Archive for: abril, 2013

Tempo – História de Sertanejo – Cordel

abr 30 2013 Published by under Cordel, Vídeos

Assista ao Vídeo:

Tempo

O tempo este bicho matuto

Que às vezes parece caminhar

Com as suas garras se faz astuto

Dos passos lentos passa a saltar

Para o infinito sempre corre

Sem presa para chegar.

***

Meu caríssimo amigo o tempo

Bicho que humilha o ferro a pó

Faz dos governantes defuntos

No mundo seu poder é maior

Não perca o agora o momento

Pois apaga o homem sem dó.

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Diga-me: Quem és o dono?

abr 30 2013 Published by under Crônica

Paramirim é um Município abençoado por Deus, quando se fala em belezas naturais. Temos em nosso território, no topo da Serra da Comunidade de Santana, uma pedra sustentada por outras três de tamanho pequeno, uma raridade mundial. Possuímos um rio com vários pontos que podem ser explorados como fonte de renda e lazer. Também não podemos deixar de mencionar a grande quantidade de Sítios Rupestres. Somos proprietários de muito mais, mas já é o suficiente para mostrar o nosso imenso potencial. A pergunta é a seguinte: “Quais ou quem são os donos desses pontos naturais em Paramirim?”.

A população tem livre acesso, por exemplo, a Pedra de Santana? Até o momento nos aparenta que sim, mas quem garante que na semana que virá ou em outra data futura isso ainda se dará desta mesma forma. Há alguns meses, o grupo Os Trilheiros do Cafundó (Luiz Carlos Bill, Tulinha e Raimundo Sucupira), foi até um riacho, para conhecer e tirar algumas fotos. O lugar é bonito e poderia ser explorado como trilha. Mas tivemos uma baita de uma surpresa ao ser comunicado que o proprietário de tal local disse que iria nos processar pelo simples fato de termos entrado em sua área. Surgiu uma indagação: “Quem pode entrar nesses lugares naturais, já que quase todos se encontram dentro de propriedades particulares?”.

Na manhã do dia 11 de dezembro de 2011, resolvi ir à Serra das Torres para fazer algumas fotografias. Como gosto de pedalar escolhi a bicicleta como meio de transporte. Quando cheguei ao antepenúltimo mata-burro, surpresa, esse se encontra todo deteriorado, de automóvel ou de motocicleta por ali já não se passa mais. Coloquei a bike nas costa e venci o obstáculo. No próximo mata-burro, outra surpresa, foi posto vários fios de arame farpado impedindo a passagem de pessoas e de qualquer outro tipo de veículo. Naquele momento acabei me lembrando do rapaz que queria nos processar. Poderia muito bem vencer o entrave, mas usando o bom senso, resolvi retornar. Se a cerca está fechando o caminho é sinal que o proprietário não deseja que intrusos adentre na área em questão. Nesta situação o que fazer? Fiquei encurralado, pois não dispunha e nem tampouco disponho de uma resposta para dá.

Se por ventura o proprietário das terras que a Pedra de Santana se encontra, achando-se no direito, não permiti mais a entrada de pessoas não autorizada naquele local, o que a pessoa que desejasse lá ir poderia fazer senão obedecer ao desejo do dono. E se um proprietário de um terreno onde haja um Sítio de Pinturas Rupestres resolvesse por conta própria e por achar no direito, destrui-lo. Gostaríamos de saber o que poderia ser feito. Mas acreditamos que aqui não obteremos tais respostas.

Trabalhar com notícia na nossa região é difícil e complicado. Sinto-me, neste episódio, censurando e privado do direito de expressão. Talvez precisasse de uma autorização para visitar tais pontos, mas se tornaria uma prática burocrática e que acabaria por nos desestimular (mais ainda?). No momento penso muitas vezes antes de ir a qualquer local, nas muitas das ocasiões já não vou. Com o pequeno sucesso do nosso trabalho, invisíveis correntes vão sendo lançadas sobre nossos frágeis ombros. O que fazer? Mais uma indagação sem resposta. Enquanto isso, eu vou realizando o que minhas poucas forças me proporcionam, o restante, isso não faz parte da minha jurisdição.

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Mudanças Climáticas

abr 30 2013 Published by under Crônica

O período de chuvas na região do Vale do Paramirim, principalmente nas cercanias do Município de Paramirim, sofreu mudanças ao longo dos anos. Cotam-se os mais velhos que nas décadas passadas, precisamente nos anos de 1940 a 1990 o período de chuvas por aqui acontecia entre os meses de novembro a fevereiro. O que foi visto nos últimos cinco anos foi uma mudança no clima da região, a chuva que vinha em novembro passou a aparecer no final de fevereiro e em março. O frio que era uma marca dos meses de junho e julho começou a vir nos meses de agosto e setembro, nos festejos de Santo Antônio de 2011 algumas noites fizeram muito calor. Segundo o noticiário televisivo o Efeito Estufa (o Aquecimento Global) vem causando mudanças por todas as partes do Planeta. Voltou a chover em Paramirim após um mês, das quatro da manhã do dia 11 de fevereiro até as oito horas do mesmo dia, não caiu uma grande precipitação, todavia fez reacender a esperança dos pecuaristas. Se as mudanças ocorridas nos últimos anos não acontecerem neste, teremos muitos problemas, grande serão as dificuldades a serem suportados. As aguadas do município estão com a capacidade bem abaixo do normal para esta época do ano. A Barragem Zabumbão está longe de atingir o seu volume máximo de água. O tempo agora exige de nós, seres humanos, uma postura diferente da assumida até então. Devemos cuidar melhor das nossas fontes hídricas. Em pleno Sertão temos um reservatório de água que pouco é explorado, a maioria do líquido se perde rio abaixo. Dizem por aí que é para suprir a região às margens do rio, mas se fosse por tubulações a quantidade de água seria bem menor e o seu aproveitamento maior. A agricultura do Brasil é hoje uma das mais modernas do mundo, enquanto que por aqui, parece que não fazemos parte do Brasil, ainda se usa as mesmas técnicas de cinquenta anos atrás, nos dias atuais, consideradas rudimentares, ultrapassadas. Municípios desejam ter o líquido do Zabumbão, o povo de Paramirim almeja a implantação de uma agricultura baseada no plantio de frutas (estilo o sistema do Município de Livramento). Até agora ouvimos muitos pedidos e muitas reclamações, mas os Órgãos competentes sequer se pronunciaram a respeito. Gostaríamos de saber se a água que temos daria para abastecer os Municípios que cobram pelo recurso e ao mesmo tempo tornar realidade o sonho do povo de Paramirim. São tantas perguntas a ser formuladas, o pior é que não sabemos a quem. A CODEVASF falou através de seus representantes em uma Audiência Pública realizada em Paramirim que seria feito um trabalho de revitalização do Rio Paramirim, até o exato momento nada fora feito. Se o problema é nosso, nós é que devemos correr atrás das soluções, se formos esperar por pessoas que sequer sabem da nossa existência, jamais teremos nossos anseios supridos.  Algo temos que fazer, mas o quê? Diz aí, vai, gostaríamos muito de saber.

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Cadê o Orelhão?

abr 30 2013 Published by under Crônica

O que acontecerá com o nosso querido Orelhão? Há alguns anos usar o serviço de um orelhão era algo comum e nas muitas das vezes era preciso enfrentar longas filas, sem falar no incômodo do povão ao lado ouvir toda ou parte da conversa. A tecnologia avança e no seu bendito rastro acabou por nos outorgar o agora tão badalado celular. Para onde se olha lá se ver alguém agarrado no aparelho. Todas as cidades do Brasil têm sinal para alguma das operadoras, os aparelhos ficaram acessíveis e os planos baratos fizeram com que o uso da tecnologia se disseminasse. O orelhão até então rei se viu relegado, jogado, apagado nas muitas esquinas. Qual o número real dos usuários do serviço oferecido pelo orelhão? Não sabemos, mas em Paramirim raramente se ver alguém fazendo uso dele, há uns cinco anos o cenário era outro. Nas cidades turísticas os orelhões ganhavam roupagem diferenciada, em Aracaju, por exemplo, ele era em forma de Caju, nas praias da Bahia se revestia de coco, era o símbolo da modernidade. Nunca na história ficara tão evidente o quanto é notório a busca e a necessidade de se aprimorar. De duas uma: ou o orelhão se modifique e ganhe novos atributos tecnológicos, ou em pouco tempo ninguém notará a falta dele pelas ruas e avenidas.

Pequeno texto para ilustrar:

Duas pessoas conversam.

- Oi. O que aconteceu?

- Não consegue ver o óbvio? Não está claro para você?

- Quem faleceu?

- Não sabe? Leia o que está escrito na lápide.

- Aqui jaz o Orelhão. Quem é ele?

- Tim, Tim, Tim – cada pronúncia uma pancada na cabeça.

- Ele é o nosso velho amigo Tim?

- Tim está vivo, mas vivo do que nós dois juntos.

- Então me fale quem é esse tal de Orelhão?

- Não se lembra daquele camarada que só ficava nas esquinas, sempre a espreita, sempre rodeado por pessoas e que era a grande celebridade?

- Aquele que gostava de usar azul?

- Isso mesmo.

- Morreu de quê?

- De solidão… Estava vivo, mas nunca estava claro aquele momento para ele, como nunca mais ouviu o tim tim tim das chamadas, não suportou e em um último oi suspirou, caiu e morreu.

- Se lascou, brincou com a evolução tecnológica, não se aprimorou, não se evoluiu, acabou sendo ultrapassado.

A vida nos dias em que vivemos é da mesma forma, ou o cidadão seja atual e busque a atualização constantemente, ou de uma hora para a outra se sentirá como habitante de um mundo que já não existe mais.

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Carnaval

abr 30 2013 Published by under Poemas

Várias pessoas se divertem
Brinca a pura alegria
Atrás do trio ou na praça
Canta e dança e faria.

Carnaval se comprometem
Larga tudo pela magia
Quatro dias de muita farra
Cerveja, pinga, fantasia.

Que pena que dura pouco
Uma vez em cada ano
Sábio curte com maestria.

Carnaval é muito louco
Tudo envoltos nos panos
Unidos pela simpatia.

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Mãe

abr 30 2013 Published by under Poesia

O que dizer da mãe que chora a dor do filho
Sofre as amarguras da vida implorando por socorro
Que suporta nove meses
Devota todo o tempo
Por que não dizer
A vida
A proteção da querida prole.

O filho é erguido ao sofrimento
Antes pregado a fortes injurias
O perecer se aproxima
Nuvens negras pairam pelo céu
A mãe aflita se desfaz em lágrimas
Chora a sua impotência perante os fatos
Perde a metade de si
Desmaia
Esparrama-se ao chão
Meche
Anda
Corre
Mutação
Agarra-se ao filho perdido
Não mais consegue dormir
Deixa de se alimentar
Na esperança de um futuro de trégua
Enquanto houver o último suspiro
Enquanto houver a derradeira madeira da embarcação
Ela se sentirá forte
Para lutar
Para seguir
Para viver
Para amar.

O filho se desfalece sobre o impactante olhar da harpia
A genitora observa com meiguice
O filho aos poucos se vai
No colo o carrega
Vela ao dissabor de dores estonteantes
Deposita-o sob a terra fresca da escura noite
As dores tão logo dão lugar às recordações
Para ela não existe o impossível
Doa a própria vida
Pela vida do filho
Para ela tudo pode
Para ela tudo é possível
Para a mãe
O bem maior é o filho
Para Maria
Jesus Cristo.

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Nadinha de Nada

abr 30 2013 Published by under Poesia

O nada é o disfarce vazio
De tudo que existe e já existiu
O nada em mar de nada
O nada poderá ser tudo
O tudo se transformar em nada
Nada aqui
Nada acolá
Para acabar se afogando no nada
Enche-se de tudo
Logo se deseja esvaziar no nada
Nada, nada, nada…
Dá braçadas, corre, escorrega, escapa
Para morrer onde?
Nas fantasias traiçoeiras do nada
Enche-se de ouro, diamante, prata…
Manda, desmanda, bate, aplaude
O que vale tudo isso, meu amigo?
Nada
Por que nada?
Afastando o princípio desconhecido da razão
Sobra apenas a pura áurea ilusória
Loucura atormentadora dos varridos loucos
Um simples padrão
Sobra, caríssimo amigo
Nada
Nadinha de nada.

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O Pássaro e o Peixe

abr 30 2013 Published by under Contos

Os dias passam e a vida parece seguir seu monótono destino, nascer, crescer, reproduzir e enfim, perecer. Em uma manhã linda de verão, pelas bandas da Caatinga, pelas terras do sertão, o viver da fauna e da flora seguia seu ritmo corriqueiro. O sol ainda fresco lançava em milhares de milhões feixes de raios que iluminavam e fertilizavam o ecossistema.  O brilho se expandia das folhas da tabua crescendo em intensidade no limo d’água do grande lago. Pássaros soltavam seus louvores aos quatro pontos, esses se fluíam a longas distâncias, por todas as direções. Um lagarto se banhava ao sol sobre um pequeno rochedo. Enquanto que o cágado erguia devagar a cabeça por sobre a água azul e calma matando assim a sua enorme curiosidade. De antemão vislumbrou-se um casal de sapos na margem do lago, um deles lançou sua enorme língua e capturou uma desatenta libélula, o outro soltou uma coaxada e se saltou em mergulho. O viver simples continuava no seu determinado caminho, assemelhando-se a um paraíso. O bicho caçador de hoje, amanhã a presa a ser degustada, imposição da Grande Força. A Natureza se equilibrando nas carências dos seres. A paz e a tranquilidade se sustentando no labor diário pela sobrevivência. Uma guerra constante para a manutenção do convívio salutar.

Neste mesmo dia, quando o sol ardia ao pino das doze horas, tudo se virou pela cabeça, um curupira endiabrado rodopiou, um imenso redemoinho veio levantando terra pelo vale tostado, folhas secas, ninhos de pássaros lançados aos ares, borboletas perderam o rumo e suas delicadas asas. O certo é que nada condizia com o antes. Castigo dos Céus? Ou mutação programada da vida? Enigmas da Natureza, filosofia sem respostas. Mais um mistério para a já complicada existência.

Quando tudo acontecia, quando fremia em mudanças, uma linda garça branca lançava com rapidez seu enorme bico n’água. De lá trouxe um suculento peixe. Ajeitou-o no bico, quando tudo profanava para o verídico, um estalo.

- Senhora, Garça, não me faça isso! Tenha piedade de mim.

- O quê?! – indaga a ave. Como?!

- Tenho filhos para criar.

O peixe choramingava seu eminente fim. Temia pelos filhos. Uma confusão tremenda apossou-se da fauna. Seres passaram a raciocinar.

- Mas o que está acontecendo comigo? – indaga o pássaro atônito.

- Não me mate, tenha piedade de mim.

A garça lentamente afrouxou-se o bico e o peixe desceu piruetando em cambalhotas até o contato com a água. O pássaro, dotado de enormes pernas, ia de um lado a outro em passos desajeitados sem saber o que fazer. Passado algumas horas o estômago começava a reclamar alimento. Sempre quando levava o bico próximo à lâmina d’água a gritaria do cardume era medonha. Fazer o quê? Ela já não podia mais se alimentar de peixes. Olhou ao redor e viu uma vaca branca pastando as margens do lago. Não teve jeito. Abaixou-se e com muita dificuldade conseguiu arrancar alguns pedaços de folhas da verde e exuberante relva. O gosto não agradava, mas a fome era tamanha que acabou comendo a mais da conta. Deixava uma dieta rica em proteínas para um cardápio anêmico. Após dois dias comendo folhas, a pobre ave já não conseguia mais voar. Estava fraca, debilitada. A evolução de Darwin parecia condenar a garça a extinção, ou quem sabe transformá-la em outro ser.

Dentro do lago tudo cheirava maravilhas. Os peixes felizes brincavam e se reproduziam sem parar. Mas a vida reclama dos seres a falta de trabalho e o não querer raciocinar. Em poucos dias o lago se abarrotou de seres. A comida antes farta não conseguia suprir toda a população. Já não havia espaço sequer para nadar. O oxigênio da água se perdia, o lago azul virou um imenso lamaçal. Os pássaros famintos observavam tudo àquilo sem se importar. Às vezes um na loucura da fome lançava seu bico em direção ao grande cardume e a gritaria era tamanha que o mesmo se via na obrigação de recuar.

O equilíbrio natural da vida se perdeu. Os seres corriam sérios riscos de desaparecerem. Alguma medida deveria ser tomada o mais depressa possível. Mas o quê? A garça elevou-se os olhos a direção do Sol e o indagou:

- Ó grande luz, tu me pareces ser o ser maior, pois tu és o dono do dia e da noite, cria o frio e o calor, por isso te imploro que intercedas por nós. Não sei o porquê desta transformação, mas só nos trouxe desassossego. Faças valer-te a força e traga-nos novamente a tranquilidade e a paz.

Das bandas da Caatinga seca o redemoinho levantou-se, o Curupira, danado ser das matas, voltava com a astúcia de sempre, quebrando tudo e fazendo reboliço. O clima calmo se modificou, os seres em um estalo perderam a consciência e retomaram a normalidade. Os pássaros famintos se lançaram sobre o enorme cardume, enquanto que o redemoinho subia na direção do astro Rei. Em poucos dias o equilíbrio natural voltou a reinar.

A morte para a vida é como o beijo doce do amado para com a amada, que por mais demorado que seja passa e transcorre rápido. Num ambiente pequeno onde tudo se renova a dependência de um para com outro significa a sustentação natural. O pássaro que se alimenta do peixe não o faz por maldade, todavia por precisão. O homem ao se banquetear de carne de gado não fere os princípios da razão. Para haver vida pulsante sempre deverá existir a morte constante. No ciclo crucial das coisas a morte significa a sobrevivência do outro, como em uma roda que gira constantemente do ponto de partida ao da despedida retornando sempre para jamais deixar de girar. Em tudo se deve existir o equilíbrio das suas partes para que o todo não despenque por falta de sustentação.

Falta a nós humanos o comedimento dos nossos atos.

A pobre garça, depois de se fartar, com o transcorrer dos dias, já com o corpo pesado pelo desgaste do tempo, sentiu uma friagem nas costas. O hálito quente a absorveu. A morte com sua afiada força, enfim, cobrava a sua dívida. Um carcará se equilibrava sobre o corpo da ave, segurando-a com força. As unhas penetravam na carne como facas pontiagudas. Soltou um piado forte e grave e lançou seu bico na cabeça da presa. Banqueteou-se devagar e com prazer deixando o restante para a alegria de outros milhares de seres. Numa cena triste e medonha, mas corriqueira e necessária, traduz o que é de fato a vida.

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Não vejo o óbvio

abr 30 2013 Published by under Contos

- Mas que droga de vida! – berrou Joãozinho – Sou pobre, feio e ainda por cima azarado. Tudo que eu faço nunca dá certo, para as outras pessoas tudo tentem a acontecer da melhor forma possível. Parece que eu nasci em uma sexta-feira treze. Já não sei mais o que fazer. Eu odeio minha vida!

- Rapaz, tu choras de barriga cheia – alguém fala ao fundo.

- O quê! – voltou o olhar ao velho homem. – O senhor não imagina como é ser discriminado por todos, como é insuportável ser um relegado, andar sempre pelas periferias. Sinto-me pequeno diante a grandeza dos outros.

- Quero-te propor um desafio.

- O que eu ganharei com isso?

- Feches-te olhos por insignificantes três minutos e eu juro que te darei este lindo brilhante.

A pedra reluzia sobre os belos olhos castanhos a cobiça humana.

- Mas isso é moleza…

- Feches-te os olhos e concentres na escuridão. Não penses em nada. Relaxes.

- Eu farei isso, mas depois você me dará essa linda pedra?

- Com certeza. Não tenhas duvidas.

- Posso começar?

- Tu também, caríssimo leitor, faças o mesmo, concentres-te, se conseguires, dar-te-ei dez pratas.

- Já fechei meus olhos.

- Agora, soltes os teus braços e relaxes. Concentres-te no manto negro. Estás vendo algo?

- Não. Somente vejo o breu, um mundo vazio, o nada.

- O vazio e o breu, sim, mas quanto ao nada, não achas que sejas um equivoco de tua parte?

- Sim, pois ainda assim vislumbro a escuridão.

- Consegues imaginar o Sol bem ao meio da lousa?

- Sim, mas é claro. Como o Sol é bonito.

- Consegues imaginar os pássaros voando abaixo deste sol e acima das águas do mar azul?

- O quadro ficou ainda mais exuberante.

- Pois é meu, amigo, tens tudo, porém não dás o valor devido – o senhor de bengala e óculos escuro explica – Tu pelo menos já viste o Sol, os pássaros, sabes como é a silhueta das montanhas, a dança frenética e caliente das nuvens. Eu que nasci desprovido de visão sequer posso imaginar o que venha a ser um pássaro, nem mesmo a luz sei do que se trata. Minha imaginação fica resumida ao tato, ao cheiro e as diversas melodias.

- De fato o seu mundo é bem pior que o meu.

- Eu só conheço uma das cores, o pigmento que fui lançado à vida, eu sou e vivo na penumbra da escuridão.  Dizem por aí que existem diferenças entre as pessoas, que umas são mais bonitas que as outras. Para mim, em uma multidão todos são iguais. Talvez somente os cegos sejam capazes de enxergar a equidade dos seres.

- O senhor sempre foi cego?

- Eu nem sei direito se cego sou, pois desconheço por completo o outro lado da minha deficiência.

- Ser cego deve ser algo muito ruim…

- Agora eu quero que tu ti levantes e comeces a andar. Mas sem abrires-te os olhos.

O rapaz levantou devagar e calmamente, começou a tatear o ar a procura de um apoio, esbarrava aqui, ali e acolá, quase lançou ao chão o aparelho de TV.

- Tu te queixas da vida, da mesma vida que te deste de tudo. Tens visão, audição, podes caminhar e falar. O que queres mais, pobre infeliz? Cobras da vida um punhado de papeis, papeis estes que dizem possuírem valor. Tu tens todos os atributos necessários para obteres sucessos, mas em vez da luta preferes passar o tempo todo reclamando. Eu daria tudo que tenho somente para ter o prazer em enxergar que fosse por apenas um singelo minuto. Como é grande o meu sonho de um dia ter a oportunidade de ficar frente a frente com o Sol. Só em ouvir as pessoas comentando sobre o que elas veem fico a tentar imaginar que tamanha grandeza se faz o mundo de cores.

- Olhando por esse prisma, o senhor tem todas as razões.

- Diz um velho ditado popular: “Cego não é aquele que não enxerga, mas aquele que faz de tudo para não ver”. Podes abrir teus olhos. Ganhaste este magnífico e valioso brilhante. Para mim, este objeto pouca serventia tem.

- E as dez pratas do leitor?

- Se tu, nobre leitor, conseguiras de fato, sem trapacear, chegares até este ponto do texto é porque não fecharas os teus olhos, desta forma não te presentearei com as dez pratas. Todavia ganhaste de mim uma bela reflexão, esta digerida com sabedoria, não tem preço, como dizem por aí: refrigera a alma e acalenta o coração.

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Bandeirolas aos Ares

Antigamente, lá pelas bandas da rapadura no tacho, do tocar os pássaros nas roças de arroz e das conversas nos bancos defronte as residências, os causos e as histórias aconteciam com mais denodo, com mais sorrisos, e por que não dizer, com mais maestria.

Pelas quebradas do passado, o mês de junho devagar e sorrateiramente aproximava-se, fagueiro, cheirando a fumaça dos fogos. O festejo em louvor ao Santo Padroeiro já estava abrindo a porta. O povo, no alvoroço, corria para enfeitar as ruas da cidade. A Avenida Principal, com o sacolejo constante do vento em curso, característico da estação, colocava as bandeirolas para bailar em ritmo de forró, mudando o visual rotineiro do ambiente.

Eitá tempo bão! O Santo Antônio iria começar.

Era uma manhã fresca de domingo, Água Quente jogaria em Rio do Pires contra a Seleção local, o caminhão partiu capengando de expectativa, jogadores e torcida no mesmo clima, pura alegria. A estrada era de cascalho, demorava a vencer pequenos percursos, buracos, pedras soltas e despenhadeiro próximo à volta do rio. O automóvel adentra por Paramirim, os integrantes gritavam e soltavam rojões, e sem muita demora segue firme seu rumo à Rio do Pires.

O resultado da partida se perdeu no tempo, parece que aconteceu lá pelas bandas dos anos setenta, mais precisamente no ano de 1972. Os atores daquele momento, reais nos dias que se seguiram, hoje, anônimos, encenavam algo que sequer imaginariam que certo tempo depois seria narrado por alguém. Após o jogo, a farra correu solta pela Praça da cidade, para cada copo de cachaça duas ou três paqueras. O retorno se deu já no badalar da meia noite.

Na volta, caminhão lotado, alegria e sorrisos a encantar a noite, resultado do jogo já não o era lembrado mais. O motorista guiava a fera pela buraqueira da estrada seca do sertão baiano cortando a escuridão asfixiante. O canto corria solto (Se esta porra não virar, eu chego lá). Na comitiva tinha um tocador de violão, outro de pandeiro, mais um agitando o triângulo e para fechar a orquestra um batedor de bumba. Apontou na entrada da cidade levantando poeira, lá vinha o caminhão com seus dois enormes e esbugalhados olhos, poderia cortar caminho, mas resolveram passar pelo centro da sede de Paramirim, desejavam com a sua alegria acordar a cidade. A Avenida Principal estava toda enfeitada de bandeirolas, já era madrugada, muitos acordavam atordoados e iam bisbilhotar nas frestas das janelas. O tocador de violão resolveu levantar seu instrumento, o braço do mesmo estendido a Deus, e no andar do carro as bandeirolas iam descendo devagar, tristes deitavam-se pelo chão. A algazarra ganhava mais ardor e intensidade. O trabalho de muitos dias se perdeu em menos de cinco minutos. A alegria da festa refletida nas cores do baixo céu da avenida deu lugar à tristeza dos funerais. O caminhão seguiu em direção a Água Quente, chegando lá, a folia não parou, continuou, ninguém lembrava mais nas tais bandeirolas.

No outro dia bem cedo, o Subdelegado de Água Quente tinha trabalho a prestar, intimou todos os jogadores para prestar depoimento na delegacia local. Para surpresa e espanto, a festeira do Santo Antônio era a esposa do Promotor. O reboliço foi enorme, o frio na barriga correu solto, o medo devorava os acusados. A mulher queria por que queria o reparo dos estragos. Como não achou o culpado, nenhum quis delatar o tocador de violão e nem tão pouco o próprio quis dizer que fora ele o autor do delito, os dias correram, e a própria festeira resolveu enfeitar tudo novamente.  O festejo a Santo Antônio seguiu e o caso foi arquivado.

Essa história é baseada em fatos reais, porém usamos um pouco da nossa ficção para torná-la mais agradável.

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