e cresce o nariz? – perguntou a mãe.

- Pare de choramingar! Você já é um homem, e homem não chora. Agora vá!

O garoto correu em meio à escuridão para apanhar a água e molhar os coqueiros. Dormiu triste e com raiva do pai. Passado alguns dias já não se lembrava mais da dor da surra, todavia nunca esqueceu o exemplo ensinado pelo pai ao sabor amargo de uma sandália apoiada nas nádegas.

História baseada em fatos reais que aconteceu na região de Paramirim.

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