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Frase sobre a Vida

fev 21 2013 Published by under Frases

A Vida se faz de numerosos acontecimentos que se encerram em recordações e saudade.

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Vamos arrancar umbu?

No tempo de adolescência, na época de não se preocupar com as coisas, estávamos sentados no passeio rente à porta da residência onde moro a jogar conversa fora, a falar da vida alheia, quando do nada surgiu uma saborosa ideia de uma pequena aventura.

- E aí galera, vamos arrancar umbu amanhã?

- Que horas?

- Vocês resolvem.

- O bom mesmo é partirmos no período da tarde.

- Então sairemos daqui logo após o almoço.

- Mas você sabe onde poderemos encontrar umbuzeiros carregados de frutos doces?

- Lá na Lagoa da Pedra.

- No Catuaba também tem.

- Os da Lagoa da Manga são muito bons.

- Melhor mesmo é irmos aos do Rompe Gibão

- Resolvido. Amanhã iremos aos do Rompe Gibão. Marcos foi lá ontem e trouxe uma cesta lotada, e olhem, os umbus eram saborosos.

- Então estamos combinados.

A noite já ia faminta em busca dos raios solares, já se passava da meia noite, quando cada um procurou o seu berço. No outro dia, na hora aprazada, aglomerávamo-nos sob uma gostosa copa de uma já velha algarobeira em flores, sentados em um carro de bois estacionado. O sol estava quente, ardia no lombo, cada qual munido com um cantil a transbordar de água. Partimos em algazarra rua acima. A conversa seguia solta; as risadas, também. Deixamos as ruas e adentramos no mato. Passávamos por cercas de arames farpados, seguíamos por estreitas trilhas quase fechadas pelo capim farto.

Primeira parada, um umbuzeiro de beira de estrada, encontramos poucos umbus, mas os frutos eram doces feitos a caramelos. Uns vinte passos à frente, outra árvore, essa carregada.

- Laranja madura, na beira da estrada, ou ta bichada Zé, ou tem maribondo no pé – cantou João.

Dito e feito, o umbu parecia a limão.

Outro fez uma piadinha:

- O umbu é grande, mas eu nunca vi o umbu ser tão azedo.

- Esses umbus só servem para doce – acrescentou outro.

Seguimos nosso destino, às vezes parávamos sob alguma sombra de algum arbusto qualquer, saciávamos a sede, trocávamos alguns monossílabos, o calor tinha expulsado o ânimo para as histórias e as piadas. O mato estava quieto, vez enquanto ouvia-se o canto quente da pomba fogo-pagou, outras vezes, uma cigarrinha com um canto parecendo ao barulho de motocicleta estourava pelo ambiente.

Chegamos a uma das nossas preferidas árvore, o umbu era pequeno, porém de uma docilidade de dá água na boca. Marcos foi logo escalando a árvore, no meio a tantas galhas ele segurava em duas e as sacolejavam. Umbus caiam igual à chuva na caatinga na época de verão, levávamos muitos na cabeça. Algumas sacolas já se encontravam abarrotadas, prosseguimos, a melhor árvore estava por vir. O calor já não incomodava tanto, a conversa fluía bem. Ao chegarmos ao nosso ponto final, uma majestosa árvore nos aguardava. De copa larga e carregada de folhas seus lindos frutos reluziam com o reflexo da força da grande fogueira do Sistema Solar. Adriano correu a frente dizendo:

- Meu nome está gravado em uma das galhas deste umbuzeiro. Eu escrevi no ano passado. Olhem, ainda está aqui.

Pelos galhos muitos nomes e frases: Rafael e Paula. Mariana eu te amo. Arnoldo esteve aqui em 15/01/89. Pedro de São Paulo comeu e gostou deste umbu. O humilde umbuzeiro com as suas inúmeras tatuagens. Árvores de frutos ruins não tinham sequer uma marca, umbuzeiro marcado é umbuzeiro bom, é umbuzeiro visitado. Somente nos bons é que as pessoas paravam e enquanto conversavam tinham tempo para fabricarem suas artes.

O medo da meninada eram as serpentes, cascavel, jararaca, coral, todas estavam pintadas no imaginário. Também havia a história do berrador, um ser mitológico, parte homem, parte boi; qual era o espanto ao ver um boi debaixo de uma dessas árvores, ainda mais se esse fosse da cor preta. O berrador possui cabeça e pescoço de boi enquanto que o corpo de humano.

Após algumas balançadas, um corre-corre frenético para apanhá-los, com as sacolas todas cheias, Fabiano resolve marcar umas das galhas, com um canivete escreveu: Fabiano São Paulo 21/01/94.

Cada qual carregando uma sacola em cada uma das mãos, o grupo em fila indiana, alegres e sorridentes retornávamos para casa. Na estrada, enquanto íamos comendo umbus, os caroços eram arremessados. Um corre-corre louco para se safar das pancadas. Vencido o percurso de terra, voltávamos a ser normais. O único inconveniente sobrava aos dentes, esses desbotados causava-nos certa inconveniência. Com os umbus nossas mães faziam doces e sucos. Mas no percurso para casa, muitas pessoas pelas ruas nos pediam alguns frutos, alguns de nós não se importavam, mas outros mandavam o pedinte ir buscar no mato.

O tempo passa e nem nos demos conta, passa tão rápido que não percebemos nossa transformação. De uma fase para outra somos obrigados a esquecer de várias coisas boas, ganhamos novas, mas as passadas parecem ser sempre mais gostosas do que as atuais e do que as que virão.

E aí, vamos arrancar umbu?

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