Archive for: março, 2013

Pagando o Pato

mar 14 2013 Published by under Contos

- Mês que vem teremos festa! – grita Marciano com um copo de cerveja nas beiradas da metade, ao descê-lo bebeu em um único gole o que ainda insistia em existir.

- Vamos comemorar o que mesmo? – indaga o amigo em largo sorriso.

- Meu aniversário de cinquenta anos. Vou derrubar dois bois, cinco cabritos, seis leitoas, muitos frangos, perus e outras coisas mais…

- Que notícia boa! Viva os cinquenta anos de Marciano!

- Viva!!! – todos em uma só voz.

- Dois dias antes da festa, eu quero que os meus amigos me ajudem a dar cabo dos animais. Iremos fazer uma grande festa neste dia, uma comemoraçãozinha antecipada.

- Estaremos lá com certeza. Mas vamos iniciar a comemoração logo agora. Para que esperar? A conta é por conta do aniversariante. Zé, olhe só este copo, está seco. Desça cerveja, Zé. De quebra me dê um pedaço grande dessa mortadela. Hoje só sairemos daqui quando o sol raiar.

- Que assim seja, amigo – afirmou Marciano feliz da vida. – Só completamos cinquenta anos uma única vez na vida.

Os dias foram se passando, no seu cavalgar constante, nos seus passos de preguiça, no seu planar da majestosa águia, enfim, passando. Animais de vários cantos eram entregues ao dono da festa, adquiriu-os com as famílias da zona rural. O grande dia se aproximava, os preparativos já estavam sendo todos arrumados. Os amigos, sempre, se colocavam a disposição. Todos os dias era dia de festa, qualquer trabalho terminava em rodada de bebidas e comilanças.

Faltavam quarenta e oito horas para a grande data, os companheiros se ajuntaram para a matança. Seria uma comemoração antecipada, no local havia muitos litros de aguardente e outros tantos tipos de bebidas. O almoço já se assentava no estomago, quando cerca de trinta brutamontes saíram em algazarra rumo ao sítios. No percurso, em menos de meia hora, já tinham bebidos para mais de dez litros da malvada. Ao chegar, os animais estranharam, começaram a ficar inquietos, pareciam adivinhar o que estava por se concretizar.

- Para a carne ficar boa, os animais têm que tomar bastante pinga antes de serem mortos. A carne se tornará macia e suculenta.

- Então vamos começar por este peru aqui – disse um dos homens ao mesmo tempo em que agarrava o danado pelas asas. – Traga o litrão ai, João. Não ver que o bicho está com sede. – ele puxou com cada mão as partes do bico, enquanto o segurava prensado entre as duas pernas. O outro rapaz veio e despejou o líquido, o bicho tentava em vão se desvencilhar, torcia, mexia, os olhos lacrimejavam. Passados alguns minutos, o coitado sentia o efeito, tonto, perambulava de um lado ao outro em pleno delírio. Os convidados e o dono da festa perdiam o fôlego de tanto sorrir.

- Vamos dá pinga aquele boi. Vamos ter que amarrá-lo ao mourão. O bicho é forte.

Ao ritmo de muitas risadas e gritos o coitado foi levado à madeira. A cabeça do animal ficou rente ao mourão, cansado, abriu a boca e pôs a língua para fora. Um deles veio e despejou um litro todinho na goela do coitado. O bicho berrou rouco, os olhos queriam pular para fora, aquilo queimava a garganta.

- Um litro é pouco… Dê mais uns dois para esse danado. Queremos uma carne saudável de um animal que morreu feliz.

Quando todos os bichos estavam possuídos pelo efeito do álcool, o pequeno rebanho desceu tangido pelos trintas ébrios. Iam desfilar com os animais pela cidade. Neste clima de alegria, nesta festa toda, todos saíram a cantar e a beber. Os bichos de tempo em tempo tomavam uns goles.

Homens entrem homens dialogam entre si, isso quando falam o mesmo idioma. No meio dos bichos também há comunicação, um fala o idioma do outro.

- Esta farra esta boa demais – disse o peru aos outros.

- Estes seres gostam muito de nós – falou o boi. – Nunca participei de uma festa assim…

A comitiva seguiu firme mostrando toda a alegria que a ocasião prestava; pelas ruas, o povo aplaudia e felicitava o aniversariante. Os animais achavam que tudo aquilo era para eles, que os donos da festa eram os próprios. Sequer imaginavam o desfecho do caso. Ao chegarem ao local pré-determinado, os homens deram a última golada aos bichos, os animais de tão acostumados abriam a boca para engolir o líquido, bebiam feliz, sorviam sem saber a alegria falsa da morte. Do nada apareceram brilhando com os raios solares algumas facas.

- Tragam a leitoa! Vamos começar por essa branca.

Com um simples golpe a coitada ficou imobilizada, outro veio com uma das facas e a meteu na direção do coração, sem dó e nem piedade. A alegria da bicharada acabou em um estalo. A leitoa gritava a dor mortal, sangue jorrava em bica, a morte foi chegando pelos pés, foi crescendo, aos poucos a força dela foi sumindo, sobrou um silencioso gruído. Os bichos tentavam correr, mas o efeito do álcool não os deixava. Um após o outro foram perdendo o que tinham de importante, a vida.

- Vamos morrer! – gritou o peru.

- O que nós temos a ver com a festa deles? – indagou o boi. – Nós é que teremos que pagar o pato?

Após duas horas não havia mais nenhum animal em pé, somente uma picape abarrotada de carnes.

- Sobrou aquele pato – alguém gritou.

- Pegue o pato! O pato também irá conhecer a panela, a gordura quente. Pato acebolado é melhor do que bom, é divino.

Correram e logo estavam com o bicho nas mãos. Em um só golpe, ele desfaleceu sobre uma mesa ensanguentada, cabeça para um lado e corpo nas mãos do peão.

- Que pato que está gordo – sorridente disse o matador.

O dono do pato ao saber do acontecido correu na tentativa de salvar seu animal de estimação.

- Quem irá pagar o pato? Esse pato que vocês mataram pertence a mim.

- Desculpe-nos, pensávamos que era nosso. Qual é o valor do pato?

- Ele era um pato de estimação. Como vocês podem ter feito isso com ele. Quero quinhentos contos.

- Pagaremos o pato e de quebra você será nosso convidado especial.

Tudo se resolveu e a festa foi um sucesso. Nas comemorações, nos acontecimentos, na vida sempre alguém ou alguma coisa tem que pagar a conta, tem que desembolsar o pato. Nesta festa de aniversário, os animais que não tinham nada a ver com o acontecimento pagou a conta com a vida, pagou o pato. O aniversariante que prestigiou o momento com uma grande farra, além de pagar o pato, pagou os gastos. Na vida é melhor pagar o pato do que ser o próprio pato, melhor mesmo são os que comem do pato sem nada ter haver com o pato.

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Pirão o Cão

Este é o Cão Pirão de Canabravinha do senhor Joaquim Dias

A sina de alguns seres parecem traçadas de antemão, por mais que corra, por mais que se evitem os aborrecimentos, cedo ou tarde, sob a luz do sol ou, a escuridão da noite, o desiderato se confirma. O destino se assemelha a força da morte, quando bate a porta não adiante se estrebuchar, nem tão pouco chorar, melhor ser racional e aceitar o nefasto dilema.

O cachorro apelidado por Pirão passeava pelas estradas de terras da pequena comunidade, os demais animais o respeitavam, a força do bicho e seu porte de general os intimidavam. Naquele pedaço ele era o rei absoluto. Dos cães era o mais ágil na caça, atalhava veado, encurralava tatus, pastoreava o gado, o xodó da casa, comia do bom e bebia do melhor.

Como no sertão o sol é mais quente do que nas outras regiões, os ponteiros dos relógios corriam loucamente para alcançar o número doze, estava perto; Pirão encontrou uma boa sombra debaixo de um ônibus e ficou a descansar, não se atentou ao perigo, nem se deu conta que o veiculo estava ligado. Após alguns minutos, o motorista entrou rápido e ligeiramente deu partida. O instinto do cão falou mais alto, ele tentou se esquivar, correu, mas não o suficiente, a roda no seu trajeto e com toda a sua força e peso feriu-lhe o membro dianteiro esquerdo. O osso se quebrou, muitos uivos, outros tantos latidos. Pirão nunca mais seria o mesmo, quem, todavia, nasceu rei, rei sempre será.

A agilidade do caçador estava comprometida, continuava a andar, corria, mas não como antes. Na residência de seu Joaquim há uma matilha deles. Pirão com o seu latido forte e groso, com o seu turrado, mesmo debilitado continuava como o mandachuva, todos os outros os repeitavam e os temiam.

Pirão já não mais podia caçar, os frangos no terreiro o deixavam sem fôlego, o membro danificado o impedia das proezas de outrora. O cão então deixou a vida pacata da fazenda e foi para o agito do centro da comunidade. Na praça existem os barzinhos, os botecos, neles vira e mexe os clientes fazem churrasco, nesse ambiente sempre lhe sobravam alguns pedaços. Às vezes, os churrascos aconteciam em dois estabelecimentos distintos e distantes um do outro. Pirão com toda a dificuldade de locomoção montava guarda nos dois, toda vez que outro da sua espécie tentava encostar recebia um latido e um rosnar sempre a mostrar as presas. Quando não havia movimento ele voltava a curtir as sombras das muitas árvores do terreiro da fazenda, contudo está sempre atento, igual a um soldado, basta escutar o estouro de um foguete para em disparada e em minutos ele se postar defronte ao bar ou a residência onde porventura esteja acontecendo um movimento.

O pobre e valente cão superou a deficiência e guia a sua vida de acordo com a nova realidade. Manco de um dos membros ainda assim consegue ser maior do que os demais da sua raça.

Na vida nem sempre quem tem tudo são os que alcançam maiores sucessos.

História baseada em fatos reais.

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