Archive for: janeiro, 2014

Todos nós deveríamos viver cem anos

jan 31 2014 Published by under Crônica

dorzila-cardoso

A vida não foi feita para ser compreendida na sua plenitude das formas. Ela apenas se contenta em começar como iniciamos este texto e termina quando a vontade natural imprime sua gigantesca força. O ser humano vence suas fases, etapas diferenciadas para cada. Nascemos e nos sentimos bebês, passamos a crianças, entramos na adolescência, amadurecemos iguais às frutas, envelhecemos e… Muitos nos afirmam que o ponto final se chama morte, talvez seja, talvez não. Certo é que a vida passa, passa rápido.

Olhando para uma senhora que suporta o peso descomunal de noventa e oito anos, seus traços caídos pelos muitos dias sob o efeito da gravidade, sua fala já perdida na imensidão, seus passos gastos e lentos, sua mente vagando pelo ar, chega-nos alguns pensamentos, indagações, duvidas, incertezas… Que efeito é este? Por que tem que ser desta maneira? O silêncio é suficiente para descrever tal situação. A senhora anda sem rumo, apoia em outros, já não participa ativamente da realidade agora. Apenas aguenta e saboreia as dores amargas da velhice, paga o preço por ter vivido tanto. Questionar o quê? Para quem? Não conhecemos quase nada. Há muitos segredos, a nós nos revelaram poucos atributos, por mais que a humanidade tenha evoluído ainda nos encontramos precocemente no caminho da evolução.

Devemos sim nos felicitar por alguém da nossa estima ter chegado à reta final. A vida tem seu ciclo, nascer, crescer e perecer. O corpo gastou como a rocha sofre o efeito dos raios solares, da água da chuva e do vento. A seiva aos poucos se esvai sem perceber, o chão cobra a terra que lhe emprestou. Não conseguimos burlar ou ludibriar a magistral Lei, por mais que queiramos. Cedo ou tarde se cumprirá a promulgada sina.

Cabem-nos as boas recordações, os ensinamentos, a certeza que um dia partilharemos desta outra realidade. Devemo-nos felicitar por ver um companheiro se pôr dignamente diante à linha de chegada, pois muitos botões de flores são podados antes mesmos de serem tocados pelas graças dos meigos beija-flores.

A vida se perde por entre os dedos como a água que tentamos segurar entre as mãos, ainda que consigamos vedar os orifícios por onde ela se deixa ir, no cansaço do tempo some ao efeito da evaporação. Somos um singelo ponto, pequeno e quase imperceptível neste grandioso universo de Deus. A viagem nossa continua, devemos ter fé em um futuro, se a reta final for o escuro eterno, felicitemos por ter sonhado um pouco.

Quero parabenizar a senhora Dorzila Vianna Cardoso pelos seus noventa e oito anos completados no último domingo, dia 26 de janeiro de 2014. Que Deus a dê força e coragem para as lutas que ainda há de enfrentar pelos caminhos da existência.

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O único remédio se chama Penicilina

penicilina

- Os tempos são outros… Quanta evolução… Hoje em dia temos o caminhão, temos o avião e há pouco tempo um cientista de nome Fleming descobriu a tal da penicilina. A guerra chegou ao fim, o mundo descansa em paz após logo período de mortes e destruição.

Vivia-se nos primeiros meses do ano de 1946, no município da então chamada Água Quente. A Segunda Guerra Mundial já tinha chegado ao término, em meio a tantos fatos negativos um, positivo, sobrou após tamanha destruição, fora descoberta a Penicilina nos anos seguinte a Primeira Guerra, santo remédio, a morte ficava mais distante, muitos poderiam gozar a velhice.

- Estamos nos metidos no meio da Caatinga, nas serras da charmosa Chapada Diamantina, um lugar bonito, onde a água desce rente a sede, nas intermediações há dois poços de água termais. Aqui manda os coronéis, aos demais cumprem obedecer, é a lei do mais forte, aquele que expressar um pensamento contrário simplesmente dormirá com as formigas. Trabalhamos durante o dia e dormimos à noite, a luz que temos é a do candeeiro, dizem que já existe a eletricidade, mas aqui não a conhecemos, demorará a chegar para nós, quem sabem meus filhos e netos não usem dessa novidade.

- Estou enfrente a um espelho a pesar na vida. Meus avôs sequer imaginaram que um dia teríamos tantas novidades. A vida ficou mais fácil. Como o mundo será daqui a uns cem anos? Pena que não farei mais parte deste ambiente. Estou com cinquenta e oito anos, por mais que eu siga vivendo, a natureza não nos possibilita esta proeza. Aqui tenho em minha mão direita uma navalha, vou fazer minha barda, tenho que está impecável para o chá na casa do amigo.

- Comecei por fazer a barba devagar, como tenho medo de me ferir. Estou com uma espinha no rosto, é preciso muito cuidado. Ai! Doeu. Está sangrando. Foi um pequeno corte. A mulher veio e passei alguns produtos naturais, o sangue estancou, poucos dias voltará ao normal.

- No outro dia o ferimento incomodava, meu estado merecia cuidados. Usei de tudo, mas parece que tenho o mal da Gangrena (na verdade era o Tétano).

- Meu quadro vem arruinando dia a dia, só há uma salvação, buscar a penicilina em Livramento. O tempo é curto e a distância, grande.

- José de Júlio partiu ainda cedo, pegou meu melhor cavalo, caso tudo dê certo, amanhã nas primeiras horas atracará por lá. Meu corpo dói todo, estou envergando, não sei até quando suportarei. Oh, Deus, interceda por mim! Que doença é esta que maltrata tanto?

Seu Zé saiu a pleno vapor, a vida do seu amigo dependia dele, ela estava em suas mãos. Que responsabilidade. A distância era longa e o tempo curto. Ou trazia a cura ou a cidade velaria um dos seus vultos. Vencia a estrada loucamente. De tempo em tempo tinha que parar para que o animal tomasse um pouco de água e recuperasse o fôlego. Na hora aprazada ele chegara ao desiderato programado. Perdeu algumas horas até ter em mãos a penicilina.

- Isto aqui salvará meu fiel amigo.

Deixou o animal cansado com um coronel da região e apanhou outro descansado e de bastante vigor. Olhou para o horizonte ao norte e pensou: “Que horas estarei lá?”.

Em Água Quente o pessoal esperava na entrada da cidade, todos ansiosos para ver apontar na reta do quebra-sapato Zé de Júlio. O tempo passava e nada dele chegar, o prazo estipulado já havia transcorrido, mas ele insistia em não aparecer. O homem sobre a cama piorava seu estado a cada instante, se demorasse muito, tudo seria em vão.

- Vamos de encontro a Zé, com isso encurtaremos o percurso.

Não tendo o que fazer, colocou a cama sobre uma carroça e partiram. As dores aumentavam a cada minuto, o balanço da carroça era como setas a perfurar o corpo.

Ao chegar próximos à comunidade de Cachoeirinha, a carroça foi parada ao observarem um homem a cavalo logo à frente. Os cidadãos que estavam na empreitada gritaram de contentamento. O homem montado a cavalo chegou rapidamente, o cavalo ofegante, ele cansado e tremulo.

- Vamos ter que aplicar aqui mesmo. O homem está ruim – fala alguém.

De um recipiente ele retirou a substância descoberta por Fleming que tantos já haviam salvado. Seria Odilon mais um a receber a cura? Na afobação daquelas complicadas horas, a pessoa que iria injetar o líquido, afoita e ansiosa, desequilibrou a mão, o pequeno frasco subiu, todos observavam a cena, paralisados e sem ação, o pequeno frasco rodopiou rapidamente e se desfez no chão seco da Caatinga, a terra em segundos engoliu a vida do enfermo.

Coube à esposa Otacília Cardoso e aos filhos Juquinha e Érico velarem o corpo do esposo e pai.

O filho Érico Cardoso foi Prefeito de Água Quente por várias vezes, o nome da cidade foi mudado em sua homenagem, hoje se chama Érico Cardoso.

Odilon Cardoso nasceu em 21 de agosto de 1888 e faleceu em 08 de março de 1946.

Esta história é baseada em fatos reais, imaginada por quem a escreveu preservando os devidos dados. Quem a contou a nós foi o senhor Dormário Viana Cardoso.

Após ter escrito esta pequena história conversamos com o senhor Wilson Cardoso e o mesmo nos relatou a seguinte informação. “Eu me lembro bem daquele momento, na época tinha dez anos, era uma criança. Lembro-me como se fosse hoje quando várias pessoas pegaram a cama com Seu Odilon e o levaram na tentativa de encontrar o rapaz que havia se dirigido a Livramento para apanhar a penicilina. Ao chegar próximo a comunidade de Cachoeirinha, o enfermo não suportou e faleceu. Ainda está fresco em minha mente o momento em que  o pessoal trouxe de volta a cama com o corpo, o povão todo chorando. O rapaz que havia ido buscar a penicilina levou uma garrafa térmica para trazê-la, mas durante a viagem regressa a garrafa caiu no chão perdendo o remédio. Seu Odilon adquiriu a doença após um corte em uma espinha quando estava fazendo a barba.”.

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A bebida mata mais do que se imagina

jan 25 2014 Published by under Poesia

bebado

Meu filho morreu

Meu filho morreu de pinga

Dizem que morreu feliz

Não pari um filho para morrer assim

Sonhava em tê-lo como grande Doutor

Um Cientista

Ou um professor

Jamais imaginei tal sina

É duro para uma mãe

Duro demais

Ao calabouço eterno encaminhar seu fruto

Carcomido pelo vício

Desorientado

Perturbado

Dilacerado o espírito

Sem saber sepultou-me uma parte.

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Eu sou…

jan 22 2014 Published by under Poesia

via-lactea

Eu sou…

*

Sou como sou

Sou porque sou

Sou o que sou

Sou diferente

Sou único

Sou tudo

Sou o mundo

Queria ser Sócrates

Queria ser Einstein

Queria ter a voz de Roberto Carlos

Queria inteligência

Sapiência

Queria poder

Queria compor como Beethoven

Como queria dominar a matemática

Ser um exímio químico

E falar todas as línguas

Não basta

Queria mais

A Lua

O Sol

A Via Láctea

Queria está em todos os lugares

Ser um camponês

Solitário e perdido em si

Pastoreando as ovelhas

Arando o chão duro

Plantando o grão

Para no entardecer me perder

Na imensidão

Sou o que sou

Um risco

Apenas

Com fim e início

Que um dia brilhou

Que ao cumprir sua etapa

Simplesmente

Como em um estalo

Passou.

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Um sol

jan 17 2014 Published by under Poemas

sol

Um Sol

O dia nasceu a todos

Se fosses uma estrela

No céu brilharias

Se fosses uma jaqueira

Nos teus galhos frutos nascerias

Se fosses um verme

No chão rastejarias

Mas se sol nascesses

A terra tu fertilizarias

Com o teu poder

Caminhos tu abririas

Com o teu calor

Seres tu acolherias

Com a tua luz

Cores nas retinas tu pintarias.

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Vício

jan 15 2014 Published by under Poesia

cigarro-de-palha

Vício

Chegou devagar

Sentou-se

Tirou do bolso um pedaço de fumo

Do outro, um canivete

Trabalhou

Com a língua colou a palha

Sorriu ao contemplar o céu

Voltou a meter a mão no bolso

Riscou o fogo

Deu três baforadas

Sorriu

Sorriu

Sorriu.

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Falando Inglês (English speaking)

Igreja de São Francisco – Salvador – Bahia / Foto: http://www.pliniocorreadeoliveira.info

Falando Inglês (English speaking)

Vivemos e criamos situações que por si só já são maravilhosos contos, esses passam de bocas a ouvidos a uma velocidade espantosa.

Um senhor do município de Paramirim, vamos esconder o seu verdadeiro nome, daremos a ele outro, chamá-lo-emos de Seu João, viajou a passeio.

Seu João perambulava pela Capital Baiana (Salvador). Estava ele em certo momento na Igreja de São Francisco, alguns amigos os acompanhavam. Ao observar o local, muito curioso, avistou um grupo de estrangeiros, americano, que conversava e apontava para as peças de ouro.

- This is very beautiful.

- I want a picture of that image.

Seu João observando os turistas teve o errôneo pensamento, acreditava que eles não reconheciam o material que havia sido usado para confeccionar tais imagens.

- Joaquim, eu vou explicar aos gringos que aquilo se chama ouro.

- Mas você não sabe falar inglês?

- Claro que sei.

- Sabe!

- My name is João – saiu a sorrir.

Andou em direção aos visitantes e foi logo perguntando:

- Vocês querem saber qual é o nome disso?

- We don’t speak Portuguese. We are American.

Seu João apontou para o amarelo e disse:

- É ouuuuuro…! Ouuuuuuuuro…! – com a voz puxada e grosa.

- What? What? Do you speak ingles? Do you speak ingles? We don’t speak Portuguese.

- Ouuuuuuro…! Ouuuuuuuuuuro…! – continuava Seu João.

No mundo dos cegos quem não tem nenhum olho é um verdadeiro cego, mesmo tendo a mais bela das intenções.

I love Brazil, here we have wonderful stories.

História baseada em fatos reais, fatos relatados a nós pelo senhor Dormário Viana Cardoso.

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Conselho

jan 10 2014 Published by under Poemas

conselho

Conselho

*

O conselho que vos dou

Não vos dou gratuitamente

Ao mundo apenas dou

Como forma de agradecimento.

*

Conselho nunca se dá

Não havendo pedido feito

Pois conselho sem pedido

É conselho sem efeito.

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O cantar de um passarinho preso

jan 03 2014 Published by under Contos

Carro matou o pássaro

Para muitos aqueles que mostram os dentes, os de gargalhada farta, são os que realmente carregam em si a cobiçada felicidade. Mas entre o achar e a realidade viva navega um imenso rio de águas barrentas e bravas, saber ao certo o que há no seu corpo, observar o agito a ferir as margens em um silêncio revolucionário, só nos compete opinar. Detemo-nos a enxergar uma fortaleza de contentamento nos outros, como não temos o poder de escutar os pensamentos íntimos, nas muitas das vezes nem os nossos próprios, ignoramos a verdade. Os humanos são ótimos atores, conseguem disfarçar facilmente seus medos e suas incertezas. Todavia nem todo cantor que canta bonito carrega no peito o fogo crescente e ardente da felicidade.

Um automóvel rasgava o ar vencendo a estrada, louco e furioso por chegar. O barulho forte assustava os animais. Pela mata um verdadeiro corre-corre. As rodas levantavam poeira, essa caia lentamente por sobre a relva ressecada que ficava pelo retrovisor, os pneus lançavam pedras aos lados. Já era final de tarde, o sol acenava com adeus, o sono cobrava dos seres o repouso habitual, ventava brandamente. Antes de prosseguirmos na carroceria desse nervoso bicho de ferro voltemos às primeiras horas daquele dia.

A manhã havia se iniciado cheia de beleza, tudo era felicidade. Havia cheiro de flores pelo ar, cantos de cigarras e passarinhos davam brilho ao ambiente, o sol mostrava a força. Um singelo bando de pequenos pássaros voava de galho em galho. Atravessara uma estreita estrada de terra, procurava a fartura dos cachos do capim e a abundância da água fresca próximo a um pequeno regato. Ficara a curtir esse paraíso durante o decorrer das horas de luz, às vezes, o patriarca ou a matriarca voava e se posicionava sobre um galho mais alto e transmitia alguma informação, cada comunicado um canto diferente.

O sol já ia se precipitando pelo horizonte. O líder se colocou em um ponto elevado e soltou o alto e estridente canto de retirada. Ele partiu e os demais os seguiram. O voo deles não eram como os dos gaviões, venciam a distância voando de galho em galho, aos poucos aproximavam do pouso seguro, dos ninhos. Em certa parte do trajeto, os pássaros precisavam gastar mais energia, voar um trecho maior e usar bastante força nas asas, as árvores se encontravam longe uma das outros. Dois piados foram o bastante para o bando se arremeter, o chefe sempre à frente a ditar as ordens do seu pequeno exército familiar. De repente, um barulho, um automóvel em alta velocidade cortava o ar como a navalha o fino linho. O carro passou erguendo sujeira, a poeira tomou o céu. Ufa! Os pássaros se safaram.

Continuaram-se a marcha, após certa distância, um dos machos sentiu a falta da querida companheira. O coração bateu acelerado, o corpo tremia todo, mau sinal. Na ânsia por uma resposta cantava sem parar, entrou em desespero. O mundo ficou mudo as suas perguntas, a noite se aproximava e ele sentia o pavor negro da temida imaginação. Sem atinar aos perigos fez o caminho de volta. Não parava de cantar, cantava na esperança de ser ouvido, na vontade de escutar o sinal que lhe roubava a paz. A temida noite já ia absorvendo toda a luz, era perigoso, devia voltar. O coitado não sabia mais o que fazer. Procurar pela amada ou ir repousar no abrigo de sempre? Temeroso resolveu retornar. Seres o observavam com olhos famintos. Talvez ela já estivesse o esperando no habitual aconchego. Com o coração não se brinca, bem no fundo, sabia da realidade desfavorável que lhe aparecia.

Posicionou-se no seu habitual dormitório, a seu lado lhe faltava a outra metade do coração, não tinha a fiel companheira para repousar a cabeça.  Chorou durante toda a noite, não conseguiu pregar-lhe os olhos, o tempo se arrastava, insistia em não passar. Algo de muito grave deveria ter ocorrido, pensava o pobre pássaro. Não suportando a dor, ignorando o bom censo, ainda na penumbra da madrugada, saiu loucamente a procurar. Muitos seres o seguiam na tentativa de dar o bote. O sol voltou a reinar. O pássaro triste e preocupado cantava freneticamente como nunca o fizera antes. A mata se alegrava com o seu melodioso canto, enquanto ele se desfazia em dor.

A pequena ave não sabia o destino que havia tomado a sua ilustre princesa, tinha esperança, no fundo sabia que dificilmente a veria novamente. No momento em que o automóvel passou pela estrada, a pobre fêmea não conseguiu ser rápida o bastante para vencer o espaço, ficou pelo caminho, com a velocidade e o atrito enganchou no para-choque, morreu instantaneamente, não teve tempo de se despedir.

O passarinho solitário passou a cantar cada vez mais, com isso seu canto foi ficando afinado, perfeito. Quem o escutava afirmava que aquela melodia bonita, daquele pequeno pássaro, era um canto de alegria. “Felizes são os pássaros que desconhecem as preocupações do mundo” afirmava certo alguém. O animal não via interesse na vida, estava desprovido da outra metade. A esperança não o tinha abandonado, mas o gosto pela vida, de uma hora para outra, tornara-se de sabor amargo. Cantava na tentativa de ser escutado pela fiel amada. A dor que sentia, para outros seres era como um refrigério a alma.

Um senhor que possuía uma residência próxima e que adorava pássaros, gostava tanto que os aprisionavam apenas para satisfazer o ego, sentenciou:

- Esse danadinho ainda cantará em minhas mãos. O bichinho canta alegre. Você será meu!

Na outra manhã havia uma gaiola contendo um pássaro da mesma espécie, encontrava-se pendurada em uma das árvores. Esse pássaro, do sexo masculino, cantava forte e firme, mostrava seu poder, exibia-se para marcar o território, chamava os demais para duelar. O solitário no topo de um umbuzeiro cantava sem se importar, seus pensamentos eram todos da amada, sequer prestou atenção no infeliz da gaiola. O prisioneiro, tomado pela cólera, exibia-se ainda mais, queria por que queira brigar, porém via-se limitado pelas grades.

O homem de tempo em tempo corria para olhar. O pássaro não se importava em defender a área, nenhuma fêmea o atraia, sequer se importava com a apresentação daquele estranho. O homem pensou, pensou… Não seria esse coitado a se livrar das suas garras, ele era o melhor na arte de capturar aves. No local onde o pássaro gostava de ficar, o velho com muito esforço colocou o visgo.

- Agora esse danado será meu… – afirmava o homem enquanto soltava farto sorriso.

O passarinho arisco, esperto, estranhou e foi cantar em outra galha. O homem então voltou e colocou mais um visgo, o pássaro pousou em outro local. O homem se viu desafiado, já não fazia mais outra coisa, o pássaro teria que ser dele. Sentado em uma pedra, cansado e desanimado, tentava encontrar uma solução. Ele não poderia ser humilhado daquele jeito.  De repente, uma pombinha pousou logo à frente, cantou três vezes, e tão logo a companheira chegou.

- É isso!  Como não tinha pensado nisso antes. Agora sim você não escapa!

No outro dia cedo chegava o homem com uma gaiola na mão e dentro havia um pássaro, de cada lado dela um alçapão. Estava sorridente e confiante. Colocou a gaiola em uma galha e se afastou. O passarinho cantava longe, o da gaiola soltou um piado sem graça.  O outro o escutou, aquilo varou o peito e transpassou o coração. O amor voltou a germinar. O calor ardente da paixão começou a tomar o corpo, a pulsar nas veias. Do nada se sentiu novamente vivo. Da gaiola veio outro piado. Ele cantou forte e se lançou em busca do invisível.

- Agora você será meu – o homem falava sorridente ao ver seu troféu chegar. – Vou tomar meu café e quando eu aqui voltar ele estará em um dos alçapões. A perdição dos seres se encontra no sexo oposto. O coitadinho está caidinho pela dona do pedaço.  Vai catar para mim, seu danadinho.

O velho homem foi fazer seu desjejum.  Comeu arroz com ovos, dois pedaços de mandioca cosida, tomou um copo grande de café. De passos lentos saiu para vistoriar a gaiola. Ao chegar, surpresa, os alçapões estavam do mesmo jeito. Sentou em uma pedra e ficou a vigiar, triste esperava por uma reposta.

O passarinho apaixonado não desgrudava da gaiola. Namorava a fêmea, ignorava a comida dentro das armadilhas. Delirava com a presença da nova amada, para ele tudo naquele exato momento. Quanto tempo havia ficado triste e sem gosto para viver? Agora não mais, o sangue corria rápido pelo corpo, a vida valia muito, o mínimo detalhe o fazia sorri. A alegria dos pássaros se expressa em certo tipo de canto.

- Esse bicho está mangando comigo. Já se passaram três dias que ele não desgruda da gaiola, mas até agora nada. Vou por visgo em um pau e deixar sobre a gaiola. Não, não, colocarei logo uns quatro deles. Bastará que o danado pouse para este meu tormento terminar.

O pobre velho fez aquilo que o pensamento lhe ordenava, o resultado, porém, não foi o esperado. O pássaro, esperto, sempre evitava algo estranho.

- Mas fazer o que agora?  – resmungava o velho ferido no íntimo.

Observou o movimento do animal, viu-o trazer no bico um inseto, uma pequena borboleta.

- Já sei! – gritou o velho enquanto sorria satisfeito. – Peixe morre é pela boca.

Andou em direção à gaiola.  O pássaro voou para uma árvore próxima. Abriu a porta e retirou a vasilha com comida e a colocou no alçapão.  Olhou para o pássaro, apontou o dedo em sua direção e sentenciou:

- Só sairei daqui ao ver você preso na minha armadilha. Seu orgulho será em breve punido.

O pássaro que cantava quando estava triste, agora alegre já não cantava mais, passou a viver em vigília, o amor lhe prendia a sua querida luz. O velho nem tomou conta, estava cego, o único objetivo era capturar seu troféu. Sentou na pedra e esperou. O animalzinho voltou e ficou a namorar. Passado algumas horas o pássaro da gaiola passou a ter fome. Deixou de namorar o da espécie para dá atenção à comida. O pássaro apaixonado enlouqueceu. Ao perceber que a fêmea estava com fome saiu e voltou com uma pequena libélula no bico. A sua perdição só queria o milho. Quanto mais o tempo passava, menos atenção ela dava a ele. Na insanidade da paixão, sem razão, louco pela atenção, louco de amor, entrou na armadilha e sem querer ativou o dispositivo que fez descer a tampa e que o fez prisioneiro. Não imaginava que todos os apaixonados são no fundo reféns. Com o bico pegava a comida e a colocava no bico da nova companheira.

- Peixe morre é pela boa, e pássaro fica preso é pelo bico – delirava o velho em sono profundo.

O estalo da tampa do alçapão o despertou, pulou e saiu a correr, gritava loucamente de alegria.

- É meu, é meu! Não falei, não falei! Nenhum pássaro é pairo para mim.

O velho sorridente conquistara o seu prêmio, a sua vitória pessoal.  Tirou o prisioneiro do alçapão e o colocou em uma gaiola com milho e água, depois a levou ao prego da parede. O pássaro mesmo preso se encontrava feliz, pois estava frente a frente com a fêmea. O velho esperava escutar o canto bonito, mas os dias foram se passando e nada. O passarinho só queria saber de comer, beber e olhar para o seu amor. O velho observava com atenção, resolveu agir.

- Vamos separar os pombinhos. Se não canta na alegria, com certeza na tristeza cantará.

Pegou a gaiola do macho e a levou para o outro lado da casa. O bicho ficou doido, desesperado.  A fêmea soltou um pio, o coração dele voltou a ficar mole. O velho observava tudo. O passarinho então resolveu soltar seu primeiro canto, canto de apaixonado, cantava de tristeza. Queria ver sua amada.

- Como sou experiente – gabava-se o velho. – Agora sim terei com que me alegrar.

Toda pessoa que chegava à residência do velho ficava impressionado com o pássaro.  Muitos queriam compra-lo a alta soma. O dono sempre respondia: “Esse eu não o vendo por nada neste mundo”.

- Mas que pássaro que canta bonito – comentava uma senhora. – Canta de alegria… Queria ser como um pássaro, sempre alegre.  Queria poder voar e cantar sem preocupação.

Nas primeiras horas de uma manhã qualquer, ao acordar, o velho estranhou, o seu passarinho favorito ainda não havia soltado a voz. Sua experiência, seu tino de vida, dizia que algo grave tinha acontecido. Ao chegar próximo à varanda, escancarada estava a porta, alguém havia entrado no local. Ao olhar para a parede, ao procurar à gaiola, dos olhos desceram pingos de lágrimas. Ele já não se encontrava mais. A tristeza e a raiva, duas feras indomadas, tomou o espírito do pobre homem. Percorreu todas as residências, esperava escutar o seu passarinho, mas não conseguiu sequer uma única pista. O velho estava amargurado, o sol já não passava tanta beleza, a noite era de dor e revolta. Diferentemente dos pássaros, os humanos em momento de tristeza não catam, choram.

O passarinho cantador havia desaparecido, desconhecemos o que tenha acontecido com ele. Certo é que a tristeza do pequeno animal era a alegria dos que os rodeavam. Todos acreditavam que ele cantava de felicidade, por ser um canto lindo, sua dor, todavia, ele deixava escapar pelo bico.

Nem sempre o que vemos ou escutamos é de fato o que imaginamos.

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