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Tenho Fome

out 19 2013 Published by under Contos

- Pai – lágrimas nascem dos belos, cansados e tristes olhos da pequena criança, despencam pelo rosto seco de uma sertaneja sofredora.

O homem estava à janela com um olhar fixo no horizonte tostado de uma vegetação aparentemente morta. Tem medo de voltar à atenção para prole, sente os soluços da menina, prever o que se possa ter acontecido.

- Pai, eu acho que meu irmãozinho morreu – as lágrimas aumentaram de volume, chuva de dor em pleno Sertão.

O garotinho estava de cama havia cinco dias em um estado esquelético de plena desnutrição. Sofria a angustia de ser devorado de dentro para fora. Seus grandes olhos buscavam loucamente o infinito, já não vislumbrava a esperança. Ele se contentava em saber que poucos minutos o salvaria daquelas pesadas correntes. A morte para a pequena criança seria a libertação de uma prisão que o destino lhe obrigara a enfrentar.

O debilitado senhor leva à mão direita à testa e ainda olhando aquele cenário que para ele tinha se tornado medonho chora nas profundezas da alma, sente o coração despedaçar. Faz um esforço para rezar. Tenta entender. Não conseguindo obter respostas, conversa com a imensidão:

- O que eu fiz para merecer tudo isso? Onde moro nem furtar eu posso, sendo que não possui nada a ser furtado. Agora acabo de perder meu filho, se ficar por aqui algum tempo mais, logo perderei minha filha. E se por acaso eu vir a perdê-la, não pensarei duas vezes em dá cabo da minha degradante vida, juro que eu me matarei. Não lhe pedir para nascer! Para que tanto sofrimento? Caso isso tudo seja para me punir livrasse pelo menos a minha família desses padecimentos. Meu coração tornou-se duro demais para Lhe aceitar. Como pode um pai fazer algo assim com o filho? A vida em si de nada vale, pois ela nos leva a pesado sofrimento. A minha vontade agora é de pegar uma faca e acabar com o que nem deveria ter tido o trabalho de começar, só não o faço por ainda existir minha pequenina filha, que não merece o destino que deram a ela. De hoje em diante farei o possível e o impossível para que o alimento não falte à mesa da minha pequena.

Em um lençol branco e imundo estava um corpo franzino de um garotinho de seis anos. Nem uma caixa de madeira o pobre tivera direito. Poderia no futuro, quem sabe, ter sido um homem importante, ou o cientista descobridor de algo benéfico à sociedade. Morreu sem conhecer a vida. Partiu clamando e desejando na sua débil loucura a morte. Acabou-se antes mesmo de ter começado a sonhar. Seu Zé, como era chamado pelo povo sofrido desse lugar, abriu e fechou a sepultura na companhia da pequena filha; ao término, os dois se abraçaram e choraram por longos minutos.

Jazia no pequeno cemitério ao lado da casa, esta feita de barro e varas, cinco corpos, o da mulher, os das três filhas mais velhas e agora o do garotinho de seis anos. Cinco cruzes no chão seco mostravam uma realidade macabra, a penúria de se morrer por falta de alimentação. Ali estava um mundo esquecido dentro de outro todo conectado. Dificilmente alguém passaria por aquele local. Para o mundo aquela gente sequer existiu, as cruzes na imensidão da Caatinga só relatava a força que o ambiente exerce sobre os seres não adaptados.

A família numerosa fora vitimada pela doença de nome “Fome”. Restara apenas o pai e a filha menor.

- Filha – dizia com certa frieza. A dor moldou em seu rosto a decepção pela vida. – Temos que partir.

Pai e filha fugiram da seca deixando para trás a humilde casa e um pedaço seco de terra sem valor algum; a família teria que ficar, enterrada com seus sonhos, medos e vontade de dias melhores. Ficava neste lugar uma história não divulgada, porém jamais esquecida pelos dois que a vivenciaram. Ninguém sabia daquela triste tragédia, apenas os autores e os anjos que os escutavam.

Esses casos acontecem todos os dias a nossa volta, não nos damos conta. A vida nem sempre pode ser considerada vida para todos.

Esta pequena história não teve um final, sabendo que vagam por estas paragens muitos pais e muitas filhas, desnutridos, podados nos sonhos de uma vida simples e digna. Enquanto o orgulho reinar nos nossos corações, situações como a descrita acima ainda continuarão a acontecer.

Seu Zé e a filha saíram a vagar de cidade a cidade, de povoado a povoado, sumiram no mundo, não deixando rastro nem pista, fantasmas de uma sociedade torta.

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