Archive for: fevereiro, 2014

Uma surra para aprender

sandália

A educação no decorrer dos tempos vai se adequando conforme a realidade de cada momento. Criam-se leis, novos órgãos, tudo para diminuir ou acabar com os modelos já ultrapassados de conduta. O ser humano caminha em busca da paz e do bem. Contudo no passado, em um período não tão distante assim, crianças sofriam nas mãos dos pais e dos professores, usavam-se a palmatória, o chicote, a cinta, a taca, a sandália e os temidos beliscões e puxões de cabelos. A cultura muda de acordo as exigências, nos dias atuais já não praticamos de muitos atos que há trinta anos era rotina nas casas e nas escolas.

- Raimundo, eu estou indo para a roça e só voltarei no início da noite. Assim que você chegar da escola pegue o balde e vá apanhar água na lagoa e molhe os pés de coco.

- Sim, senhor.

O homem montou em seu cavalo castanho, jogou um saco no ombro, ajeitou a foice e com a boca fez dois gestos, o animal se pôs a andar. O sol estava quente, não havia sequer uma nuvem, o céu todo azul. Raimundo apanhou os cadernos e correu para a escola, faltavam dez minutos para o início da aula. O aluno que chegasse atrasado era impedido de entrar e ainda sofria ao regressar para casa com as broncas dos pais, nas muitas das vezes apanhava. A Sineta já estava na mão da professora quando o aluno entrou feito lebre fugindo do leão sala adentro.

- Salvo pelos segundos, Raimundo!

O garoto sentou na sua pobre banca e manteve em absoluto silêncio. A aula transcorreu normalmente. No final, já era cinco da tarde, a sineta voltou a tocar e a garotada correu para suas casas. Raimundo seguiu seu percurso lembrando-se dos coqueiros, mas antes da casa havia um campinho e a molecada jogava bola.

- Raimundo, venha jogar com a gente. Ainda tem uma vaga – gritou Joãozinho.

- Se você não vier agora, quando voltar não haverá mais vagas – acrescentou Pedro.

Raimundo deixou os cadernos em um canto e correu para a diversão, lembrava que quando voltasse para casa haveria de molhar os coqueiros. A brincadeira se estendeu até o escuro empurrar o sol para outras bandas. O jovem feliz por ter feito vários gols se esqueceu da tarefa lhe conferida pelo pai. Já em casa foi ajudar a mãe com o pilão de arroz.

- Raimundo!

Aquela palavra varou o coração, um choque, algo que fez com que Raimundo lembra-se da tarefa que foi a ele conferida.

- Raimundo, você fez o que eu lhe mandei?

- Sim. Já molhei todos os coqueiros.

A mão do pai na ligeireza de um felino segurou pelo braço da criança e a ergueu, com a outra mão fez descer uma sandália que atingiu em cheio a bunda do garoto.

- Ai! Ai! Ai!

- Isso é para você aprender a não mentir nunca mais, seu moleque!

Soltou o menino e esse saiu catando cavaco para debaixo da saia da mãe soluçando e choramingando.

- O que foi que ele fez, marido?

- Mandei que ele molhasse os coqueiros, passei no campinho e ele estava lá na brincadeira, cheguei e fui conferi, mas o danado não acatou minhas ordens. E o pior: ele mentiu ao me dizer que havia molhado. Bati pela mentira e não por não me ter obedecido. Espero que ele tenha aprendido, porque cada mentira sua, seu moleque, será outra surra. Agora pegue o balde e vá à lagoa apanhar água e molhar os coqueiros.

- Raimundo, você não sabe que mentir é feio e cresce o nariz? – perguntou a mãe.

- Pare de choramingar! Você já é um homem, e homem não chora. Agora vá!

O garoto correu em meio à escuridão para apanhar a água e molhar os coqueiros. Dormiu triste e com raiva do pai. Passado alguns dias já não se lembrava mais da dor da surra, todavia nunca esqueceu o exemplo ensinado pelo pai ao sabor amargo de uma sandália apoiada nas nádegas.

História baseada em fatos reais que aconteceu na região de Paramirim.

One response so far

Cantor ilustre chega para grande show

Quem não conhece o famoso Pardal? Não estamos falando do Professor Pardal… falaremos do pássaro denominado de Pardal. Esta pequena ave que se disseminou pelas cidades do Brasil e hoje disputa com os humanos o posto de espécie predominante.
- José, a Professora está trazendo para nossa cidade um tipo de passarinho que ninguém daqui nunca o viu antes.
- E é…
- Disse que é estrangeiro! Bicho das Américas, um danado americano.
- Como ela os conseguiu?
- Arranjou com um parente de Salvador.
- Quem lhe falou isso?
- É a conversa que corre pelas ruas. Chegará amanhã cedo.
- Você sabe que eu gosto muito de criar pássaros? Em minha casa tem pra mais de duzentos… Esse tal de Pardal fará parte da minha coleção.
- Será que ela vende?
- Tudo na vida tem um preço, não será este pardal a não se curvar diante a força esmagadora do dinheiro.
Na manhã seguinte uma multidão estava na entrada da cidade esperando o ilustre estrangeiro que vinha de mala e cuia. O boato crescia à medida que o tempo passava. Logo chegara uma filarmônica. Homens seguravam rojões. O clima era de festa.
O relógio passava das duas da tarde quando ao longe apontou o caminhão Chevrolet Cara Branca. Fogos subiam ao céu, a filarmônica tocava seus lindos dobrados, o povo gritava, sorria, batia palmas.
Ao chegar o carro trazendo a professora, ela ao ver o povão sorriu e se deliciou com as vivas de boas vindas. Pegou a gaiola e apresentou as duas pequenas aves ao povo.
- Aqui temos as mais belas e importantes aves que  o nosso Sertão já viu.
O povo todo abismado achava a coisa mais linda do mundo.
- São lindos… – dizia uns.
- Dizem que além do seu próprio canto ele imita todos os outros pássaros – acrescentava outro.
- Quero um para mim, Papai – choramingava a criança.
De repente um canário da terra pousa em um velho juazeiro e começa em seguida a mostrar seu potencial. Cantava bonito, um mestre, dono do pedaço. Ninguém sequer o notou; ninguém, não, uma pequena criança sentiu pena e viu naquele canto uma espécie de lamento; sem saber que o canário cantava de alegria, anunciava seus filhos que acabaram de nascer.
As pessoas seguiram o veículo, muitas foram sobre a carroceria soltando fogos e cantando. O Pardal era o dono da festa, o cantor de luxo, o estrangeiro.
O caminhão estaciona defronte ao casarão, residência da professora, um bando de pássaros preto passou voando e assoviando, pousou nos coqueiros do quintal e permaneceu com os seus louvores. As pessoas só tinham ouvidos e olhos para os estrangeiros.
O dia passou rapidamente, a casa da professora foi tomada por uma romaria, fazia fila para conhecer os novos moradores do local. No outro dia cedo, ao abrir a porta de entrada, José já se encontrava encostado, quase caiu porta adentro quando a mesma foi aberta.
- O que foi, José? O senhor já não viu os pássaros ontem?
- Estou aqui para negociar com a senhora.
- Negociar?
- A senhora quer quanto nos estrangeiros?
- Nos pardais?
- Coloque preço.
- Não está a venda.
- Dou-lhe três dos meus melhores canários pelo casal.
- Não está a venda. Quando tirarem filhotes, nós conversaremos. Agora tenho que preparar a sala de aula. Com licença.
O homem retornou aos afazeres amuado e triste. Queria os pardais para a sua coleção.
Dois dias se passaram, era manhã de um sábado, a professora colocou a gaiola sobre a mesa e foi atender um chamado, ao retornar, a gaiola estava nas mãos do neto que sorria alegremente.
- O que você fez, menino?!
A portinha estava aberta e as aves ganharam o céu, ele que se encontrava azul, virgem de nuvens.
- Sebastiana, chame os meus empregados e vão capturar meus pardais.
A cidade foi mobilizada, todos procuravam pelos fugitivos. De tempos em tempos pessoas chegavam atestando que haviam visto eles em certa rua. Dois dias se passaram e as buscas foram diminuindo. Em uma semana após, poucos ainda tinham a vontade de ir à procura.
- Certamente que algum gato, ou mesmo um gaviãozinho peduro desses que andam voando por aí a capturar morcegos, deva ter feito deles uma refeição. Os pobrezinhos não estão acostumados com a nossa região.
- Podem ter morrido de fome também.
O criador de pássaro estava fissurado e queria capturar os pardais para sua coleção. Colocava-se sempre de olhos abertos, nas beiras dos rios, nas copas das árvores, nas serras.
Passado um ano do sumiço dos pardais, o criador de pássaros perambulava próximo ao prédio escolar, ainda tinha esperança de encontrá-los, mas estava conformado com a opinião dos demais que os bichos teriam sido mortos, escutou um canto diferente, feio, todavia nunca o sentira antes.
- Será?! Não pode ser. Que canto feio. Não, não, não, deve ser outro pássaro. Mas conheço todos os cantos dos nossos passarinhos e sei que esse que acabei de escutar não é de nenhum dele. Manteve-se de guarda, esperava por um sinal. Demorados pouco mais de trinta minutos um pardal passou voando com um ramo de capim no bico e adentrou para o telhado.
- Então foi por isso que eu não os encontrei. Procurava por eles nas matas, contudo os mesmos gostam é da cidade.
Buscou uma escada e apanhou os dois filhotes no ninho e pôs em uma gaiola. A notícia correu as ruas: “Foram encontrados os pardais da professora. Estavam eles nas mãos de José o Criador”.
José era o homem mais feliz do mundo, possuía um casal de estrangeiros, dos seus lábios somente sorrisos. O povão começou a visitá-lo com frequência. Transcorrido uma semana, a notícia que passou a circular era a seguinte: “João, Pedro, Joaquim, Sebastião e outros tantos encontraram pardais nos buracos dos telhados das casas velhas”. Após um mês todos os pardais capturados foram soltos, não era mais raridade, passou a praga, além do mais tinha um canto sem graça. Deste dia em diante o estrangeiro que chegou com pompas de reis se transformou em um voraz invasor, expulsou as andorinhas e os morcegos das suas tocas, passou a comer nos cochos dos porcos e das galinhas, no linguajar da região: “Transformou-se em praga”.
Moral da história: “Na nossa região, Santo de casa não faz milagres”.

Este conto é baseado em fatos reias acontecidos na nossa região.

Segundo o site (http://www.wikiaves.com.br/pardal): O pardal (Passer domesticus) tem sua origem no Oriente Médio, entretanto este pássaro começou a se dispersar pela Europa e Ásia, chegando na América por volta de 1850. Sua chegada ao Brasil foi por volta de 1903 (segundo registros históricos), quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, autorizou a soltura deste pássaro exótico proveniente de Portugal. Hoje, estas aves são encontradas em quase todos os países do mundo, o que as caracteriza como uma espécie cosmopolita. Essa ave tem se expandido pelo espaço rural e, em alguns casos, prejudicado a produtividade agrícola.

Comments are off for this post

Pensava que poderia mudar o mundo

fev 15 2014 Published by under Frases

mundo

Pensava que a nossa missão aqui na Terra era a de mudar o mundo, mas após várias ponderações cheguei à conclusão que o mundo não carece de mudanças, e sim nós.

Comments are off for this post

Tem muita unha na feijoada

Foto postada no blog www.canindesoares.com

Um dos pratos destaque na cultura da região da Chapada Diamantina se chama feijoada. Quem nunca se deliciou com essa arte culinária? Feijão preto, carne de porco, linguiça, folha de louro, entre outros produtos. Um costume que a cada ano se ramifica ainda mais por aqui é o habito de comer feijoada nas manhãs de domingos, substituindo o tradicional café. Uns dizem ser a favor, outros, discordam. O certo é que a danada acompanhada por farofa de couve, vinagrete, arroz e algumas gotas de pimenta malagueta é uma delícia só.

- Pintado, tem feijoada?

- Claro! Temos sim. Hoje é domingo, dia de feijoada. Como poderíamos deixar faltar nosso principal produto?

- Traga-me uma poção. Quero também um refrigerante.

- Mais alguma coisa?

- Tenho apenas mais um pedido, um conselho. Não quero em minha feijoada unhas.

- O cliente é quem manda.

O homem entrou para a cozinha. Não demorou muito e trouxe os talheres e os pratos. Voltou e retornou com uma garrafa de refrigerante e dois copos.

- Amor, hoje você irá provar a melhor feijoada do planeta.

- Eu adoro feijoada.

O dono do estabelecimento serviu o refrigerante ao casal.

- Pintado, lembre-se: sem unhas.

- Desta vez não haverá nenhuma unha.

Passado dez minutos chegou o arroz, a couve e o vinagrete.

- Pintado, sem unhas.

- Pode deixar. Não haverá unhas na sua feijoada.

Pintado foi e logo retornou trazendo, segurada nas alças da panela de barro, a tão falada e gostosa feijoada do Pintado.

- Pintado, eu não lhe disse que não queria unhas em minha feijoada?

- Como é que o senhor sabe que há unhas se sequer meteu a colher na panela? Ainda estou segurando ela, por sinal está muito quente.

- Tem muitas unhas na minha feijoada. Quero que você volte e me traga outra feijoada.

- Mas tirei todas as unhas do pernil. Já lhe disse que não tem unhas?

- Não me refiro às unhas do porco morto, mas as unhas do porco vivo. Falo das suas unhas que estão dentro da feijoada.

Pintado voltou os olhos à panela e viu que seus dois dedões estava enterrados dentro do produto.

- Meu Deus! E não é que o senhor tem razão: ainda há muita unha na feijoada. Vou trocar o produto. De hoje em diante terei mais atenção. Isso nunca mais irá acontecer.

Foi e retornou com uma nova panela de barro, desta vez com muita atenção e zelo.

- Aqui não há mais unha, nem de porco morto e nem tão pouco do Pintado.

O casal ficou a conversar e a comer. Passados dez minutos, os dois clientes sempre a reparar, Pintado volta para servir outra mesa, e para algazarra dos dois: havia muitas unhas na feijoada.

História baseada em fatos reais, acontecidos no município de Paramirim Bahia. Demos aos personagens nomes diferentes e ao enredo um pouco mais de pimenta malagueta. Esperamos que tenha ficado apetitoso o texto como a feijoada da foto.

Comments are off for this post

Que suicídio que nada, rapaz!

pensando

A morte povoa o pensamento humano, tira-nos o sono, um escorregão em tais imaginações pode até enlouquecer. A vida nos envolve em um manto variado de acontecimentos. Seres ao nascer logo perecem, outros nascem deformados, uns vivem cem anos, outros apenas dez, nesta mistura toda, alguns são dotados de sortes, enquanto outra maioria, de azar. Têm pessoas que lutam, travam verdadeiras batalhas por mais um dia de sol, já alguns procuram refugiar, safar dos problemas, lançando-se nas garras tenebrosas e nas amarras sem fim da loucura de se alto punir.

- Pedrão, Zé está dizendo por aí que irá se matar.

- Por quê?

- Não sei não. Ele disse que de hoje não passa.

- Será?

- Disse que já está decidido.

- Onde ele se encontra?

- Lá no bar de Manezinho.

Pedrão foi a sua própria residência e apanhou um pó branco, estava sério, decidido. Andou rapidamente ao bar mencionado. Era começo do dia, próximo das nove da manhã, o clima estava fresco. Pedrão chega à porta do estabelecimento e grita:

- Fiquei sabendo que Zé está dizendo por aí que irá se suicidar!

Zé levantou do tamborete, bebeu o meio copo de pinga em um gole só e bradou:

- Falei e está falado! De hoje não passa! Quem quiser ir comigo é só copiar meus passos.

- Assim que soube da sua vontade, não me contive, peguei este pó branco que tenho sempre guardado e vim ver se o dito é tudo o que o comercial diz.

- Que pó branco é esse em sua mão? – pergunta Zé com a voz mansa.

- Isso aqui será o veneno que lhe levará para o inferno, seu desgraçado.

- Como?

- Você não disse que queria morrer? Pois bem: aqui está o veneno. Tõe, por favor, um copo com água.

- Você quer que eu beba isso aí?

- Vou despejar o pó dentro da água. Agora vou mexer. Está preparado, prontinho. Agora é só você beber. Toma, beba tudo. Sempre quis ver uma pessoa morrendo. O bom deste produto é que não causa dor, isso é o que falam, agora veremos se é da forma que divulgam por aí.

- Eu tenho que beber?

- Você não disse que queria morrer, infeliz? Em poucos minutos você estará do outro lado.

- Disse?

- Então beba! Não quer beber. Desistiu? Pois você irá beber todinho e agora.

Zé em um segundo já tinha pulado a janela e saltado um alto muro. Como se diz por aqui: “Ganhou o mato”.

- Pedrão, você queria matar o primo mesmo? – indaga Tõe apreensivo.

- Aquilo é um cabra safado – pegou e virou o copo na boca.

- Você é doido! Bebeu o veneno. Você irá morrer.

- Quem disse que isso é veneno? Onde você já ouviu falar que água com tapioca mata alguém. Só fiz isso para dá um susto naquele infeliz.

- Ele deve está correndo até agora.

- Que suicídio que nada. Pelo menos de agora em diante ele não nos azucrinará mais com este negócio de querer morrer.

Era mês de maio, o clima estava frio, ventava bastante. As ruas se encontravam vazias, alguns galos cantavam sobressaltados, um na rua de cima, outro ali, outro acolá. Em certa parte ouviam os berros dos bezerros. Na beira do rio o barulho constante da água era o canto que quebrava o silêncio daquelas primeiras horas.

Um senhor passava pelo local, viu agachada sobre uma pedra rente a água uma bonita moça, encostou e percebeu que a conhecia.

- O que você faz aqui tão cedo, Marta?

- Eu? – ela se espantou, estava flutuando nos seus pensamentos. – Estou esperando.

- Esperando quem?

- Esperando esfriar.

- Mas já está frio demais. Você acha pouco? Quer mais?

- Não, não é isso. É que eu decidir morrer.

- Morrer!

- Vou me suicidar.

- Você está louca. Suicida-se.

- Já venho pensando nisso há um bom tempo. De hoje não passa. Vou morrer afogada.

- E por que ainda não fez?

- Não fiz porque estou esperando esfriar.

- Não estou lhe entendendo.

- Levantei cedo e tomei um copo de leite quente, estou esperando esfriar para poder cair na água e não me estoporar.

- E ainda diz que quer se matar. Poupe-me das suas maluquices. Arranje um marido e tenha vários filhos.

- Por que o senhor diz isso?

- Você estará muito ocupada para pensar besteira. Se você quisesse morrer já teria se matado há horas. Vamos, vou lhe levar para a casa dos seus pais.

Esses dois episódios são baseados em fatos reais que aconteceram na região de Paramirim.

Comments are off for this post

Namoro de Antigamente

bilhete

Os costumes, os hábitos, os anseios mudam de tempo em tempo. Com a evolução acelerada da tecnologia houve uma transformação social jamais vista até então, graça, em boa parte, a imprensa e as suas afiadas formas de manipulação.

No meado do século vinte tínhamos uma sociedade que começava a se desgarrar das mãos opressoras dos coronéis. Os jovens já podiam sonhar com novas formas e cores.

Os eventos pela região eram poucos, apenas festas de cunho religioso. Enquanto os adultos perdiam os cabelos com as preocupações, as crianças se divertiam imaginando situações atípicas.

Naquele tempo, o namoro acontecia por meio de recados e bilhetes. Encontros? Beijos? Amasso? Se os pais pelo menos sonhassem cortavam suas proles no correão.

- Rita, você sabe, eu acho João tão bonitinho.

- Você quer namorar ele?

- Será que ele me quer?

- Vou levar um recado seu e integrá-lo.

- Mas será que ele não está namorando outra menina?

- Acho que não.

Rita partiu como os correios para levar o meigo recado a João. Se fosse para ela ir até lá conversar sobre os próprios anseios, certamente não teria coragem, mandaria uma amiga.

- João, eu posso falar com você um pouquinho?

O garoto, ressabiado, apenas confirmou com um balanço tímido de cabeça.

- Fátima quer namorar você. Você aceita?

- Quer namorar comigo?

- Você tem namorada?

- Não.

- Então de hoje em diante a sua namorada se chama Fátima.

- Quer dizer que agora tenho uma namorada?

- Sim. Você quer que eu a leve um recadinho?

- Fale que ela é muito bonita e que eu a admiro muito.

As cartinhas, os recados e os bilhetes apareciam sempre nas comemorações da cidade. Datas aguardadas nos dedos. O namoro era por meio de olhares, recados, nada mais do que um simples compromisso firmado entre as partes por meio de uma terceira pessoa.

Os dias foram passando, lentamente, de grão em grão. João já sentindo os efeitos pujantes da adolescência a correr pelas veias enviou seu último bilhete:

“Fátima, este nosso namoro precisa de contato. Ontem eu vi o Robertão beijando a Rita. Se você quiser continuar namorando comigo venha me encontrar atrás do casarão de Seu Pedro. Caso a sua resposta seja um não, ou se não aparecer, considere nosso namoro terminado”.

Fátima até que desejava ir, mas a mãe desconfiada não desgrudava os olhos dela. A moça retornou para a residência, triste e nervosa. Naquela noite não pregou os olhos, chorou, pediu a Deus para interceder por ela. Durante o dia não teve fome, amuada, pouca conversa deu aos familiares.

- O que é que você tem, Fátima? – indaga a mãe enquanto preparava a massa para fazer o pão.

- Nada. Um pouco de dor de cabeça. Logo passará.

- Sei!

A amiga chegou ao final da tarde e foi conversar com Fátima no quarto.

- Você não sabe da maior? Paulo veio conversar comigo. Ele disse que soube do seu rompimento com João. Disse que sempre quis namorar você.

- Ele disse foi?

- Disse. Se você quiser.

A luz voltou a brilhar nos olhos da jovem.

- Claro que quero. Agora tenho um novo namorado. Como estou feliz! Deus ouviu minhas preces.

A mãe adentrou ao quarto trazendo uma bandeja com chá e biscoitos para as jovens. Ao observar que as duas estavam sorridentes falou:

- Parece que a sua dor de cabeça já é coisa do passado, em Fátima.

Este conto foi baseado em fatos reais, história esta que a escutamos de uma senhora filha de Paramirim.

Comments are off for this post

Colhendo passos e pegadas no caminho da vida

fev 01 2014 Published by under Poemas

passos

Colhendo passos e pegadas no caminho da vida

*

Neste mundo de formas

Onde somos lagartas

Colher passos devemos

Para uma boa jornada.

*

Há passos sabor manga

Pegadas putrefatas

Possui vários sabores

Jasmim, lama e água.

*

Um passo deixa muito

Bem mais que os conselhos

Bons hábitos ao mundo.

*

São iguais aos pastores

Alimenta sem receio

Faz germinar valores.

Comments are off for this post