Archive for: setembro, 2012

Poema / Meu querido Sertão

set 23 2012 Published by under Poemas

Meu querido Sertão

 

O Mandacaru já secou

O mar azul na cabeça

A Fogo-pagou se mandou

Sob os pés quente dureza.

 

Sertanejos olham a Deus

Clama por socorro e pão

Deixam o Norte com adeus

Para o Sul se perderão.

 

Comi calango assado

Dormi de barriga vazia

Hoje moro no São Paulo

Chorando a bela Bahia.

 

Nordestino eu sempre fui

Orgulho eu tenho muito

O sangue grita, geme, flui

Sonho voltar ao meu mundo.

 

Recordo-me da infância

Do cavalo adestrado

Vivendo a ignorância

Conhecedor dos culpados.

 

Faltava água no balde

Faltava carne na chapa

Sobravam bênçãos de Padres

Sobravam rios de lágrimas.

 

O que faço, meu Senhor Deus?

Interceda oh! Mãe Maria

O que tinha o filho comeu

Abafe as dores dos dias.

 

A vida aqui é sofrida

Enxada não entra no chão

Caboclo enche de vida

Quando a chuva cai no Sertão.

 

A coisa é assim mesmo

Sofrimento e vida dura

Nós que somos sertanejos

Não vemos aí amarguras.

 

Viver aqui nos dá prazer

Lutar é uma obrigação

O homem que aqui nascer

Carrega a paz no coração.

 

Não importa o sofrimento

Nem tão pouco a solidão

Para tudo há remendo

Quando se fala em Sertão.

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Fábula / O bravo Leão

set 13 2012 Published by under Fábula

Leão

- Olá, Leão! – canta o grilo ao pé do ouvido do Rei da Floresta.

A fera abriu apenas um dos seus impactantes olhos, fechou-o novamente e se perdeu no seu descanso.

- Leão, o senhor sabia que andam falando muito mal da sua importante pessoa por aí?

- Deixe-me dormir em paz! Vá procurar o que fazer!

- Leão, toda a selva o teme! Os bichos falam que o senhor é o ser mais perverso de toda a Natureza.

- Será?

- Ontem mesmo o senhor deixou uma família de zebra órfã de pai. Como o filhozinho dela estava chorando. É de cortar o coração.

- Fazer o quê? A vida é assim mesmo.

- Os animais estão querendo unir forças contra o senhor. Vão pedir para que construa uma cadeia para o senhor.

- Quer dizer que a culpa é somente minha?

- Sim! Pois não é o senhor que mata? Um bando de urubus me disse que o senhor é muito perverso. Você mata mães, pais, velhos e até filhotes.

- Faço uso dos meus instintos.

- As hienas estão falando aos quatro cantos que o senhor deveria ser engaiolado, pois já matou muitos e continuará a matar se nada for feito.

- Pois bem, grilo, ser abominável do sono, quanto mais precisamos dormir é que você vem nos incomodar. Se mato é porque tenho fome, e minha família também necessita se alimentar, fui feito desta forma, sou predador. Mas diga aos urubus e as hienas que a culpa não deve cair apenas sobre meus ombros, eles também são culpados como a mim. Após minha caça, após me fartar, saio e deixo o restante para eles. Se não fosse meu esforço, essa cambada de preguiçosos morreria de fome. Você não acha que eles são culpados também?

- Olhando por esse ponto… É o senhor tem toda razão.

- Agora vá! Deixe-me em paz. Preciso descansar, pois logo mais terei que voltar a caçar. Olhe bem para onde anda, uma pata desavisada pode causar muitos estragos.

Moral da história: “Para cada caso existem vários pontos de vistas, olhar apenas para um, esquecendo ou ignorando os demais, certamente alcançaremos falsas verdades, ou mentiras verdadeiras”.

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Danada Sina

set 03 2012 Published by under Contos

Vagando pelo meu passado me detenho na minha feliz infância. Tempo bom era aquele. Lembro-me bem dos meus primeiros passos. Naqueles dias tinha chovido bastante, o mato se encontrava enverdecido, meus irmãos, gordos e saudáveis, tinham comida e água a vontade, um verdadeiro paraíso. Andava por esses campos na companhia do meu amigo Tom. Às vezes, perdíamos horas correndo atrás de borboletas; quando calor, a brincadeira era junto ao regato. Os dias foram saltando, meu corpo foi ficando bonito, de repente, já estava namorando. Meus parentes e amigos foram sumindo aos poucos, ninguém sabia para onde eles tinham indo. Sentia uma saudade da minha mãe… Meu pai eu não sabia quem era; disse-me que uns brutamontes o laçaram e que ele foi levado a força, isso antes do meu nascimento; ninguém jamais soube de seu paradeiro. Minha mãe me contava que meu pai era forte, bonito, tinha um olhar penetrante, todos os respeitavam.

Ontem vieram três seres estranhos e passaram alguns minutos me observando, eles gesticulavam e falavam palavras desconhecidas por mim, um deles sorria muito.  Fiquei com medo, mas demoraram pouco; ainda bem que se foram. Não sei o porquê, contudo daquele instante passei a ficar inquieto, nunca tinha me sentido assim antes. Durante a noite, não preguei os olhos um segundo. Algo me afligia.

O sol sorrateiramente veio preguiçosamente saindo por sobre a serra. Não sei o que deu em mim, estava em pranto. Não tinha fome e nem tão pouco sede. Alguns pássaros soltavam um melodioso e triste canto. Algo por dentro me dizia que uma tempestade iria se abater sobre mim.

O dia seguia seu curso, comecei a me alimentar um pouquinho. Ao longe vi o momento em que um automóvel parou, três seres desceram e vieram em minha direção. Uma força me mandava fugir, então eu corri, corri, corri… Os seres agora vinham sobre cavalos, tentavam me cercar. Minhas forças estavam se esgotando, não podia mais resistir. Uma corda foi lançada, sentir o aperto, faltava-me ar. Debatia-me na tentativa em vão de me libertar. Eles conversavam e sorriam. Fui arrastado, fui puxado e amarrado em um tronco. Um dos seres foi ao carro e apanhou uma mala, tirou de dentro alguns objetos, pegou uma lâmina brilhosa e começou a manuseá-la.

O homem veio em minha direção, tentei com todas as forças me desvencilhar e fugir. Com um simples golpe, sentir-me por todo o corpo uma friagem, sentia-me fraco, o mundo rodopiava, sangue descia como um riacho pelo meu pescoço. Por que toda aquela brutalidade comigo? O que eu havia feito com eles? Estava morrendo. Do nada passei a entender o que eles diziam.

- O danado é gordo. Darão umas vinte arrobas.

Ainda conseguir soltar um último berro. Vi o céu pela derradeira vez. Os três seres se lançaram sobre mim feitos urubus na carniça. Era o que eu me sentia naquele maldoso momento. Eu sumia deste mundo, todavia o mundo ainda continuava em seu devido curso e lugar. Da mesma forma que sumiu meu pai e a minha mãe, agora acontecia comigo. Essa talvez seja a sina dos bois.

Uns seres buscaram a picanha para um churrasco de domingo sobre a laje. Outro levou as patas para fazer uma iguaria qualquer. As entranhas viraram buchada. O couro um acento de cadeira. Os cifres e os ossos transformaram-se em botões. Do animal só sobrou uma parte da cabeça, essa após ficar apenas nos ossos foi pendurada sobre uma estaca da cerca, rente à estrada de terra, para espantar mal olhado.

O pobre animal após todo esse sofrimento ainda vive sobre a estaca a por medo nas crianças que passam pelo local.

A face cruel da morte impõe aos vivos a dura e certa verdade a que todos querendo ou não se ver coagido e obrigado a passar.

A vida nasceu fadada a morte, mas alguns seres nasceram com a dura sina de serem mortos.

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