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Revoltosos em Paramirim

Certa manhã, os bezerros ainda se viam presos no curral, os pássaros se empoleiravam nos galhos, as corujas faziam seus vôos rasantes à procura do que comer, quando escutei algumas vozes. Acordei bem cedinho, nossa residência acolhia muitas visitas, o pessoal conversava rápido, suas palavras irradiavam medo e pavor. Escutei meu pai dizer: “Os Revoltosos podem a qualquer momento apontar por aqui”. Os Revoltosos? Indaguei a mim mesmo, atônito. Mas o que seria de fato esses “Revoltosos”. Corri para junto à porta e fiquei a escutar a conversa. Na sala tinham para mais de trinta pessoas.

- Vamos pegar nossos animais e levá-los para o pasto lá no auto da serra. – aconselha meu pai.

Alguns estão de puro acordo, outros batem o pé que os tais Revoltosos não passam de lenda.

- Tantos lugares para irem. Você não acha que esses homens viriam parar justamente aqui na nossa comunidade?

- Eu irei agora mesmo levar meus animais para lá. Quem quiser vir comigo que me acompanhe – afirmou meu genitor.

O sol apontava bem ao meio do globo, enquanto isso meu pai saia tocando seu pequeno rebanho, de trinta cabeças, rumo às pastagens altas. Fiquei a observar o cavalgar ligeiro até o homem preocupado se perder na curva do horizonte trepidante por face do calor.

Naquele tempo tinha eu uns sete anos, o medo estremo do povo acabou por me contagiar. Já no entardecer, meu querido pai, todo surjo e suado, atracou no terreiro a frente da porta de casa, cansado, vinha a pé, até o jumento baio ele lá o deixou. A vontade do patriarca era que todos nós fôssemos para a serra, porém não poderia de jeito algum deixar a casa e os poucos pertences para trás. Tínhamos no poleiro umas cem galinhas, ele as levou para um local no mato fechado, deixando apenas uns cinco frangos. Com os porcos e os cabritos também desta forma se procedeu. Ele pensou em transferir tudo para serra, mas poderia dá na testa, e certamente os temidos Revoltosos o obrigassem a delatar o esconderijo. Também não poderíamos sair e deixar o pequeno patrimônio a deus dará. Temia pela residência. Os comentários davam-se conta que por onde os tais Revoltosos passavam acabavam por destruir tudo, uma das crueldades era atear fogo nas casas e nas plantações.

No outro dia, o burburinho prosseguia, porém os homens não apareceram. Uns afirmavam que eles deram para outras paragens. Ficamos um pouco mais tranquilos. Os vizinhos, até os chegados de meu pai, fizeram zombarias. Papai apenas ficou quieto observando e escutando as risadas sarcásticas dos tidos “colegas”. Umas das características marcantes dele eram a paciência e a tolerância. Se se sentia raiva não transparecia nos atos, sequer na fisionomia. Um autêntico sertanejo.

Passaram-se mais dois dias e os Revoltosos não tinham nos mostrado o fardamento. Tudo caminhava para a normalidade, a conversa já havia mudado de tom e assunto. O cotidiano e a monotonia impregnavam a vida simples de um povo simples do Sertão Baiano. Pastoreavam o pequeno rebanho, retiravam os ovos do poleiro, alimentavam os porcos, pilavam o milho e o arroz.

- Amanhã subirei a serra para trazer os animais. Pedrinho, eu quero que você me acompanhe. É bom que já vá se acostumando com a lida. Quanto mais cedo souber das dores e das amarguras da vida melhor.

Acordei bem antes que o sol, não era meu pai que me despertava para o labor diário. Escutei o galo cantar duas vezes. No meu imaginário aparecia a todo instante os tais “Revoltosos”. Como seriam esses seres? Muitos falavam em demônios. Imaginava duelos, tiros, facas. Durante o sono me despertava ao sabor amargo dos pesadelos. Minha mente foi feita refém por esses insolentes seres das trevas. “Vou matar seu pai seu, moleque! O danado escondeu o gado de nós, agora ele pagará com a vida – ameaçava o revoltoso. Enquanto a você, tenho um lugar no nosso bando. Será matador de homens igual a mim.”. Esperava o terceiro canto, mas em vez do grito da pobre ave que desconhecia por completo o que se moldava para o amanhã, escutei um pipoco, um tiro. O barulho das pisadas de muitos cavalos aos estampidos dos disparos dos rifles papo-amarelo e dos revólveres acabou por exigir de toda a comunidade a prestação de continências. Havia um emaranhado de conversas do lado de fora, muitos falavam ao mesmo tempo. Três pancadas na porta. Tremi feito a vara verde aos sacolejos do vento. O coração quase que pulou pela boca afora. Meu pai, sem vacilar, correu ao desiderato. Eu não possuía forças para espiar sequer pela fresta da porta. Batimentos rápidos, tremores por todo o corpo, suor em abundância. A conversa seguia do lado de fora. Dois homens encostaram-se à janela do quarto onde eu me encontrava.

- Vamos nos alimentar aqui, trocar os animais, encher nossos embornais e prosseguir na viagem. Este local é de gente pobre, mas tem alguns haveres que nos serão muito útil.

- Aqui também deve ter algumas moças bonitas. Há quanto tempo não tenho o prazer em encontrar uma.

- Cuidado, homem. O chefe está aí. Você sabe que ele não tolera esses tipos de caso.

Minha mãe já havia me dito para permanecer no quarto. Olhei pelo buraco da janela e quase cai ao presenciar um contingente enorme de homens e animais na sombra do grande e velho juazeiro, que, naquele tempo, se encontrava bem ao meio do povoado, hoje já não existe mais a majestosa árvore. Os homens na sua maioria eram todos barbudos e possuíam cabelos longos. Trajavam roupas de soldados e levava a testa um lenço vermelho. Fiquei a observar por um longo tempo. De hora em hora, homens traziam o gado e os cavalos dos nossos vizinhos para debaixo do juazeiro. Alguns ali mesmo matavam as reses enquanto outros se encarregam do preparo. Da nossa casa só levou cinco frangos, um saco de arroz e dois porcos. Não conseguir enxergar sequer uma mulher, todos eram do sexo masculino. A escuridão derrubou a luz, era o poder da noite vencendo mais uma batalha contra o dia para mais logo voltar a ser nocauteada. Uma fogueira queimou até o dia amanhecer. Quem na comunidade tivera a paz para saborear um sono tranquilo? Se é que houve pessoas que conseguiram tal feito naquele macabro momento.

Após dois dias a horda seguiu viagem. Para trás, no seu rastro, porém, deixou a comunidade toda devastada. Lembro-me bem da primeira noite deles. Alguns homens bebiam muito e desejavam atacar as moças da localidade. O chefe, que vestia diferente, sempre sóbrio colocava limites. Na manhã que eles partiram fiquei a observar de longe a grande legião seguir rumo ao sul, diziam os mais velhos da nossa comunidade que a comitiva cavalgava ruma a Livramento e de lá para Rio de Contas ou Caetité.

Passado algumas horas, quando o povo começava a desfrutar da tão sonhada e desejada paz, quando se faziam conta dos inúmeros prejuízos, é que surge alucinado, na velocidade de um raio no barulho esmagador de um trovão, um revoltoso. Parou defronte a casa de seu Zé. Desceu apressadamente do animal e correu na sua demente insanidade para dentro da casa. O demônio havia voltado.

- Onde ela está?!

-Ela quem? – indaga Maria.

- Não se faça de tonta! A sua filha!

- Ela… – antes que terminasse de completar a frase, a rapariga adentrou pela porta.

- É dela de quem falo.

A moça tentou recuar. Uma morena de cabelos pretos e escorregadios, olhos negros, corpo bem definido, tinha na sua inocência umas dezesseis estações floridas, em sua feição carregava a aparência de uma jovem índia.

- Voltei. Era para ter sido ontem, mas o chefe não me deixou. Mas agora você será minha. Será muito pior se tentar resistir, pois poderei matar seus pais.

Correu e a agarrou pelo braço e a levou para um dos quartos. O homem alucinado arrancou a roupa da moça e a dele próprio. Porém a porta se abriu.

- Rapaz, se ponha para fora daqui agora mesmo ou…

- Ou o quê? – zomba o Revoltoso – Você não teria coragem de atacar um homem como eu. – Avançou para cima de seu Zé. – Puxe o gatinho que eu quero ver. Isso é para nós. Homem como o senhor não tem coragem de matar.

Estava o danado a cinco passos, na mira da arma, esta louquinha para prestar serviço, quando diminuiu para quatro, o gatinho foi pressionado, uma, duas vezes; a arma que fazia anos esquecida e sem uso sorria ao sabor do calor que abraçava o seu cano. O homem foi ao chão. O pai da moça munido de uma cartucheira de dois canos ceifou a vida do infeliz.

- Já fui soldado, já perseguir cangaceiros, já lutei contra o bando de Lampião. Você não foi o primeiro, mas talvez seja o último que mando para os infernos. Eu pensava que não precisaria nunca mais ter que fazer uso de minha arma, porém jamais deixaria que fizesse algo de ruim com a minha filha. Não gosto de matar, mas se precisar novamente, eu não pensarei duas vezes, antes o oponente do que a mim ou alguém da minha família. Vá brigar agora com o Tinhoso lá nos quinto dos infernos afora, seu filho de uma…

O povo não sabia se corria para sanar a curiosidade ou se escondia de medo. Pensava que era obra do revoltoso. Achava-se que os disparos fossem do forasteiro.

Seu Zé sai à porta e grita pedindo socorro. Em poucos minutos o terreiro da casa estava lotado, fruto da curiosidade alheia.

Pegaram o corpo do homem e o levaram para ser enterrado no meio do mato. Temiam a volta do grupo para reclamar o amigo desaparecido. O certo é que ninguém apareceu. O indigente morreu e sequer o pessoal da região soube o nome do traste. Na sua sepultura, ainda hoje, há uma pequena cruz contendo um pequeno e simples dizer: “Aqui Jaz um Revoltoso”.

O pessoal que tinha zombado de meu pai sentiu-se no bolso o golpe. Demoraram-se dois anos para que o pequeno povoado voltasse a possuir o mesmo nível de prosperidade de outrora. Sobraram de positivo do lamentável imbróglio apenas os contos, as histórias e as lendas.

Esse pequeno texto não tem cunho histórico. Apenas romanceamos uma pequena passagem dos Revoltosos pelo Município de Paramirim. Duas fontes dão cabo da passagem dos Revoltosos por aqui. Uma delas é o livro: “Jagunços e Heróis” de Walfrido Moraes (5ª Edição). Já o segundo foi uma história contada por uma senhora da Comunidade de Tabua em Paramirim. Por sinal temos o vídeo onde ela narra a passagem dos Revoltosos pelo povoado. Nossa história, como já fora mencionado, não tem cunho histórico, apenas fazemos uso de nossa capacidade de criar para forjar pequenos enredos.  Então o conteúdo desse texto nunca aconteceu de verdade, apenas no imaginário de um singelo escritor.

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Uma visita desagradável, porém todos um dia há de abrir a porta a ela

abr 08 2013 Published by under Crônica

Olá, tu me conheces? Como és inteligente, acertou nos olhos da mosca, que pontaria. Depois de Deus sou o mais popular, o mais conhecido; Ele é amado, eu odiado por muitos, pois para alguns moribundos sou a única salvação para as suas vivas mazelas. Vejo nas tuas retinas o medo que sentes de mim. Quando chego, não te adianta espernear. Como sou bom, justo, tenho paciência e muito, muito tempo, se se consegues fugir, fujas, corras, mas nunca deixes de te assim comportar, vacilou, estarei a te visitar.  Gosto de ver as pessoas ativas, criando e inventando, fatores essenciais para a proliferação da espécie. Se por acaso abdicar-te a vida descansando sobre o manto macio e fofo da ociosidade, em segundos meus grilhões serão lançados sobre ti. Abraçar-te-ei com denodo, com gosto, aos poucos te juntará aos que já se foram para juntos transformarem em um só corpo, no meu. Por mais que corras, por mais que tentes, serás um dia velho e não terás as mesmas energias.  Se não te pego agora, pegar-te-ei logo mais. Tenho tempo, posso esperar, sou paciente. Para ti apenas uma opção, correr, fugir. O que estas esperando? Corras! Estou aqui, não vês? Posso muito bem te levar. Seus olhos brilham, desejam viver, vá, outro dia voltarei para te cobrar o que me deves. Enquanto isso, minhas garras alisarão a garganta de um pobre alienado qualquer. Agora sabes quem eu sou, sou a Morte, mais viva do que nunca. “hahahahahha”.

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