Archive for: junho 7th, 2013

Em campo quem manda é o Árbitro

Futebol emociona e marca para sempre a vida dos que labutam com esse esporte, um esporte que tem suas graças de arte, isso é inegável, principalmente quando acontece algum fato inacreditável, medonho, triste, mas impactante.

A história que iremos contar aconteceu na década de oitenta, naquele tempo éramos ainda estudante, o Colégio não era Estadual; tínhamos que pagar a mensalidade, comprar o nosso fardamento, e o melhor de tudo, a doutrina da instituição também nos obrigava a usar o famoso kichute. Por que famoso? Alguém irá indagar. O danado tinha dupla função.

Como estudávamos no período da tarde, o kichute fazia parte do fardamento, quanto terminava as aulas, sempre às escondidas, nossas mães jamais poderiam ficar sabendo, era o único calçado que possuíamos para bater um babinha no final do dia, chuteira naquela época era artigo de luxo, coisa para poucos. E beber uma cervejinha após o jogo, hoje acontecimento trivial. Esse lazer nem nos melhores sonhos nos aconteciam, pois eram para poucos e em certas ocasiões.

Pois bem, foi esta bendita cerveja que nos colocou em uma baita de uma enrascada. Já estava chegando o final do ano e alguns conterrâneos que estudavam fora, ou estava já morando no grande centro, já se encontrava em nossa cidade para passar as férias, um desses adorava pegar no gol, goleiro melhor dizendo, Zé Mauro, filho de Zé de Seu Érico.

Era um dia lindo de sábado, não tinha jogo marcado, ele nos chamou e disse: ‘’Vamos marcar um joguinho para o final da tarde?’’ Prontamente aceitamos o duelo. Em seguida ele acrescentou: “O jogo irá valer uma caixa de cerveja”. Para dar uma de bonzão nem pensamos duas vezes, aceitamos no ato. Ele disse: “Tõe de Nondas, você monta o seu time que eu montarei o meu”.

Às dezesseis horas daquele belo dia, um sábado qualquer, mas um sábado, os dois times já estavam posicionados em campo para a disputa do valioso prêmio.

No time de Zé Mauro estava escalado um jogador que surgia para o futebol da nossa querida Água Quente, para muitos foi ele um dos melhores, se não o melhor, lateral esquerdo que nossa terra já teve. Neste dia parece que ele estava iluminado, tudo que fazia dava certo. Dos seus pés saiu o primeiro gol, um a zero. Estamos a falar de Toninho de Dona Pecília. A barriga começou a doer, suava só em pensar em como pagar a aposta, não conseguíamos sequer parar a bola, pois o pensamento estava somente na maldita pergunta: “Como iríamos pagar as malditas cervejas? Olhávamos para o nosso time, todos os jogadores eram estudantes, nenhuma condição de nos ajudar financeiramente. Estávamos perdidos, estávamos em um mato sem cachorros. Zé Mauro, dentro de campo, para provocar, dizia: ‘’Tõe, onde nós iremos tomar as cervejas, em Mica ou em seu Zé Inspetor?’’. As palavras dele fazia com que nos preocupássemos cada vez mais. Como não tinha na Terra a quem apelar, procuramos a ajuda dos Santos. “Santo Expedito, por favor, olhe para nós, precisamos da sua ajuda. Ajude-nos!”.

O Árbitro da partida, o todo poderoso Juiz, era Milton de Seu Gentil; rigoroso, uma rocha, não aceitava conversas, qualquer coisinha ele de imediato mostrava um cartão, primeiro o amarelo, se precisasse não titubeava em levantar o vermelho. Toninho, o homem do jogo, fez uma bela jogada, todas começavam pelos seus pés, avançou. Mas antes merece falarmos de outro jogador, Marivaldo filho de Seu Gentil de Melana, jogador do nosso time, que apesar de ser um bom jogador, chute forte, também dava suas bobinadas de vez enquanto, para não dizer corriqueiramente, não pensou duas vezes, ao ver Toninho avançar para cima dele, passou-lhe o sarrafo. Toninho voou e em seguida se espatifou ao chão. Todos nós vimos que havia sido falta, e falta para cartão amarelo, menos, para nossa sorte, o Árbitro Milton. Toninho levantou esbravejando, achava-se prejudicado e injustiçado. Falou tanto que Milton sentiu na obrigação de lhe aplicar o cartão amarelo. Como poderia um jogador falar daquele jeito com a autoridade? Mas nem por isso ele parou de reclamar. A bola rolando e ele remoendo o mesmo falatório. Foi ai que entrou a malandragem dos campos de várzea, alguma coisa nos iluminou. Será se foi o Santo? Creiamos que não. Santo Expedito não iria se meter nas sujeiras dos jogos. Chegamos perto do Árbitro e dissemos: “Milton, isto aqui é uma brincadeira, não estamos disputando uma Copa do Mundo, Toninho não precisava reagir desta forma, devia respeitar a mãe dos outro”. Milton virou para nós e indagou: “O que foi mesmo que ele disse?”. “Chamou Dona Adelina de P—” foi a nossa resposta. Milton sequer pensou em nada, partiu para cima de Toninho com o cartão vermelho na mão e meteu bem na cara do jogador, suposto indisciplinado, e disse: “Fale novamente o que você disse para você ver o que vai acontecer?”.

Pois bem, ganhamos o jogo e nos livramos de pagar as cervejas. Já a Toninho… arrumou um inimigo por um período de dez anos.

Texto de Antônio de Nondas com algumas adaptações de Luiz Carlos Bill.

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