Archive for: junho, 2013

Vida de cidade pequena

jun 28 2013 Published by under Contos

O dia abre os seus gigantescos olhos e espanta o breu da noite, desperta devagar, aos poucos vai crescendo para ao meio dia voltar à dura missão do desfalecer. A vida, filha do rei Sol, caminha entre os opostos das fases, dia e noite, em busca de novas histórias.

Abrir-me os olhos, deixei os sonhos e os pesadelos na cama, à noite, se Deus quiser, voltarei a estar com eles novamente. Preparado para as lutas, pelo menos é o que eu acho.

Os galos cantam sem parar, canta um daqui, canta um acolá, um dá bom dia no norte, ou diz acordei no sul, que orquestra afinada.

Levanto-me e pego a escova e passo nos dentes, lavo o rosto com água fria, penteio meus cabelos e vou à padaria.

O dia está fresco, sobre uma montanha ao leste uma barra de nuvens cobre o seu cume. Venta, mas brandamente. Alguns estudantes, todos de braços cruzados, usando proteção contra o tímido frio estão em rota para aprendizagem.  O dia começa a caminhar e a soltar bocejos, tem preguiça, os humanos acompanham o seu ritmo. Em um beco, uma senhora varre o lixo, o vento atrapalha; na rua a frente, um motociclista desce rapidamente carregando seu enorme fardo, só ele para dizer qual. Em minha frente alguns pombos procuram comidas entre os paralelepípedos.

Na padaria uma pequena fila começou a se formar, tão pequena que conto apenas com os dedos de uma mão, um, dois, três e comigo quatro. Poucos minutos, dois no máximo, chega a minha vez, troco o meu suado dinheiro pelo esforço do padeiro e do balconista. Troca justa, a sociedade necessita dos trabalhos opostos para não parar. Os pães estão quentinhos, o cheiro é agradável. O café na prateleira também solta o seu singelo aroma. Enquanto ia saindo uma senhora entrava e já anunciava que queria leite. Sair e já não fazia mais parte daquele pequeno, mas importante mundo.

Voltava contando os passos. Como moramos em cidade pequena, toda pessoa que encontramos a saudamos com um oi, bom dia, ou se estiver guiando um automóvel ou uma motocicleta acenamos com a mão, eles retribuiu a gentileza com dois ligeiros toques na buzina.

Passo perto de uma casa e escuto o barulho da água a encher uma caixa azul que se encontra no alto.

Agora estou sentado a escrever, ainda não tomei café, porém minha barriga grita pelos pãezinhos. Uma pombinha canta incessantemente em uma velha goiabeira no quintal do vizinho ao lado. De lá de fora vem o barulho de automóveis, das folhas do coqueiro, o do vento.

Esse foi o início de uma manhã em uma pequena cidade do interior baiano, nas bandas do Sertão, dentro da Chapada Diamantina. Manhã do dia 20 de junho de 2013.

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A informação é a alma do negócio

jun 23 2013 Published by under Crônica

A evolução humana, o caminho percorrido por nós, essa ideia de crescimento tecnológico, viaja nas brilhantes asas do aprimoramento da informação.  Olhando a nossa jornada, fuçando nas exuberâncias das páginas do tempo, leva-nos a asseverar nessa convicção. Quanto mais informação,  maior o desenvolvimento humano.

Quando o Homo Sapiens começou a se aventurar na linguagem, a deixar suas marcas pelas paredes das cavernas, nas rochas dos abrigos, operou-se uma explosão na evolução. O homem passou a se comunicar por códigos, deixou de ser mero primata, começou a difundir suas marcas e conhecimentos. Os dados passaram a ser preservados para posterior utilização; a história começou a ser escrita.

Os anos foram se passando, séculos vencidos, apareceram os escribas do antigo Egito, templos forrados por hieróglifos, isso tudo fez o homem sair de vez do atraso para viver sobre um novo sol. Com o advento do papiro surgiram as bibliotecas.  O conhecimento estava ao alcance de um número bem maior de indivíduos.  Tudo que existia podia ser passado de pai para filho.

A trajetória continuou e pelos anos de 1500 depois de Cristo foi inventado por Gutenberg a prensa. O livro passou a ser impresso em larga escala. O conhecimento se alastrava a todas as classes, bastaria o interesse. O caminhar do homem ficou mais acelerado e tranquilo. Vacinas foram descobertas, novos meio de produção de alimentos também. A tecnologia foi ficando cada vez mais aperfeiçoada.

Surgiu o rádio com Guglielmo Marconi, o telefone com Graham Bell, a televisão e tantas outras coisas mais. A Terra que era vista grande passou a pequena, as distâncias se encurtaram com os novos meios de transportes. A comunicação acelerou o desenvolvimento. Governos autoritários sumiram diante a necessidade da liberdade da pluralidade dos meios de comunicação. Queiramos ou não, Deus nos deu apenas um caminho, o da evolução, por isso andamos sempre em frente, em busca de novidades.

A evolução continua e o computador veio trazer o mais interessante meio, o conhecimento instantâneo, online, a disposição de todos. Passamos a ser divulgadores das coisas banais as mais importantes. As grandes redes de comunicação com enorme poder de influencia ficaram pequenas diante o dinamismo das Redes Sociais. A Internet redesenha a Sociedade, essa com o poder pulverizado por todo o seu corpo. Velhas formas vão caindo rapidamente, arcaicos sistemas se veem inoperante frente à onda que chegou mansa, mas que em pouco tempo se tornou um dos maiores legados da humanidade. O conhecimento ganhou um ambiente propício e fértil para a sua disseminação.

Não tenha duvida, as mudanças acontecerão bem mais rápidas do que imaginamos, pois com a Internet tudo ficou mais fácil.

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Brasil! Mostra a sua cara

jun 19 2013 Published by under Crônica

A vida nos surpreende, o ser humano é uma caixinha de surpresa. De uma hora para outra o Brasil se viu nas ruas a reivindicar, a cobrar, dizendo um basta a tantas mazelas sociais. A Copa do Mundo veio para o nosso País, as Confederações e as Olimpíadas também. Muitos recursos foram gastos, gastaram a mais da conta, e os resultados foram e serão menores do que o arquitetado. O povo clama por saúde, educação e transportes. Os brasileiros cobram decência aos governantes.

A Copa das Confederações começou e no seu rastro fez eclodir o grito que adormecia calado nos peitos do nosso povo. Se eles estão certos, ou não, o futuro dirá, o que sabemos é que o rugido foi mais forte do que o esperado. Os manifestantes cobram por um País mais justo e melhor. Gritam: “Chega de tanta corrupção!”.

Com a Internet o contágio das massas é instantâneo. Mas paremos um pouco. Reflitamos. Por mais que brigarmos, por mais que cobremos algo, se não nos melhorarmos como sociedade, poucas mudanças haverá na simples troca de governantes.

Reflitamos. “Se lhe colocar neste exato momento a frente de um cargo público, será se seria forte o suficiente para suportar o peso da honestidade?”.

O povo cobra, o povo grita, o povo quer. Tudo é salutar quando se tem um objetivo sublime. A luta deve existir, mas que se lutem pela paz, pelo progresso, não apenas deseje o seu quinhão no enorme bolo. Não sabemos aonde isso tudo irá chegar, todavia vimos um povo mostrar sua indignação frente a um país atolado em impostos e fedido a corrupção.

Viva a Liberdade!

Cazuza Cantava:

Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim…

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Em campo quem manda é o Árbitro

Futebol emociona e marca para sempre a vida dos que labutam com esse esporte, um esporte que tem suas graças de arte, isso é inegável, principalmente quando acontece algum fato inacreditável, medonho, triste, mas impactante.

A história que iremos contar aconteceu na década de oitenta, naquele tempo éramos ainda estudante, o Colégio não era Estadual; tínhamos que pagar a mensalidade, comprar o nosso fardamento, e o melhor de tudo, a doutrina da instituição também nos obrigava a usar o famoso kichute. Por que famoso? Alguém irá indagar. O danado tinha dupla função.

Como estudávamos no período da tarde, o kichute fazia parte do fardamento, quanto terminava as aulas, sempre às escondidas, nossas mães jamais poderiam ficar sabendo, era o único calçado que possuíamos para bater um babinha no final do dia, chuteira naquela época era artigo de luxo, coisa para poucos. E beber uma cervejinha após o jogo, hoje acontecimento trivial. Esse lazer nem nos melhores sonhos nos aconteciam, pois eram para poucos e em certas ocasiões.

Pois bem, foi esta bendita cerveja que nos colocou em uma baita de uma enrascada. Já estava chegando o final do ano e alguns conterrâneos que estudavam fora, ou estava já morando no grande centro, já se encontrava em nossa cidade para passar as férias, um desses adorava pegar no gol, goleiro melhor dizendo, Zé Mauro, filho de Zé de Seu Érico.

Era um dia lindo de sábado, não tinha jogo marcado, ele nos chamou e disse: ‘’Vamos marcar um joguinho para o final da tarde?’’ Prontamente aceitamos o duelo. Em seguida ele acrescentou: “O jogo irá valer uma caixa de cerveja”. Para dar uma de bonzão nem pensamos duas vezes, aceitamos no ato. Ele disse: “Tõe de Nondas, você monta o seu time que eu montarei o meu”.

Às dezesseis horas daquele belo dia, um sábado qualquer, mas um sábado, os dois times já estavam posicionados em campo para a disputa do valioso prêmio.

No time de Zé Mauro estava escalado um jogador que surgia para o futebol da nossa querida Água Quente, para muitos foi ele um dos melhores, se não o melhor, lateral esquerdo que nossa terra já teve. Neste dia parece que ele estava iluminado, tudo que fazia dava certo. Dos seus pés saiu o primeiro gol, um a zero. Estamos a falar de Toninho de Dona Pecília. A barriga começou a doer, suava só em pensar em como pagar a aposta, não conseguíamos sequer parar a bola, pois o pensamento estava somente na maldita pergunta: “Como iríamos pagar as malditas cervejas? Olhávamos para o nosso time, todos os jogadores eram estudantes, nenhuma condição de nos ajudar financeiramente. Estávamos perdidos, estávamos em um mato sem cachorros. Zé Mauro, dentro de campo, para provocar, dizia: ‘’Tõe, onde nós iremos tomar as cervejas, em Mica ou em seu Zé Inspetor?’’. As palavras dele fazia com que nos preocupássemos cada vez mais. Como não tinha na Terra a quem apelar, procuramos a ajuda dos Santos. “Santo Expedito, por favor, olhe para nós, precisamos da sua ajuda. Ajude-nos!”.

O Árbitro da partida, o todo poderoso Juiz, era Milton de Seu Gentil; rigoroso, uma rocha, não aceitava conversas, qualquer coisinha ele de imediato mostrava um cartão, primeiro o amarelo, se precisasse não titubeava em levantar o vermelho. Toninho, o homem do jogo, fez uma bela jogada, todas começavam pelos seus pés, avançou. Mas antes merece falarmos de outro jogador, Marivaldo filho de Seu Gentil de Melana, jogador do nosso time, que apesar de ser um bom jogador, chute forte, também dava suas bobinadas de vez enquanto, para não dizer corriqueiramente, não pensou duas vezes, ao ver Toninho avançar para cima dele, passou-lhe o sarrafo. Toninho voou e em seguida se espatifou ao chão. Todos nós vimos que havia sido falta, e falta para cartão amarelo, menos, para nossa sorte, o Árbitro Milton. Toninho levantou esbravejando, achava-se prejudicado e injustiçado. Falou tanto que Milton sentiu na obrigação de lhe aplicar o cartão amarelo. Como poderia um jogador falar daquele jeito com a autoridade? Mas nem por isso ele parou de reclamar. A bola rolando e ele remoendo o mesmo falatório. Foi ai que entrou a malandragem dos campos de várzea, alguma coisa nos iluminou. Será se foi o Santo? Creiamos que não. Santo Expedito não iria se meter nas sujeiras dos jogos. Chegamos perto do Árbitro e dissemos: “Milton, isto aqui é uma brincadeira, não estamos disputando uma Copa do Mundo, Toninho não precisava reagir desta forma, devia respeitar a mãe dos outro”. Milton virou para nós e indagou: “O que foi mesmo que ele disse?”. “Chamou Dona Adelina de P—” foi a nossa resposta. Milton sequer pensou em nada, partiu para cima de Toninho com o cartão vermelho na mão e meteu bem na cara do jogador, suposto indisciplinado, e disse: “Fale novamente o que você disse para você ver o que vai acontecer?”.

Pois bem, ganhamos o jogo e nos livramos de pagar as cervejas. Já a Toninho… arrumou um inimigo por um período de dez anos.

Texto de Antônio de Nondas com algumas adaptações de Luiz Carlos Bill.

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